Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
segunda-feira, 23 de maio de 2016
segunda-feira, 16 de maio de 2016
DHARMACRACIA E DEMOCRACIA
Recebi de Maurício Andrés Ribeiro o texto
abaixo:
Aurobindo afirma que os estados-nação e a
democracia dos direitos não constituem o último estágio da evolução política da
humanidade. Ele assim define ‘Dharmacracia’: “Já se disse que a democracia é
baseada nos direitos do homem; respondeu-se que ela deveria basear-se nos
deveres do homem; mas tanto direitos como deveres são idéias européias. Dharma
é a concepção indiana na qual direitos e deveres perdem o antagonismo
artificial criado por uma visão do mundo que faz do egoísmo a raiz da ação, e
restabelece sua profunda e eterna unidade. Dharma é a base da democracia que a
Ásia deve reconhecer, porque nisso está a distinção entre a alma da Ásia e a
alma da Europa. Por meio do Dharma a evolução asiática se realiza, ele é o seu
sagrado.
A dharmacracia integra a ética à política e articula as relações políticas aos padrões de conduta e comportamento individuais, fazendo uma ponte entre o psicológico e o social. Uma democracia será ‘dharmacrática’ quando complementar a visão dos direitos humanos com padrões aceitáveis de cuidado na relação com a natureza e na vida individual e social. Para que esse ideal se realize, é necessário transformar os valores e a energia dominantes que orientam as motivações e as ações de políticos, cientistas, formadores de opinião, assim como promover a educação para os valores humanos, em direção a uma ética ecológica, com padrões de consumo material e a estilos de vida que permitam o florescimento da civilização sustentável.
É preciso realizar um esforço de compreensão transcultural para se promover uma real aproximação entre os conceitos e visões de mundo das civilizações orientais e ocidentais. Numa visão prospectiva, é preciso que os filósofos, pensadores, cientistas políticos e os próprios políticos abram sua visão de mundo para outro repertório, para além das limitações do pensamento fragmentado. Um pensamento prospectivo e livre pode oferecer pistas para superar e transcender os impasses civilizatórios contemporâneos, que levam a guerras e destruições.
A dharmacracia integra a ética à política e articula as relações políticas aos padrões de conduta e comportamento individuais, fazendo uma ponte entre o psicológico e o social. Uma democracia será ‘dharmacrática’ quando complementar a visão dos direitos humanos com padrões aceitáveis de cuidado na relação com a natureza e na vida individual e social. Para que esse ideal se realize, é necessário transformar os valores e a energia dominantes que orientam as motivações e as ações de políticos, cientistas, formadores de opinião, assim como promover a educação para os valores humanos, em direção a uma ética ecológica, com padrões de consumo material e a estilos de vida que permitam o florescimento da civilização sustentável.
É preciso realizar um esforço de compreensão transcultural para se promover uma real aproximação entre os conceitos e visões de mundo das civilizações orientais e ocidentais. Numa visão prospectiva, é preciso que os filósofos, pensadores, cientistas políticos e os próprios políticos abram sua visão de mundo para outro repertório, para além das limitações do pensamento fragmentado. Um pensamento prospectivo e livre pode oferecer pistas para superar e transcender os impasses civilizatórios contemporâneos, que levam a guerras e destruições.
Maurício Andrés Ribeiro é ex-pesquisador
visitante no Instituto Indiano de Administração de Bangalore, autor de
Ecologizar- pensando o ambiente humano, de Tesouros da Índia para a civilização
sustentável e de Ecologizando a cidade e o planeta.
mandrib@uol.com.br / WWW.ecologizar.com.br
mandrib@uol.com.br / WWW.ecologizar.com.br
*Fotos
de arquivo
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segunda-feira, 9 de maio de 2016
DHARMACRACIA E SUSTENTABILIDADE
Recebi de Maurício Andrés Ribeiro o texto abaixo:
"Ao passarmos
os olhos pela história das nações, podemos sentir ressoar da boca coletiva do
povo esta palavra que, expressa em atos, constitui a contribuição de cada nação
para uma humanidade ideal e perfeita. Para o antigo Egito, tal palavra foi
Religião; para a Pérsia, Pureza; para a Caldéia, Ciência; para a Grécia,
Beleza; para Roma, Lei, e para a Índia - o mais velho de seus filhos -, para a
Índia, Ele concedeu uma palavra que a todas resumia, a palavra Dharma. Eis a
palavra da Índia para o mundo."(Annie Besant, in Dharma)
Muitas palavras de origem indiana se incorporaram ao
vocabulário comum no Brasil: ioga, guru e karma são algumas entre elas. Outras,
igualmente importantes, são entendidas e utilizadas apenas pelos estudiosos.
Entre estas está o conceito de dharma, central para a compreensão da
civilização indiana, e que permite refletir sobre o desenvolvimento sustentável
e a sustentabilidade de um modo não-usual.
Dharma é um
substantivo proveniente da raiz do sânscrito dhr, que significa sustentar,
carregar, manter unido: “É a lei, aquilo que sustenta, mantém unido ou erguido.”
Dharma é “o ‘suporte’ dos seres e das coisas, a lei da ordem em sua maior
extensão, isto é, a ordem cósmica.”
O lema da
Índia é “ Unidade na Diversidade”. Trata-se de uma nação multinacional,
culturalmente variada. O dharma, aquilo que mantém as coisas unidas, é, no
dizer de Sri Aurobindo, a lei do ser, padrão de verdade, regra ou lei da ação;
é a forma como o povo indiano concebe a conduta religiosa, social ou moral. O
dharma pode, assim, ser visto como um fator de agregação, que evita a
fragmentação de uma pessoa ou civilização.
A civilização indiana absorveu de forma seletiva as
pressões culturais trazidas pelos diversos povos que invadiram o subcontinente
indiano durante sua longa história. Baseada no seu dharma, aquela civilização
soube sustentar-se por milênios e esconde tesouros culturais valiosos, num
mundo contemporâneo voraz no consumo material e que enfrenta impasses quanto à
viabilidade da sobrevivência da espécie humana.
Estudiosos da
democracia dos direitos, ao mesmo tempo em que apregoam suas virtudes, como
sendo o regime político mais avançado, já alcançado pelas sociedades humanas,
apontam para suas fragilidades. O filósofo Jürgen Habermas, em artigo recente
na Folha de São Paulo, ressalta as tensões que permanentemente desafiam o
estado democrático de direito, especialmente com o terrorismo do início do
século XXI. Manuel Castells fala da necessidade da democracia se reinventar.
‘Dharmacracia’
é um conceito ainda ausente dos dicionários ocidentais. Seria a forma de
governo baseada na aplicação do dharma e vai além da democracia que se pretende
defensora de direitos e que viceja nos regimes políticos ocidentais mais abertos.
(Maurício Andrés Ribeiro é ex-pesquisador
visitante no Instituto Indiano de Administração de Bangalore, autor de “Ecologizar-
pensando o ambiente humano”, de “Tesouros da Índia para a civilização
sustentável” e de “Ecologizando a cidade e o planeta.”
mandrib@uol.com.br / WWW.ecologizar.com.br)
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segunda-feira, 2 de maio de 2016
PADRE INÁCIO
Conheci Padre Inácio na
década de 70.
Ele viera do Oriente e
passara algum tempo no deserto, entre os beduinos. Sua presença em Belo
Horizonte reuniu grupos de pessoas interessadas no despertar espiritual. Muitas se acercavam
dele buscando conforto para conflitos pessoais, cura de doenças e até o
exorcismo de espíritos maus. Padre Inácio a todos atendia com amor e compaixão.
Muitas vezes fui
chamada para ajudá-lo em cerimônias de cura: “Você é sensitiva, coloca a mão na
cabeça do paciente e eu dou a benção.”
Os padres do deserto
têm de exercer muitas vezes a função de médicos e curandeiros. O deserto atua
de forma direta nas pessoas sensíveis, conduzindo-as a um completo despojamento
do supérfluo e possibilitando maior abertura de consciência.
O deserto obriga a
pessoa a usar o mínimo necessário para sua sobrevivência e, de certo modo, é
uma iniciação espontânea e natural. As culturas primitivas buscavam no silêncio
e no contato da natureza a percepção direta da Realidade Suprema.
A experiência
culminante é a tomada de consciência de nossa origem cósmica.
Padre Inácio entrava em
êxtase quando consagrava a hóstia e seu rosto resplandecia ao levantar o
cálice.
Vinha gente de longe
para participar daquele momento abençoado. Depois da missa ele atendia aos
fiéis.
Sentávamos numa sala
pequenina e ali ele ia aconselhando e trazendo conforto. Meus tios vieram do
Rio para conhecê-lo. Tinham acabado de perder o filho de forma trágica. Padre
Inácio conversou com os dois e elogiou muito o trabalho social que faziam.
Meu filho Euler, que
tinha 18 anos na época, veio nos pegar de carro. Quando ele apareceu à porta,
minha tia comentou em tom de censura: “Padre, o senhor já viu um rapaz dessa
idade com cabelos compridos?” Respondeu o padre: “Já vi sim, Nosso Senhor Jesus
Cristo”.
Padre Inácio não tinha
preconceitos, era ecumênico, abençoava casais que iniciavam um novo casamento,
organizava grupos de reisado e congado.
Sua presença em Belo
Horizonte veio acelerar o processo de integração de culturas.
No livro “Padre Inácio,
vida, missão e curas”, há uma introdução de Pierre Weil.
“Mensagens de Padre Inácio vinte anos depois de sua morte - um
testemunho de Pierre Weil:
"Como relatei no meu livro, “Lagrimas de compaixão”, tive
a felicidade de conhecer meu amigo Amyr Amiden, um sensitivo extraordinário,
descendente de árabes e sujeito às experiências místicas, cuja intensidade
afeta o seu coração, tal como o padre Inácio Farah. Há muitos anos eu assinalei
estas semelhanças para o próprio Amyr.
Após mais de uma década,
desde o nosso primeiro encontro, por ocasião de uma visita na minha casa, Amyr
foi o canal de um especial fenômeno que presenciamos: o aparecimento de hóstias
nas paredes de minha sala de estar. Descobrimos que uma das hóstias foi alojada
num retrato do padre Inácio, tirado em Belo Horizonte, pelo meu amigo que é
arquiteto ambientalista, Maurício Andrés. O retrato estava pendurado na parede
de meu quarto de meditação e representava o padre Inácio, elevando uma patena
durante a missa, como mostra a foto da capa deste livro. A hóstia tinha sido
alojada exatamente no lugar correto, em cima da patena, como mostra a foto a
seguir. Na porta do meu quarto de meditação apareceu um coração feito de óleo,
divinamente perfumado.” (Texto integrante do livro “Padre Inácio – vida ,
missao e curas”. Coletanea, introdução de Pierre Weil)
*Fotos de Maurício
Andrés
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segunda-feira, 25 de abril de 2016
PIERRE WEIL E A UNIPAZ
Recebi de Maurício Andrés
Ribeiro, o texto abaixo sobre o grande pensador holístico Pierre Weil.
“Pierre Weil era um conhecido
professor da UFMG e psicólogo. Ele morava no Retiro das Pedras, fora presidente
do condomínio e tentara implantar ali uma comunidade com sentido
holístico.
Um
dos números da revista Análise e Conjuntura da Fundação João Pinheiro, de
maio/agosto de 1988, traz um conjunto de textos sobre o Federalismo mundial,
entre eles um artigo de Pierre Weil sobre “ A origem da fragmentação e suas
soluções”. Naquele artigo ele dizia que “Quanto ao federalismo mundial, sou um
dos que lutou e luta por ele. Sempre lutei por essas ideias. Mas aos poucos me
dei conta de que isso era muito superficial.”
Ele já se dirigia, então , para o campo da ecologia interior e conta
que, em dúvida entre se associar a um movimento pacifista ou evoluir em seu
próprio autoconhecimento, optou por fazer um retiro de três anos na Europa com
um grande mestre tibetano, aprofundando-se no estudo de suas próprias divisões
e conflitos e na descoberta da natureza da mente.
O
Governador do Distrito Federal, José Aparecido de Oliveira participou
intensamente do I Congresso Holístico em abril de 1987. Em sua sessão de
encerramento comprometeu-se a criar a Universidade Holística Internacional
proposta por Pierre Weil e pelos organizadores do Congresso. O governador
convidou Pierre para presidir a Fundação Cidade da Paz e este me chamou para
participar da empreitada.
Ele
escreveu que “Estamos aqui, nesta manhã, confirmando Brasília como plataforma
para a eterna busca do homem nos caminhos de seu próprio mistério e do mistério
do universo”. É uma universidade “para estudar o universo, o holos, o todo.
Para construir pontes holísticas entre o saber antigo e a ciência moderna,
entre o Oriente e o Ocidente, com a dúvida e a humildade que são as
colunas-mestras do edifício da sabedoria. ” E prosseguia: “Esta cidade da Paz,
esta Universidade Holística que hoje, aqui, concretizamos, nesta cidade-mãe do
terceiro milênio nacional, nascida dos sonhos, angústias e esperanças dos que
querem rasgar os mistérios do tempo, do homem e do universo, é uma contribuição
fundamental para que Brasília se ponha, diante do saber, como se pôs diante da
história: um salto, um mergulho no amanhã. ” Ele escreveu que “ Essa não é uma
decisão, não é uma providência improvisada. Foi aqui em Brasília que, em março
deste ano, se realizaram o I Congresso Holístico Brasileiro e o Primeiro
Congresso Holístico Internacional, que aprovaram a “Carta de Brasília”, um
documento de conteúdo e valor universal, que nos advertiu para a necessidade de
nos tornarmos contemporâneos de nosso tempo, harmonizando nossa visão do
universo e nosso mundo com a profunda evolução cientifica em marcha, com a nova
epistemologia. ”
À
tarde houve uma celebração musical e artística e o descerramento da placa da
nova destinação da Granja do Ipê, que traz o
preâmbulo do ato constitutivo da UNESCO: “Uma vez que as guerras nascem no
espírito dos homens, é no espírito dos homens que devem ser erguidos os
baluartes da paz.”
Durante
esses anos, minha mãe, Maria Helena Andrés também colaborava com a UNIPAZ.
Ilustrou capas da revista Meta; ofereceu workshops na Unipaz em Brasília,
participou do Encontro das Dimensões, com Lutzemberger e Fritjof Capra. Doou um
grande painel de sua fase cósmica, pintado em Minas e transportado num tubo de
bambu para Brasília, instalado na sala Martin Luther King, na sede da UNIPAZ.
*Fotos
de Maurício Andrés e de arquivo
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segunda-feira, 18 de abril de 2016
A CORRUPÇÃO SEGUNDO KRISHNAMURTI
Meu primeiro encontro com Krishnamurti aconteceu na
Índia, em 1979, quando esse grande pensador indiano conhecido
internacionalmente, falava para 5000 pessoas em Bombay, hoje denominada Mumbai,
sudoeste da Índia.
Seus ensinamentos já haviam me tocado alguns anos
antes, lendo seus livros “Liberte-se do passado” e “A primeira e última
liberdade”. Krishnamurti falava para todos os públicos de diferentes idades.
Agora, através de um vídeo editado na Índia, ele
aparece falando para jovens alunos de Rishi-valley sobre o tema “corrupção”. As palavras deste pensador sobre o tema
“corrupção” nos ajudam a compreender e dão uma dimensão mais ampla a esse tema, hoje tão falado e discutido no Brasil.
Selecionamos alguns
trechos desta palestra:
“Há uma tremenda corrupção
no mundo inteiro.
Enquanto houver o desejo
de ganhar, obter, em qualquer nível, inevitavelmente haverá angústia,
sofrimento, medo. A ambição de ser rico, de ser isto ou aquilo, se afasta
apenas quando vemos a podridão, a natureza corruptora da ambição em si. No
momento em que vemos que o desejo de poder sob qualquer forma – o poder de um
primeiro ministro, de um juiz, um sacerdote, um guru – é fundamentalmente
pernicioso, nós não mais vamos ter o desejo de ser poderosos. Mas nós não vemos
que a ambição é corrupta, que o desejo de poder é pernicioso; ao contrário,
dizemos que devemos usar o poder para o bem. Um meio errado nunca pode ser
usado para um fim correto. Se o meio é pernicioso, o fim será também pernicioso.
O bem não é o oposto do mal; ele só se manifesta quando aquilo que é mal cessa
completamente. Assim, se não compreendemos toda a significação do desejo, com
seus resultados, seus subprodutos, simplesmente tentar se livrar do desejo não
tem significado.
Qual é a causa da
corrupção? Corrupção começa com o interesse em si mesmo.Se estou interessado em
mim mesmo, no que quero, o que devo ser, se sou ganancioso, invejoso, duro,
brutal, cruel, há corrupção. A corrupção começa em seu coração, na sua mente –
não somente dando dinheiro – que também é corrupção, mas a causa real da
corrupção está dentro de você. A menos que você descubra isso e mude isso, você
será um ser humano corrupto. Corrupto é quando você está zangado, quando é ciumento,
quando odeia as pessoas, quando é preguiçoso, quando você diz, isso é certo e
aferra-se a isso. Tudo tem a ver com o egoísmo. A corrupção começa aí. Você diz
“como viverei, o que farei se não sou corrupto, quando todos ao meu redor são
corruptos?” Vocês entendem o que quero dizer com corrupção, não somente o sinal
externo, mas o profundo senso interior da corrupção do viver dos seres humanos
– egoísmo, pensando sobre eles mesmos, querendo seu sucesso, invejosos.
Corrupção está dentro, no seu coração, no seu cérebro. Passar dinheiro, o
suborno, não importa se uma quantia pequena ou dez milhões de dólares, é ainda
suborno. E ser violento é parte do que é chamado corrupção. Isso é o que está
acontecendo no mundo. Vocês, meninos, são seres humanos em crescimento, não
sejam como eles. A corrupção interior é muito perigosa, então não sejam
corruptos.
Comecem primeiro dentro, não lá fora. Vocês farão isso? Não prometam
a menos que estejam absolutamente certos de cumpri-lo. Mas se vocês vêm como
isso é importante na vida, no mundo político, no mundo religioso, no mundo
econômico, então não sejam corruptos, interiormente, não procurem a vaidade, o
orgulho, não digam, eu sou superior a outra pessoa. Vocês sabem que aprendem
bastante quando há humildade. Mas se vocês estiverem procurando apenas sucesso,
dinheiro, poder, posição, status, então vocês estão começando com a corrupção.
Vocês podem ser pobres. Então, sejam pobres, quem se importa? O importante para
todos vocês é encontrar seu próprio talento e aferrar-se a ele, mesmo que ele
não traga sucesso, fama e tudo isso. Porque todos iremos morrer. Enquanto
viver, viva! (Trecho de palestra de Krishnamurti sobre o tema corrupção para
crianças indianas).
*Fotos da internet
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quarta-feira, 13 de abril de 2016
REVISTA PISEAGRAMA NA BIENAL DE ARQUITETURA EM VENEZA
Piseagrama é uma revista de jovens que aponta novas
soluções e novos caminhos para o futuro das cidades. Ela vê o povo que habita a
cidade, aquele que, depois do trabalho se enfileira nas calçadas para pegar
ônibus. O cidadão se aperta para conseguir um lugar para sentar, tem de pagar
passagem, passar pela catraca. “Na Europa não existe catraca nos ônibus”, nos
falou um jovem italiano.
Converso com meu jardineiro: “Tenho que tomar três
ônibus para chegar em casa, o primeiro
daqui do Retiro até o Centro, de lá outro até São Gabriel e aí outro para casa.
Só chego em casa, em Santa Luzia, às 6 horas da tarde, passo 3 horas viajando
para chegar aqui e 3 horas viajando para voltar”.
Piseagrama é uma proposta social. Enxerga o problema
de toda a população e propõe soluções
novas. Ônibus gratuitos, como em algumas cidades
do mundo, tornam a cidade acessível e democratizam o acesso aos lugares.
Trata-se de uma política cultural.
Voltemos à Revista, às suas propostas para uma
sociedade mais justa, que enxerga o lazer como uma necessidade, o respeito ao
patrimônio como causa justa e a ligação com a natureza como fundamental.
Piseagrama é uma das grandes iniciativas criadas no
momento cujas ideias ultrapassam os interesses materialistas de uma sociedade
corrompida pelo dinheiro, onde os valores essenciais estão sendo ignorados em
favor da ambição e do poder. A ambição desmedida está derrubando montanhas,
destruindo nascentes, poluindo rios, sepultando na lama famílias inteiras. Um
rio de lama continua descendo pelo Rio Doce...
Os grupos de jovens estão atentos a esse assunto,
fotografam e dão testemunho desse desastre ecológico que a todos vem atingindo.
Esses jovens já começaram a se unir porque querem um futuro melhor para seus
filhos.
Vejo meu neto Roberto, um dos criadores de
Piseagrama, carregando minha bisnetinha numa rede amarrada ao corpo, à maneira
dos povos andinos e nepalenses.
As crianças assistem a tudo, não ficam em casa com
as babás. Participam de encontros e pic nics nos gramados dos parques e de
jogos criativos nas praças das cidades. Uma praça em cada bairro é uma das
propostas do grupo.
“Uma praça
por bairro”, “pescar e navegar no Tietê”, “ carros fora do centro”, “nadar e
pescar no Arrudas”, “parques abertos 24 horas” e “ônibus sem catracas” são
mensagens estampadas nas sacolas
coloridas. As sacolas percorrem as ruas,
os supermercados, o cotidiano das cidades levando e trazendo mensagens sociais,
urbanas e ecológicas para a população.
No momento, a Revista está representando o Brasil na
Bienal de Arquitetura de Veneza. Não é todo dia que um grupo consegue sair de
Minas para representar o Brasil numa das mais importantes mostras
internacionais. O testemunho e a coragem dos jovens conseguiu quebrar o famoso
eixo Rio/São Paulo para projetar Minas fora do Brasil.
Parabéns aos seus criadores, parabéns a todos os participantes, jovens guerreiros das montanhas. Já foi dado
o primeiro toque, segue o entusiasmo de querer para o Brasil algo de melhor!
*Fotos da internet
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segunda-feira, 11 de abril de 2016
segunda-feira, 4 de abril de 2016
ARTE COMO DESPERTAR DO SER INTERNO
Observando a história da arte moderna, podemos
enxergar, nas entrelinhas de todos os ismos, um impulso dirigido à
conscientização do homem, à e sua desmassificação, à busca existencial e à
abertura do Ser. Acompanhamos seu itinerário, que se apresentou de maneiras
variadas neste século, levantando polêmicas e controvérsias, congregando os
artistas e o público para uma nova visão do mundo. Por meio do invólucro do
objeto artístico, diversas luzes se acenderam, indicando caminhos novos para o
homem. Sentimos a energia que se utilizou das várias correntes artísticas como
instrumento para despertar uma realidade mais profunda, submersa nas raízes do
Ser. Ela trouxe em seu contexto uma nova consciência. Despertou, denunciou, rompeu
bloqueios, reivindicando a liberdade de expressão e a busca da espontaneidade.
A inquietação da arte do século XX acompanhou a
inquietação de sua época, penetrou nos
domínios do inconsciente, da psicologia, ligou-se à ciência e à tecnologia.
Abandonou os antigos padrões estéticos para mergulhar no universo interior do
homem, procurando a origem dos sentimentos e emoções. Promoveu o autoconhecimento, sacudiu preconceitos
enraizados, quebrou estruturas arcaicas.
A arte se manifestou como libertadora de ideias e
sentimentos, exprimindo muitas vezes reivindicações sociais ou anseios
espirituais. Passou a ser considerada como força harmonizadora do homem.
Utilizaram-na na educação e na psicologia. Levaram-na para o campo da
comunicação, fizeram-na saltar dos museus para as praças, dos teatros fechados
para as ruas movimentadas, colocaram-na como testemunha da violência,
massificaram-na e desmaterializaram-na. Mas, apesar das controvérsias, a arte
continua atuando em todos os níveis da vida cotidiana, liberando energias e
rompendo barreiras.
Arte, ciência, religião e filosofia, vida,
criatividade, ação, pensamento e palavra acham-se interligados. Pertencem à
totalidade cósmica que promove a evolução consciente do mundo. Todas as
atividades criativas abrem caminho para essa evolução. Muitas vezes a arte
antecede a filosofia. Pressente as aflições de um povo, capta seus anseios,
denuncia a violência, transmite mensagens de paz. Ela pode nos projetar no
espaço, antecipando as conquistas tecnológicas, e nos libertar da massificação
gerada pela propaganda. Desde o início, a arte em seu contexto geral, procurou
quebrar condicionamentos, desligar-se da tradição e reivindicar para o artista
a liberdade criadora.
É justamente na quebra dos condicionamentos e na
ânsia de despertar o novo que ela se torna colaboradora da evolução.
Em arte, deve-se “nascer virgem a cada manhã”,
disse-nos André Lhote, um dos mestres da Escola de Paris. Nascer virgem é viver
plenamente o instante da criação, é despertar para o novo que surge a cada
momento. É afinar ação externa com crescimento interno, abrir-se para a
sabedoria, ser receptivo às vibrações do cosmo. A arte, com todas as suas
reivindicações, levantou antenas para o espaço e traduziu, na voz dos artistas,
a necessidade de evolução do planeta.(Trecho do livro “Os Caminhos da Arte”,
editora C/ARTE, 2015)
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quinta-feira, 31 de março de 2016
EXPOSIÇÃO DE LÊDA GONTIJO NA GALERIA DO MINAS TÊNIS CLUBE
A exposição de Lêda Gontijo está aberta na Galeria
do Minas Tênis Clube.
Logo na entrada, chama a atenção o título da
exposição: “Força estranha”.
Fui visitá-la na tarde de quinta-feira; Lêda acabara
de dar um curso de cerâmica para iniciantes interessados. Estava eufórica,
sentada numa cadeira de rodas dirigida por ela mesma. Com aquela cadeira já
percorreu sozinha a orla da praia de Copacabana, sem ajuda de ninguém. Acredita
na vida e está sempre de bom humor diante dos outros. Já sofreu três quedas que
lhe valeram a condição de cadeirante, mas não conseguiram abatê-la. De cada
tombo saiu mais fortalecida.
Esta estranha força vem de acreditar com entusiasmo
na sua arte e na sua missão neste mundo como artista e como mãe de família. Em
Lagoa Santa, onde mora, Lêda já liderou movimentos sociais em defesa dos
hospitais da região.
Lembro-me de Lêda quando entrou na escola de Belas
Artes Guignard em 1944, tendo sido minha colega na primeira turma. Ali ficou
por algum tempo, mas logo se afastou da escola, para se dedicar de corpo e alma
à escultura, como autodidata, preferindo seguir o seu chamado interno.
Dali partiu para a cerâmica, a pedra sabão e mais
recentemente a madeira, como veículos para a realização de sua obra figurativa.
Esculpiu figuras e santos, com a mesma energia que conduziu as mãos dos antigos
artesãos de Minas Gerais.
Quando estava esculpindo um São Francisco de Assis,
dirigiu-se ao santo com a espontaneidade que lhe é peculiar: “Quando eu chegar
ao céu (é claro que vou para o céu...), vou encontrar com você que sempre
proclamou a pobreza. Perdoe-me São Francisco, se eu faturei às suas custas...”.
As esculturas de São Francisco fizeram sucesso, foram
todas vendidas...
Agora, aos 101 anos de idade, recebe os visitantes com
a alegria de uma adolescente. A exposição é um sucesso, mostrando a biografia
da artista desde o seu nascimento até os dias de hoje. Logo na entrada, uma
árvore genealógica mostra os antepassados e os descendentes desta artista
considerada um fenômeno de longevidade e energia.
A dedicação à arte e à família durante todo o seu
percurso de vida está ali, entregue aos visitantes. Lêda acredita no que faz.
Lembro-me de Lêda Selmi Dei de short branco
praticando tênis no Minas Tênis Clube. Eu acompanhava aquela campeã que era
também minha companheira na Escola Guignard. Duas campeãs do esporte
dedicavam-se também às artes. Ela no tênis e Célia Laborne na natação.
Hoje vejo cada vez mais a importância de se aliar o
esporte às artes.Segundo os ensinamentos de Sri Aurobindo na Índia, o corpo tem
de ser exercitado no esporte, na dança, no Yoga, afim de prepará-lo para o
despertar de energias superiores. Corpo e alma têm de estar afinados para o
despertar desta força estranha que conduz o ser humano a uma longevidade sadia
e produtiva.
Volto novamente ao passado para reencontrar Lêda,
como anfitriã de uma casa na Serra, em Belo Horizonte, recebendo a turma da
Escola Guignard. Revejo Guignard, trepado numa escada pintando o teto da casa.
Com a chegada de seus alunos, o vozerio, os palpites, Guignard parou o
trabalho, cruzou os pincéis, perdeu a inspiração. A obra ficou paralisada e só
muitos anos depois foi terminada.
Agora, em 2016, reencontro Lêda no Minas Tênis
Clube, sentada numa cadeira de rodas que ela mesma dirige. Seus 101 anos,
sempre ativos e produtivos, estão sendo comemorados pelos seus seguidores e
descendentes. Tiramos fotos juntas e fui ver sua árvore genealógica, onde minha
neta Alice está incluída, como esposa do Paulo, neto de Lêda...
Lêda é filha de uma artista plástica e suas irmãs
também se dedicaram às artes, inclusive Lizete, artista e diretora da Escola
Guignard.
Cercada de filhos, genros, noras, netos e bisnetos,
Lêda soube coordenar sua vida de artista, dona de casa, mãe de família,
professora e líder social.
*Fotos de Maria Helena Andrés e da internet
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terça-feira, 29 de março de 2016
segunda-feira, 21 de março de 2016
ARTE E LIBERDADE
Quadros não são feitos para combinar com tapetes e
cortinas, nem para serem colocados como títulos na bolsa de valores do mercado
de arte. A preocupação comercial leva o artista a concessões imperdoáveis, que
fazem esquecer a razão de ser da arte como força vital de uma civilização, para
colocá-la no plano de especulação comercial. O valor de um trabalho artístico,
suas qualidades expressivas, não se limita a números e cifrões, mas alcança um
lugar que lhes assegura realmente a permanência no tempo e a sua equiparação com
as demais artes.
Assim como a música e a poesia, também o quadro que
vemos numa exposição contém toda uma vida de lutas e experiências. Não se pode
separar as inquietações da alma humana, seus momentos de sofrimento ou alegria,
de violência ou de paz, de revolta ou de submissão daquela forma que espontânea
e diretamente lhe sai das mãos.
A arte é a mais pura manifestação da liberdade, hoje
tão limitada na mecanicidade do mundo moderno. Toda e qualquer forma de
imposição, ao atingir o domínio da arte, impede-lhe o progresso e a conduz à mediocridade.
O sentido de liberdade é expresso com grande
veemência por meio da arte, porque ela se fundamenta e nasce num clima no qual
a opressão não tem lugar.
Pode-se proibir o homem de falar, mas nunca de
sentir. A arte é a expressão do sentimento humano, desse sentimento tantas
vezes bloqueado por slogans e rótulos, mas que desperta quando se
desenvolve a capacidade de inventar, de renovar, de contatar a essência do
próprio Ser. O verdadeiro humanismo brota das mãos dos artistas e da alma dos
poetas, dos cineastas, dos escritores, dos músicos, que proclamam
espontaneamente a compreensão entre os povos.
O humanismo autêntico tem suas raízes no sentimento,
e não na razão.
O sentimento religioso está expresso nos trabalhos
do escultor anônimo de Chartres, na serenidade dos budas, na música de Bach,
nas telas de El Greco e de Rembrant. Sentimentos de revolta levaram Goya a se
expressar de modo violento, rompendo o cerco da Inquisição. Sentimentos de
lirismo e poesia levaram Guignard a se expressar com a pureza das crianças, no encantamento mágico
de suas noites de São João. A arte é a expressão mais direta do sentimento
humano que não se fecha em si mesmo, mas se irradia e participa da realidade do
mundo. Esse sentimento só pode manifestar-se quando não existe imposição
externa, quando o passado estético é esquecido em benefício da vivência do
presente. A experiência do passado que gerou determinada ideia não pode ser
vivida repetidas vezes. O passado é memória, e a criatividade está sempre no
presente.
A preocupação do artista em repetir o êxito conduz à estagnação e à
ausência do sentimento em arte. Sentimentos não se repetem com facilidade.
Pertencem a um momento único, a um clima no qual se
unem fatores, objetivos e subjetivos, a um instante que pertence não somente ao
artista, mas ao momento histórico em que ele vive. Tal instante, vivido
espontaneamente, criará determinada forma, testemunha de um momento de vida. .
(Trecho do livro “Os Caminhos da Arte”, editora C/ARTE, 2015)
*Fotos da internet
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