Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
MARIA HELENA ANDRÉS – DESENHO – PINTURA – ESCULTURA
A Escola Guignard foi
construída junto à serra do Curral e tem uma bela vista
para a cidade. Lá embaixo, as luzes de BH vão nos mostrando os caminhos do
passado. Recordo a escola no parque municipal, no porão do Palácio das Artes,
ainda em construção. Para chegar até a sala de aula, tínhamos de passar por
tábuas e pedras.
Hoje a escola está
reconhecida oficialmente, tornou-se uma universidade. Fui convidada para ali
mostrar meus desenhos e esculturas. Houve uma seleção de meus quadros. Para a
curadoria da exposição participaram Marília Andrés, Cláudia Renault, Eymard
Brandão e Ana Cristina Brandão, diretora da escola. Foram até o meu atelier no
Retiro das Pedras e ali mesmo escolheram as obras a serem expostas. A
disposição dos quadros conduz o espectador a uma viagem no tempo, desde a
década de 50, sempre o desenho acenando mudanças. Ele registra os caminhos da
vida, desde os trabalhos em carvão, sinalizando as viagens feitas pelos
veleiros, até a passagem dramática pela fase de guerra denunciando a violência.
O desenho continua seu percurso, abre espaço para novas direções.
Foi através do desenho,
tridimensionado no computador, que iniciei meu caminho na escultura. O caminho
do desenho foi longo e demorado e ainda continua abrindo espaço para o futuro.
Transcrevo abaixo o
texto de Carlos Wolney e Ana Cristina Brandão:
“Nas comemorações dos
70 anos da Escola Guignard – UEMG, apresentamos essa importante exposição da
artista Maria Helena Andrés, que foi professora e diretora da escola nos anos
60. A exposição é um recorte de sua ampla e consolidada produção.
A gestualidade firme da
artista imprime movimentos fluidos e leves que revelam em uma composição de
equilíbrio, o domínio da forma e do espaço e transmite uma consciência espacial
constante em suas imagens.
Maria Helena Andrés, em
suas viagens pelo mundo, com um olhar sensível e firme, em especial para a
Índia, encontrou motivação nas impactantes paisagens, que a levaram a uma nova
tomada de consciência.
A observação e sutil
percepção dos signos, símbolos, cores, cheiros e formas do peculiar universo
indiano, com certeza, marcaram significativamente o processo de criação da
artista, verificado nas pinturas, desenhos e esculturas.
A visível delicadeza e
força intelectual de Maria Helena nos leva para o universo pessoal da artista,
repleto de sabedoria, registrada em suas publicações.
Maria Helena exerce
liberdade e disciplina, apreendidas nas aulas do Mestre Guignard.
Admirável vê-la, hoje
na Escola Guignard, com uma vitalidade que estimula artistas e futuros artistas
no prazer do fazer e no sabor de saber.”
Ana Cristina Brandão e
Carlos Wolney Soares (setembro de 2015)
*Fotos de Maurício
Andrés e Walmir Goes
VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG "MEMÓRIAS E VIAGENS", CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
LYGIA CLARK E O TRABALHO COM O CORPO
Fui colega de Lygia Clark no Colégio Sacré Coeur de
Marie em Belo Horizonte. Sentávamos juntas, na mesma carteira dupla, e
desenhávamos o tempo todo, em qualquer papel que aparecesse. Sempre acompanhei,
com muita admiração, a sua trajetória na arte. Quando nos encontrávamos, nas
encruzilhadas de caminhos diferentes, sempre aproveitávamos a oportunidade para
uma troca de experiências.
O texto abaixo foi selecionado da primeira edição do
meu livro “Os caminhos da Arte.”
“Se observarmos o itinerário de Lygia Clark, podemos
sentir a sua trajetória acelerada através de vários espaços partindo da tela
bidimensional, até alcançar a realidade do ser humano a fim de transformá-lo.
Lygia não se deteve nas aquisições do passado. Sua inquietação constante a
conduziu da realidade visível para a invisível, da arte feita para a arte
vivenciada, não verbal. Despojando-se desde o início dos elementos sensíveis da
cor e matéria, Lygia penetrou na organicidade de onde vieram as primeiras
esculturas, os bichos, permitindo a participação do espectador e o despertar da
criatividade. Suas experiências com o corpo marcaram o rompimento definitivo
com as artes plásticas. Seu trabalho, naqueles oito anos de permanência em
Paris, supõe a desmistificação de conceitos e o desbloqueio dos fantasmas do
corpo.
“No meu curso, nos diz Lygia, eu peço depoimentos,
vivências e eles começam a se desenvolver também no sentido da palavra, da
linguagem. O trabalho com o corpo traz os fantasmas, a palavra é usada para
exprimir estes fantasmas e os jovens começam a se expressar como nunca
conseguiram em qualquer outro curso da Sorbonne. Cria-se uma comunicação tão
viva e intensa que eles acabam se tornando amigos, encontram-se fora do curso,
trocam vivências e codificações de comportamento”.
Segundo suas próprias palavras: “Se você analisar
tudo o que fiz até agora, vai notar que o que pretendo é o aprofundamento deste
trabalho, só que num nível mais coletivo ainda, menos pessoal, menos
individual, e menos artístico. Cada vez menos obra de arte. No momento estudo
antropologia e a cultura dos índios.”
Tendo se libertado do objeto como obra de arte,
Lygia deu continuidade às suas pesquisas buscando a visão arcaica do mundo e
das pessoas. O trabalho com o corpo, a liberação das fantasias levaram-na à
conscientização de uma unidade entre as pessoas a que ela denominou “corpo
coletivo.”
A retrospectiva de Lygia Clark no MOMA, em Nova
York, denominada “O Abandono da Arte” reuniu seu trabalho desde as pinturas
figurativas e os desenhos de 1940, passando pelas abstrações geométricas de
1950 até os revolucionários “objetos sensoriais” de 1960,uma proposição que ela
denominou “terapêutica”.
O trabalho de Lygia é experimental e visa à
liberação do ser. Desbloqueia, conscientiza, facilita a troca no relacionamento
humano e amplia a vivência do ser, tão necessária ao mundo em que vivemos.
*Fotos de Maurício Andrés
VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MEMÓRIAS E VIAGENS”,
CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
A ARTE DE MARY VIEIRA
Foi guiada por um sentimento espiritual de busca da
perfeição que Mary Vieira, artista brasileira, nossa colega na Escola Guignard,
embarcou para a Suíça, há décadas atrás. Mary era movida por uma necessidade interior de desenvolver sua
capacidade criadora dentro da escultura concreta, que exige do artista a adesão
completa à forma pura. A pureza na arte concreta é imprescindível. Talvez seja
ela a ponte que liga a arte à ciência, à matemática e à física, penetrando
também no plano onde elas se encontram com o espiritualismo inato do ser
humano.
O caminho seguido por Mary foi o de buscar sempre a
perfeição dentro da arte. Hoje seu nome é conhecido internacionalmente e suas
esculturas integram jardins, praças e museus da Europa e das Américas. Pioneira
do cinevisualismo plástico internacional, Mary Vieira realizou seus primeiros
“Multivolumes”, estruturas concretas multicomponíveis à participação direta do
espectador, quando ainda estudante da Escola Guignard, em 1947, em Sabará,
Poços de Caldas, Lambari e na Bahia. Em 1948 ela construiu a primeira estrutura
cinética monumental animada eletricamente: “Formas Rotatórias Espirálicas à
Perfuração Virtual”, que foi executada em Araxá para o conjunto da Exposição
Nacional das Classes Produtoras brasileiras.
Mary revela em suas esculturas uma possibilidade
dinâmica do espaço-tempo. Seus polivolumes permitem ao espectador participar
também do momento de criação e sentir-se de certa forma co-autor da obra de arte.
Aí o sentimento lúdico funde-se com o sentimento estético e permite a criação
de novas formas no espaço, sustentadas por uma estrutura básica. Encarregada de
realizar uma escultura para o Instituto de Anatomia Patológica da Universidade
de Basiléia, Mary dedicou 4 anos a esse monumental trabalho, realizado em aço
inoxidável e denominado “Função de Forças Opostas”. Ali os elementos
horizontais e verticais se conjugam e se movem, oferecendo várias formas de
composição aos alunos que transitam no imenso salão. Os elementos, os
polivolumes se movem nas mãos dos estudantes. A arte, para Mary, é o canal por
onde flui espontaneamente o sentimento espiritual ao encontro do eterno. A sala
de meditação do Instituto de Medicina Social de Bürgerspital do Cantão de Basiléia
contém uma grande tapeçaria de Mary, baseada também na forma vertical e
horizontal, símbolo da vida e da morte. Referindo-se a esse grande trabalho em
tapeçaria tecida em lã crua, os críticos suíços comentam: “É a redescoberta da
cruz, como forma primordial na sua gênese rítmico-estrutural.
Duas linhas se põem em marcha, ao longo da parede, para encontrar a sua própria
horizontal e a sua própria vertical. Uma cruz surge no centro como evento
metacromático de cor verde. Uma linha se dissolve no curso do próprio caminho,
no limite do espaço ambiental. Os dois elementos fundamentais deste mistério, a
vertical e a horizontal, se isolam ao lado, preparados para construir-se dia a
dia, em uma nova crucificação ininterrupta.”
*Fotos da internet
VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MEMÓRIAS E VIAGENS”,
CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
CONSIDERAÇÕES SOBRE UMA ESCOLA DE ARTE
Esta é uma homenagem a Rubens
Gerchman por sua visão holística da arte.
(depoimento obtido em 1976 no
Rio)
“Nossa visão egocêntrica
deverá evoluir para uma consciência total, comunitária”. Lembrando estas
palavras proféticas de Vasarely, podemos trazê-las para o ensino da arte. Uma
escola de arte, para ser realmente renovadora, tem de ser participante dessa
consciência total. Não são os currículos nem a burocracia que a fazem crescer,
mas antes de tudo o entusiasmo e a força criadora de seus líderes. A
criatividade, impulsionando uma organização, torna-se uma força geradora em
pleno movimento. Podemos sentir a presença desta energia renovadora na Escola
de Artes Visuais do Rio de Janeiro, orientada por um grupo de professores,
tendo à frente o conhecido artista Rubens Gerchman. Trazendo a criatividade
para a vida, ele a põe a serviço do bem comum. De acordo com seu próprio
depoimento: “Quando concebi a nova escola de artes visuais, pensei em sua
estrutura como uma ampla rede comunicante, onde a informação pode fluir
constantemente, modificando e reorientando as diversas áreas de conhecimento”.
Dentro deste esquema flexível, aberto ao novo, a Escola de Artes Visuais
elabora um trabalho de síntese que se estende para outros campos de atividades
artísticas, visando despertar o aluno para uma visão global da arte e da
vida.
Procurei entrar em contato
com a escola de modo geral, admirando o seu sentido dinâmico e renovador.
Tive a oportunidade de
assistir a uma aula da Oficina do Corpo, dirigida por Hélio Eichbauer.
Percebe-se a preocupação do professor de conduzir seus alunos para a consciência
da unidade.
“Sua atuação como cenógrafo
em treze anos de intensa atividade profissional e sobretudo sua flexibilidade
como artista pesquisador, seu interesse por música, dança, teatro e pintura
(artes plásticas) possibilitaram a realização de uma proposta aglutinadora
dessas diversas manifestações de arte. Lembro-me de Jackson Pollock pintando
com o corpo, gestos sobre telas estendidas no chão (action painting), dos
calígrafos japoneses, das manifestações do body-art nos anos 70, tentativas de
recuperação do equilíbrio mente-corpo, e observo a transformação desta
informação em experiência vivida nos trabalhos de criação coletiva dos alunos
de Hélio Eichbauer”. Assim se expressou Rubens Gerchman sobre seu colega da
Oficina do Corpo, por ocasião da exposição comemorativa de seus treze anos de
produção em cenografia. Hélio Eichbauer leva o aluno à consciência do corpo,
dentro de uma pesquisa coletiva. Dentro desta visão total, a arte poderá se
estender para a vida e se realizar na própria vida.
Em minhas visitas à Escola de
Artes Visuais, o que mais me chamou a atenção desde o início foi a
possibilidade do aluno obter conhecimento através da própria vivência
transmutada ao nível consciente. Dentro desse caminho de abertura da percepção
encontrei, no curso de transformação de materiais a cargo da professora Celeida
Tostes, uma verdadeira abordagem de alquimia. Tendo-se aperfeiçoado em
arte-educação na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, Celeida conduz seus alunos
a uma relação sensorial com os quatro elementos da natureza: fogo, terra,
água e ar, anexados a elementos e substâncias químicas. A apreensão direta do
conhecimento é percebida através dos cinco sentidos, buscando a síntese corpo e
mente. Suas aulas não conduzem apenas à observação visual das formas, mas
ultrapassam o mundo do conhecido, para mergulhar no desconhecido. Trazendo a
mensagem do inconsciente para o consciente, o aluno estará apto a encontrar seu
próprio ritmo destruindo, criando e transformando a matéria dentro deste ritmo.
Há uma busca das origens nessa descoberta interior que permite, através da
transmutação dos elementos da natureza, também a compreensão do relacionamento
homem-universo.
*Fotos da internet
VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MEMÓRIAS
E VIAGENS”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.
terça-feira, 1 de setembro de 2015
domingo, 23 de agosto de 2015
DO CARRO DE BOI AO COMPUTADOR
Residindo longe do eixo Rio – São Paulo onde
aconteciam os eventos, eu me expressava nos anos 50, dentro do construtivismo
de maneira própria. Ia todos os fins de semana para a fazenda do meu sogro em
Entre Rios de Minas. Ali desenhava cenas da vida rural, buscando a
simplificação da figura como uma necessidade interior de disciplina e
concentração. Suprimir detalhes, valorizar a cor chapada pura, sem nuances, era
para mim também uma busca espiritual da essência da forma, síntese espontânea,
intuitiva, conquistada com o exercício constante e ininterrupto do desenho. Os
pequenos desenhos da década de 50 foram guardados em pastas diferentes, de
acordo com o destino que poderiam ter mais tarde, na pintura, na escultura ou
na arte aplicada. Desenhos daquela época estão sendo tridimensionados com o
auxílio do computador pela arquiteta Elena Andrés Valle e depois transformados
em esculturas de ferro, sob a orientação do arquiteto Alen Roscoe. Esta série
de desenhos que denomino de pré- concretista, foi um caminho do figurativo ao
abstrato e está possibilitando, no presente, uma caminhada em direção a outros
espaços.
*Fotos de Euler Andrés e Maria Helena Andrés
VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG, “MEMÓRIAS E VIAGENS”,
CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.
terça-feira, 11 de agosto de 2015
ARTE E VIDA
As artes plásticas possibilitam uma reflexão sobre o
que motivou determinado impulso inconsciente, e nos fez seguir determinada
direção. Cada artista tem seu próprio caminho. Cada ser humano tem seu próprio
processo.
Reconhecê-lo através da sua própria arte é anexar
arte e vida.
Arte e vida tornou-se um único processo, quando
descobrimos o que nos moveu a seguir os movimentos vindos do inconsciente.
É necessário estar aberto, receptivo. Então o que já
existe dentro de nós poderá vir à tona. Proporcionar esta abertura para o novo,
é tarefa do educador.
Guignard foi antes de tudo um grande educador.
O encontro com Guignard possibilitou-nos um
descondicionamento das fórmulas acadêmicas. Todos os alunos receberam da mesma
fonte, mas cada um seguiu uma direção diferente.
Dar livre curso à emoção através da cor e ao mesmo
tempo disciplinar a mente com o exercício do lápis duro, foi tarefa inicial
exigida pelo mestre.
Havia incentivo, entusiasmo. Havia cooperação e
ajuda mútua. Havia estímulo e apoio às ideias novas. As tendências vieram à
tona, nos diversos tipos psicológicos dos alunos. Alguns continuaram pintores,
outros se tornaram gravadores, escultores, decoradores, jornalistas e
escritores.
Hoje a arte se estende à vida em todas as situações.
Escolhi a pintura e o desenho seguindo uma
complementação mútua de cor, transparência, linha, textura. Os livros vieram da
necessidade de dar testemunho e também de estimular outros artistas a fazerem o
mesmo: refletirem sobre seu próprio caminho, conscientizarem o seu processo.
Cada um descobrirá o seu no momento adequado. Arte é autodescoberta e
autoconhecimento.
*Fotos de arquivo e da internet
VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MEMÓRIAS E VIAGENS”,
CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA
terça-feira, 4 de agosto de 2015
O TRABALHO DAS MÃOS
Atualmente, o artesanato tem sido estimulado, não
somente nos países menos desenvolvidos, mas também nos industrializados. Se no
Oriente constitui forma específica de trabalho, no Ocidente é o recurso de
equilíbrio para o homem que vive da civilização mecanizada. Através do
artesanato, ele realiza sua atividade criadora, latente em qualquer ser humano.
“Neste mundo que se coletiviza, é indispensável encontrar na criatividade a
sobrevivência do homem. O homem que não é e jamais será máquina, pois é senhor
de todas as máquinas, está sendo ameaçado pela sua própria criação”. Nesta
época de vida mecânica, de saturação de ideias, de telenovelas, de repetição de
slogans, a criatividade seria a forma de continuarmos a ser gente e não “robots”.
Observando as barracas de arte de N. Delhi,
lembro-me de Minas Gerais, das joias de prata de Tiradentes, da feira de arte
da Praça da Liberdade. É realmente necessário no mundo de hoje o trabalho que o
homem faz com as próprias mãos. Vejo agora este indiano fabricando uma joia.
Ele cria uma obra única, pois nunca será repetida exatamente. Há sempre uma
pequena diferença marcando a pulsação das mãos, uma energia vital que a máquina
não pode transmitir. O trabalho manual integra o homem ao seu meio. A máquina
não pode sufocá-lo. Seja como “hobby” ou profissão, como forma de terapia ou
sobrevivência, o trabalho das mãos tem o seu papel que é fundamental e
necessário. A aceleração do progresso tecnológico vai sufocando aos poucos
todos os nossos recursos internos. A máquina tirou das mãos do homem o trabalho
paciente (time is money) os computadores restringem seu raciocínio. A
civilização nos trouxe a rapidez de produção e todas as facilidades para a
aquisição de conhecimentos mas, a criatividade é necessária para restabelecer o
equilíbrio do homem moderno. Criatividade que vai do arranjo de flores num vaso
ao modelado do próprio vaso de argila. Da necessidade de combinar cores à
necessidade de combinar sons ou palavras. Mas, seja modelando a matéria
palpável, ou lidando com ideias, palavras e sons, a criatividade humana terá de
se manifestar, caso contrário, o homem se massificará.
*Fotos da internet
VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MEMÓRIAS E VIAGENS”,
CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA
sexta-feira, 17 de julho de 2015
NOTURNOS DE SARA ÁVILA
Quando conheci Sara Ávila, nos idos tempos da Escola
Guignard, quando ainda no parque municipal, ela era uma menina de um desenho
muito sensível. Desenhava e pintava aquarelas de flores, muito apreciadas pelo
mestre Guignard. Agora, sentada numa cadeira em frente ao grande painel
“Noturno de Belo Horizonte”, fico pensando nas flores que me lembravam estrelas
e este imenso e monumental painel que me lembra o céu estrelado. Pintado pouco
antes do seu falecimento, o painel “Noturno de Belo Horizonte” é uma maravilhosa
despedida do planeta, para habitar espaços superiores, cheios de luz.
Sara, com sua fase de “flotagem”, ficou reconhecida
internacionalmente, mas não fazia uso disso, para se colocar acima dos colegas.
Era discreta ao receber convites e homenagens fora do Brasil. Pertenceu por muitos
anos ao grupo “Phases”, sediado na França e com o grupo percorreu a Europa e as
Américas.
Na Escola Guignard foi professora de desenho e de
criatividade, com um trabalho semelhante ao de Lygia Clark. Quebrar os condicionamentos
através de jogos criativos, foi sua tarefa por muitos anos na Escola Guignard,
e com isto conquistou a amizade dos jovens iniciantes nas artes.
Conversávamos muito sobre os projetos de cada uma e
Sara se tornou uma grande amiga.
Agora, contemplando o painel “Noturno de Belo
Horizonte”, exposto na sala de exposições da Escola onde ela estudou e se
tornou professora e diretora, fico pensando no grande poder que a arte tem de
transmitir vibrações de deslumbramento e alegria perante a vida.
Ao se transferir de sua residência na Savassi para o
bairro Belvedere, Sara se encantou com a cidade vista do alto, totalmente
iluminada.
Esta série de “Noturnos” está aberta à visitação
pública, na Escola Guignard e merece ser vista.
*Fotos da internet
VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MEMÓRIAS E VIAGENS”,
CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.
sexta-feira, 3 de julho de 2015
A REVELAÇÃO DO AVESSO, EXPOSIÇÃO DE FERREIRA GULLAR
Ferreira Gullar esteve em Belo Horizonte para a
inauguração de sua exposição de colagens em relevo. Não me foi possível chegar
a tempo para conhecê-lo pessoalmente, mas sua obra falou por ele. Falou de um
potencial criador que se multiplica em diversas facetas, sem perder a essência.
Segundo
o depoimento do próprio artista, todas as obras foram feitas seguindo a direção
do acaso: “Inicialmente, desenhava garrafas, bules e cálices, recortava papéis
coloridos e colocava em cima. Um dia, porém, já havia posto os recortes sobre o
desenho para em seguida colá-los, quando meu gato deu um tapa na folha de papel
e desarrumou os recortes. Colei-os tal como estavam: disso resultou que o
desenho era a ordem e os recortes coloridos, a desordem. Depois não mais
desenhava: jogava os recortes de papel e, conforme caíssem, os colava. Assim
nasceram aves, dragões, cobras e lagartos, com os quais compus livros para
criança (e para adultos também). E foi então que surgiram as colagens em
relevo.”
Ferreira
Gullar liderou o movimento neoconcretista no Rio, tendo como parceiros vindos
de Minas, os artistas Amílcar de Castro, Lygia Clark e Franz Weissmann.
O
movimento concretista surgido em São Paulo na década de 50 inspirou artistas
que não pertenciam ao famoso eixo Rio-São Paulo. De Minas Gerais um pequeno grupo
era formado por Mario Silésio, Marília Gianetti Torres, Nelly Frade e eu. Nossa
amiga e colega Mary Vieira também se entusiasmou pelo concretismo de Max Bill e
foi buscar na Suíça um aperfeiçoamento para o seu trabalho, tornando-se uma
artista de renome internacional. O grupo de Minas, considerado independente, era
ligado com grande entusiasmo às ideias concretistas nascidas na 1ª Bienal de São
Paulo. Tínhamos o apoio de Mário Pedrosa, que muitas vezes nos visitava em Belo
Horizonte. Nosso grupo foi pequeno mas
atuante. Agora, percorrendo a exposição de Ferreira Gullar, vou relembrando o
passado e refletindo sobre o presente.
Os
trabalhos de Gullar expostos na Galeria Lemos de Sá, em Nova Lima, revelam sua
origem neoconcretista retomada em nova linguagem, em 2015. Gullar é crítico e
também artista. Acompanho de longe o trabalho desse grande poeta, recentemente eleito
como imortal na Academia Brasileira de Letras. Pertencemos à mesma geração e
somos “sobreviventes” que testemunharam uma grande mudança que ocorreu no
Brasil na década de 50, e até hoje se desdobra em novas linguagens e novos
caminhos.
*Fotos
de Maurício Andrés
VISITE
TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MEMÓRIAS E VIAGENS”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.
quinta-feira, 2 de julho de 2015
quinta-feira, 18 de junho de 2015
Assinar:
Postagens (Atom)








































