terça-feira, 18 de outubro de 2016

ECOLOGIZAR AS HUMANIDADES I

Recebi de Maurício Andrés Ribeiro o texto abaixo:
                                                                   
“A UFMG promoveu em outubro uma Conferência internacional sul-americana sobre territorialidades e humanidades. Participaram acadêmicos e ativistas sociais, o que resultou numa boa combinação de perspectivas de abordagem dos temas. Quatro dias de palestras, mesas redondas, apresentação de trabalhos de estudantes preparam para uma conferência mundial que acontecerá na Bélgica em 2017 e que focalizará a relação das humanidades com o ambiente, a identidade cultural, fronteiras e migrações, patrimônio e a história.

As humanidades cobrem um campo amplo de áreas de conhecimento humano, desde as ciências humanas – história, educação, linguística, psicologia – até os campos das letras e artes, filosofias, estudos das tradições, teologia.
Na mesa redonda sobre Ecologia e meio ambiente, o historiador José Augusto Pádua focalizou os estudos de história ambiental no Brasil e Joceli Andreoli, do Movimento de Atingidos por Barragens, abordou o rompimento da barragem de rejeitos de mineração em Mariana e suas consequências.

Nessa mesa, propus Ecologizar as humanidades, o que significa aplicar os conhecimentos das ciências ecológicas e a sabedoria da consciência ecológica em todos e cada um dos campos das humanidades. Isso implica em não ignorar nossa base biológica e animal e as relações ecológicas harmônicas – comensalismo, simbiose etc - e desarmônicas – predação, parasitismo, escravagismo etc- que desenvolvemos com o ambiente e com os demais seres humanos, individual ou socialmente. Assim, por exemplo, o tema da corrupção é visto a partir da perspectiva do parasitismo e da predação; o tema do medo se enriquece a partir de perspectiva da ecologia interior. O tema da educação é visto como instrumento de expansão da consciência e de enriquecimento da noosfera, uma das esferas estudadas pela ecologia integral.  As migrações e fronteiras, bem como a hospitalidade, ou a falta dela podem ser abordadas ecologicamente. O estudo da história humana pode ser ecologizado ao inseri-la na história natural. O antropoceno é uma nova época na história natural, datada a partir dos testes nucleares em 1945 que se faz no ritmo rápido da evolução da consciência e não mais no ritmo lento da evolução biológica ou da evolução da matéria. No antropoceno a atividade de nossa espécie tem influído no rumo da evolução, provocado aceleração na dinâmica do planeta, mudanças do clima e extinções de biodiversidade. Essa época antropocena estaria inserida numa nova era na evolução, que outros propuseram ser a era eremozoica (E.O.Wilson); era ecozoica (Thomas Berry e Brian Swimme); era psicozóica (Daniel Bell), todas essas designações baseadas na vida animal (zoo). Propus que essa nova época antropocena está inserida numa nova era na evolução do planeta, a era noológica (a era da consciência) que sucede às eras da vida animal (cenozoica- mamíferos; mesozoica, dinossauro; paleozoica, organismos vivos primitivos antigos). De tal consciência derivam as ciências, tecnologias, inovações, conhecimentos culturais e espirituais.” (Maurício Andrés Ribeiro)

*Fotos de arquivo

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terça-feira, 11 de outubro de 2016


JARDINS DE MEDITAÇÃO E ARTE JAPONESA

Todo ser humano tem necessidade de reflexão, de se afastar do movimento das cidades, de contemplar a natureza, os céus, o bando de aves que passa, as folhas das árvores e as pedras. Essa reflexão é necessária para a sobrevivência do homem como ser total. Na cidade moderna ela é mutilada pelo intenso movimento.

O japonês preserva cuidadosamente seus recantos de meditação. Esses são templos, onde a natureza é o altar para o encontro com a eternidade. Na tranquilidade desses jardins a alma recebe como benção o mistério nascido da terra.

A pedra em seu silêncio nos conta histórias do passado.

Ela não se reproduz como a planta. Existe. Quando foi criada? Ninguém sabe. E neste sentido de eternidade a pedra é mística e tem significado profundo.

Em Kyoto, os jardins de pedras sem plantas, são despojados como a doutrina Zen. O Zen-Budismo foi a alma da arte japonesa. Essa escola de reflexão importada da China expandiu-se também pelo Japão e exerceu sua influência sobre arquitetos, urbanistas e artistas plásticos. Esses artistas pintavam em grandes rolos de 15 metros sobre papel ou seda. A identificação do homem com a natureza é expressa através desses segmentos lineares, onde forma e espaço se equilibram em ritmo sinuoso: rochedos e árvores retorcidas, montanhas em planos superpostos , pintura de sonho e poesia, deixando entreve r um pouco da Eternidade.

A filosofia Zen ordenou sugerir e não demonstrar. O homem desaparece dentro da paisagem. A natureza que o antecipou continua, em seu silêncio, a superá-lo. O homem vive, cresce e morre. A montanha resiste, afronta tempestades, ventanias e às vezes terremotos, mas só uma energia muito forte consegue derrubá-la. Talvez, por isso mesmo, suas pinturas emocionem tanto o homem receptivo á Realidade Espiritual. Foram feitas por monges budistas dedicados à meditação. Não procuram refletir cenas realistas, mas a Eternidade das coisas.

Enquanto o mundo ocidental preocupava-se com o homem, e o renascimento rendia-lhe verdadeiro culto como centro do universo, o Oriente silenciosamente engrandecia a natureza. As grandes  paisagens, em rolos enormes, dos museus de Kyoto ou Tóquio, são testemunhas de uma arte sempre renovadora. De sua influência sobre o Ocidente nasceu a pintura abstrata informal.

Depois da guerra houve maior troca de influências. O povo ocidental trouxe a máquina e o progresso e a tradição milenar desse país levou ao Ocidente um pouco de sua vida interior. A cultura é a soma daquilo que temos por herança com o que nos é incorporado pelo meio. E o meio, hoje, não é apenas a nossa região, mas o mundo todo. Pertencemos a ele como uma parcela viva e dinâmica. Seríamos, talvez, uma célula morta se nos recusássemos ao enriquecimento de fora. Ele é necessário desde que não fragmente aquilo que realmente somos.

O artista japonês não se despersonaliza quando assume o Ocidente, porque o espírito oriental é revelado através da sensibilidade, da inventividade e da intuição, que supera a razão. No museu de Tóquio, entre obras modernas, os rolos antigos não formam contraste. A sobriedade de seus elementos formais, o poder de sugerir mais do que raciocinar, conferem às gerações futuras o caminho da continuidade. (Trecho do livro de minha autoria “Encontro com mestres no oriente”)

*Fotos da internet


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segunda-feira, 3 de outubro de 2016


ABSTRACIONISMO E ESPIRITUALIDADE I


Dando sequência aos nossos estudos sobre a arte não figurativa, originária da Vanguarda Russa, retomo um texto do meu livro “Os Caminhos da Arte”:

“Jean Cassou, crítico europeu, viu a pintura abstrata como a manifestação espontânea do sentimento religioso e considerou importantíssimo o papel da arte na segunda metade do século XX. Com grande agudeza de percepção, abrangeu o panorama da arte abstrata e sua função de modificar por completo o caminho traçado pelas demais tendências figurativas. A arte não figurativa, afastando-se da realidade exterior, levou o artista a mover-se em direção à sua própria essência, na qual encontrou também a ciência, a física, a matemática e a filosofia.

Que a arte, hoje, satisfaça às aspirações religiosas quando tantas camadas sociais, por motivos de razão, lassitude, repugnância, indiferença ou respeito humano se afastam das religiões estabelecidas, não há que espantar-nos, antes ver aí uma dessas astúcias, dessas táticas e combinações por meio das quais o gênio todo poderoso das grandes transformações do mundo trata a natureza humana.

Se para Pevsner e Gabo o ideal era a formação de uma nova sociedade, para Malevitch a verdadeira realidade da vida e da arte encontrava-se nessa busca do Supremo por meio da ausência de cores, da pureza e da sobriedade de formas. Sua arte buscava o vazio e a não objetividade. Branco sobre Branco, seu último quadro, enfatizava a absorção da forma na totalidade do Ser, que é impessoal e sem forma. O caminho proposto por Malevitch mostra-nos o fim da manifestação fenomenal e a entrada em outro plano, onde qualquer manifestação exterior significa descer ao mundo da multiplicidade. O branco é a fusão de todas as cores, sem fragmentações. Em Malevitch, a espiritualidade da Arte Abstrata encontra seu ponto máximo. Formas e cores desaparecem para dar lugar à claridade e à pureza suprema que é o  Branco sobre Branco.

A busca espiritual desses pintores russos nos remete às fontes orientais da filosofia perene das  Upanishads.
O conceito fundamental do Hinduísmo é que, por detrás da multiplicidade de formas do mundo imanente, existe uma Causa Primeira, imutável, inimaginável, sem atributos. Esta é  Brahman  e Atman  (correspondendo respectivamente à abordagem objetiva e subjetiva).

O Ser impessoal ou o Supremo, ao qual Malevitch se refere, corresponde a  Brahman, o Criador do universo, aquele que está presente neste nosso mundo, com sua multiplicidade de formas, e ao mesmo tempo o transcende.

Atman, da mesma natureza de Brahman, é a sua abordagem subjetiva, ou a Centelha Divina inerente a cada um de nós.” (Caminhos da Arte, 3° Edição, Editora C/ARTE)

*Fotos da internet

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segunda-feira, 26 de setembro de 2016


MONDRIAN E A VANGUARDA RUSSA


O Centro Cultural Banco do Brasil, situado no Circuito Cultural Praça da Liberdade é um ponto de encontro de arte em Belo Horizonte. Para o CCBB se desloca um público participante que está ali para aprender alguma coisa sobre os artistas, sua vida e obra.

Nas diversas salas estão expostos os quadros de Mondrian, mestre holandês que se filiou ao movimento "De Stijl" na Europa.
“A exposição não se esgota com a história artística de Mondrian. Há uma segunda etapa, igualmente relevante para compreender o que aconteceu naquele período (1917-1928), que mostra a agitação provocada pela revista De Stijl (O Estilo), o meio escolhido para que um grupo de artistas, designers e arquitetos, incluindo Mondrian, defendesse o neoplasticismo e a utopia da harmonia universal de todas as artes.
Mondrian acreditava que sua visão da arte moderna transcendia as divisões culturais e poderia se transformar numa linguagem universal, baseada na pureza das cores primárias, na superfície plana das formas e na tensão dinâmica em suas telas. E seus companheiros da De Stijl não só tinham visão semelhante, como aplicaram esses conceitos a todo tipo de arte.” (trecho do catálogo da exposição do CCBB)
Mondrian foi um artista ligado à Teosofia que naquela época se difundia pela Europa.
O construtivismo teve na Europa do princípio do século XX diferentes manifestações em países diversos, inspirados numa filosofia que estudava o cosmos e a antiga sabedoria do mundo.

Na exposição a vida de Mondrian está projetada em vídeo e cronologicamente alinhada em pequenas fotos da época. Percorrendo a mostra, podemos observar como a sua arte o conduziu a propostas no campo da arquitetura de interiores, do design e do mobiliário.

Quando estourou a segunda guerra mundial, Mondrian mudou-se para Nova York, onde desenvolveu suas propostas e realizou seu famoso “Broadway Boogie Woogie”, inspirado no ritmo americano.

Lembramos aqui de nossos estudos sobre a Vanguarda Russa, pioneira desta corrente artística. Releio o texto que escrevi em 1974, capítulo do meu livro “Os caminhos da Arte”: 
“Na Rússia pré-revolucionária, Nathalie Gontcharova e Michel Larionov apresentaram as primeiras telas rayonistas, nas quais a cor buscava a mesma independência do som. A libertação da cor e da forma de qualquer significado real, a ideia de que têm vida própria, marcou o início de uma série de caminhos na arte moderna. Dentro dessa mística, a vanguarda russa, entre 1910 e 1920, teve um papel fundamental. Poetas e pintores aliaram-se em torno das novas ideias. A liberdade pleiteada pelos artistas significava, antes de tudo, um desligamento de pressões externas, dos cânones e padrões tradicionais.

Maiakovski, na poesia, Malevitch, Kandinsky, Tatlin, El Lissitzki, Naum Gabo e Pevsner, nas artes visuais, tornar-se-iam os líderes do novo movimento, gerador de várias correntes estéticas não figurativas.

Malevitch procurava no suprematismo a essência do sentimento humano. Sua pintura, inteiramente despojada de elementos orgânicos, libertou-se do objeto, buscando na sensibilidade em seu estado mais puro o encontro com o Supremo. Malevitch propunha uma arte desinteressada, inteiramente subjetiva. Gabo e Pevsner, em seu Manifesto Realista , protestavam em favor de uma arte independente. A busca de uma nova realidade, o sentimento de ausência do objeto, o encontro com a essência das coisas motivaram o grupo de vanguarda em torno do Construtivismo e também de uma nova visão da realidade.” (trecho do meu livro “Os caminhos da arte”)

*Fotos de Ivana Andrés e da internet


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segunda-feira, 19 de setembro de 2016


AUGUSTO RODRIGUES E A ARTE NA EDUCAÇÃO II


As palavras de Augusto Rodrigues nos fazem refletir sobre Arte e Educação:

“O processo da educação se objetiva, quando se abrem janelas para que o homem veja a integração arte/ciência como algo normal em sua vida, a começar pela descoberta de seu próprio corpo como um laboratório prodigioso e capaz de fazê-lo compreender o universo, chegando normalmente à descoberta e escolha de suas próprias vocações. Mas, como irei me identificar com o universo se, antes de tudo, não me identifico com o microcosmo que sou eu mesmo, que é meu corpo como síntese do universo?”

Para nos compreendermos como síntese do universo, devemos começar com a educação de todas as potencialidades contidas em nosso corpo, de nossos movimentos e vibrações mais sutis. Somente compreendendo a grandeza do mecanismo de nosso próprio corpo: de nosso psiquismo e de nossa mente com todo o seu potencial, poderemos alcançar a realização de nós mesmos como seres humanos, vivos e habitantes de um planeta. A verdadeira paz “em escala planetária”, brota espontânea deste conhecimento de nós mesmos. Só então seremos livres e poderemos repetir como o oráculo de Delfos: “Conhece-te e sê livre”. A liberdade interna e a redescoberta do homem interior, é o que Augusto Rodrigues semeou entre as crianças na sua Escolinha de Arte do Brasil. A sua semente germinou, atingiu e influenciou diversas escolinhas de arte.

A experiência de Augusto Rodrigues visava o desenvolvimento de pequenas comunidades, através da criação de três centros estimuladores de um processo de transformação. Estes centros compreendiam:

1     A criação da Casa da Memória, que recolhia depoimentos de todos os homens e mulheres acima de 50 anos, buscando dar uma visão da história e do desenvolvimento socioeconômico e cultural da comunidade. Este primeiro centro procurava valorizar o homem como um ser criador do nascimento à morte e restabelecer o diálogo entre os jovens e aqueles que, em função da idade, são depositários de uma rica experiência de vida.

2     O segundo centro seria a casa das “Artes do fazer”, estimulando as experiências do fazer da comunidade.

3     O terceiro centro seria a Aldeia das Descobertas, instalada na área rural, atraindo as crianças para a redescoberta da natureza.

O plano visava a integração do homem com a natureza, consigo mesmo e com seus semelhantes, através da abertura de consciência e da descoberta das possibilidades do indivíduo. Esses pequenos núcleos criativos seriam a base para uma formação da comunidade como um todo harmonioso e integrado.

As propostas de Augusto Rodrigues só poderiam ser atingidas em plenitude, se as forças se coordenassem, não através da violência e da coação, mas da compreensão e do aproveitamento de todas as energias vitais do homem. Isto porque, para haver realmente progresso, é necessária uma colaboração de todas as forças vivas do planeta em que vivemos, sem distinção de raças, nacionalidades, crenças e idades.

*Fotos da internet

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segunda-feira, 12 de setembro de 2016


AUGUSTO RODRIGUES E A ARTE NA EDUCAÇÃO I

Encontrei nos meus arquivos anotações de aulas recebidas na Escolinha de Arte do Brasil, sob orientação do grande artista e educador Augusto Rodrigues.

O programa da arte na educação, iniciado e mantido com sucesso por Augusto Rodrigues, é um dos pontos fundamentais de progresso na era que se iniciou com a conquista do espaço.

Dentro desse esquema, partindo-se do princípio de que o indivíduo só se integra à sociedade quando pode criar e desenvolver sua própria personalidade, podemos imaginar o homem do futuro integrando um conjunto de forças que visam o impulso para a frente e não a passividade diante dos conceitos antigos, conceitos e fórmulas que sempre atrasaram o progresso.

Segundo Augusto Rodrigues, a arte na educação visa antes de tudo essa liberdade da personalidade humana e, portanto, a conscientização plena do que o indivíduo pode realizar, qual a sua dimensão nesse mundo tão rico em potencialidades, mas quase sempre tão opressor. A arte ainda é uma das formas de liberdade mais genuínas. 

O artista cria porque quer, dentro do esquema que sua arte exige; se às vezes submete-se às pressões externas e a exigências de correntes, sempre encontra à sua frente a evasão para a liberdade, para o pleno domínio de suas energias criadoras. A arte na educação visa o desenvolvimento das possibilidades criadoras e a libertação da passividade diante das coisas.

 Liberta e coordena ideias. Através da arte na educação, a criança se afirma e participa melhor da coletividade em que vive, sabendo desempenhar realmente o seu papel de membro atuante de uma coletividade. A época em que vivemos exige participação construtiva, pontos de vista claros, conscientes, sem mistificações. Os frutos da ciência alcançam órbitas maiores e não se fecham dentro de laboratórios. O progresso é televisionado, irradiado, filmado, pertence ao mundo. Isto nos irmana de certo modo. Há de chegar a época em que o homem sem neuroses, integrado dentro da sociedade, será o esteio desta sociedade. Todos os impulsos negativos serão ajustados para um progresso que seja realmente de toda a humanidade.

O papel dos psicólogos e educadores assume dimensões de grandeza neste advento de uma nova era. É através da redescoberta de si mesmo que o homem pode conhecer também seus semelhantes. Seu núcleo interior é atingido no momento criador, despertando espontaneamente a consciência de si mesmo. A arte é o caminho direto para esta redescoberta do eu porque o ato criador representa o próprio encontro com a vida. É nesse encontro diário, estimulado e despertado pelo educador, que a criança poderá se abrir para a sua própria realidade.

*Fotos da internet

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segunda-feira, 5 de setembro de 2016


EXPERIÊNCIA ARTÍSTICA III

     Compara-se o artista ao místico. Tanto um quanto o outro voltam-se para o infinito, buscando alguma coisa mais que as simples tarefas utilitárias. O místico, no plano sobrenatural, e o artista, no plano natural, estão ligados por uma semelhança que se traduz na ascese, na busca do espiritual. Um procura a vida espiritual, o outro a ideia criadora, mas ambos transcendem o mundo com suas limitações e incertezas. Ambos se inclinam à vida interior, tentando sondar a profundidade de sua própria alma, onde se encontram as verdadeiras riquezas. 
Mas a maioria dos homens não sente necessidade do místico nem do artista. Vivemos numa civilização baseada na indústria, aprisionada à máquina, onde os valores espirituais são relegados a segundo plano. Tudo na nossa vida moderna contribui para subestimar os valores espirituais, tudo impede que o homem entre em si mesmo, penetrando no mistério de sua alma. 
E os próprios artistas, às vezes, apressados e envolvidos na engrenagem do século, preferem abdicar de sua fonte criadora para procurar algo que os ponha em evidência com maior facilidade. O sucesso é um dos grandes mitos de nosso tempo, mas nem sempre é o caminho mais seguro para o aperfeiçoamento consciente. O progresso em arte vem do sofrimento e da conquista diária, do constante apelo a ultrapassar-se a si mesmo, a renovar-se.

         Sem esta inquietação, esta sede de acrescentar alguma coisa a mais ao que já foi feito não poderia haver progresso artístico.

         "Por isso a única saída para o artista é não se deixar petrificar em ídolo. É nunca repetir a obra aplaudida, nunca lisonjear o gosto de seus leitores. Em vez de ser dirigido, dirigir. Dar poemas ao público quando ele pede romances, e romances quando ele pede poemas." Estas palavras de Miguel Torga em seu Diário lembrando a independência absoluta que o escritor deveria ter em relação ao público poderão se adaptar ao artista plástico.

         Os admiradores e os aplausos não significam tanto na obra, o importante é continuar, seguir para a frente, apesar dos sucessos, das vitórias conquistadas. . (Trecho do meu livro “Vivência e Arte”, Editora Agir, 1966, já esgotado)

*Fotos da internet

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terça-feira, 30 de agosto de 2016


EXPERIÊNCIA ARTÍSTICA II

    
Se a visão de todo artista é irredutível à visão comum, se ele não pode fugir à sua época ou a seu tempo, tem no entanto a liberdade de escolha nos múltiplos caminhos a seguir.

         A influência tem de vir de dentro, tem de ser espontânea, nunca imposta por uma circunstância do momento. Se por uma questão de ordem prática, para alcançar maior sucesso, o artista se abstém de criar o que sente, deformando a expansão de sua personalidade, para copiar, friamente, a experiência de outro, sua obra será falsa, inautêntica. Razão pela qual Rilke convida o artista à solidão, desprezando o que vem de fora. Aconselha-o a sondar se os alicerces de sua arte se constituem, realmente, de uma necessidade.

         Escreve ele em Cartas a um Jovem Poeta: "Observe se esta necessidade tem raízes nas profundezas do seu coração. Confesse à sua alma: 'Morreria se não me fosse permitido escrever? Isto, principalmente. Na hora mais tranquila da noite, faça a si esta pergunta: 'Sou de fato obrigado a escrever?' "

         Devemos considerar esses conselhos de Rilke como uma eliminatória para o artista. É um ser ou não ser, onde mediocridade, amadorismo e passatempo não tem entrada. Muito menos o mito do sucesso, dos aplausos fáceis.

         Talvez o povo se engane quanto a essa exigência da alma do artista, essa sede de se expressar mesmo sabendo que será criticado depois, de criar sozinho, sem esperar compreensão e prêmios, apenas para satisfazer ao seu desejo de absoluto, de infinito.

         A arte é o transbordamento deste apelo interior e não, como pensam muitos, um passatempo que se pode abandonar por tarefas mais úteis. O mundo materializado e aprisionado à técnica não compreende senão o que tem recompensa imediata. Para ele, o artista é um extravagante, um louco. E é justamente realizando as coisas inúteis aos olhos do mundo que o homem se eleva e se aproxima de Deus, em toda a sua grandeza. As investigações filosóficas, a arte e a religião não tem sentido utilitarista. Procuram o engrandecimento do homem e a sua integração mais perfeita no universo a que pertence.  (Trecho do meu livro “Vivência e Arte”, Editora Agir, 1966, já esgotado)

*Fotos de Maurício Andrés e da internet

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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

segunda-feira, 22 de agosto de 2016


EXPERIÊNCIA ARTÍSTICA I

Sobre a experiência artística, temos uma página admirável do grande poeta que foi Rainer Maria Rilke: "Versos não são, como tanta gente imagina, simplesmente sentimentos - são experiências: é preciso ver muitas cidades, homens e coisas, conhecer o voo dos pássaros e o gesto das flores, quando se abrem pela manhã; voltar em pensamento aos caminhos das regiões desconhecidas, aos encontros inesperados, às separações já de longe previstas, às doenças da infância carregadas de profundas e graves transformações, aos dias fechados ou de sol, às manhãs de vento ao mar, às noites de travessia e de fuga. E tudo isto não basta. É preciso, também, as memórias das vivências passadas e mesmo estas não bastam. Pois é preciso também saber esquecê-las, quando são muitas, e ter-se a imensa paciência de esperar que voltem novamente. E, quando então tudo tiver retornado dentro de nós, como o sangue, a brilhar e a gesticular sem se distinguir de nós mesmos, só então pode acontecer que, na hora rara, a primeira palavra de um poema se levante no meio daquelas experiências e delas prossiga." 

         A descrição do processo poético, de Rilke, pode aplicar-se a qualquer outra arte.
         Consideremos o artista plástico diante de sua tela ou da folha de papel em branco.
         Ao escolher uma cor ou preferir uma linha, o artista revela ao mundo parte de sua vida. Alguma coisa que lhe pertencia, exclusivamente, se faz partilhar naquela forma nova, criada por ele.

         São suas paixões, seus dramas. São suas primeiras impressões de infância, o despertar para o mundo, as inquietações da adolescência, os sonhos e arrebatamentos da mocidade, a plenitude da idade madura. É a alegria do primeiro filho que nasce, as noites de vigília à beira do berço, a capacidade humana e natural de poder dar-se a alguém.

         A arte não é incompatível com as coisas simples da vida. E, para ser artista, não é preciso viver de um modo extravagante e original. Não é preciso vestir-se excentricamente e andar pelas ruas de madrugada em rodas boêmias, embora a arte não exclua qualquer experiência.

         A vivência artística é a realidade de uma vida interior intensamente vivida, onde os acontecimentos grandes e pequenos, originais ou rotineiros, tem um valor eterno.
         É indispensável que este mundo interior exista, para que haja criação autêntica. É indispensável que exista esta integração perfeita das experiências com a vida do artista. Que elas façam parte do seu sangue, como diz Rilke, para que mais tarde frutifiquem como obra de arte. A mão que traça uma linha e mistura uma cor não estará praticando um gesto vazio de sentido, mas realizando o que sua experiência exigiu de um modo particular e sincero.

         A escolha das cores e formas é espontânea e identifica cada artista, traduzindo sua personalidade.

         É inútil tentar forçar determinado artista a abandonar os seus meios honestos, sinceros, de expressão, por outros mais avançados, mas não correspondentes, exatamente, ao seu temperamento e às suas exigências. Uma forma nasce da contemplação de outra forma, da identificação de sensibilidades e esta identificação tanto pode ter raízes populares quanto intelectuais. (Trecho do meu livro “Vivência e Arte”, Editora Agir, 1966, já esgotado)

*Fotos da internet


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terça-feira, 9 de agosto de 2016


SURPRESAS DE UM ANIVERSÁRIO

Um encontro do Oriente – Ocidente, através da arte, aconteceu em minha casa no Retiro das Pedras na manhã de 31 de julho.

Organizado por Luciano Luppi e Ivana Andrés, a programação teve início com uma homenagem ao poeta indiano Paranjape Makarand que,em Brasília, lançou um livro com poemas sobre o Brasil, com ilustrações de minha autoria na capa e contracapa. Ivana leu um trecho do livro, que faz referência à artista Maria Helena Andrés num encontro com o poeta há alguns anos atrás. Em seguida, Henrique Luppi interpretou outro poema, dessa vez com impressões gerais do poeta sobre o Brasil. Para ele, o Brasil pode ser considerado o coração do planeta, a Índia o espírito, e a Europa e  os EUA a razão. Luciano Luppi interpretou outro poema de Makarand, “Porque somos um Rizoma”, além de um poema de Tagore.

 Em seguida Alexandre Andrés cantou “A voz de todos nós”, em minha homenagem, um grande presente para o meu aniversário.

Finalmente aconteceu um recital de música indiana, realizado por Helder Araujo.Helder estudou na Índia com mestres da música na cidade de Benares, a cidade mais antiga da Índia, à beira do Ganges.Trouxe para nós uma apresentação devocional, tocando a cítara, instrumento tradicional da Índia.

Escutávamos em silêncio os acordes daquela música e me foi possível relembrar a Índia e seus músicos sentados no chão em tapetes.

Estava absorta nas minhas lembranças, trazendo a música da Índia para o Brasil, escutava a música da Índia em solo brasileiro, quando espontaneamente, sem nenhum ensaio preliminar, o som de uma flauta começou a fazer duo com a cítara do Helder.  Artur Andrés nos proporcionou uma grande surpresa. Foi grande a emoção que sentimos naquela apresentação, a fusão de duas culturas, de terras irmãs separadas por muitos mares.

A música é de todas as artes a que mais emociona e o encontro Oriente – Ocidente feito espontaneamente numa festa de celebração dos meus 94 anos foi realmente um presente vindo do alto.

Ali se encontraram a poesia, a literatura e a música indicando novos caminhos no processo de integração planetária.

Naquele ambiente impregnado de muitas lembranças, onde e, por muitos anos criei meus quadros, estavamacontecendo naquele momento novas versões da arte que aproximavam o mundo ocidental do mundo oriental.

À tarde, no meu atelier situado no andar superior da casa, um grupo de crianças promoveu espontaneamente uma escolinha de arte. Meus bisnetos também participaram da festa e me deixaram um registro maravilhoso de desenhos infantis.

*Fotos de Maurício Andrés

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segunda-feira, 1 de agosto de 2016


ARTE NAS RUAS II


“Paralelamente aos happenings e à arte de denúncia, começaram a surgir  manifestações coletivas abertas à participação do público.
Iniciativas como Arte na Rua, proposta por Hélio Oiticica, e Arte Pública no Aterro, organizada por Frederico Morais e Oiticica, abriram espaço para qualquer pessoa se expressar criativamente. No Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, manifestações de arte coletiva emergiam incentivadas pela mídia.

Os Domingos de Criação eram uma festa de arte, onde todos podiam colaborar.
Um novo sentimento poético emergia do povo, as manifestações coletivas levavam à  descoberta de novos valores. A denúncia cedeu lugar ao prazer de criar e compartilhar. Havia a necessidade de usar a criatividade para buscar a paz, numa sociedade conturbada pela violência.

A partir da década de 1990 a arte se dirigiu para uma comunicação mais alegre com o povo. Espetáculos circenses foram realizados nas ruas, com a participação do espectador. Grupos também se reuniram nas praças, celebrando as danças circulares pela paz universal.

Essas manifestações coletivas buscavam, antes de tudo, unir as pessoas dentro de um clima de solidariedade e confraternização. A arte nas ruas veio trazer o lúdico ao transeunte apressado das grandes cidades, em momentos de descontração oferecidos gratuitamente.” (trecho do meu livro “Os Caminhos da Arte”)

No século XXI surgiram os eventos denominados “flash mobs”. São ações inusitadas que congregam toda a população presente e que acontecem em geral em terminais rodoviários e estações centrais de cidades em vários países ao redor do mundo.
O flash mob durante a Jornada Mundial da Juventude no Rio, realizado na praia de Copacabana foi considerado um dos maiores do mundo.

Em 2014, em Bangladesh, grupos de dança se apresentaram nas ruas, formando rodas, sob aplausos da população.

Em 2009, na Union Square, Nova York, os Elfos Doidos se apresentaram em público durante o Natal, uniformizados.

A dança continua a unir as pessoas e a fazê-las participar de eventos criativos.
O flash mob na Estação Central em Estocolmo foi um tributo a Michael Jackson, pouco depois de sua morte.

Por ocasião da inauguração do Circuito Cultural da Praça da Liberdade em Belo Horizonte, um flash mob levou dançarinos e público a cantarem juntos a música “O que é, o que é” de Gonzaguinha.

Essas danças de rua, que acontecem simultaneamente em várias partes do mundo, com a participação da comunidade, são criadas por grupos de jovens dançarinos e movimentam toda uma população em torno da arte.

Podem ser consideradas como arte política, cuja finalidade é romper os condicionamentos e despertar o lúdico, mudando os valores de uma sociedade massificada e repetitiva.

*Fotos da internet


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