quarta-feira, 27 de novembro de 2013

quarta-feira, 13 de novembro de 2013


GUERRA E PAZ

O Cine Brasil me lembra a infância, quando foi inaugurado na década de 30. Vestíamos roupas domingueiras, chapéu na cabeça, para assistir às matinês de domingo, com os filmes desfilando aos nossos olhos: Marlene Dietrich, Greta Garbo, Robert Taylor, Tyrone Power e Shirley Temple com seus sapateados. Entrei até para uma aula de sapateado com Natália Lessa, professora de dança das meninas do society belorizontino.
Agora restaurado pela Vallourec, o Cine Brasil está proporcionando ao público da cidade uma exposição monumental da obra de Cândido Portinari, um documentário maravilhoso de um dos maiores pintores brasileiros.
O catálogo Rasoné desfila o seu itinerário em projeções de desenhos, estudos, a caminhada longa e muitas vezes dolorosa do artista de Brodowski. Consegui permanecer sentada por muito tempo porque a obra do mestre é realmente grande e empolga os espectadores mais interessados em sua curta caminhada por este planeta. É um exemplo de tenacidade e persistência na arte, a seriedade em preparar cada painel com estudos, croquis, até chegar ao resultado final já com cores.
Portinari morreu pela arte, intoxicado por tinta. Foram apenas 53 anos de vida, deixando uma obra que se prolonga no tempo com a força e a energia de um grande artista.
Conheci-o pessoalmente, como aluna de Guignard, fiquei horas diante do painel da Igrejinha da Pampulha, vendo Portinari, ajudado por uma equipe de bons artistas vindos do Rio, preparando as tintas, misturando cores para a realização de um mural que é hoje um símbolo para todos nós de Belo Horizonte.
Naquela ocasião João Cândido era criança, mas o acompanhava sempre em suas viagens, em seu trabalho. Hoje João Cândido é também artista, coordenando e promovendo a obra de seu pai. Elaborou o Projeto Portinari e organizou o Catálogo Rasoné, com toda a trajetória do mestre.
Agora, no Cine Teatro Brasil, o público acompanha os passos dos dois painéis pertencentes à ONU, com o desdobramento dramático da Guerra e da Paz.
Assisti Portinari pintar Guerra e Paz no Rio de Janeiro, hoje aqui estou, admirando o itinerário histórico do artista.
Guerra e Paz continua a ser o tema do momento, sua mensagem é perene e não tem fronteiras. Guerra e Paz nos emociona porque está presente, dentro de cada um de nós em cada momento, enquanto percorremos nossa trajetória de vida no planeta.
No 5° andar do Cine Brasil, pode-se apreciar uma releitura da obra de Portinari realizada em bordados pelo grupo Matizes Dumont de Pirapora. O drama e a poética do mestre continua inspirando artistas tais como Sérgio Campos, formado pela UFMG, que há dez anos se dedica ao estudo da obra de Portinari.

Selecionei alguns trechos do catálogo, sobre os painéis “Guerra” e “Paz”:
“Portinari não identifica guerra alguma, como se afirmasse que em sua essência todas se equivalem no desencadeamento de horror e animalidade... Figuras em grupo compacto, genuflexo, braços levantados com as mãos espalmadas e rostos voltados para o céu, nesse cenário de morte deixam transparecer uma aragem de força e vida, de condenação à própria existência da guerra”
“O que emana do painel “Paz” nos enleva e encanta, mais que a idéia de paz, é a própria paz que nos invade ao contemplá-lo. É a sensação de penetrarmos num universo de paz, de comunhão fraterna no trabalho produtivo, num reino mágico de cores reluzentes, do som da ciranda de jovens num canto universal de fraternidade e confiança, ou da candura dos folguedos infantis. Com todos esses tons dourados, alegres, crepitantes de vida, o pintor parece nos dizer: a paz é possível. Dia virá em que a humanidade desfrutará da paz sem limites no espaço e no tempo.”

*Fotos de arquivo

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terça-feira, 29 de outubro de 2013


ESCHER, UM DESPERTAR DO “VER”

A exposição do artista holandês Escher no Palácio das Artes, de uma beleza extraordinária, foi para mim um toque de consciência e um despertar da percepção visual. Lembrei-me das aulas do mestre Guignard, quando ele fazia um quadrado pequenino, dentro de uma cartolina branca. O aluno teria de ver o mundo através daquele orifício e o mundo se desdobrava em mil facetas diversas, apontando direções inusitadas. As coisas eram vistas dentro de um todo imensurável, como um caleidoscópio. Este exercício possibilitava ao jovem a compreensão da multiplicidade da vida visto através do “aqui e agora”. Este “aqui e agora”, tão proclamado pelos orientais que buscam o contato com a Essência, é realizado através dos tempos quando a arte é vista como um processo, uma busca, um encontro. Escher nos abre a percepção e nos coloca com uma visão espacial pouco vislumbrada pelo ser humano distraído, envolvido em seus próprios pensamentos.
A volta ao passado muitas vezes é um impedimento para o presente. Viver o presente, o “aqui e agora”, o poço onde nos vemos em profundidade, a ilusão dos espelhos que multiplicam nossa imagem, tudo isto é motivo de reflexão.
Ninguém consegue sair da exposição “A magia de Escher” sem ser atingido pela magia de suas propostas.
Saio de lá refletindo no poder da criatividade que nos permite ver a unidade na multiplicidade sem palavras, apenas com objetos, desenhos, esculturas, instalações. Na rua, já do lado de fora do Palácio das Artes, vou reparando que o “Escher” continua nos prédios em torno, nas avenidas, nas janelas que se fecham escondendo mistérios, nas escadas onde as pessoas estão sempre subindo ou descendo. O mundo é um grande teatro, uma grande performance, sem necessidade de mostrar que é uma performance, simplesmente o mundo a cada instante nos mostra o novo, o não visto, o não interpretado.
Escher é um mestre disfarçado em artista, um verdadeiro mestre, porque faz o espectador, não somente participar, mas recriar seu próprio mundo de sonhos.
Selecionei algumas frases do seu catálogo:
“Trabalhando com conceitos clássicos da arte pictórica, como a perspectiva, o moto-perpétuo e o reflexo, entretecendo-os com sistemas de ladrilhamento do plano e outros conceitos matemáticos, Escher criou universos inteiros.”
“O mundo de Escher combina objetos incompatíveis. O artista sempre nos propõe a mesma questão: “Por que o mundo - ao menos o mundo retratado na arte – não pode ser uma combinação de diferentes realidades?”
“Talvez eu esteja sempre em busca do espantoso e, por isso, procure apenas provocar espanto no espectador”(Escher)
“Não conheço prazer maior do que errar por vales e montes, de aldeia em aldeia, deixando a natureza sem artifícios agir sobre mim, apreciando o inesperado e o extraordinário, no maior contraste imaginável com o dia a dia caseiro”(Escher)

*Fotos de arquivo
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domingo, 6 de outubro de 2013


ANTONIO BENTO, CRÍTICO INCENTIVADOR DAS ARTES

Por ocasião da minha primeira exposição de arte abstrata no Rio de Janeiro, em 1953, na Galeria do Instituto Cultural Brasil - Estados Unidos, o conhecido crítico de arte Antônio Bento, do Diário Carioca, escreveu o texto abaixo, motivo de grande incentivo para o meu trabalho. Guardei suas palavras com muita atenção, o que me motivou anos mais tarde a desenvolver esculturas baseadas nos desenhos daquela época.

                   “O mérito maior que revelam os quadros de Maria Helena Andrés, principalmente os da última fase, reside no fato da pintora ter marchado por si mesma para a arte não representativa, na cidade de Belo Horizonte, onde, além de raras incompletas exposições, não há museus, gabinetes de estampas ou coleções privadas em que se encontrem quadros dessa tendência. Marchou para a abstração levada mais pelo espírito de aventura e de pesquisa de um meio novo de expressão - do que propriamente por uma imposição do ambiente ou por simples conformismo.
         Tendo começado a fazer abstrações ou formas baseadas na realidade, como se vê de sua tela representando um rebanho no pasto, em breve Maria Helena Andrés se encontrava diante dos problemas específicos da pintura não-objetiva.
         Seus últimos quadros já denotam um progresso sensível, mostrando que a artista começa a manejar a linguagem abstrata, livremente, por si mesma, sem recorrer à gramática dos abstratos suíços ou dos concretos, em seus exercícios intermináveis de círculos, quadrados, triângulos, “confettis” multicores, feixes de linhas, tudo isso arranjado, com maior ou menor habilidade dentro do espaço pictórico.
         A artista procura agora estruturar suas composições dentro de ritmos ou de combinações de forças e cores menos estereotipadas que as concretas já conhecidas. E sabe desenhar com segurança, como se pode verificar pela série da “Via Sacra”. Alguns desses desenhos possuem uma grande pureza linear. E são, ao mesmo tempo, de uma qualidade arquitetônica irrecusável. Lembram esculturas de fio de ferro, pela nitidez com que se erguem no espaço, parecendo feitas para uma vida mais transcendente que a do simples desenho em preto e branco. As últimas composições da artista denotam uma segurança que não se encontra em muitos dos nossos abstratos de maior experiência. E revelam também uma sensibilidade apurada. Sente-se que a pintora tem alguma coisa a dizer na plástica abstrata, trazendo a sua contribuição a uma arte que requer autenticidade, pois do contrário não passará de um simples exercício acadêmico”. (Antônio Bento, Diário Carioca, Rio de Janeiro, setembro de 1953)

*Fotos de arquivo

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domingo, 22 de setembro de 2013


DA FIGURA AO ABSTRATO

Dando continuidade aos artigos dos críticos de arte que escreveram sobre o meu trabalho, publico aqui um depoimento  de Jacques do Prado Brandão, conhecido intelectual mineiro:

         “O primeiro traço marcante da personalidade de Maria Helena Andrés é sua extrema sensibilidade. Em seus desenhos e quadros, nas linhas que se desenvolvem marcando planos, nos contrastes de cores, sutis e delicados, encontramos a artista voltada sempre para o mundo exterior, sensível à inteligência da linha e ao inefável poder emocional da justaposição de dois matizes distintos.
         Quando das primeiras exposições do Grupo Guignard, que dividiu as artes plásticas em Minas num antes e num depois definitivo, aprendemos a distinguir os seus trabalhos pela exatidão minuciosa de seu lápis
         Em Guignard, mais do que um professor, Maria Helena Andrés encontrou a liberdade, a sua liberdade, podendo deixar que suas linhas seguissem em harmonia com a imaginação e o pincel, preso quase completamente ao anedótico, um campo mais amplo do domínio da cor. Desde então sua evolução foi rápida e segura. Trabalhando intensamente - onde quer que vá a pintora leva consigo lápis e papel para esboços e estudos - logo se projetou como um dos principais elementos do grupo e, em breve, via seus trabalhos premiados no Salão Nacional.
                   Em exposições coletivas do Grupo Guignard e numa exposição com Marília Gianetti Torres, apresentou-se Maria Helena Andrés sempre com uma grande variedade de quadros que, para o observador não atento ao desenvolvimento da artista, poderiam sugerir um temperamento inquieto e sujeito às mais diversas tendências da pintura atual. No entanto, é bem o contrário o que sucede. Maria Helena Andrés é desses artistas que preferem seguir os impulsos naturais de seu temperamento do que submeter-se a tendências e escolas. Prefere trabalhar no sentido de um aprimoramento mais interior, evoluindo naturalmente, de acordo com sua sensibilidade, de um quadro para outro, do que tentar aprender fórmulas avançadas do momento. Naturalmente, sua fina sensibilidade não deixa de conhecer o que de autêntico existe nas mais variadas experiências estéticas, mas a artista refugia-se no trabalho, defendendo-se assim das influências estranhas ao seu temperamento.
         A unidade que existe nas diversas fases de sua pintura é bem uma prova do que acabamos de dizer. Comparando dois períodos de sua pintura, aparentemente os mais diversos, vemos ressaltar as qualidades próprias da artista: o sentido de cor e de forma, o equilíbrio da composição a mais audaciosa.
         Sua fase lírica inicial, onde eram ainda bem visíveis os ensinamentos de Guignard, nas manchas de cor largas e colocadas em vibração, principalmente nas paisagens tendo por tema o Parque Municipal de Belo Horizonte, se a compararmos com uma fase bem posterior, de atmosfera noturna, já completamente livre da presença do mestre, onde a artista raspava a superfície do  quadro e fazia predominar os amarelos e os marrons, podemos distinguir as relações de uma fase com outra, no domínio da composição e na segurança pessoal do tratamento. E se observarmos os seus desenhos, esta unidade ainda mais se destaca, nos dando a linha evolutiva de sua carreira até hoje.
         Desde os trabalhos iniciais, sob a direção de Guignard, Maria Helena Andrés vem caminhando de um grafismo de contornos exatos para uma caligrafia ideal dos objetos, que se revela inicialmente nos seus estudos da vida rural. Rápidos esboços, feitos na fazenda onde a pintora passa as suas férias, que servirão de incentivo primeiro para as mais ousadas abstrações. Esses desenhos, onde a mão acostumada a uma disciplina severa acompanha o objeto presente num traço firme e sensível, servem de base à criação de mundo de formas, onde a imaginação da pintora pode se expandir livremente dentro dos limites exatos da tela.
         Pois, Maria Helena Andrés parte sempre, mesmo nos quadros de puro jogo formal de cores e planos, de dados observados diretamente da realidade, extraindo deles oculta beleza e submetendo-os aos ritmos próprios de sua composição.      Profundamente ligada à sua terra e à sua gente, com um raro conhecimento artesanal, delicada e sensível, Maria Helena Andrés é um dos valores novos de Minas, uma pintora de invulgar talento que se vai projetando firme e poderosamente como uma das expressões plásticas do Brasil." (Jacques do Prado Brandão, em “Maria Helena Andrés vista por Jacques do Prado Brandão”. Correio do Dia, Belo Horizonte, 20 de setembro de 1953)

*Fotos de arquivo

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sábado, 31 de agosto de 2013


DA ARDILOSIDADE DA LINHA

Sobre a minha trajetória na arte, separei alguns depoimentos para este blog, dentre eles a crítica abaixo, de Agnaldo Farias:

   “No Brasil a entrada em cena da abstração, coincidentemente ocorrida durante os anos cinqüenta, quando o país trocava sua vocação agrária em favor de um perfil urbano/industrial, é um capítulo de matizes variados e que, a julgar pela ênfase na vertente geométrica sediada em São Paulo e Rio de Janeiro, dada pela historiografia das últimas décadas, resta muita coisa ainda a ser analisada e avaliada em termos mais condizentes.
   Se os cinqüenta foram férteis para a arte brasileira em geral, anos que hoje figuram dentro da história da nossa arte, até ali não muito exuberante, como a década da nossa emancipação intelectual, em que o melhor da nossa produção passou a não depender mais de forças epifenomênicas como Segall, Guignard e Goeldi, foram igualmente decisivos na trajetória da nossa artista.
   Expondo na Ia. Bienal Internacional de São Paulo, em 1951, suas pinturas e aquarelas calcadas no registro atento e delicado de cenas do cotidiano das Minas Gerais onde vivia, foi ali que Maria Helena Andrés presenciou o impacto da abstração geométrica, assistiu a premiação da obra vigorosa daquele que na altura era o seu maior representante, o suíço Max Bill, autor de “Unidade Tripartida”, peça que hoje integra o acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, e voltou sintonizada com o debate que a faria mudar o vetor de sua pesquisa. Paulatinamente ela foi se afastando, ainda que quase nunca por completo, de um contato mais direto com o mundo, da pele e das formas das coisas que ela, sempre com grande qualidade já vinha transformando num jogo de modulações cromáticas sobreposta a um processo gradativo de simplificação formal. Data dessa fase as cenas domésticas e rurais, o interior das casas, os bichos domésticos e pássaros, todos eles reduzidos a elementos geométricos, no mais das vezes puxados de uma só linha, como um impulso que se desata pela superfície de papel, ávido no fabrico de um mundo só dele.
   Aliás, essa desenvoltura do gesto de Maria Helena Andrés, que se afirmaria ao longo dos anos, e que inclusive se ampliaria por superfícies cada vez maiores, é uma qualidade que ela lapidou já no interior do Curso Livre do Instituto de Belas Artes de Belo Horizonte, onde, sob o comando de mestre Alberto da Veiga Guignard, tendo ao lado os talentos de Edith Behring e Franz Weissmann, ela estudou de 1944 até 1947.
   A justificada admiração pelas obras de Weissmann e de Amílcar de Castro, este último colega da nossa artista, obras de caráter mais do que exato, extraídas do metal ou do correspondente projeto traçado em linhas duras e despojadas, acostumou-nos, ou ao menos para aqueles não tão bem informados e que a bem dizer formam a imensa maioria, a pensar Guignard como um professor que a considerar a diafaneidade e leveza das atmosferas que ele próprio pintava, pregava justamente o oposto do que fazia: o peso e a incisividade da certeza. Também nesse sentido, acompanhar a preciosa coleção de desenhos e croquis que a artista ciosamente conservou consigo, significará perceber um pouco mais sobre as possibilidades abertas pela lendária lição de Guignard obrigando seus alunos a desenhar com lápis de grafite duro, lápis que abre um sulco na fibra do papel, que deixa sobre ele uma marca indelével para além da trilha escura que ele vai depositando na razão da força empregada pela mão.
   Sob títulos prosaicos como “Mudança a cavalo”, “Figuras na rua”, “Boiadeiro”, “Interior de fazenda”, “Cena da via sacra”, assiste-se ao desenrolar contínuo, sem rupturas, de uma linha tão seca quanto suave, uma linha de nanquim magra como o gume de uma faca e que como tal separa os contornos de tudo o que encontra pela frente – casa, chão, cadeira, cruz; cavalo, cavaleiro, cabresto, arreio; boi, boiadeiro, vara, berrante-como se fosse possível fender a paisagem, retirar sua matéria mais estrita, mais rente, seu nervo ou seu osso. Se a linha é esquálida, o mesmo não se pode dizer da precisão de quem a leva na qualidade de um corte ininterrupto, que parece respirar apenas quando sua faina cessa. Mas o que antes nos fascina, o que enleva nossos olhos fazendo-os flutuar na cadência dada pelas linhas, é a delicadeza com que essa geometria, ciente das coisas e sobretudo de si própria, abandona-se ao flerte e ao devaneio da mão, inventando brincadeiras, deslizando para lá e para cá, deixando-se intrincar ao sabor de curvas íngremes e ângulos abruptos. Tudo isso, convém frisar, elaborado em papel de pequeno formato, área limitada e que convida ao olhar mais próximo, colado, um olhar acariciante, coerente com um traçado minucioso a um só tempo frágil e coeso, como teia de aranha ou arame dos insetos.
   Se a mudança de orientação por parte de Maria Helena Andrés, a opção por uma poética de extração construtiva não implicou, ao menos na década contemplada por essa mostra de agora, no abandono da figuração, o fato é que ela foi levada para mais longe, para uma região em que os motivos representados tornam-se mais e mais indifusos. Barcos, cidades e construções, em especial aquelas organizadas através de campos retangulares, eram as vagas referências, quase que os pretextos para a artista demonstrar a fecundidade da linha, simplificada em conjuntos justapostos de linhas verticais e horizontais, de que são exemplares magníficos os estudos para cidade iluminada, realizados a bico de pena branco sobre papel preto.
   A fecundidade do desenho da nossa artista fica ainda mais patente nas esculturas, versões atualizadas da mesma família de desenhos contínuos elaborados naqueles anos. Os desenhos fechados, série de quadriláteros enunciados exclusivamente pelas arestas, linhas que se resolvem em ângulos e quadriláteros irregulares, sobrepostos entre si, revelam-se enfim formas retráteis; transpostos para o ferro, as linhas saltam no espaço, volumetrizam-se, despacham-se no espaço abraçando-se ao ar. Na qualidade de esculturas perdem a univocidade permitida por sua leitura no plano de papel. Postas no espaço, passíveis de serem observadas a partir de ângulos variáveis, cada um único desenho converte-se agora em vários, tanto quanto os pontos de vistas de alguém que se desloca ao seu redor. Cada escultura é, portanto, um desenho plural, prova conclusiva do ardil que todo desenho, desde que produzido por mão sábia, traz dentro de si.” (Agnaldo Farias, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP)

As esculturas recentes, inspiradas em desenhos construtivistas da década de 50, estarão expostas, de 5 a 8 de setembro na Feira ArtRio através da Galeria Lemos de Sá.
Endereço: Pier Mauá, Av. Rodrigues Alves, n° 10, Saúde, Rio de Janeiro. Para mais informações entrar no site www.artrio.art.br.

*Fotos de Maria Helena Andrés e de arquivo


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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

segunda-feira, 12 de agosto de 2013


I SEMANA DE ARTE DE ENTRE RIOS DE MINAS

 A 1° Semana de Arte de Entre Rios de Minas aconteceu agora, no final de julho, com grande sucesso, organizada por Marília Andrés, a nova presidente do IMHA.

Marília é historiadora e acredito que a sua gestão vai ser baseada na história. Teresa, nossa jovem ex-presidente renunciou  ao cargo devido ao fato de estar, de agora em diante, morando fora do Brasil, embora tenha colaborado na estruturação do evento.
Marília buscou apoio da UFMG, dali trazendo uma equipe de professores ligados às novas tecnologias. Um vídeo está sendo formalizado, com a história da minha vida de artista, focalizando de preferência a minha fase rural, onde a influência de Guignard foi marcante. Procuramos separar numa sala as pinturas e em outra os desenhos e aquarelas. Naquela época (década de 40) eu pintava à óleo, não havia ainda surgido o acrílico, mas dentro da pintura orientada pelo mestre Guignard, separei alguns quadros representativos. Para o documentário, dei entrevistas para a equipe que veio de Belo Horizonte para ministrar as oficinas da Semana de Arte.

Na minha opinião, Entre Rios está formando um grupo muito bom em vídeos, os professores são ótimos e os alunos muito interessados.

Nesta semana de arte, Marília convidou professores que conheciam o processo de fotografia Pinhole, precursor da fotografia, que remonta à época de Leonardo da Vinci.
“Uma caixinha ou lata poderá servir de câmera fotográfica”. As crianças deliraram ao aprender o processo da câmera escura e ter a alegria de verem seus trabalhos serem revelados. Pinhole é de uma simplicidade comovente. Nesta época em que as crianças recebem brinquedos prontos, a fotografia à moda antiga nos faz refletir sobre o trabalho artesanal dos antigos pesquisadores.

Visitei a oficina de musicalização infantil, linguagem lúdica da música entregue à professora Iraty Boelsums, no Villa Lobo Arte Bar. 30 crianças sentadas no chão, entoavam notas musicais acompanhadas de pandeiros e chocalhos. O objetivo era despertar a criança para o som que está em toda parte, ao redor de nós e também dentro de nós. Havia uma energia muito boa, circulando pelo espaço, em vibrações, como se um grupo de anjos estivesse descendo à Terra. Assisti ao final do curso e pude participar dos abraços coletivos de agradecimento dados pelos artistas mirins à sua jovem professora. Realmente, a música é um grande instrumento de harmonização.

À noite o bar da Cláudia voltava a ser de gente grande. Durante a semana de arte, aconteceram apresentações musicais da Seresta Rios ao Luar, do Grupo Voz e Poesia (Luciano Luppi, Ivana Andrés e Evaldo Nogueira), além de projeções de vídeos de Tuca Boelsums, Graveola e Eduardo Fillizola.

Gostaria de agradecer a preciosa colaboração dos coordenadores Pedro Duarte Lobo, vice presidente do IMHA, Evandro Lemos da Silva, da UFMG, além dos músicos Iraty Boelsums, Ralph Oliveira e Verônica Nóbrega, que doaram seus trabalhos  de forma voluntária.

Também gostaria de agradecer aos colaboradores Iara Rolim de Oliveira, Cláudia Ribeiro Duarte Resende, Tuca Leão Boelsums, Ana Carolina Novaes de Almeida, Gabriel Caram, Vinícius Odilon, Gorete Boelsums, Laura Melgaço Camilo, Mariah Boelsums, Pedro Bertal, Jonathan Serafim e Daniela Cristiane Santos.


*Fotos de Maurício Andrés


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sexta-feira, 9 de agosto de 2013

sábado, 20 de julho de 2013


MEIO AMBIENTE E EVOLUÇÃO HUMANA

Maurício Andrés chegou recentemente de São Paulo, onde lançou o livro Meio Ambiente e Evolução Humana. Publicamos abaixo sua entrevista para este blog:
Em que contexto foi publicado seu novo livro?
“Meio Ambiente & Evolução Humana é título de livro publicado pela Editora SENAC em 2013, que integra a Série Meio Ambiente, coordenada por José de Ávila Aguiar Coimbra. Ele foi lançado no dia 7 de junho em São Paulo, juntamente com outros cinco livros da série, que trataram sobre meio ambiente e Escola, Economia, Química, Teologia e Botânica. Houve duas mesas redondas coordenadas pelo professor Ávila e um coquetel na Livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista.”
 Como  e onde teve origem esse livro?
“Este livro começou a nascer quando fui estudar na Índia como pesquisador visitante do CNPq, no Instituto Indiano de administração em Bangalore, há 35 anos. Tomei contato, então, com a obra de Sri Aurobindo e com sua concepção do ser humano como um ser em transição. Ele abordou a jornada humana a partir da perspectiva evolucionista. A Índia é uma civilização movida por valores espirituais, pela cultura védica milenar, e cuja cosmologia estimula comportamentos amigáveis em relação ao ambiente. Ali se aplica o principio da não violência, usado por Gandhi na luta pela independência e estendido ao mundo animal; o vegetarianismo; a ioga com a consciência do corpo e as posturas corporais (asanas) e consciência da respiração (pranayama). A psicologia é refinada e aceita a existência de níveis superiores da consciência: para cada palavra de psicologia em inglês há 4 em alemão e 40 em sânscrito. A civilização indiana tem grandes contribuições a nos oferecer para o entendimento mais integral do ser humano, como indivíduo, população e espécie.”
 Qual a importância de ter uma visão integral da ecologia?
 “Desde que me formei em arquitetura, envolvi-me com temas ambientais. A partir da década dos anos 90, fui gestor ambiental municipal, estadual e depois nacional.  Nesse processo, inspirei-me na obra de Pierre Dansereau, botânico e geógrafo canadense, que tinha uma cosmovisão abrangente das questões ecológicas. Eu dedico o livro a ele, um de meus grandes gurus nesse tema. Eu também me inspirei na abordagem de Pierre Weil, psicólogo que criou a Unipaz, que teve uma visão integradora das ecologias e que reconhecia a importância da ecologia interior.”
Como se pode abordar o tema da corrupção a partir do enfoque ecológico?
 “Um dos textos aplica a abordagem ecológica ao tema da corrupção. Os corruptores são predadores que tratam a sociedade como sua presa; são parasitas que sugam a sociedade que os hospeda e nutre. Há na corrupção, relações ecológicas desarmônicas de parasitismo e de predação.”
 Por que focalizar o tema da evolução humana?
 “O livro nos situa no período antropoceno da história da Terra, no qual nossa espécie é a dominante. Em seguida focaliza o homo sapiens, esse ser que produz grandes transformações no planeta. Suas motivações, interesses, desejos, emoções, sentimentos e afetos, além de pensamentos, movem suas ações. O livro examina alguns dos papeis que essa espécie tem hoje na evolução, da qual se tornou co-gestora. Procurei focalizar a ecologia do ser numa visão integradora.
Em seguida o livro focaliza a ecologia do ser, procura compreender o ser humano, como espécie, a partir da abordagem ecológica. Fala sobre o nosso corpo, que é ele próprio um ecossistema no qual vivem bilhões de micro organismos – vírus, bactérias, fungos etc. Fala da interação entre corpo, mente emoções e como cada um deles influi sobre os demais. Em seguida fala sobre a consciência, visões orientais ocidentais. Aqui novamente me inspiro nos conhecimentos que aprendi na Índia, especialmente na raja ioga e com Sri Aurobindo, com a ioga integral, uma forma de alterar estados de consciência. E também faço referencia à noosfera de Teilhard de Chardin, à noodiversidade – a diversidade de estágios e níveis de consciência e a noética.”
 O que é a consciência ecológica?
 “O livro trata da consciência ecológica, como um estado de consciência que nos faz vivenciar a unidade do ser com o ambiente. Fala sobre o mito da sustentabilidade- no sentido que lhe dá Joseph Campbell, de um mito unificador necessário para convergir energias e motivações humanas. E novamente traz conhecimentos sobre a cultura ecológica na Índia, baseada em valores e que se reflete em comportamentos e seus impactos no mundo físico e material.”
 Qual a importância do autoconhecimento?
 "Ó espécie humana, conhece-te a ti mesma e conhecerás o ambiente e o universo em que vives". Essa máxima resume o espírito do livro. O autoconhecimento é um recurso valioso que pode nos ajudar a lidar com as circunstancias desse momento de crise ecológica e de crise da evolução.”

(Maurício Andrés é autor de Ecologizar e de Tesouros da Índia - www.ecologizar.com.br / ecologizar@gmail.com)

*Fotos de arquivo

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terça-feira, 9 de julho de 2013


CINCO ARTISTAS, CINCO PROPOSTAS

Morar em Minas Gerais, para qualquer tipo de arte, significa persistência e dedicação ao trabalho, apesar de todas as dificuldades e resistências.
Na década de 1950, quando uma turma de jovens artistas, alunos de Guignard, se emancipou da pintura figurativa para abraçar o construtivismo, uma nova mentalidade se formou em Minas. A arte não precisava necessariamente de copiar a natureza, mas de criar uma nova idéia. Seja lá como for a denominação, vanguarda ou neovanguarda, o fato é que a arte como idéia criadora sobrevive e se manifesta de maneiras diversas, de acordo com a criatividade de cada um.
Essa exposição coletiva de 5 artistas, aberta com grande sucesso na Galeria Errol Flynn, mostra em seu conjunto a unidade na multiplicidade própria  do espírito do artista mineiro. Cada um segue o seu caminho, abraça uma idéia diferente, mas todos revelam sua ligação com a terra e a persistência do mineiro, fora do famoso eixo Rio-São Paulo.
A exposição merece ser vista e estudada. Todos se harmonizam numa trilha sonora de notas diversas, como se os sons da terra pudessem falar. Ali estão as propostas de Eymard Brandão, tiradas das cores e pedras dos chãos de Minas. Em seguida, as obras de Paulo Laender, em pintura, escultura e desenho, que estão ligadas à nossa tradição barroca. O ferro, extraído da terra é a base da escultura de Jorge dos Anjos, que faz ressurgir a inspiração dos negros em Minas. Roberto Vieira busca o solo de Minas e dali extrai a matéria necessária para fazer as suas composições e objetos de parede.
Mas, Minas tem também um outro aspecto  vindo da contemplação das montanhas. As propostas de Jayme Reis ilustram bem essa necessidade de voar mais alto, além da terra. Seus temas nos revelam a vontade de se transportar, viajar, percorrer outras regiões. Jayme nos mostra esse tema, construindo barcos, aviões, objetos aéreos. Estamos vivendo uma época de comunicações que ultrapassa os limites do espaço físico.

Viajar, percorrer outros mundos, sempre foi o sonho dos artistas. E, nessa exposição, todos já tiveram a sua experiência de se mandar pelo mundo afora e um dia retornar. Paulo Laender, através da internet, se comunica com o mundo e raramente expõe em galerias. Já o encontrei na Índia, no meio de uma confusão numa rua em Delhi. Em 1992, Paulo Laender participou de coletivas na Europa. Eymard esteve comigo em Adyar, sul da Índia, adaptou-se tranquilamente aos hábitos do indiano. Em 1982, Eymard participou de coletivas na Índia e de uma exposição em Londres. Jorge dos Anjos esteve recentemente na Alemanha e Bélgica, levando o nosso Brasil para a Europa. Roberto Vieira representou o Brasil numa coletiva de brasileiros em Bruxelas e Jayme Reis esteve presente na Espanha e participou de vários concursos de arte erótica em Barcelona.
Assim, cada um a seu modo, mesmo residindo aqui nas montanhas, já teve a sua oportunidade fora do Brasil. Viver em Minas é aproveitar o que a terra oferece, para depois trazer de volta, em atitude de reverência, a própria inspiração da terra em forma de arte.
Quem percorrer a exposição descobrirá por si mesmo, a título de participação, um pouco de nossa terra nas obras expostas.

Fotos de Tina Carvalhaes


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