domingo, 19 de janeiro de 2020

LIVRO SOBRE A ÁGUA IV


Dando continuidade ao Livro sobre a Água, de autoria de Maurício e Aparecida Andrés, transcrevo o trecho abaixo:

2.      Em movimento

Quando o clima está bem frio,
das nuvens claras que flutuam,
posso cair como  granizo,
chuva de pedras,
flocos de neve,
leves.

As crianças me viram e reviram,
brincando comigo.
  
O calor do sol me derrete.
Liquefeita,
posso evaporar no ar.

No meio das nuvens escuras,
 raios e trovões me abrem caminho.
E eu me entorno em gotas
que derramam do céu
em aguaceiros e trombas d`água,
garoa  fina, chuviscos.

Chovendo sobre os telhados,
embalo o sono da noite,
com um barulho ritmado,
que é muito bom de se ouvir.
Na vidraça das janelas,
as gotinhas vão, juntinhas,
em filetes desenhados,
escorrendo até o chão.




As copas das grandes árvores
amortecem meu impacto.

Escorrego pelos galhos
e troncos dos jacarandás,
dos paus d’óleo,
das canelas e angicos,
dos perfumados sassafrás,
das bananeiras e limoeiros,
e das mangueiras da Índia.
Dos eucaliptos da Austrália,
dos bambuzais vindos da China,
dos flamboaiãs de Madagascar.
E me misturo, embaraçada,
às moitas de capim da África. 

 As árvores e matas, nos morros
e ao redor das nascentes,
me ajudam a entrar terra adentro.


Se caio em lagos e poças,
formam-se ondas em círculos.


Quando  o tempo  se acalma,
sou  espelho cristalino
que reflete a paisagem.

 Se não há vegetação,
eu me esborracho no chão
e ali desloco  a terra.
A erosão, então, se forma 
e junto com outras gotas,
vamos levando conosco
muita terra, pedras, paus.
Ao empaparmos o solo,
ocorrem deslizamentos.

Descontroladas, selvagens,
jorramos de grandes alturas
nas quedas das cachoeiras
inundando tudo.

As enchentes, transbordando,
fertilizam as margens dos rios.


 
Com os torós sobre as cidades,
Também há  inundações.
Enxurradas volumosas
vão formando espirais,
ao entrarem nos bueiros,
mergulharem nas bocas-de-lobo
das redes de drenagem.
 

Quando  penetro  no solo,
 eu umedeço a terra.

Vou entrando devagar,
me infiltrando lentamente,
por dias, meses e  anos.

Pelo reino das minhocas,
pelas tocas dos tatus,
pelos ninhos das formigas,
pelos buracos das cobras,
vou passando cá e lá,
 por cima e por baixo das raízes,
num tecer a teia líquida
nos subsolos escondida.

*Ilustrações de Maria Helena Andrés

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segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

LIVRO SOBRE A ÁGUA III


Dando continuidade ao Livro sobre a água, de autoria de Maurício e Aparecida Andrés, transcrevo o trecho abaixo.

Se na Terra o clima é instável,
o inverno e o verão,
a seca e a estiagem
e a época das chuvas
ficam  muito irregulares.


Tudo isso me perturba.
Sou sensível às mudanças
e às bruscas transformações.


Na história de nosso planeta,
houve períodos mais frios,
longas idades do gelo;
houve períodos mais quentes,
em que o degelo ocorreu.


Sou a resposta principal
de que a natureza se vale,
para reagir ao aquecimento
gerado por ciclos solares
e  gases da atmosfera,
que aumentam o efeito estufa.



O calor muda meu ciclo
e  minha distribuição.
Como já deu pra notar,
tudo  irá depender
do clima e do meio ambiente:
se derreto, se evaporo,
se vou pros rios e mares,
ou se penetro nos solos,
nos corpos dos seres vivos,
se me misturo no ar,
ou  circulo nos oceanos
em correntes  frias  e quentes
que influenciam os climas.


Quanto mais cresce o calor,
mais importante eu sou:
na indústria, na agricultura
em casa, na mesa e nos copos,
 nos corpos dos seres vivos.
 
 Como se pode concluir,
sou uma e também sou muitas:
sólida, líquida, gasosa,
superficial, subterrânea. 

Entre as funções que eu cumpro,
Nenhuma é menos que a outra,
nenhuma é a mais importante.
Todas são essenciais.


Quando se pensa na Terra
de uma forma mais geral,
deve-se lembrar que eu ocupo 
2/3 de sua superfície ;
97%  são mares e oceanos
e 2%  é gelo dos glaciares
ou das regiões polares.


O 1% que sobrou é  água doce;
mas  só um pouquinho dela
pode ser  recolhida e usada
 por ter boa qualidade
e estar em local acessível.



Sendo assim, há que pensar
que se a Terra se aquecer
e fizer muito calor,
o degelo irá causar
estragos por toda parte.


E se fizer muito mais frio,
as águas se congelarão.
E a Terra conhecerá
mais uma era do gelo,
como ocorreu no passado.
Para evitar más surpresas,
terão que ser consideradas
todas as formas  variadas
de minha presença no mundo,
pois meu ciclo é integral.
E quanto à minha importância,
não foi, então, por acaso,
que me entrevendo, tão linda,
na umidade do ar
e no azul dos oceanos,
lá de longe, no espaço,
o astronauta exclamou,
ao vislumbrar o planeta:
- A Terra é azul!

Ilustrações de Maria Helena Andrés

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terça-feira, 7 de janeiro de 2020

LIVRO SOBRE A ÁGUA II

Dando continuidade ao Livro sobre a água, de autoria de Maurício e Aparecida Andrés, transcrevo o trecho abaixo:


Com o aquecimento global
que acontece atualmente,
este perigo é real ,
se repete muitas vezes.

Se acontecem terremotos,
posso virar tsunamis, 
ondas gigantes que rugem,
arrastando e devastando
o que acham no caminho.




Nos cumes das cordilheiras
e das montanhas mais altas,
há séculos fiquei congelada.


Mas quando o clima esquenta,
as geleiras se desfazem.

E nas grandes cordilheiras,
como é o caso do Himalaia,
enchentes podem ocorrer 
e  depois, vem falta d’água.

 Isto pode acontecer
na China, Nepal, Paquistão,
no rio Ganges, na Índia.
    
Uma nova  era  do gelo
pode  atingir a Europa,
caso a corrente do Golfo,
que é composta de água quente,
venha a desaparecer.

Haverá  migrações e conflitos,
perdas e sofrimento,
pois as pessoas em perigo,
sem a água pra beber,
tornam-se refugiadas.
Vão procurar outras terras                       
 para  viver com seus parentes.

*Ilustrações de Maria Helena Andrés

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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

LIVRO SOBRE A ÁGUA I


Recebi de Maurício e Aparecida Andrés o texto de um livro sobre a água, dirigido a crianças e jovens. Fiz uma série de ilustrações. Trechos deste livro irão compor as próximas postagens.

1.        No ambiente


Venha pra perto de mim
 escutar a minha história.
Vou lhe dizer quem eu sou,
contar-lhe minhas viagens
pelo universo e na Terra.

E também vou lhe mostrar
minha presença na vida
dos bichos, plantas e gentes.

Tente com a imaginação
colocar-se em meu lugar.
Que aventuras vai viver,
que surpresas vai achar!

 














Tenho a idade do universo.
Viajo pelas galáxias,
entre a poeira do cosmos.


Não fico igual, 
sou mutante!

Se faz  frio ou faz calor,
posso virar um cristal,
gotas líquidas
ou vapor.

 

Cruzo as órbitas de sóis,
de planetas e de estrelas:
a força deles me atrai.
Cometas riscam o céu:
feitos de rocha e metal,
poeira e cristais de gelo,
ao passar perto do sol,
absorvem seu calor.
O calor sublima o gelo,
que derrete e vira água;
misturada à poeira,
torna-se cauda comprida,
que a gente pode enxergar
passeando lá no céu.

No local em que apareço,
pode ser sinal de vida,
mesmo que seja em um planeta
situado muito longe!



Durante milhões de anos,
tive a forma de vapor.
Sou capaz de evaporar,
de mesclar-me aos  gases quentes.

Quando a Terra resfriou,
milhões de anos atrás,
condensando, me tornei
a massa líquida dos oceanos.



Transformei-me em chuva forte
que caiu por muito tempo. 



Como todos nós sabemos,
ao cair e escorrer
no chão, nos morros, nas rochas,
“água mole em pedra dura,
tanto bate até que fura!”

Tirei terra das montanhas,
e fui levando pra baixo,
provocando erosão,
juntando a terra nos vales.
Foi se formando o relevo
e a superfície da Terra,
das bacias hidrográficas
com suas belas cachoeiras,
rios, várzeas, corredeiras, 
lagos, brejos e oceanos.

Os mares e os oceanos
são como pontos de encontro:
para lá correm as águas
que vêm das chuvas,
das nascentes,
dos córregos,  dos rios.

Ali também brota a vida:
cavalos-marinhos, camarões ,
baleias e tubarões,
polvos, peixes coloridos.
 E os navios pirata,
que naufragaram um dia,
viram casas submersas
 para os  bichos aquáticos.
 Ali pode haver tesouros.
Em  minhas correntes,
frias e quentes,
já flutuaram garrafas
contendo mensagens de amor,
ou com mensagens de náufragos,
loucos pra serem encontrados.


Se me aqueço além da conta,
ganho muito mais volume.
Provoco cheias nos mares,
nos oceanos da terra,
inundo as áreas costeiras.

As chuvas se intensificam,
se transformam em temporais,
e mais uma vez, as enchentes,
os ciclones tropicais,
as encostas que deslizam,
 as barragens que se rompem,
são tragédias esperadas.

*Ilustrações de Maria Helena Andrés

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terça-feira, 24 de dezembro de 2019


CARTA À MINHA FILHA MARÍLIA


Hoje, abrindo as páginas do livro azul, onde tem uma síntese de meus trabalhos, deparei com aquela pintura Menina com papagaio que eu fiz quando você tinha dois anos. Todo um acervo de memórias me veio como um filme e este quadro marcou um grande salto na minha vida de artista.

Lembro-me perfeitamente. Nós morávamos na Rua Santa Rita Durão e eu, como aluna de Guignard, pintava flores, paisagens e quadros de crianças. Minha vida familiar começava com as crianças chegando e enfeitando a casa. Hoje, os bisnetos me dão muita alegria.

Mas, voltando ao quadro, lembro que ele me deu um prêmio muito importante e valioso. Anunciaram no jornal um grande prêmio para mineiros residentes em Minas. Pensei comigo: mineiros residentes e resistentes, porque pintar em Minas não possibilitava grandes premiações nacionais. Mas o prêmio era para artista mineiro residente. Por que não? Segurei minha filha Marília, em pé, na minha frente e disse: Vou pintar você. A menina estava de azul e segurava uma pipa colorida. Incentivada pelo objetivo do prêmio, realizei o quadro com muita energia e muito amor. E não é que ganhei o prêmio? Marília me deu sorte e me fez ganhar um prêmio muito importante.

Hoje, muitos anos se passaram. Marília está novamente em cena, carregando o troféu que me foi dado em São Paulo, já que eu não pude comparecer ao evento. Uma homenagem oferecida pela Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) pelo conjunto de minha obra.

Hoje, Marília é presidente do Instituto Maria Helena Andrés (IMHA), ela administra o Instituto, organiza exposições, escreve textos e faz curadorias. É professora de história da arte, pesquisadora, crítica e curadora de várias exposições dos artistas de Minas Gerais. Antigamente não havia curadores, hoje vejo que eles são muito importantes. Se desdobram estudando o trabalho dos artistas, selecionam as obras, escrevem textos curatoriais e organizam exposições.

Está aí uma pequena história da minha trajetória que eu mesma não tinha tido consciência: a sincronicidade de estar Marília carregando para mim duas premiações do mais alto nível. As coisas acontecem na vida, mas os fenômenos de sincronicidade nos passam desapercebidos. Eles são invisíveis, mas atuam no Eterno Agora, criando passado, presente e futuro num só movimento, que muitas vezes chamamos de coincidência. A menina de azul continua dentro do meu livro azul e o troféu está na minha sala, fazendo lembrar o prêmio de São Paulo, oferecido pela ABCA.

Agora, uma nova menção, desta vez vinda de Houston, onde participo com uma pintura da coleção de Adolpho Leirner. A mensagem, vinda dos EUA, foi enviada por Corina Rogge, pesquisadora do Museu de Houston e amiga de Marília: “A pintura Fantasia de Ritmos de sua mãe foi escolhida para ser estudada por muitos alunos da Universidade de Houston. Os estudantes escolheram esta obra como tema de seus trabalhos porque eles sentiram o lirismo da pintura. O trabalho de Maria Helena continua sendo um tesouro aqui em Houston”.

A menina de azul da época de Guignard e Fantasia de Ritmos do período construtivista se encontraram no tempo com um denominador comum: o lirismo.

*Fotos de arquivo

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terça-feira, 17 de dezembro de 2019


ISAURA PENA, UMA REFLEXÃO ECOLÓGICA


Terça feira é o dia do Euler me acompanhar. Ele vem da fazenda trazer verduras orgânicas para vender em BH. É interessado em ecologia e meio ambiente. Convidei-o para visitar a exposição de Isaura Pena, na Galeria Celma Albuquerque.
Logo à entrada da galeria ele me mostrou uma árvore muito especial, o Pau Mulato.
Lá dentro, outras árvores desenhadas em tamanhos diversos, desde as raízes até as copas, registravam um intercambio entre Brasil e Portugal.
A história das árvores brasileiras que foram para Portugal e outras portuguesas que vieram para o Brasil é contada por historiadores e pesquisadores. Agora ela começa a ser contada pelos artistas conceituais.
Arte conceitual parte de uma idéia e desenvolve aquela idéia através de textos, desenhos ou instalações.
A exposição de Isaura é uma instalação com base na ecologia. Os desenhos registraram também os desenhos das águas em Minas Gerais, um percurso que nos remete a outras reflexões. A árvore depende da água para sobreviver e é através dela que a chuva chega até nós. Sem árvores por perto as nascentes morrem. Lembro-me de uma vereda em Brasília cercada de vegetação. Dali nasce um pequeno córrego, depois transformado em rio e assim chega até o mar. Numa seqüência de mudanças e viagens pela terra, a presença da árvore é uma constante. Constatar o intercâmbio entre Brasil e Portugal e o percurso do rio São Francisco foi a minha percepção da proposta de Isaura.
A exposição é todo um hino às árvores.
Isaura esteve em Portugal, estudou 4 anos em Coimbra e ali defendeu tese de doutorado. É doutora e artista de grande sensibilidade. Hoje, como professora da Escola Guignard transmite não somente idéias teóricas mas também sai e conhece o desenho com experiência de vários anos.
Acompanhamos os passos de Isaura registrando no papel raízes, troncos e copas de árvores.
Em novembro de 2018 a artista esteve em Portugal e ali montou uma exposição na Galeria Primer. Os desenhos em grandes dimensões foram feitas numa “Quinta” perto de Lisboa, onde ela organizou seu atelier. A idéia das árvores partiu dali, desenhando o seu entorno.
Uma parte dos desenhos ficou em Portugal, outros desenhos vieram para o Brasil. Na exposição eles estão figurando na parede lateral. Ali estão também os registros do caminho do rio, circulando, trazendo benefícios para a terra e fazendo crescer outras árvores.
O caminho de todo artista é também um caminho cheio de curvas, de encontros e perdas. Um caminho que circula como o rio, beneficiando a terra por onde passa.
Saímos da exposição e o Euler fotografou a árvore plantada em frente, do outro lado da rua.
*Fotos de Isaura Pena
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