segunda-feira, 17 de dezembro de 2018


A FLAUTA DE ALEXANDRE


Seguimos
Pela estrada
Mandando
Mensagens
Telepáticas
Para os carros
Andarem
Mais rápido.

Chovia devagarinho
Molhando os vidros
Do carro.
Em nossa frente
Uma fileira
De luzes
Vermelhas acesas
Dentro da neblina.
Chegamos com
Algum atraso na
Universidade.
Ali estava
Meu neto
Alexandre
No meio do
Palco.
Tocando uma peça
De Mozart.

Me lembro do
Alexandre
Aos doze anos.
Tocando Mozart
Junto com Artur
Seu pai.
Foi na casa de
Marília
No meu aniversário.
Empolgou a plateia
Com sua flauta
Em duo com o
Pai.

Os dois me acompanham
Nas exposições
E nos grandes eventos
De minha vida.
Sempre a flauta
Elevando as vibrações
Para o alto
Como um gorjeio
De pássaros.

No momento
Alexandre
Está sozinho
No palco circular
Da Universidade.
O concerto é uma
Prova de doutorado.
Foi realmente emocionante
Sentir o neto
Trazendo energia positiva
Para a plateia.
E se preparando
Para ser doutor...

*Fotos de arquivo

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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018


ARTE NO COTIDIANO


Na zona rural, o aproveitamento de objetos para outra finalidade é comum. Assim, uma banheira daquelas antigas, pode se transformar em bebedouro para o gado. Já vi muitas vacas bebendo água nas banheiras e fiquei pensando: as madames de antigamente já tomaram seus banhos, depois as banheiras caíram em desuso, agora estão matando a sede das vacas.

Uma das características mais positivas da arte contemporânea é a sua profunda ligação com o cotidiano e com a vida.

É o mundo interno do ser humano que precisa vir à tona e ser conscientizado.

No Oriente esta conscientização é feita através da meditação e do autoconhecimento.

No Ocidente a ação criadora das artes promove a abertura de consciência e o crescimento interno.

A inteligência emocional se expressa de forma espontânea, nas obras de arte ligadas à emoção – expressionismo, fovismo, abstracionismo, ora lírico, ora informal e violento, trágico ou pessimista.

A inteligência mental se organiza nas composições concretistas, construtivistas, cubistas, etc.

Foi necessário um esvaziamento de todas as tendências para que a arte chegasse até o cotidiano.

Foi preciso a dessacralização dos ícones e a quebra do mito do artista.

Para descer ao cotidiano, a arte teve de abrir mão do seu caráter elitista.

Qualquer objeto, por mais vulgar que seja, tem a sua própria dignidade e nas mãos do artista pode ganhar novas formas.

Escutei o depoimento de uma professora: meus alunos ficaram radiantes diante de uma exposição contemporânea. “Podemos criar com latinhas, caixotes, isso nós temos em casa...”

Hélio Oiticica uniu sua energia de criatividade a um bloco carnavalesco.

Quando a arte se dessacraliza e se confunde com a vida, já não pode mais ser analisada nos termos tradicionais de arte, ela é a própria vida se manifestando.

*Fotos da internet

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segunda-feira, 26 de novembro de 2018


MINHA PARTICIPAÇÃO NO CONSTRUTIVISMO BRASILEIRO


Pediram-me para fazer uma palestra no CCBB de Belo Horizonte sobre a minha participação no movimento construtivista brasileiro, como representante de Minas Gerais. O texto abaixo é uma síntese de todos os meus artigos já publicados sobre o assunto.

A exposição Construções sensíveis: A experiência geométrica Latino-Americana na coleção ELLA FONTANAIS-CISNEROS, traz ao Brasil um recorte da abstração em nosso continente. Junto ao importante legado do concretismo e neoconcretismo brasileiros, são apresentadas as poéticas abstratas que prosperaram em outros países a partir dos anos 1930.”(Extraído do catálogo da exposição Construções Sensíveis, no CCBB de Belo Horizonte)

Percorro uma exposição que nos remete ao passado, ao Construtivismo que percorreu o mundo  e veio nos mostrar o quanto somos irmãos. Realmente, somos parecidos, mesmo que não tenhamos tido a oportunidade de um encontro pessoal. Existe o encontro espiritual, encontro de sensibilidades semelhantes. O construtivismo vai nos mostrando a identidade dos  artistas. Ele veio da Europa e encontrou na América Latina seus irmãos espirituais.

Os construtivistas europeus vieram da Rússia, desceram até a Alemanha e a França, e, por motivo de guerra, chegaram às Américas.

Os Estados Unidos  acolheu os imigrantes artistas, tais como Mondrian.  Ali ele se redescobriu, ficou famoso.

A Argentina e o Uruguai receberam a mensagem construtiva, através da arte e do pensamento de Torres Garcia e Maldonado. Torres Garcia  buscava o espiritual na arte e a redescoberta dos povos primitivos das Américas.

O Brasil tornou-se o grande difusor das ideias construtivas. No nosso solo floresceram artistas plásticos, poetas, críticos, tendo a Bienal de São Paulo como a grande difusora.
O construtivismo chegou até as montanhas de Minas e ali encontrou jovens artistas que aderiram ao movimento.

Fiz parte deste movimento.

O Construtivismo na década de 50, nos propunha disciplina, concentração, limpeza de cores, uma arte mental, intimista, sem impulsos emocionais. Cultivava-se a virtude da paciência. Os quadros levavam meses para serem feitos e o instrumento usado na época para se conseguir uma linha perfeita era uma espécie de caneta ou bisturi, chamado tira-linhas, instrumento gráfico em desuso hoje em dia, na era do computador. Com as linhas paralelas eu fazia postes de luz e partituras musicais. Gostava de ficar horas pintando, porque me fazia bem à alma.
Passar pelo construtivismo foi para mim uma lição de vida. O fazer artístico significava crescimento. A integração de varias áreas das artes, necessária a uma revisão de valores, era um dos pontos mais importantes do movimento construtivista que surgiu a partir da primeira Bienal de São Paulo. Poetas, músicos e pintores se uniam dentro do mesmo ideal estético dando prioridade à pureza da forma. O grande incentivador do construtivismo  foi o crítico de arte Mário Pedrosa, que visitava os artistas em seus ateliês e muitas vezes chegava até Minas Gerais para acompanhar o trabalho dos artistas mineiros que buscavam uma arte pura, desligada dos padrões figurativos. Os júris de seleção das primeiras Bienais, que às vezes eliminavam 90% dos trabalhos apresentados, eram o grande teste a ser enfrentado. Naquele tempo não existiam curadores de arte e os artistas se dispunham a passar por essa experiência.
A aprovação na Bienal era a minha chance de descer das montanhas e viajar para São Paulo, encontrar os amigos companheiros de jornada, participar dos eventos internacionais e estudar o pensamento dos grandes artistas abstratos europeus. Trocava ideias com os paulistas Maria Leontina, Milton Dacosta, Arcângelo Ianelli e Volpi. Todos tínhamos vindo de antecedentes figurativos e isto transparecia em nossos trabalhos. Não havia a preocupação matemática dos concretistas suíços, seguíamos o comando da sensibilidade e da intuição. Naquela ocasião as ideias espiritualistas de Kandinsky começaram a me acenar como uma estrela luminosa. Os grandes pintores abstratos europeus, principalmente os da vanguarda russa, não se limitavam aos aspectos formais; tinham uma busca interior, um contato direto com níveis mais profundos de consciência.

 O rompimento com a figura e o tema indicaram também direções novas para a escultura brasileira. A exposição do artista suíço Max Bill no Museu de Arte de São Paulo em 1950, impulsionou a nova geração de escultores ao questionamento dos moldes tradicionais da escultura figurativa, para abraçar a forma tridimensional pura. Do grupo de Minas, três artistas escultores aderiram ao movimento: Amílcar de Castro, Franz Weissmann e Mary Vieira. Mais tarde, Mary deixou o Brasil para se radicar na Suíça, onde se tornou uma aluna e seguidora de Max Bill vindo a ser uma artista de renome internacional.

Repensar o construtivismo  é também repensar os caminhos por onde passamos. Aqui em Minas Gerais a nossa visão da arte vinha dos antecedentes líricos de Guignard. Um pequeno grupo se reunia no ateliê de Marília Gianetti, projetado pelo arquiteto Sylvio de Vasconcellos. Marília Gianetti, Mário Silésio, Nely Frade e eu formávamos o grupo de pintores que na década de 50 encontraram o seu próprio caminho dentro da arte não figurativa.

No Museu do Índio, no Rio de Janeiro, procurei observar com atenção os caracteres geometrizados em todo artesanato indígena, nas cestarias, cerâmicas e até na pintura corpórea. Muito antes da chegada dos europeus, mergulhados nas florestas, seguindo o ritmo natural da vida, os índios buscavam o equilíbrio também em suas manifestações artísticas.
Observavam a pele dos animais, onças, lagartas e dali partiam para a busca da ordem e da simetria em seus padrões geométricos.
Nossos antepassados se manifestavam de forma construtiva, um construtivismo orgânico e espontâneo.

 O construtivismo brasileiro também buscou alcançar este equilíbrio e ordem. O movimento construtivista que se propagou pelo Brasil na década de 50  foi uma integração  perfeita do que veio da Europa com o que já existia dentro de nós.
O construtivismo sensível não acaba nunca, porque ele é o mensageiro de uma paz que existe dentro de todos nós.
Esta paz, os artistas buscaram por meio de obras de grande beleza e serenidade.
O desejo de paz veio à tona numa época de grandes guerras.
Duas grandes guerras na Europa, várias ditaduras pelo mundo.
Todos passaram para a história, os artistas morreram, mas sua arte continua viva, trazendo até nós o desejo da paz que os inspirou.

O construtivismo é uma meditação.
Mergulhados no silêncio de sua própria interioridade os artistas transcenderam a violência e a opressão.
Percorrendo as salas desta exposição vou sentindo cada vez mais o poder da arte de transmutar energias.  Revejo os Bichos de Lygia Clark, os Metaesquemas de Hélio Oiticica, as telas construtivas de Volpi e Ivan Serpa, os objetos de Ana Maria Maiolino e Mira Schendel.

Caminhar pela exposição é encontrar as origens, a expansão e o sentido deste movimento que percorreu o Brasil na década de 1950.

No momento, todo o meu trabalho está inspirado no que eu fiz nos anos 50. Os meus desenhos construtivistas da década de 50 foram tridimensionados com a ajuda de minha neta Elena Andrés Valle, transformando-se em esculturas de aço. Recentemente, retomei o construtivismo de uma forma mais espontânea, através de uma série de colagens.

*Fotos de arquivo

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segunda-feira, 19 de novembro de 2018


CELSO RENATO, 100 ANOS


A série de pinturas construtivas de Celso Renato, no momento em exposição na Grande Galeria do Palácio das Artes marcou a sua presença definitiva no cenário das artes plásticas de Minas e do Brasil. Percorrendo a mostra, reproduzo aqui trechos dos depoimentos de Claudia Renault, Marcio Sampaio e Amílcar de Castro, amigos do artista e admiradores de sua obra.

 “Celso aparece nos anos 60, no cenário das artes de Belo Horizonte, já como um homem maduro, com uma pintura expressionista, com traços fortes e largos. A ideia é de um sujeito à procura de si, da sua alma, na maneira mais íntima de se expressar.
É nesse momento que as coisas do mundo começam a conversar com ele. Celso parece escutar o silêncio e outros materiais que não a tela. Nessa hora ele revela a sacralidade das coisas mais rudes. É com um gesto mínimo, certeiro, de quem lança uma seta, que Celso Renato inicia suas intervenções nas madeiras – restos de materiais de construção civil. Uma vez que o material utilizado já carrega em si texturas, falhas, pregos, Celso inclui esses materiais e cria uma relação muito especial entre sua proposta geométrica e a organicidade do suporte. É nesses tapumes que o artista enfatiza as formas e revela a sacralidade e a verdadeira alma das coisas. Nessa hora lembro-me de Manoel de Barros ao dizer que as “coisas sem importância são bens de poesia”. Celso Renato me ensinou isso antes de Manoel. Ele retira do refugo da madeira e trava com ela um diálogo. Nesse diálogo amoroso com a matéria, dá vida ao que já estava perdido.
É com suas interferências com a madeira que Celso marca presença nas artes plásticas do Brasil e do mundo. Estabelece uma conversa com deuses e ancestrais. Formas e cores puras que nos remetem a rituais, conversas veladas com povos que fazem arte com verdade, como religião, como necessidade de registro da existência.” (CLAUDIA RENAULT, curadora)

“O trabalho atual de Celso Renato parte dessa experiência, desse diálogo com a matéria. Sua arte só é possível na medida em que a matéria respondeu a seu apelo e se entregou totalmente para que a mão a detenhe e a transforme.. O suporte é a madeira que ele encontra nas construções – já usada, recosturada, escarificada pelo uso e condenada à deterioração – e que o artista recupera , modificando-a com traços, formas pintadas, sempre seguindo as sugestões que lhe trazem as erupções naturais e os acidentes sofridos antes pela própria matéria.” (MARCIO SAMPAIO)

“É madeira de construção
Cheia de sinais, riscos e ranhuras
Frinchas, frestas, buracos e rachaduras
São algumas tábuas juntas a martelo
Com pregos aparentes
Às vezes aparecem pedaços como tramelas
Tramelas de portas que não se abrirão jamais.
Como se guardando imenso segredo perdido
Segredo agora revelado
E que mostra o caminho dia
Da noite
Do sol esquecido
Que volta a nos envolver
Na música de tambores longínquos” (AMILCAR DE CASTRO)

Fotos de Ivana Andrés

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segunda-feira, 5 de novembro de 2018


ARTE NA CONTRA CULTURA II


Dou continuidade ao artigo "Fluxus", que escrevi para o jornal "O Estado de Minas".

“Fluxus” pode ser considerado exemplo da busca do humanismo na arte. Segundo a apresentação da exposição, “Fluxus” nasceu em 1961, a partir da liderança do lituano George Maciunas, tendo como origem a rejeição aos valores que cercavam as “artes eruditas” e o caráter comercial que dominou o mercado internacional de arte após o fim da Segunda Guerra Mundial. “Fluxus” foi o último grande movimento coletivo de artistas em torno de ideias de transformação da cultura e da sociedade. Maciunas dinamizou o movimento de contracultura, valorizando a criatividade que existe em qualquer ser humano.

O descondicionamento de receitas e fórmulas que aprisionam a arte e a mudança dos valores tradicionais permitiram que aquele movimento se estendesse às pessoas comuns, sem qualquer ligação com críticos, marchands ou professores de arte. Maciunas escreveu um manifesto verificando no dicionário o significado da palavra “fluxo” selecionando todas as definições que tinham conotações de mudança, purificação, fluidez e fusão.

Participaram daquele movimento artistas como Yoko Ono, George Brecht, John Lennon, Roberts Morris, Joseph Beys e vários outros, que integraram festivais, debates e exposições.

A mensagem de “Fluxus” ultrapassou as fronteiras da Europa.
Havia no mundo a necessidade de protestar contra o consumismo, o imperialismo e as guerras, contra o massacre de inocentes e o crime organizado em forma de poder.
Quem contempla a exposição pode sentir a denúncia explícita dos grandes criminosos de guerra do nosso tempo, sedentos de expansão. George Maciunas lançou sua denúncia contra a violência, os massacres realizados pelos nazistas na Europa, o genocídio dos índios americanos pelos espanhóis e o sofrimento da população civil na guerra do Vietnã.

Ao mesmo tempo que denunciou a opressão como impressionante bandeira da morte, também levantou a bandeira da paz, com o incentivo ao budismo zen e às práticas de meditação. A meditação busca o ser interno e a intuição que está além da mente fragmentada. O budismo zen não é uma religião, mas incentiva um modo de viver criativo e espontâneo. Chegando aos EUA na década de 60, as práticas de meditação ganharam adeptos em vários artistas da Action Painting ou expressionismo abstrato e nos jovens que largaram o conforto das famílias, o consumismo e os bens materiais para viverem em comunidade.

Os Beatles trouxeram da Índia práticas de meditação e, através da música, divulgaram sua mensagem de “paz e amor”. Era necessário vivenciar o “agora”, o eterno presente”, e saber viver de forma simples e despojada.
A importância dos movimentos de contracultura está no fato de que eles promovem mudanças no comportamento passivo da sociedade, abrem indagações, despertam novos horizontes.

“Fluxus” me fez refletir mais uma vez sobre a capacidade intuitiva dos movimentos artísticos que, movidos por um impulso energético universal, buscam a libertação da violência e a harmonia planetária.

*Fotos da internet

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segunda-feira, 29 de outubro de 2018


CONSTRUÇÕES SENSÍVEIS NO CCBB


A exposição Construções sensíveis: A experiência geométrica Latino-Americana na coleção ELLA FONTANAIS-CISNEROS, traz ao Brasil um recorte da abstração em nosso continente. Junto ao importante legado do concretismo e neoconcretismo brasileiros, são apresentadas as poéticas abstratas que prosperaram em outros países a partir dos anos 1930.”(Extraído do catálogo da exposição Construções Sensíveis, no CCBB de Belo Horizonte)

Percorro uma exposição que nos remete ao passado,
ao Construtivismo que percorreu o mundo  e veio nos mostrar o quanto somos irmãos.
Realmente, somos parecidos, mesmo que não tenhamos
tido a oportunidade de um encontro pessoal.
Existe o encontro espiritual, encontro de sensibilidades semelhantes.
O construtivismo vai nos mostrando a identidade dos  artistas.
Ele veio da Europa e encontrou na América Latina seus irmãos espirituais.

Os construtivistas europeus vieram da Rússia, desceram até a Alemanha e a França, e, por motivo de guerra, chegaram às Américas.
A América acolheu os imigrantes artistas, como Mondrian.
Ali ele se redescobriu, ficou famoso.
A Argentina e o Uruguai receberam a mensagem construtiva, através da arte e do pensamento de Torres Garcia.
Ele buscava o espiritual na arte e a redescoberta dos povos primitivos das Américas.
O Brasil tornou-se o grande difusor das ideias construtivas.
No nosso solo floresceram artistas plásticos, poetas, críticos, tendo a Bienal de São Paulo como a grande difusora.
O construtivismo chegou até as montanhas de Minas e ali encontrou jovens artistas que aderiram ao movimento.

Revejo nesta exposição os Bichos de Lygia Clark, os Metaesquemas de Hélio Oiticica, as telas construtivas de Volpi e Ivan Serpa, os objetos de Ana Maria Maiolino e Mira Schendel.
Dá vontade de chegar perto, tocar e participar.
Mas o Bichos estão resguardados por vidros protetores.
Caminhar pela exposição é encontrar as origens, a expansão e o sentido deste movimento que percorreu o Brasil na década de 1950.
Fiz parte deste movimento.
Nunca me senti tão bem numa exposição de arte.
Dá vontade de ficar olhando cada quadro, cada escultura, cada desenho ou gravura.
Seus autores já partiram para outro plano, mas deixaram sua obra como testemunho de sua passagem pelo planeta.

O construtivismo sensível não acaba nunca, porque ele é o mensageiro de uma paz que existe dentro de todos nós.
Esta paz, os artistas buscaram por meio de obras de grande beleza e serenidade.
O desejo de paz veio à tona numa época de grandes guerras.
Duas grandes guerras na Europa, várias ditaduras pelo mundo.
Todos passaram para a história, os artistas morreram, mas sua arte continua viva, trazendo até nós o desejo da paz que os inspirou.

O construtivismo é uma meditação.
Mergulhados no silêncio de sua própria interioridade os artistas transcenderam a violência e a opressão.
Percorrendo as salas desta exposição vou sentindo cada vez mais o poder da arte de transmutar energias.
Os movimentos políticos passam, mas a arte permanece.

*Fotos da internet

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segunda-feira, 22 de outubro de 2018


A VENDEMMIA


O texto abaixo foi retirado de uma carta da Teresa , minha neta, filha do Euler e Iara. Teresa nasceu e foi criada na fazenda Luiziania, em Entre Rios de Minas. Casou-se com Alberto Sica, professor de uma escola antroposófica na Toscana, Itália. É uma região com paisagens lindas, semelhantes às nossas, do Campo das Vertentes, onde ela nasceu. A colheita de uvas na Itália é uma tradição daquele país.

“Semana passada terminei a “Vendemmia”, a colheita das uvas para fazer o vinho. Adoro a ideia que existe um verbo (e um substantivo, claro) para essa atividade. Eu vendemmio, você vendemmia... A tradução é livre mas a palavra é usada. E dá toda uma cor diversa ao início do outono aqui na Toscana. É um período particular, e todo mundo de alguma maneira sabe o que está acontecendo. Você pode chegar atrasado a algum compromisso porque encontrou um trator com uma carreta de uvas pela estrada (se formam filas enormes atrás deles), ou a sua casa vem invadida pelo perfume da fermentação.  Parece um eterno pão de “pasta madre” no forno.
Tem carros estacionados nos lugares mais estranhos e você acaba vendo umas cabecinhas no meio do vinhedo.

 Eu tinha feito a “Vendemmia”  6 anos atrás, quando a Itália ainda era uma viagem com data de ida e volta.  Me lembro que na época fiquei impressionada, mas não entendia nada do que eles falavam, apesar de já saber um pouco de italiano. Realmente não é suficiente conhecer  o italiano para isto, principalmente na Toscana. Me explico contando sobre as pessoas que trabalham na “Vendemmia”. O mais normal é encontrar velhos (e velhas) toscanos neste trabalho, além de jovens, muito jovens.  Claro que no momento existe uma grande mudança no perfil da mão de obra e essa matemática não é sempre correta. Mas a base é esta: velhos misturados a jovens. Os velhos porque têm um conhecimento e uma força de resistência tal, que são capazes de trabalhar mais que os jovens. Os jovens porque ainda não têm um trabalho estável. Para quem não sabe, a língua italiana nasceu do dialeto toscano, porque os grandes escritores da antiguidade italiana eram toscanos. Isso pra dizer que o toscano pensa que fala bem o italiano e acaba por misturar palavras italianas com o dialeto, além de omitir alguns sons. O toscano é famoso também por dizer muito palavrão. Na verdade não é palavrão mas bestemias (não lembro se tem em português esta palavra, é quando você usa palavras santas com um sentido de palavrão). Então dá pra imaginar qual é o clima da “Vendemmia” : os velhos é que dão o ritmo e os tons, com uma língua cheia de palavras típicas, entre palavrões e brincadeiras de conotação sexual. Sim, este é o outro hit da “Vendemmia”, não me entendam mal, nada exagerado, mas sempre com um pouco de malícia. Alguns defendem que é para passar o tempo. Mas todos estão de acordo sobre o mesmo ponto: aquilo que é dito nos vinhedos fica dentro dos vinhedos. É quase uma seita.

Uma seita não é, mas tem algo de místico na “Vendemmia”. A uva, essas filas de parreiras longas, o sol do outono que já é diferente, a exaustão do corpo físico, tudo junto te leva a um estado de felicidade estranha, parece uma realização antiga, como uma homenagem a um deus. No caso seria Baco.

Depois tem o gosto especial de saber que daquele trabalho vai vir um vinho, melhor ou pior, dependendo de tantos fatores. Alguns deles você vai aprendendo enquanto colhe.  Se  choveu muito e tem muito mofo na uva, se deve-se  colher uma certa uva (que dá cor) e com qual outra uva misturar. Se a uva de ontem está fermentando bem. Enfim, aqui começa um outro mundo.

Estar nos vinhedos me deu as melhores vistas da toscana. E tantas vezes me vinha vontade de dividir essas "imagens" com pessoas queridas, tantas das quais passaram por aqui este verão.  Mas o melhor jeito de relembrar essa experiência será tomarmos  juntos o vinho “Majnoni safra 2018” (sem nenhuma intenção de fazer publicidade).
Avoé bacantes! (não era assim a saudação do reino de Baco?)

Um abraço,
Teresa.”

*Fotos de arquivo e da internet

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segunda-feira, 15 de outubro de 2018


ARTE NA CONTRA CULTURA I


Em 2003 publiquei o artigo abaixo no jornal “O Estado de Minas”, seção “Pensar”.

Uma exposição no Centro Cultural do Banco do Brasil, em Brasília, acenava com um grande cartaz: “Fluxus”. Caminhei despreocupada em sua direção, sem ter programado com antecedência. À porta, comprei uma camisa com uma enorme seta e a legenda “Fluxus”. Afinal, pensei, já vestida com a camisa, o que será “Fluxus”? Lá dentro, meninas vestidas de preto com botas alaranjadas conduziam grupos, explicando o significado das obras. “Então, qualquer um de nós pode ser artista?”, indagou uma senhora, entusiasmada com a ideia.

Acompanhei com curiosidade os debates, sem me apresentar. Aquelas ideias me tocavam de perto, lembravam meu próprio posicionamento sobre a comercialização da arte, os happenings dos anos 60, os domingos de criação que possibilitavam a todos a oportunidade de criar. Aos poucos fui me sintonizando com as ideias do grupo, refletindo sobre o que já havia escrito na década de 70 no meu livro “Os Caminhos da Arte”:

“Quadros não são feitos para combinar com tapetes e cortinas, nem para ser colocados como títulos na bolsa de valores do mercado de arte. A preocupação comercial leva o artista a concessões imperdoáveis, que o fazem esquecer a razão de ser da arte como força vital da civilização, para colocá-la no plano da especulação comercial. O valor de um trabalho artístico, suas qualidades expressivas, não se limita a números e cifrões, mas alcança lugar que lhe assegura realmente a permanência no tempo e sua equiparação com as demais artes.

Assim como a música e a poesia, também o quadro que vemos numa exposição contém toda uma vida de lutas e experiências. Não se podem separar as inquietações da alma humana, seus momentos de sofrimento ou alegria, de violência ou de paz, de revolta ou de submissão, daquela forma que espontânea e diretamente lhe sai das mãos.

A Arte é a mais pura manifestação da liberdade, hoje tão limitada à mecanicidade do mundo moderno. Toda e qualquer forma de imposição, ao atingir o domínio da arte, impede-lhe o progresso e a conduz à mediocridade. O sentido de liberdade é expresso com grande veemência por meio da arte, porque ela se fundamenta e nasce num clima no qual a opressão não tem lugar. Pode-se proibir o homem de falar, mas nunca de sentir. A arte é a expressão do sentimento humano, desse sentimento tantas vezes bloqueado por slogans e rótulos, mas que desperta quando se desenvolve a capacidade de inventar, de renovar, de contatar a essência do próprio ser. O verdadeiro humanismo brota das mãos dos artistas e da alma dos poetas, dos cineastas, dos escritores, dos músicos, que proclamam espontaneamente a compreensão entre os povos. O humanismo autêntico tem suas raízes no sentimento, e não na razão.”

No Brasil, o artista pernambucano Paulo Brusky, integra o movimento “Fluxus” com suas instalações e performances de contracultura.

*Fotos da internet

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terça-feira, 9 de outubro de 2018


AS PEDRAS DE VIRGINIA WOOLF


Recebi de Ivana Andrés o texto abaixo, sobre o espetáculo “As pedras de Virgínia Woolf”, encenado no Teatro da Cidade, integrando o Festival de Teatro Mínimo. Nesta peça, Ivana faz o papel da própria Virgínia.

 A complexidade e riqueza da vida e da obra de Virgínia Woolf possibilita a escolha de  diferentes caminhos, conduzidos por diferentes motivações. Após a leitura de alguns livros da autora e também sobre ela, (inclusive roteiros cinematográficos), é possível apresentar algumas motivações ligadas à questões essenciais de qualquer ser humano. Questões que acontecem em qualquer época e lugar. Semelhanças ou coincidências?
Um espetáculo teatral, seguido de debates e vivências motivadoras sobre o tema do feminismo, da diversidade de gênero, do amor pela literatura,  do sofrimento infligido às pessoas pela guerra e pelo fascismo e também sobre a morte por escolha própria, o suicídio. E o renascimento, como pessoas ou personagens de um livro ainda por ser escrito.

Um encontro imaginário de Virgínia Woolf com Leonard Woolf, seu marido  e com personagens de suas obras, no fundo de um rio, onde a escritora se afogou, usando pedras nos bolsos do casaco.  As pedras, na concepção deste espetáculo são seus próprios livros, que revolucionaram a escrita de sua época, a primeira metade do século XX. Personagens de alguns de seus livros deveriam aparecer como elementos materializados de sua própria consciência, criarem vida própria e questionarem a sua própria existência, a razão de terem sido criados pela autora. Virgínia deveria lhes responder revelando sua própria vida, suas angústias, revoltas e anseios e de como o seu trabalho era a forma quase exclusiva de superação. Mas isso não acontece. É mais importante levantar outras questões e envolver a platéia, as pessoas que vivem agora, com os atores, as atrizes, com a realidade que espera por todos nós lá fora. E isto quem faz é o diretor. Não há tempo para descrever, contar histórias, distrair a atenção para o mais importante: a volta da direita em âmbito mundial. E os personagens, líricos, apaixonados, voltam para seus livros, para serem abertos, quem sabe, pelo espectador, curioso em desvendar suas histórias?

Resta a sua vida, real, vivida com personagens reais, pessoas físicas, encarnadas em Leonard Woolf, seu marido. E o encontro acontece também no fundo do rio. Existe a vida pessoal de ambos, as depressões de Virgínia, os surtos. Existe nela a revolta contra o machismo e o patriarcado, e seu amor pelas mulheres. E existe a descoberta de si mesma como ser andrógino, homem e mulher ao mesmo tempo. É o feminismo metafísico, quando a mente é fertilizada e usa todas as suas possibilidades.
Juntos relembram os tempos de juventude, a criação do Grupo dos Bloomsbery, que marcou presença na Cultura Inglesa do início do século XX, estendendo-se por décadas e criando uma nova estética e uma nova ética. É  a revolução dos costumes, reação à moral vitoriana, que encontraria seu apogeu nos anos 60, com a revolução Hippie.

 Virginia revela seu amor pela literatura e sua frustração por não ter mais um público que lhe dava alimento para o trabalho e razão de ser para sua existência. E ambos “morrem” novamente, para imediatamente renascerem como outras pessoas e outros personagens, duas meninas com traços de outras existências, mas com uma imensa vontade de compreenderem juntas a  razão e sentido da vida humana, com esperança de reescreverem  suas próprias vidas.

Todos os personagens de seus livros e o próprio Leonard são interpretados por uma única atriz, Vânia Campos, que faz tanto papéis femininos quanto  masculinos.
A concepção cenográfica revela um lugar escuro invadido por uma enchente. Tanto pode ser o fundo de um rio, quanto o “umbral”, lugar sombrio descrito pelos espíritas, como aquele conduzido pela consciência dos suicidas. Lá Virgínia lê a conhecida carta de despedida dirigida a Leonard, deixada por ela, enquanto é descrito um trecho do livro “Orlando” sobre um degelo ou enchente. Sobre uma catástrofe, imagem simbólica da sua própria tragédia.

*Fotos de Kátia Assis

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segunda-feira, 8 de outubro de 2018

terça-feira, 2 de outubro de 2018





FASE ESPACIAL I

Em 1969, por ocasião de uma exposição realizada em Belo Horizonte, solicitei ao poeta e diretor da Imprensa Oficial, Paulo Campos Guimarães, um texto para o catálogo, que transcrevo abaixo.

 “O melhor retrato do artista é a sua obra, porque nela se surpreende uma fisionomia moral. Por isso é que qualquer obra de arte, além de ser o testemunho da capacidade puramente intelectual do artista, é, sobretudo, a projeção de sua personalidade. Daí o acerto de Tolstoi, quando define a arte como a emoção relembrada. Nela corre o rio da comunicação estética de uma vivência.

         Maria Helena Andrés, na sua pintura de fuga à realidade bruta do mundo, procurando a estrela polar da paz, aparece de corpo moral inteiro, mostrando sua extraordinária vocação artística, com a graça divina do chamamento para esse recanto do mundo.

         Sua pintura é ela própria, nas suas concepções, na sensibilidade, no apurado sentimento de humanidade, na eterna fuga das coisas sem alma e dos fantasmas de toda espécie que povoam o profundo deserto da vida.

         A afirmação de sua forte personalidade e a impressionante unidade de sua obra artística emergem das cores vivas, mas transparentes, dos traços negros e incisivos, mas metálicos, de seus quadros. É que a realidade, circunscrita ao mundo material, não lhe basta. Ela, nas cores transparentes, quer ver além dos objetos e dos corpos. Nos traços metálicos, pretende iluminar essas realidades, com o brilho do espírito e da sensibilidade.

         Ainda, como Tolstoi, sua luta no campo da pintura é um romance de poesia no clima da guerra e da paz. Os capítulos épicos de seu ideário artístico são as próprias fases do seu trabalho criador. Começou pela figurativa, em que se aproxima de Guignard, distanciando-se da agressividade das coisas, através de retratos e paisagens do Parque. A angústia da artista dentro do mundo criou-lhe a revolta, na fase de deformação da figura humana. A guerra contra o lado mau do homem levou-a ao inevitável do abstracionismo, mas em atmosfera da busca desesperada de paz, na fase geométrica, pela pintura de cidades iluminadas, vistas de longe, e, na fase dos barcos, pelos quadros de viagem para o mar. O oceano, no entanto, não lhe deu a necessária tranqüilidade, que a artista só encontra na realização do seu sentimento do mundo. Nasceu, então, a rebelião do anjo da arte, traduzida nos quadros de guerra, definindo sua repulsa à destruição, porque, para ela, a civilização é a vitória da humanidade sobre a animalidade. A pintura de guerra feriu de tal forma a sua delicada sensibilidade que procurou refugiar-se na história, criando o misticismo das madonas barrocas, que parecem santas, com a conquista, pelo menos, da paz no passado. Esgotados os recursos da artista, na aventurosa pintura de guerra e paz, partiu para o quixotismo espacial. Não encontrando repouso na terra, habita hoje o mundo interplanetário, levando, em busca de paz, para longe da guerra permanente, os homens e as mulheres, na “Viagem Interplanetária”, o teatro, no “Espaço Azul”, o cinema, na “Projeção Espacial”, o navio, na “Barca Espacial”, e o avião, na “Nave Espacial”.

         Sua ansiedade diante do mundo adverso fez com que ela retratasse até a travessia da barreira do som. A luta que empreende na arte confunde-se, portanto, com a própria luta pela poesia do caráter. A artista Maria Helena Andrés tem, assim, o seu destino de luta na expressão da emoção e da comunicação da beleza muito parecido com o movimento angustioso da flor que nasce entre pedras.”

*Fotos de arquivo

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