segunda-feira, 23 de maio de 2016

segunda-feira, 16 de maio de 2016


DHARMACRACIA E DEMOCRACIA

Recebi de Maurício Andrés Ribeiro o texto abaixo:
Aurobindo afirma que os estados-nação e a democracia dos direitos não constituem o último estágio da evolução política da humanidade. Ele assim define ‘Dharmacracia’: “Já se disse que a democracia é baseada nos direitos do homem; respondeu-se que ela deveria basear-se nos deveres do homem; mas tanto direitos como deveres são idéias européias. Dharma é a concepção indiana na qual direitos e deveres perdem o antagonismo artificial criado por uma visão do mundo que faz do egoísmo a raiz da ação, e restabelece sua profunda e eterna unidade. Dharma é a base da democracia que a Ásia deve reconhecer, porque nisso está a distinção entre a alma da Ásia e a alma da Europa. Por meio do Dharma a evolução asiática se realiza, ele é o seu sagrado.
 
A dharmacracia integra a ética à política e articula as relações políticas aos padrões de conduta e comportamento individuais, fazendo uma ponte entre o psicológico e o social. Uma democracia será ‘dharmacrática’ quando complementar a visão dos direitos humanos com padrões aceitáveis de cuidado na relação com a natureza e na vida individual e social. Para que esse ideal se realize, é necessário transformar os valores e a energia dominantes que orientam as motivações e as ações de políticos, cientistas, formadores de opinião, assim como promover a educação para os valores humanos, em direção a uma ética ecológica, com padrões de consumo material e a estilos de vida que permitam o florescimento da civilização sustentável.
 
É preciso realizar um esforço de compreensão transcultural para se promover uma real aproximação entre os conceitos e visões de mundo das civilizações orientais e ocidentais. Numa visão prospectiva, é preciso que os filósofos, pensadores, cientistas políticos e os próprios políticos abram sua visão de mundo para outro repertório, para além das limitações do pensamento fragmentado. Um pensamento prospectivo e livre pode oferecer pistas para superar e transcender os impasses civilizatórios contemporâneos, que levam a guerras e destruições.
Maurício Andrés Ribeiro é ex-pesquisador visitante no Instituto Indiano de Administração de Bangalore, autor de Ecologizar- pensando o ambiente humano, de Tesouros da Índia para a civilização sustentável e de Ecologizando a cidade e o planeta.
mandrib@uol.com.br / WWW.ecologizar.com.br

*Fotos de arquivo

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segunda-feira, 9 de maio de 2016


DHARMACRACIA E SUSTENTABILIDADE

 Recebi de Maurício Andrés Ribeiro o texto abaixo:

 "Ao passarmos os olhos pela história das nações, podemos sentir ressoar da boca coletiva do povo esta palavra que, expressa em atos, constitui a contribuição de cada nação para uma humanidade ideal e perfeita. Para o antigo Egito, tal palavra foi Religião; para a Pérsia, Pureza; para a Caldéia, Ciência; para a Grécia, Beleza; para Roma, Lei, e para a Índia - o mais velho de seus filhos -, para a Índia, Ele concedeu uma palavra que a todas resumia, a palavra Dharma. Eis a palavra da Índia para o mundo."(Annie Besant, in Dharma)

Muitas palavras de origem indiana se incorporaram ao vocabulário comum no Brasil: ioga, guru e karma são algumas entre elas. Outras, igualmente importantes, são entendidas e utilizadas apenas pelos estudiosos. Entre estas está o conceito de dharma, central para a compreensão da civilização indiana, e que permite refletir sobre o desenvolvimento sustentável e a sustentabilidade de um modo não-usual.
 Dharma é um substantivo proveniente da raiz do sânscrito dhr, que significa sustentar, carregar, manter unido: “É a lei, aquilo que sustenta, mantém unido ou erguido.”

 Dharma é “o ‘suporte’ dos seres e das coisas, a lei da ordem em sua maior extensão, isto é, a ordem cósmica.”

 O lema da Índia é “ Unidade na Diversidade”. Trata-se de uma nação multinacional, culturalmente variada. O dharma, aquilo que mantém as coisas unidas, é, no dizer de Sri Aurobindo, a lei do ser, padrão de verdade, regra ou lei da ação; é a forma como o povo indiano concebe a conduta religiosa, social ou moral. O dharma pode, assim, ser visto como um fator de agregação, que evita a fragmentação de uma pessoa ou civilização.

A civilização indiana absorveu de forma seletiva as pressões culturais trazidas pelos diversos povos que invadiram o subcontinente indiano durante sua longa história. Baseada no seu dharma, aquela civilização soube sustentar-se por milênios e esconde tesouros culturais valiosos, num mundo contemporâneo voraz no consumo material e que enfrenta impasses quanto à viabilidade da sobrevivência da espécie humana.
 Estudiosos da democracia dos direitos, ao mesmo tempo em que apregoam suas virtudes, como sendo o regime político mais avançado, já alcançado pelas sociedades humanas, apontam para suas fragilidades. O filósofo Jürgen Habermas, em artigo recente na Folha de São Paulo, ressalta as tensões que permanentemente desafiam o estado democrático de direito, especialmente com o terrorismo do início do século XXI. Manuel Castells fala da necessidade da democracia se reinventar.

 ‘Dharmacracia’ é um conceito ainda ausente dos dicionários ocidentais. Seria a forma de governo baseada na aplicação do dharma e vai além da democracia que se pretende defensora de direitos e que viceja nos regimes políticos ocidentais mais abertos.
(Maurício Andrés Ribeiro é ex-pesquisador visitante no Instituto Indiano de Administração de Bangalore, autor de “Ecologizar- pensando o ambiente humano”, de “Tesouros da Índia para a civilização sustentável” e de “Ecologizando a cidade e o planeta.”
mandrib@uol.com.br / WWW.ecologizar.com.br)

*Fotos de arquivo

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segunda-feira, 2 de maio de 2016


PADRE INÁCIO

Conheci Padre Inácio na década de 70.
Ele viera do Oriente e passara algum tempo no deserto, entre os beduinos. Sua presença em Belo Horizonte reuniu grupos de pessoas interessadas no  despertar espiritual. Muitas se acercavam dele buscando conforto para conflitos pessoais, cura de doenças e até o exorcismo de espíritos maus. Padre Inácio a todos  atendia com amor e compaixão.
Muitas vezes fui chamada para ajudá-lo em cerimônias de cura: “Você é sensitiva, coloca a mão na cabeça do paciente e eu dou a benção.”
Os padres do deserto têm de exercer muitas vezes a função de médicos e curandeiros. O deserto atua de forma direta nas pessoas sensíveis, conduzindo-as a um completo despojamento do supérfluo e possibilitando maior abertura de consciência.
O deserto obriga a pessoa a usar o mínimo necessário para sua sobrevivência e, de certo modo, é uma iniciação espontânea e natural. As culturas primitivas buscavam no silêncio e no contato da natureza a percepção direta da Realidade Suprema.
A experiência culminante é a tomada de consciência de nossa origem cósmica.
Padre Inácio entrava em êxtase quando consagrava a hóstia e seu rosto resplandecia ao levantar o cálice.
Vinha gente de longe para participar daquele momento abençoado. Depois da missa ele atendia aos fiéis.
Sentávamos numa sala pequenina e ali ele ia aconselhando e trazendo conforto. Meus tios vieram do Rio para conhecê-lo. Tinham acabado de perder o filho de forma trágica. Padre Inácio conversou com os dois e elogiou muito o trabalho social que faziam.
Meu filho Euler, que tinha 18 anos na época, veio nos pegar de carro. Quando ele apareceu à porta, minha tia comentou em tom de censura: “Padre, o senhor já viu um rapaz dessa idade com cabelos compridos?” Respondeu o padre: “Já vi sim, Nosso Senhor Jesus Cristo”.
Padre Inácio não tinha preconceitos, era ecumênico, abençoava casais que iniciavam um novo casamento, organizava grupos de reisado e congado.
Sua presença em Belo Horizonte veio acelerar o processo de integração de culturas.

 No livro “Padre Inácio, vida, missão e curas”, há uma introdução de Pierre Weil.

“Mensagens de Padre Inácio vinte anos depois de sua morte - um testemunho de Pierre Weil:

"Como relatei no meu livro, “Lagrimas de compaixão”, tive a felicidade de conhecer meu amigo Amyr Amiden, um sensitivo extraordinário, descendente de árabes e sujeito às experiências místicas, cuja intensidade afeta o seu coração, tal como o padre Inácio Farah. Há muitos anos eu assinalei estas semelhanças para o próprio Amyr.
Após mais de uma década, desde o nosso primeiro encontro, por ocasião de uma visita na minha casa, Amyr foi o canal de um especial fenômeno que presenciamos: o aparecimento de hóstias nas paredes de minha sala de estar. Descobrimos que uma das hóstias foi alojada num retrato do padre Inácio, tirado em Belo Horizonte, pelo meu amigo que é arquiteto ambientalista, Maurício Andrés. O retrato estava pendurado na parede de meu quarto de meditação e representava o padre Inácio, elevando uma patena durante a missa, como mostra a foto da capa deste livro. A hóstia tinha sido alojada exatamente no lugar correto, em cima da patena, como mostra a foto a seguir. Na porta do meu quarto de meditação apareceu um coração feito de óleo, divinamente perfumado.” (Texto  integrante do livro “Padre Inácio – vida , missao e curas”. Coletanea, introdução de Pierre Weil)

*Fotos de Maurício Andrés

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segunda-feira, 25 de abril de 2016


PIERRE WEIL E A UNIPAZ

Recebi de Maurício Andrés Ribeiro, o texto abaixo sobre o grande pensador holístico Pierre Weil.

“Pierre Weil era um conhecido professor da UFMG e psicólogo. Ele morava no Retiro das Pedras, fora presidente do condomínio e tentara implantar ali uma comunidade com sentido holístico. 

Um dos números da revista Análise e Conjuntura da Fundação João Pinheiro, de maio/agosto de 1988, traz um conjunto de textos sobre o Federalismo mundial, entre eles um artigo de Pierre Weil sobre “ A origem da fragmentação e suas soluções”. Naquele artigo ele dizia que “Quanto ao federalismo mundial, sou um dos que lutou e luta por ele. Sempre lutei por essas ideias. Mas aos poucos me dei conta de que isso era muito superficial.”  Ele já se dirigia, então , para o campo da ecologia interior e conta que, em dúvida entre se associar a um movimento pacifista ou evoluir em seu próprio autoconhecimento, optou por fazer um retiro de três anos na Europa com um grande mestre tibetano, aprofundando-se no estudo de suas próprias divisões e conflitos e na descoberta da natureza da mente.

O Governador do Distrito Federal, José Aparecido de Oliveira participou intensamente do I Congresso Holístico em abril de 1987. Em sua sessão de encerramento comprometeu-se a criar a Universidade Holística Internacional proposta por Pierre Weil e pelos organizadores do Congresso. O governador convidou Pierre para presidir a Fundação Cidade da Paz e este me chamou para participar da empreitada.

Ele escreveu que “Estamos aqui, nesta manhã, confirmando Brasília como plataforma para a eterna busca do homem nos caminhos de seu próprio mistério e do mistério do universo”. É uma universidade “para estudar o universo, o holos, o todo. Para construir pontes holísticas entre o saber antigo e a ciência moderna, entre o Oriente e o Ocidente, com a dúvida e a humildade que são as colunas-mestras do edifício da sabedoria. ” E prosseguia: “Esta cidade da Paz, esta Universidade Holística que hoje, aqui, concretizamos, nesta cidade-mãe do terceiro milênio nacional, nascida dos sonhos, angústias e esperanças dos que querem rasgar os mistérios do tempo, do homem e do universo, é uma contribuição fundamental para que Brasília se ponha, diante do saber, como se pôs diante da história: um salto, um mergulho no amanhã. ” Ele escreveu que “ Essa não é uma decisão, não é uma providência improvisada. Foi aqui em Brasília que, em março deste ano, se realizaram o I Congresso Holístico Brasileiro e o Primeiro Congresso Holístico Internacional, que aprovaram a “Carta de Brasília”, um documento de conteúdo e valor universal, que nos advertiu para a necessidade de nos tornarmos contemporâneos de nosso tempo, harmonizando nossa visão do universo e nosso mundo com a profunda evolução cientifica em marcha, com a nova epistemologia. ”

À tarde houve uma celebração musical e artística e o descerramento da placa da nova destinação da Granja do Ipê, que traz o preâmbulo do ato constitutivo da UNESCO: “Uma vez que as guerras nascem no espírito dos homens, é no espírito dos homens que devem ser erguidos os baluartes da paz.”

Durante esses anos, minha mãe, Maria Helena Andrés também colaborava com a UNIPAZ. Ilustrou capas da revista Meta; ofereceu workshops na Unipaz em Brasília, participou do Encontro das Dimensões, com Lutzemberger e Fritjof Capra. Doou um grande painel de sua fase cósmica, pintado em Minas e transportado num tubo de bambu para Brasília, instalado na sala Martin Luther King, na sede da UNIPAZ.

*Fotos de Maurício Andrés e de arquivo

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segunda-feira, 18 de abril de 2016


A CORRUPÇÃO SEGUNDO KRISHNAMURTI

Meu primeiro encontro com Krishnamurti aconteceu na Índia, em 1979, quando esse grande pensador indiano conhecido internacionalmente, falava para 5000 pessoas em Bombay, hoje denominada Mumbai, sudoeste da Índia.

Seus ensinamentos já haviam me tocado alguns anos antes, lendo seus livros “Liberte-se do passado” e “A primeira e última liberdade”. Krishnamurti falava para todos os públicos de diferentes idades.

Agora, através de um vídeo editado na Índia, ele aparece falando para jovens alunos de Rishi-valley sobre o tema “corrupção”. As palavras deste pensador sobre o tema “corrupção” nos ajudam a compreender e dão uma dimensão mais ampla a esse tema, hoje tão falado e discutido no Brasil.
Selecionamos alguns trechos desta palestra:

 “Há uma tremenda corrupção no mundo inteiro.
Enquanto houver o desejo de ganhar, obter, em qualquer nível, inevitavelmente haverá angústia, sofrimento, medo. A ambição de ser rico, de ser isto ou aquilo, se afasta apenas quando vemos a podridão, a natureza corruptora da ambição em si. No momento em que vemos que o desejo de poder sob qualquer forma – o poder de um primeiro ministro, de um juiz, um sacerdote, um guru – é fundamentalmente pernicioso, nós não mais vamos ter o desejo de ser poderosos. Mas nós não vemos que a ambição é corrupta, que o desejo de poder é pernicioso; ao contrário, dizemos que devemos usar o poder para o bem. Um meio errado nunca pode ser usado para um fim correto. Se o meio é pernicioso, o fim será também pernicioso. O bem não é o oposto do mal; ele só se manifesta quando aquilo que é mal cessa completamente. Assim, se não compreendemos toda a significação do desejo, com seus resultados, seus subprodutos, simplesmente tentar se livrar do desejo não tem significado.

Qual é a causa da corrupção? Corrupção começa com o interesse em si mesmo.Se estou interessado em mim mesmo, no que quero, o que devo ser, se sou ganancioso, invejoso, duro, brutal, cruel, há corrupção. A corrupção começa em seu coração, na sua mente – não somente dando dinheiro – que também é corrupção, mas a causa real da corrupção está dentro de você. A menos que você descubra isso e mude isso, você será um ser humano corrupto. Corrupto é quando você está zangado, quando é ciumento, quando odeia as pessoas, quando é preguiçoso, quando você diz, isso é certo e aferra-se a isso. Tudo tem a ver com o egoísmo. A corrupção começa aí. Você diz “como viverei, o que farei se não sou corrupto, quando todos ao meu redor são corruptos?” Vocês entendem o que quero dizer com corrupção, não somente o sinal externo, mas o profundo senso interior da corrupção do viver dos seres humanos – egoísmo, pensando sobre eles mesmos, querendo seu sucesso, invejosos. Corrupção está dentro, no seu coração, no seu cérebro. Passar dinheiro, o suborno, não importa se uma quantia pequena ou dez milhões de dólares, é ainda suborno. E ser violento é parte do que é chamado corrupção. Isso é o que está acontecendo no mundo. Vocês, meninos, são seres humanos em crescimento, não sejam como eles. A corrupção interior é muito perigosa, então não sejam corruptos. 
Comecem primeiro dentro, não lá fora. Vocês farão isso? Não prometam a menos que estejam absolutamente certos de cumpri-lo. Mas se vocês vêm como isso é importante na vida, no mundo político, no mundo religioso, no mundo econômico, então não sejam corruptos, interiormente, não procurem a vaidade, o orgulho, não digam, eu sou superior a outra pessoa. Vocês sabem que aprendem bastante quando há humildade. Mas se vocês estiverem procurando apenas sucesso, dinheiro, poder, posição, status, então vocês estão começando com a corrupção. Vocês podem ser pobres. Então, sejam pobres, quem se importa? O importante para todos vocês é encontrar seu próprio talento e aferrar-se a ele, mesmo que ele não traga sucesso, fama e tudo isso. Porque todos iremos morrer. Enquanto viver, viva! (Trecho de palestra de Krishnamurti sobre o tema corrupção para crianças indianas).

*Fotos da internet


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quarta-feira, 13 de abril de 2016


REVISTA PISEAGRAMA NA BIENAL DE ARQUITETURA EM VENEZA

Piseagrama é uma revista de jovens que aponta novas soluções e novos caminhos para o futuro das cidades. Ela vê o povo que habita a cidade, aquele que, depois do trabalho se enfileira nas calçadas para pegar ônibus. O cidadão se aperta para conseguir um lugar para sentar, tem de pagar passagem, passar pela catraca. “Na Europa não existe catraca nos ônibus”, nos falou um jovem italiano.

Converso com meu jardineiro: “Tenho que tomar três ônibus  para chegar em casa, o primeiro daqui do Retiro até o Centro, de lá outro até São Gabriel e aí outro para casa. Só chego em casa, em Santa Luzia, às 6 horas da tarde, passo 3 horas viajando para chegar aqui e 3 horas viajando para voltar”.
Piseagrama é uma proposta social. Enxerga o problema de toda a população  e propõe soluções novas. Ônibus gratuitos, como em algumas cidades do mundo, tornam a cidade acessível e democratizam o acesso aos lugares. Trata-se de uma política cultural.

Voltemos à Revista, às suas propostas para uma sociedade mais justa, que enxerga o lazer como uma necessidade, o respeito ao patrimônio como causa justa e a ligação com a natureza como fundamental.
Piseagrama é uma das grandes iniciativas criadas no momento cujas ideias ultrapassam os interesses materialistas de uma sociedade corrompida pelo dinheiro, onde os valores essenciais estão sendo ignorados em favor da ambição e do poder. A ambição desmedida está derrubando montanhas, destruindo nascentes, poluindo rios, sepultando na lama famílias inteiras. Um rio de lama continua descendo pelo Rio Doce...

Os grupos de jovens estão atentos a esse assunto, fotografam e dão testemunho desse desastre ecológico que a todos vem atingindo. Esses jovens já começaram a se unir porque querem um futuro melhor para seus filhos.

Vejo meu neto Roberto, um dos criadores de Piseagrama, carregando minha bisnetinha numa rede amarrada ao corpo, à maneira dos povos andinos e nepalenses.
As crianças assistem a tudo, não ficam em casa com as babás. Participam de encontros e pic nics nos gramados dos parques e de jogos criativos nas praças das cidades. Uma praça em cada bairro é uma das propostas do grupo.
 “Uma praça por bairro”, “pescar e navegar no Tietê”, “ carros fora do centro”, “nadar e pescar no Arrudas”, “parques abertos 24 horas” e “ônibus sem catracas” são mensagens  estampadas nas sacolas coloridas.  As sacolas percorrem as ruas, os supermercados, o cotidiano das cidades levando e trazendo mensagens sociais, urbanas e ecológicas para a população.

No momento, a Revista está representando o Brasil na Bienal de Arquitetura de Veneza. Não é todo dia que um grupo consegue sair de Minas para representar o Brasil numa das mais importantes mostras internacionais. O testemunho e a coragem dos jovens conseguiu quebrar o famoso eixo Rio/São Paulo para projetar Minas fora do Brasil.
Parabéns aos seus criadores, parabéns a todos os participantes,  jovens guerreiros das montanhas. Já foi dado o primeiro toque, segue o entusiasmo de querer para o Brasil algo de melhor!

*Fotos da internet

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segunda-feira, 11 de abril de 2016

segunda-feira, 4 de abril de 2016


ARTE COMO DESPERTAR DO SER INTERNO


Observando a história da arte moderna, podemos enxergar, nas entrelinhas de todos os ismos, um impulso dirigido à conscientização do homem, à e sua desmassificação, à busca existencial e à abertura do Ser. Acompanhamos seu itinerário, que se apresentou de maneiras variadas neste século, levantando polêmicas e controvérsias, congregando os artistas e o público para uma nova visão do mundo. Por meio do invólucro do objeto artístico, diversas luzes se acenderam, indicando caminhos novos para o homem. Sentimos a energia que se utilizou das várias correntes artísticas como instrumento para despertar uma realidade mais profunda, submersa nas raízes do Ser. Ela trouxe em seu contexto uma nova consciência. Despertou, denunciou, rompeu bloqueios, reivindicando a liberdade de expressão e a busca da espontaneidade.

A inquietação da arte do século XX acompanhou a inquietação de sua época,  penetrou nos domínios do inconsciente, da psicologia, ligou-se à ciência e à tecnologia. Abandonou os antigos padrões estéticos para mergulhar no universo interior do homem, procurando a origem dos sentimentos e emoções. Promoveu o  autoconhecimento, sacudiu preconceitos enraizados, quebrou estruturas arcaicas.
A arte se manifestou como libertadora de ideias e sentimentos, exprimindo muitas vezes reivindicações sociais ou anseios espirituais. Passou a ser considerada como força harmonizadora do homem. Utilizaram-na na educação e na psicologia. Levaram-na para o campo da comunicação, fizeram-na saltar dos museus para as praças, dos teatros fechados para as ruas movimentadas, colocaram-na como testemunha da violência, massificaram-na e desmaterializaram-na. Mas, apesar das controvérsias, a arte continua atuando em todos os níveis da vida cotidiana, liberando energias e rompendo barreiras.

Arte, ciência, religião e filosofia, vida, criatividade, ação, pensamento e palavra acham-se interligados. Pertencem à totalidade cósmica que promove a evolução consciente do mundo. Todas as atividades criativas abrem caminho para essa evolução. Muitas vezes a arte antecede a filosofia. Pressente as aflições de um povo, capta seus anseios, denuncia a violência, transmite mensagens de paz. Ela pode nos projetar no espaço, antecipando as conquistas tecnológicas, e nos libertar da massificação gerada pela propaganda. Desde o início, a arte em seu contexto geral, procurou quebrar condicionamentos, desligar-se da tradição e reivindicar para o artista a liberdade criadora.

É justamente na quebra dos condicionamentos e na ânsia de despertar o novo que ela se torna colaboradora da evolução.
Em arte, deve-se “nascer virgem a cada manhã”, disse-nos André Lhote, um dos mestres da Escola de Paris. Nascer virgem é viver plenamente o instante da criação, é despertar para o novo que surge a cada momento. É afinar ação externa com crescimento interno, abrir-se para a sabedoria, ser receptivo às vibrações do cosmo. A arte, com todas as suas reivindicações, levantou antenas para o espaço e traduziu, na voz dos artistas, a necessidade de evolução do planeta.(Trecho do livro “Os Caminhos da Arte”, editora C/ARTE, 2015)

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quinta-feira, 31 de março de 2016


EXPOSIÇÃO DE LÊDA GONTIJO NA GALERIA DO MINAS TÊNIS CLUBE

A exposição de Lêda Gontijo está aberta na Galeria do Minas Tênis Clube.

Logo na entrada, chama a atenção o título da exposição: “Força estranha”.

Fui visitá-la na tarde de quinta-feira; Lêda acabara de dar um curso de cerâmica para iniciantes interessados. Estava eufórica, sentada numa cadeira de rodas dirigida por ela mesma. Com aquela cadeira já percorreu sozinha a orla da praia de Copacabana, sem ajuda de ninguém. Acredita na vida e está sempre de bom humor diante dos outros. Já sofreu três quedas que lhe valeram a condição de cadeirante, mas não conseguiram abatê-la. De cada tombo saiu mais fortalecida.

Esta estranha força vem de acreditar com entusiasmo na sua arte e na sua missão neste mundo como artista e como mãe de família. Em Lagoa Santa, onde mora, Lêda já liderou movimentos sociais em defesa dos hospitais da região.
Lembro-me de Lêda quando entrou na escola de Belas Artes Guignard em 1944, tendo sido minha colega na primeira turma. Ali ficou por algum tempo, mas logo se afastou da escola, para se dedicar de corpo e alma à escultura, como autodidata, preferindo seguir o seu chamado interno.
Dali partiu para a cerâmica, a pedra sabão e mais recentemente a madeira, como veículos para a realização de sua obra figurativa. Esculpiu figuras e santos, com a mesma energia que conduziu as mãos dos antigos artesãos de Minas Gerais.

Quando estava esculpindo um São Francisco de Assis, dirigiu-se ao santo com a espontaneidade que lhe é peculiar: “Quando eu chegar ao céu (é claro que vou para o céu...), vou encontrar com você que sempre proclamou a pobreza. Perdoe-me São Francisco, se eu faturei às suas custas...”. As esculturas de São Francisco fizeram sucesso, foram todas vendidas...

Agora, aos 101 anos de idade, recebe os visitantes com a alegria de uma adolescente. A exposição é um sucesso, mostrando a biografia da artista desde o seu nascimento até os dias de hoje. Logo na entrada, uma árvore genealógica mostra os antepassados e os descendentes desta artista considerada um fenômeno de longevidade e energia.
A dedicação à arte e à família durante todo o seu percurso de vida está ali, entregue aos visitantes. Lêda acredita no que faz.

Lembro-me de Lêda Selmi Dei de short branco praticando tênis no Minas Tênis Clube. Eu acompanhava aquela campeã que era também minha companheira na Escola Guignard. Duas campeãs do esporte dedicavam-se também às artes. Ela no tênis e Célia Laborne na natação.

Hoje vejo cada vez mais a importância de se aliar o esporte às artes.Segundo os ensinamentos de Sri Aurobindo na Índia, o corpo tem de ser exercitado no esporte, na dança, no Yoga, afim de prepará-lo para o despertar de energias superiores. Corpo e alma têm de estar afinados para o despertar desta força estranha que conduz o ser humano a uma longevidade sadia e produtiva.

Volto novamente ao passado para reencontrar Lêda, como anfitriã de uma casa na Serra, em Belo Horizonte, recebendo a turma da Escola Guignard. Revejo Guignard, trepado numa escada pintando o teto da casa. Com a chegada de seus alunos, o vozerio, os palpites, Guignard parou o trabalho, cruzou os pincéis, perdeu a inspiração. A obra ficou paralisada e só muitos anos depois foi terminada.

Agora, em 2016, reencontro Lêda no Minas Tênis Clube, sentada numa cadeira de rodas que ela mesma dirige. Seus 101 anos, sempre ativos e produtivos, estão sendo comemorados pelos seus seguidores e descendentes. Tiramos fotos juntas e fui ver sua árvore genealógica, onde minha neta Alice está incluída, como esposa do Paulo, neto de Lêda...

Lêda é filha de uma artista plástica e suas irmãs também se dedicaram às artes, inclusive Lizete, artista e diretora da Escola Guignard.

Cercada de filhos, genros, noras, netos e bisnetos, Lêda soube coordenar sua vida de artista, dona de casa, mãe de família, professora e líder social.

*Fotos de Maria Helena Andrés e da internet


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terça-feira, 29 de março de 2016

segunda-feira, 21 de março de 2016


ARTE E LIBERDADE

Quadros não são feitos para combinar com tapetes e cortinas, nem para serem colocados como títulos na bolsa de valores do mercado de arte. A preocupação comercial leva o artista a concessões imperdoáveis, que fazem esquecer a razão de ser da arte como força vital de uma civilização, para colocá-la no plano de especulação comercial. O valor de um trabalho artístico, suas qualidades expressivas, não se limita a números e cifrões, mas alcança um lugar que lhes assegura realmente a permanência no tempo e a sua equiparação com as demais artes.

Assim como a música e a poesia, também o quadro que vemos numa exposição contém toda uma vida de lutas e experiências. Não se pode separar as inquietações da alma humana, seus momentos de sofrimento ou alegria, de violência ou de paz, de revolta ou de submissão daquela forma que espontânea e diretamente lhe sai das mãos.

A arte é a mais pura manifestação da liberdade, hoje tão limitada na mecanicidade do mundo moderno. Toda e qualquer forma de imposição, ao atingir o domínio da arte, impede-lhe o progresso e a conduz à mediocridade.

O sentido de liberdade é expresso com grande veemência por meio da arte, porque ela se fundamenta e nasce num clima no qual a opressão não tem lugar.
Pode-se proibir o homem de falar, mas nunca de sentir. A arte é a expressão do sentimento humano, desse sentimento tantas vezes bloqueado por  slogans  e rótulos, mas que desperta quando se desenvolve a capacidade de inventar, de renovar, de contatar a essência do próprio Ser. O verdadeiro humanismo brota das mãos dos artistas e da alma dos poetas, dos cineastas, dos escritores, dos músicos, que proclamam espontaneamente a compreensão entre os povos.

O humanismo autêntico tem suas raízes no sentimento, e não na razão.
O sentimento religioso está expresso nos trabalhos do escultor anônimo de Chartres, na serenidade dos budas, na música de Bach, nas telas de El Greco e de Rembrant. Sentimentos de revolta levaram Goya a se expressar de modo violento, rompendo o cerco da Inquisição. Sentimentos de lirismo e poesia levaram Guignard a se expressar com  a pureza das crianças, no encantamento mágico de suas noites de São João. A arte é a expressão mais direta do sentimento humano que não se fecha em si mesmo, mas se irradia e participa da realidade do mundo. Esse sentimento só pode manifestar-se quando não existe imposição externa, quando o passado estético é esquecido em benefício da vivência do presente. A experiência do passado que gerou determinada ideia não pode ser vivida repetidas vezes. O passado é memória, e a criatividade está sempre no presente.

A preocupação do artista em repetir o êxito conduz à estagnação e à ausência do sentimento em arte. Sentimentos não se repetem com facilidade.
Pertencem a um momento único, a um clima no qual se unem fatores, objetivos e subjetivos, a um instante que pertence não somente ao artista, mas ao momento histórico em que ele vive. Tal instante, vivido espontaneamente, criará determinada forma, testemunha de um momento de vida. . (Trecho do livro “Os Caminhos da Arte”, editora C/ARTE, 2015)

*Fotos da internet


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