quarta-feira, 1 de abril de 2020


ARTE SACRA III


Dando continuidade às postagens sobre Arte Sacra, transcrevo o texto abaixo, extraído do meu livro “Vivência e Arte”, Editora Agir, 1968.

As catedrais góticas nasceram e cresceram com as comunidades cristãs, expandiram-se por toda a Europa, levando o mesmo ideal de beleza e grandiosidade a outros países e povos.

         As comunidades cristãs orientavam e dirigiam a construção das catedrais tentando conservar, através dos séculos, a mesma unidade de estilo.

         Enquanto esta orientação coincidiu com o impulso interno e a realidade sacral em que viviam, sua arte foi autêntica.

         A arte não pode sobreviver senão num clima sempre renovado de liberdade de criação.

         O artista precisa expressar-se livremente, de um modo pessoal, e, mesmo em se tratando de arte sacra, esta liberdade é necessária; liberdade de expressão e concepção, obedecendo apenas ao sentimento espiritual e litúrgico que a obra pede.

         Este respeito ao litúrgico não significa, absolutamente, a repetição monótona dos estilos do passado, porque, dentro de uma civilização completamente diversa, estes estilos não traduziriam mais uma realidade. A decadência de um estilo começa quando ele é repetido superficialmente, como fórmula. 

Sentindo que o espírito comunitário perdia terreno e a alma do povo já não participava em conjunto de um só ideal, voltaram-se os meios religiosos, numa tentativa de renovação, para a arte popular, feita por leigos. Suas origens vinham dos primeiros tempos do cristianismo, ainda nas catacumbas. Mas a arte popular, seguindo uma interpretação pessoal, muitas vezes, pouco esclarecida, veio trazer outro perigo para a arte sacra. Exprimia uma visão particular do artista, nem sempre condizente com a liturgia. Ela foi, ao mesmo tempo, o reflexo e o incentivo do sentimentalismo manifestado no século XVIII pelo barroco.
 "Comover o espectador, representando a emoção experimentada pelo personagem, foi uma das leis da estética barroca", escreveu André Malraux.

         A arte nos dá testemunho da vida de um povo, reflete o melhor e o pior de uma época. Assim, vimos o cristianismo da Idade Média erguer-se com suas catedrais em profunda unidade, coordenando todos os esforços num só sentido.

*FOTOS DA INTERNET

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segunda-feira, 23 de março de 2020


A ÁGUA FALA


 Há alguns anos atrás, durante a minha permanência em Brasília, em casa de meu filho Mauricio Andrés, recebi a incumbência de ilustrar um livro para crianças, mostrando a importância do elemento água para a sobrevivência da espécie humana num futuro próximo.
Estava, naquele momento, recebendo o texto base de um livro denominado “A água fala”, hoje já reescrito em forma poética por Aparecida Andrés e ilustrado por mim.
Naquela oportunidade, os meus desenhos mergulharam nas águas da imaginação e de lá trouxeram pequenos croquis que diziam de forma colorida e transparente oque as palavras me traziam.
Confesso que me encantei com o projeto e me coloquei na condição dos meus bisnetos lendo o livro.
Mauricio, em seu livro “A água fala” penetra com leveza neste universo do qual ele é muito informado e vai contando para os seus netos a riqueza que o planeta possui, talvez a maior riqueza do futuro próximo.
“A água fala” nos traz informações preciosas e caminhamos juntos com as crianças navegando em rios, mares, cachoeiras, chuvas, gelos, enxurradas, nuvens, brumas, trovoadas. Percorremos o caminho precioso de um elemento da matéria, imprescindível para a humanidade. O caminho que a água percorre

neste planeta azul é muitas vezes pouco conscientizado, mas Maurício, em seu livro, nos toca a consciência de forma luminosa. Percorre conosco um passado remoto, vai mostrando para as crianças o grande universo da água que está presente no nosso cotidiano e estará presente em nossos descendentes. “Água é vida”, sem ela não estaremos mais aqui.

Assim falaria a água
se a água pudesse
falar.
Agora a água está falando,
ela fala para as crianças,
de sua vida sobre a terra,
desde os tempos mais remotos
até os dias de hoje.
Deixa a água falar
Porque suas histórias
são verdadeiras
e muito sinceras.

Este livro virtual está sendo lançado pela Amazon e estará à disposição de qualquer pessoa interessada.

*Fotos de Luciano Luppi, Ivana Andrés e ilustração da capa de Maria Helena Andrés (Capa de João Diniz)



                                                                                    








quinta-feira, 19 de março de 2020

LIVRO SOBRE A ÁGUA X


Dando continuidade ao Livro sobre a Água, de autoria de Maurício e Aparecida Andrés, transcrevo o trecho abaixo:

Águas passadas não movem moinho.
Fazer água ou ir por água abaixo
é afundar, fracassar.
Chover canivetes ou cântaros
é chover muito, muito mesmo.
Chover no molhado é repetir-se,
insistir no mesmo tema.
E quem está na chuva
é porque quer se molhar!
Ao evitar decidir-se,
Pilatos lavou as mãos,
deixou  que outros resolvessem
o que fazer com Jesus.

Tempestade em copo d’água
é reação exagerada. 
E todos perguntam com indignação:
- Por que cargas d’água isso ocorreu? 

Colocar as barbas de molho
é preparar-se para o pior. 
Querer sombra e água fresca
é sonhar ter sossego e descanso.
A vaca foi pro brejo
quando algo se tornou difícil
e a situação não tem mais jeito.
 
Enxugar gelo?
É trabalhar sem resultados.
Dar nó em pingo d’água
é fazer o impossível.
Diz-se que algo é transparente
quando é claro como água. 
Ser bom até debaixo d’água
é ser muito, muito bom.
Dar água na boca
é despertar o apetite;
quando algo muda muito,
 é como mudar da água para o vinho.

Cachaça, diz o povão,
é água-que-passarinho-não-bebe.
E alguém que muito bebeu?
Está na maior água
ou terá ficado de fogo
por ter bebido aguardente?                            

A  música faz um alerta
pra ninguém se confundir:
 “Você pensa que cachaça é água?
 Cachaça não é água, não.
Cachaça vem do alambique,
e água vem do ribeirão...”

E outra canção diz assim:
“as águas vão rolar,
garrafa cheia eu não quero ver sobrar...”.

E há também aqueles versos
que consolam o preocupado:
 “a água lava, lava, lava tudo,
a água só não lava
a língua dessa gente!”

O Carnaval me evoca
nas marchinhas  da vovó:
“Allah, meu bom Allah!
Mande água pra Ioiô
Mande água pra Iaiá
Allah, meu bom Allah!
Allah – la - la – ô, mas que calor!”

E o músico Luiz Gonzaga
lembra o drama nordestino
em sua bela  ‘Asa Branca’:
 “Que braseiro! Que fornalha!
nem um pé de plantação!
Por falta d’água, perdi meu gado
morreu de sede meu alazão!”

Nas  cantorias de cordel
lá estou  mais uma vez:
“ o sertão vai virar mar
e o mar vai virar sertão”...
Gilberto Gil  nos ensina:
“Dá-me um copo d’água,
 eu tenho sede,
e essa sede pode me matar...”.
E mesmo a falta o inspira:
“É sempre bom lembrar
que um copo vazio
está cheio de ar...”


Noel Rosa cantou que
“o orvalho vem caindo,
vai molhar o meu chapéu...”

Nosso Hino Nacional 
lembra as margens plácidas
de um rio de águas vermelhas
que os índios chamavam de Ipiranga.

E na Aquarela do Brasil,
Ary Barroso exaltou
“estas fontes murmurantes,
onde eu mato a minha sede,
e onde a lua vem brincar.”

 O Presidente JK
gostava muito de cantar:
- Como pode um peixe vivo
viver fora da água fria?

E as crianças cantarolam
logo que aprendem a falar:
 “...fui na fonte do Itororó
beber água e não achei...”

O maestro Tom Jobim
cantou as Águas de março.

“Lata d’água na cabeça, lá vai Maria”
nos lembra do papel da mulher,
lutando na lida da casa.  
E você que aí está,
se lembra de outras canções?
Me encontro também nas poesias,
como a de Manuel Bandeira:
«E quando estiver cansado
 Deito na beira do rio
 Mando chamar mãe-d’água
 Pra me contar as histórias
 Que no tempo de eu menino
 Rosa vinha me contar.
 Vou-me embora pra Pasárgada.”

*ILUSTRAÇÕES DE MARIA HELENA ANDRÉS

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domingo, 8 de março de 2020

LIVRO SOBRE A ÁGUA IX


Dando continuidade ao Livro sobre a Água, de autoria de Maurício e Aparecida Andrés, transcrevo o trecho abaixo:

Ao  longo de toda a História,
e em todos os cantos da terra,
foram criadas palavras
pelas quais sou conhecida.

Os povos esquimós
das terras  geladas do ártico,
usam termos diferentes
para os matizes do branco
dos vários tipos de gelo.
 Os povos indígenas,
na exuberância tropical,
ficam dançando e cantando, 
para que as chuvas aconteçam.
E inventam outras palavras
para falarem de mim.



Itororó é bica d’água;
Pitangui, rio das crianças;
Itamaraty, água entre pedras soltas.
Igarapé é caminho das canoas
Igapó é a floresta inundada nas cheias,
Uberaba, água que brilha.
Os índios acham que a vida
é uma teia muito vasta
da qual tudo faz parte:
junto com eles
estão as águas,
as plantas e os animais,
compondo o meio ambiente.
Há quem pense
que eu dou vida
a seres  sobrenaturais,
como o caboclo d’água,
o boto tucuxi e as sereias,
a  iara ou  mãe d’água,
que recebe oferendas
e em troca dá pesca abundante.
  


Na tradição chinesa,
Represento a suprema virtude,
sou símbolo da sabedoria.
Não há o que me detenha.
Sou yin, princípio feminino
oposto a yang, que é fogo.



Eu  ajudo a apagar
os incêndios e queimadas.
Encharco a terra,
umedeço o ar,
purifico os corpos
e também as almas.
Entre os signos do horóscopo,
sou o elemento de Peixes,
de Câncer
e de Escorpião.


Estou presente nas idéias,
nas línguas 
e na comunicação,
na cultura e nas artes,
nos sentimentos e ações.  

Batizo muitos lugares
com os nomes água
 e olho d’água,
rio, riacho, ribeirão,
igarapé ou arroio,
foz, barra, brejo, lagoa,
vargem e várzea,
mangue e praia,
cachoeira, salto ou queda,
cacimba, poço e ilha.
Existe o Arroio dos Patos,
Barra do Piraí,
Entre Rios de Minas,
Lagoa Dourada,
Brejo da Madre de Deus,
Foz do Iguaçu, Praia Grande,
São Gabriel da Cachoeira,
Belágua, Hidrolândia.



Pingo D’Água, Sem-Peixe,
Ilha Grande, Riversul,
Rio de Janeiro...



Nos dicionários de todas as  línguas,
no cotidiano de todos os povos,
muitas palavras e expressões
tentam me definir, decifrar.

Acalmar é pôr água na fervura;
desanimar é receber
uma ducha de água fria.

 Se gato escaldado tem medo de água fria,
ser um peixe fora d’água
é estar  fora de seu ambiente.
Urinar é tirar a água do joelho.
E quando falta muito
para uma situação se resolver,
diz-se que muita água
ainda vai passar  debaixo da ponte.

*ILUSTRAÇÕES DE MARIA HELENA ANDRÉS

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segunda-feira, 2 de março de 2020



ESCOLA GUIGNARD, UM PONTO DE MUTAÇÃO


Provisoriamente estamos interrompendo as postagens do "Livro sobre a água", de autoria de Maurício e Aparecida Andrés. Retomaremos na próxima semana.


Recebi um convite da Escola Guignard para participar de uma homenagem que os alunos queriam prestar aos seus professores, nesta data em que se comemora o aniversário da fundação da escola.

Chovia fino quando desci da minha casa no Condomínio Retiro das Pedras, para participar da homenagem. O encontro seria no Teatro Francisco Nunes em Belo Horizonte. Quando cheguei todos estavam reunidos para dar início à homenagem. Muita gente, professores e alunos, muita descontração e alegria.

Pensei comigo mesma: “o importante é estar presente, interagir com os jovens.”
Chamaram-me para gravar um vídeo. Olhei em frente, para a paisagem exuberante do Parque Municipal de Belo Horizonte, lugar escolhido por Guignard para administrar o seu curso de arte.

Não preparei o que teria a dizer, mas uma árvore frondosa, exuberante, me chamou a atenção. Lembrei também do quadro de Guignard, mostrando um caminho no Parque, que ganhei por ocasião do meu casamento e que sempre me fez lembrar da arte como um caminho.

“Toda árvore boa dá bons frutos”, foi a mensagem inicial da minha entrevista. “A Escola Guignard é como esta árvore frondosa, a semente aqui foi plantada há mais de 70 anos atrás, semente que cresceu, amadureceu e que sempre deu frutos. Somos todos parte desta árvore da arte. Hoje aqui estamos, devido à dedicação de um mestre qualificado, talentoso, um mestre que iluminou o caminho de seus alunos, partindo da própria luz de cada um.”

Guignard percebia a individualidade do aluno e respeitava sua tendência natural. Não impunha regras e conceitos pré-estabelecidos.

Foi debaixo destas árvores, caminhando por estes caminhos que aprendemos a desenhar e a pintar, trazendo à tona aquilo que já existia dentro de nós. Lembro-me bem da alegria do mestre quando ele descobria no aluno alguma possibilidade nova.
“Coisa nova!”, dizia ele entusiasmado. “Siga esta direção...”
Ele nos estimulava a imaginação e despertava a nossa criatividade dizendo:
“Olhem as nuvens no céu, as manchas nos muros velhos, os círculos que se formam na água quando ali jogamos uma pedra.”
Linguagem direta, sem fórmulas vindas de fora.

Depois da partida de Guignard, ficamos no Parque Municipal por alguns anos, na maior pobreza, mas sendo conduzidos por uma energia que não se abatia diante das dificuldades.

O Parque Municipal de Belo Horizonte foi testemunho da nossa batalha para sobreviver.

Esta é a mensagem que posso passar para vocês, dos primeiros anos de nossa escola.
Que os ensinamentos de Guignard se prolonguem no tempo como a grande bandeira do entusiasmo e da liberdade de expressão, é o que desejamos a todos.
Ele continuará sempre sendo um ponto de mutação para aqueles que desejarem se desenvolver na arte e na vida.

*Fotos de Marília Andrés e da internet

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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

LIVRO SOBRE A ÁGUA VIII


Dando continuidade ao Livro sobre a Água, de autoria de Maurício e Aparecida Andrés, transcrevo o trecho abaixo:

4.        Na cultura

Eu estou viva nos sonhos
e na memória coletiva
dos que lembram e relembram
a importância que já tive.

Testemunhei a ascensão
e a queda de civilizações.
Eu era a dádiva divina,
que os céus enviavam à terra.
 Fui símbolo da fertilidade
e  também da fecundidade.
Eu era um bem abundante
na natureza generosa:
ninguém pagava por mim.
 As tradições milenares
falam de águas primordiais,
de oceano das origens.
As civilizações antigas
me rendiam homenagens
nas crenças e religiões,
que me diziam sagrada
por meu valor e pureza.

 No Egito, fui divindade;
na Grécia, fui Afrodite,
nascida  da espuma do mar. 

Em Roma, era Netuno,
o deus dos oceanos.
Na tradição judaica,
sou fonte de todas as coisas.
Na tradição muçulmana,
o Alcorão, livro sagrado,
me chama ‘divina’,
se me derramo do céu.



Os hindus tomam banhos rituais
no sagrado rio Ganges.

  Nas águas fazem ritos e oferendas
a muitos deuses e deusas.

  Na Bíblia, o sopro de Deus
pairava sobre mim.

 No batismo dos cristãos,
purifico os pecados. 
No grande dilúvio da Bíblia,
a Arca de Noé,
navegando pelos mares,
salvou os bichos da extinção.


Jesus também fez milagres
caminhando sobre as águas
e transformando-me em vinho.
 
Terra e água fazem o barro
com que Deus criou Adão.
E depois de pensar bem,
Ele fez Eva também!

Nas águas de Belém do Pará,
pescadores encontraram
Nossa Senhora de Nazaré.
Nossa Senhora Aparecida
e a deusa Kali dos hindus
também vieram das águas.


As escadas do Bonfim,
são lavadas na Bahia,
em rituais de purificação.

Na umbanda e no candomblé,
Oxum é o meu orixá.
As oferendas para Iemanjá,
minhas ondas vão levar. 


*ILUSTRAÇÕES DE MARIA HELENA ANDRÉS

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