sexta-feira, 30 de abril de 2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010

MUDANÇA DE DIRETORIA NO INSTITUTO MARIA HELENA ANDRÉS

Um dia Roberto meu neto me telefonou de Paris: “Vó, vou fazer um projeto de museu para você”. O projeto será a minha defesa no curso de graduação em Arquitetura.
Daquele dia em diante a idéia foi crescendo, tomando forma – Passaram-se cinco anos, desde a data comemorativa da criação do IMHA, em Entre Rios de Minas.
Nesses cinco anos aconteceram três Festivais de Inverno e um mutirão que reuniu a cidade toda mostrando a criatividade como energia de paz e união entre as comunidades. Criou-se o projeto Música na Escola e uma ONG de ecologia, a Ecopaz tudo isso na cidade de Entre Rios, a uma hora e meia de distância de B.H.
Em tempos passados aquela região serviu de triagem dos cavalos Manga-larga e Campolina – Ali se reuniam os tropeiros carregando a mercadoria amarrada em picuás no lombo dos cavalos.
Ao longo do tempo o IMHA teve uma história acidentada, pouco dinheiro e muito entusiasmo. Euler e Saulo, como primeiros diretores se desdobraram nas iniciativas e agora estão entregando a regência para Antônio Eugênio que com a sua grande experiência empresarial levará o IMHA para além das vertentes, em busca de novas terras.
O primeiro mandato terminou com a exposição – Linha e Gesto – no Palácio das Artes em Belo Horizonte, tendo sido visitada por 15.000 pessoas. Idealizada há três anos por Roberto Andrés que direcionou uma equipe de jovens arquitetos, artistas plásticos e cineastas com a parceria de Marília Andrés. * Ver postagem “Reflexões sobre uma exposição”
A exposição foi a abertura para novos caminhos.
As comemorações de entrega de mandato se realizaram na sede do Instituto, uma casa estilo rústico, situada na Rua Dr. José Gonçalves da Cunha em Entre Rios. Houve discurso, prestação de contas e votação para a chapa única.
Depois de um almoço comemorativo no Café com Prosa, a turma seguiu para a Capela “Olhos D’água”, uma pequena jóia do barroco situada nos arredores do “Crasto”. Ali ouvimos o violão de um jovem artista, Pedro Gervason - que teve os seus estudos iniciais no 1º Festival de Inverno. Em seguida foi plantada uma árvore gameleira no lugar em que existia uma outra e que aparece em relatos históricos do Século XVIII e XIX. Ali os viajantes paravam para repousar de longas viagens pelas estradas poeirentas de Minas Gerais. No tronco da gameleira havia uma cavidade natural, um pequeno salão aonde as pessoas, vindo a cavalo, trocavam de roupa para entrar na Igreja. Até as noivas usavam a gameleira como camarim para se prepararem para a cerimônia do casamento.
O plantio da gameleira simbolizou a mudança que vai acontecer no IMHA. Nova diretoria, novas direções, novos caminhos.

* Fotos: Antônio Eugênio Salles, Renata Guerra e Saulo Resende



sexta-feira, 16 de abril de 2010

quinta-feira, 15 de abril de 2010

SEMANA SANTA EM OURO PRETO

Ouro Preto sempre é um cenário onde a Paixão de Cristo se realiza de forma artística. Ali a tradição é cultuada por toda a população. Janelas se enfeitam de cores, mostrando o roxo como significado da morte de Cristo e cores alegres para a festividade da Páscoa.
O chão de Ouro Preto data do século XVIII, quando as pedras eram colocadas muitas vezes em forma de mandala. Pessoas se vestem para a coreografia, trazendo para o presente o passado histórico do Cristianismo. Figuras do Antigo Testamento – Sara, Abraão, Moisés, desfilam aos olhos do povo. Anjos e Arcanjos caminham pelas ruas, solenes, concentrados, carregando tochas.
Soldados romanos carregam o esquife e Nossa Senhora das Dores chora a morte de seu filho.
A procissão sai da Igreja do Pilar para Antonio Dias. Verônica é representada por uma senhora de 80 anos que vai mostrando para o público a face de Jesus num sudário. Há uma integração de toda a comunidade: negros, brancos e mulatos, crianças, jovens e velhos
No sábado de Aleluia o povo vai para as ruas criar tapetes de serragem por onde irá passar a procissão. O artista Ivã Volpi, convidado para uma exposição na FIEMG, criou junto com a comunidade um tapete que denominou “Coração Flamejante”. Houve uma homenagem ao Mestre Guignard e a bandeira de São Sebastião, um de seus santos preferidos, é colocada na janela do Museu Guignard. No domingo da Ressurreição os tapetes adornam as ruas e o povo se concentra na Matriz do Pilar. Colocam bandeiras, estandartes, cortinas e colchas coloridas nas janelas para celebrar o cortejo. A Ressurreição é uma festa de cores e os anjinhos desfilam transmitindo a alegria e a inocência das crianças. Uma revoada de anjos povoa o cenário da velha Ouro Preto, pais carregam os filhos, e até um anjinho de 1 ano acompanha o cortejo, no colo da mãe, segurando a mamadeira.
Na porta de sua casa, Marília de Dirceu, vestida de noiva espera o seu noivo, deportado para outras terras.
Meninas de rosa, meninos de azul seguem a tradição mineira.

Após a procissão uma turma de garis varre as ruas cantando e em pouco tempo a cidade fica limpa para os dias comuns.

*Fotos: Marília Andrés




domingo, 11 de abril de 2010

REFLEXÕES SOBRE UMA EXPOSIÇÃO Vl

O grupo Superfície, liderado por Roberto Andrés, realizou uma apresentação dinâmica a partir do tema dos boizinhos, que poderia ser vista dentro e fora da exposição. O desenho se movimentava, seguindo a vibração dos sons. Em seguida, uma nova experiência foi mostrada aos participantes, tomando como referencia um quadro concretista. Com o auxílio de um microfone, o publico pode ouvir a tela e sentir o som das cores. Uma das características do século XXI é a passagem do individual para o coletivo. O mito do artista já começou a ser questionado.
Uma performance aconteceu em plena rua. Os alunos atentos assistiam a uma aula de filosofia. A professora escrevia aforismos no quadro negro, um jovem segurava balões brancos que eram soltos no espaço. Enquanto os balões subiam as coisas aconteciam debaixo do céu. Os transeuntes que passavam em frente ao Palácio das Artes davam palpites e, às vezes, também participavam, como aquele passante que achou ótimo deitar na rua, ao lado do artista que segurava os balões.
A mais decisiva performance foi a última, entregue à dançarina Dudude Hermann,que foi convidada para fazer a desmontagem da exposição com uma performance sobre desconstrução. Quando Dudude começou a dançar, ela parecia incorporar a energia do Deus Shiva que dançando destruía os apegos. Naquele momento, os artistas, curadores, desmontadores, puderam ver com clareza a relação.da arte com a vida. A desmontagem significava também a possibilidade de um recomeço em outro espaço e tempo.
Depois da exposição recebi uma instigante fotografia de Haroldo Kennedy. Nela as lentes do fotógrafo criam novos espaços e sugerem novas dimensões para as esculturas.


* Fotos: Roberto Andrés e Haroldo Kennedy

domingo, 4 de abril de 2010

REFLEXÕES SOBRE UMA EXPOSIÇÃO V

A exposição trouxe para o Palácio das Artes uma dinâmica de apresentações paralelas que se estenderam pelo mês de janeiro e fevereiro de 2010. A começar da primeira performance, do grupo O Grivo, a ligação da pintura com a música foi amplamente experimentada. “Os desenhos de John Cage lembram os seus”, assim me falou o músico que desenvolveu uma integração da música com a poesia minimalista. Ali, a comunicação foi feita através do silêncio e das experiências de John Cage unindo arte à meditação.
Meus quadros da década de 50 têm a força de interagir com outras artes e agora estão sendo o embrião de novas criações no campo da música, da escultura, da dança e da arquitetura. A apresentação de Artur, Alexandre e Regina revelou a possibilidade de um quadro concretista se transformar em partitura musical. Naquela noite, Alexandre meu neto, que também é compositor, me presenteou com uma composição de sua autoria, recém criada no seu estúdio na fazenda. A síntese das artes começou a acontecer sobre as luzes do grande salão. Foi quando uma jovem dançarina se levantou do chão de mármore onde estava sentada e começou a dançar espontaneamente levando a platéia a participar da energia da criatividade em sua fonte.
A exposição foi enriquecida, a partir do dia 17 de janeiro, por eventos que promoveram a participação do público de forma diferenciada. Por ali passaram crianças, jovens, adultos, pessoas das diferentes classes sociais. As telas foram reinventadas no desenho espontâneo das crianças, no pensamento elaborado dos jovens estudantes de arquitetura e no construtivismo de Marcio Sampaio. Todos puderam participar. Pesquisas foram feitas nos computadores, nos livros e documentos espalhados sobre a mesa e também na linha do tempo estendida cronologicamente. A minha vida de artista foi mostrada desde a adolescência, quando pintava artistas de cinema, até os dias de hoje, com as esculturas que se ergueram do bidimensional para o tridimensional. Houve interesse em percorrer a mostra e muitas vezes as pessoas retornavam para observar detalhes nos dias seguintes.

*Fotos: Roberto Andrés

sábado, 27 de março de 2010

REFLEXÕES SOBRE UMA EXPOSIÇÃO IV

No dia 7 de fevereiro, José Cabral Filho, aproveitando a intervenção dos irmãos Drumond, construiu uma replica no chão, com uma experiências de arte virtual projetada na parede à medida em que as pessoas circulavam e se davam as mãos, numa demonstração da energia humana conjugada com a energia da tecnologia.
No dia 4 de fevereiro foi realizada a palestra do crítico Fernando Cocchiarale. Sentada ao lado do palestrante eu escutava suas palavras claras sobre o concretismo no Brasil e no mundo. Ele inseria o grupo mineiro nos movimentos concretistas da década de 50, mostrando a importância de nossa participação. Seu pensamento revelou uma arte internacional ligada em suas origens à vanguarda russa pre-revolucionária, onde se estudou a forma em seus elementos essenciais. Cocchiarale também mencionou a importância da presença da mostra Arte Construtiva Brasileira nos Estados Unidos como forma de valorização de nossos artistas através de uma coleção da mais alta qualidade.
Tendo como suporte o tablado de madeira onde distribuiu retângulos, quadrados e varetas coloridas, no dia 9 de fevereiro, Márcio Sampaio buscou na origem do construtivismo a influência do grande artista russo Malevitch. Aquele artista procurava, através da eliminação do supérfluo, alcançar a “realidade suprema” que é sem forma e sem cor, chegando ao famoso quadro “Branco sobre branco”. Na exposição, Márcio Sampaio, inspirado no construtivismo russo, criou para mim uma logomarca que oportunamente será usada.

* Fotos : Roberto Andrés

sábado, 20 de março de 2010

REFLEXÕES SOBRE UMA EXPOSIÇÃO III

As crianças se interessaram, participaram de uma oficina dirigida por Isaura Pena e tiveram a alegria de ver seus trabalhos também expostos nos painéis. Depois vieram as intervenções. No princípio achei estranha a idéia, pois nunca tinha visto isso em nenhum lugar do mundo. Curadores, artistas e colecionadores teriam de ver seus trabalhos sempre mudando de lugar. Ótima idéia para treinar o desapego.
Marília e Roberto foram os curadores, fizeram uma instalação baseada na história da linha e do gesto. Juntos, organizaram o primeiro módulo, que durou um mês. Ficou lindo, muito claro, incisivo, mostrando o início do processo e a direção para as esculturas geométricas e orgânicas.
Já estávamos todos acostumados àquela disposição dos quadros e esculturas, quando, numa segunda feira, tudo mudou e na terça feira já estava instalada uma nova versão, dessa vez entregue a dois outros curadores convidados, Wellington Cançado e Renata Marques. A nova curadoria mudou tudo de lugar de um dia para o outro. Tivemos de desapegar do passado e enxergar o novo, naquele momento entregue a dois jovens arquitetos. A visão do todo foi dividida em compartimentos bem definidos. Os quadros passaram a ser vistos de outra forma, independentes de uma perspectiva cronológica e as esculturas tiveram destaque colocadas à entrada da galeria.
No dia 26 de janeiro, o diretor do Museu Mineiro, Francisco Magalhães, fez uma segunda intervenção mas não mudou os painéis. Riscou no chão com grafite projetando linhas paralelas que dialogavam com os quadros concretistas, com os painéis e estendia a exposição para o piso de mármore.
As intervenções foram verdadeiras reinvenções inspiradas nas pinturas concretistas. No dia 2 de fevereiro, os irmãos Marcone e Marcelo Drumond reinventaram meu quadro “Fantasia de ritmos”, hoje pertencente ao Museu de Houston, nos Estados Unidos e, no momento, percorrendo a Europa na exposição coletiva “Arte Concreta Brasileira”. Foi aberta a discussão sobre a venda da coleção Leirner para os Estados Unidos. Como pertencente a esse grupo de artistas brasileiros, sou de opinião que a retirada das obras do Brasil não significou perda nem para os artistas, nem para nosso país. O estrondoso sucesso da mostra “Arte Concreta Brasileira” levantou o nome do Brasil para o exterior e também permitiu que se olhasse com respeito para o hemisfério sul. Em nível de qualidade ficou constatado o fato de que somos tão bons em termos de arte concreta quanto o hemisfério norte, para não dizer melhores em termos de conjunto.

domingo, 14 de março de 2010

REFLEXÕES SOBRE UMA EXPOSIÇÃO II

A linha do tempo me ajudou a ver mais claramente os caminhos por onde passei, em ordem cronológica. Para realizar essa cronologia Eliana Andrés pesquisou documentos antigos guardados nas gavetas da memória. Abriu pastas e papéis amarelecidos e até os desenhos das artistas de cinema apareceram, documentando a minha adolescência de 14 anos. Desde então, meu caminho estava traçado.

Vídeos foram editados, depoimentos de vida, o refúgio nas montanhas, passarinhos cantando. Terra, água, fogo, ar e éter registraram minha passagem por caminhos diversificados. O passado foi surgindo no meio de livros, documentos, falas. Surgiu devagar, realizado com muito amor e paciência. As pessoas paravam para ver os livros e as minhas viagens à Índia filmadas por Maurício Andrés em 2007 e editadas por Cecília Fernandes, com produção de Ivana Andrés e imagens de Luciano Luppi.

Tudo se tornou interessante e vivo, porque foi um registro de experiências. A linha contínua foi sempre lembrada: “Partir de um ponto e voltar ao ponto inicial”.

Na arte e na vida as coisas se assemelham. No momento, faço releituras do que foi feito, na década de 50, o construtivismo, na década de 60 o gestual. O construtivismo gerou esculturas geométricas, o gestual gerou esculturas orgânicas. O caminho foi registrado de forma clara.


Partir do individual para o coletivo, do pequeno para o grande, de Minas Gerais para o mundo. Depois,voltar à terra e ver que as montanhas estão indo embora, de trem de ferro e navio para outras terras distantes. O depoimento sobre a serra da Calçada também foi apresentado em vídeo: lembrei das fases da exploração de nossas riquezas minerais. O ciclo do ouro e agora o ciclo do ferro, assustadoramente devorador! Tudo isso foi visto e provocou reflexões, numa forma interativa e dinâmica. “Onde fica essa Serra da Calçada? Vou fazer o mesmo movimento de proteção lá no Maranhão”. Outro visitante se encanta com a Índia. “Sou discípulo de Sai Baba, um dia ainda chego lá na Índia.”

* Fotos: Maurício Andrés

quarta-feira, 3 de março de 2010

REFLEXÕES SOBRE UMA EXPOSIÇÃO I

A exposição Linha e Gesto realizada no Palácio das Artes entre dezembro de 2009 e fevereiro de 2010 motivou reflexões sobre seu conteúdo e dinâmica.

Para essa exposição, optamos por uma linha que teve sua origem na década de 1950, quando meu trabalho passou do figurativo para o abstrato. O registro dessa mudança está nos pequenos croquis feitos na zona rural de Minas Gerais, a fazenda da Barrinha. Naquela ocasião, levando comigo um caderno de anotações, eu desenhava em nanquim o movimento de uma fazenda mineira. A serie Via Sacra pertence também aos desenhos preliminares que motivaram a transformação do figurativo para o abstrato.
O passado foi a energia propulsora da qual se foi construindo o futuro. Foi necessário desconstruir o passado para criar o caminho do presente e do futuro. A fase de guerra foi decisiva. Ali foram quebrados os condicionamentos, as estruturas se despedaçaram e começaram as releituras. De um lado, a via sacra. Do outro lado, os boizinhos.
Registros de uma época feliz, estável, família crescendo, o marido dando força para seguir o caminho. Desenhos pequenos, lembranças. No meio do biombo, o túnel do tempo permite ver ao fundo as esculturas de ferro. O presente veio do passado. Ao centro, as cidades iluminadas brilham na noite. Casas, janela, luzes que se acendem, luzes que se apagam. Voltar ao passado? Impossível.
Uma voz interna me diz: Não detenha o rio. Ele segue o curso natural das águas e um dia se joga no mar. Muitas estórias são vivenciadas no curso do rio. Elas nos contam segredos que nunca serão revelados, mas fazem parte da vida, do dia, da noite, das manhas, dos poentes. As lembranças dão vida ao agora porque só ele existe. Comentam sobe minha fase concretista: “Seus quadros dessa fase estão valendo uma fortuna em São Paulo”. Não me interesso pela parte comercial de minha obra. Ela faz parte do meu itinerário, mas não é o que me impulsiona para a frente. Seguir a meta dos jovens. Entusiasmo, alegria, ação. Os valores são outros quando escutamos os jovens. Eles vêem a arte como um todo, não separam. O século XXI é o século da unidade e não da separatividade. Ver a exposição como um todo, um caminho, um túnel do tempo que se prolonga no espaço.

Um dia, Roberto, meu neto me telefonou de Paris: “Vó, vou fazer um museu para você...” Comento com ele que “Museu é coisa parada, para guardar o passado, o melhor é fazer um instituto onde a mensagem pode ser visualizada no todo de forma dinâmica.”
Assim foi criado o Instituto Maria Helena Andrés – IMHA. Dali saíram três festivais, um mutirão, foram criadas algumas ONGS e oferecidos projetos de extensão de arte a toda a comunidade. Uma das metas era uma exposição didática de meus quadros em Belo Horizonte, com a possibilidade de percorrer o Brasil.
Roberto e Marília lideraram a equipe de curadores dessa exposição determinando a tarefa de cada um. Os jovens se entusiasmaram e desapegadamente começaram a agir. A retribuição era sempre informal, um desenho de presente, um credito na lista de apoio. Elena, que deu o primeiro toque nas esculturas, também realizou os painéis transportáveis, que permitem circular em diversos espaços. Minha arte tem de ser viajante como eu sou na vida. Ser transportável é condição imprescindível!
A exposição mostra meu caminho, que é também o caminho de minha vida, cheio de mudanças. O ponto de mutação energético. Se não enxergamos a ordem interna de mudança, ficamos parados no tempo e sofremos. A ordem não vem de fora, é uma exigência de nosso ser interno.

Os curadores escolheram duas vertentes significativas do meu itinerário de arte, dois caminhos aparentemente opostos, mas que se completam. Ambos buscam alcançar o essencial através da criação artística e posso visualizar claramente o caminho da linha e o caminho do gesto e a sua transformação no tempo.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

INCONFIDÊNCIA ECOLÓGICA

Por ocasião da inauguração do “Caminho das artes” no Jardim Canadá, compareceram artistas e autoridades. Vieram dois ônibus de Belo Horizonte e muita gente entusiasmada com a iniciativa. Percorremos várias escolas de arte. Em cada lugar, o povo se aglomerava para ver o que estava acontecendo e as professoras explicavam para os visitantes os trabalhos ali realizados.
Como convidada especial, eu teria de me levantar e contar o histórico da minha chegada ao Retiro das Pedras, há 35 anos atrás, quando o Jardim Canadá era um povoado de barracos desabitados. O bairro cresceu, abriram-se restaurantes e casas de festas e agora sob a aprovação dos políticos, um circuito de artes promete se estender até Inhotim, passando por residências de artistas, galerias de arte, escolas de dança, artesanato e circo.
Em cada escola, fizemos uma parada e um discurso. Na escola de circo Armatrux, houve um discurso do secretário de cultura. “Nós, políticos, temos o cuidado de escutar os artistas. Nossa missão é escutar e executar as boas idéias que os artistas nos trazem.”
Eu estava distraída, vendo dois malabaristas andando numa corda; só consegui escutar o final do discurso, mas, assim mesmo, ganhei um microfone para responder e tive de responder no susto, numa espécie de jogral improvisado.
“Realmente”, respondi, “você tem razão. Esta região foi palco no passado da Inconfidência Mineira e teve a sua ação política cercada de artistas, poetas, escultores, arquitetos.”
“A minha sugestão é de fazermos uma nova inconfidência, desta vez uma Inconfidência ecológica. Os artistas poderiam se unir para defesa da natureza, defesa dos rios, das matas, das espécies nativas.”
A natureza está-se esgotando e no futuro nossos netos e bisnetos não terão água para beber. Cabe aos artistas sugerir, promover instalações, musicas, poesias. Há 30 anos o artista Manfredo de Souzaneto lançou um adesivo “Olhe bem as montanhas”; Carlos Drummond de Andrade escreveu o poema “Triste Horizonte”. Foram advertências incisivas, justamente porque nasceram no coração de artistas.

* Fotos: Euler Andrés e Maurício Andrés



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

ARTE CONSTRUTIVA NO BRASIL

A exposição sobre Arte Abstrata nas coleções do MAM e de Gilberto Chateaubriand – (Ordem x Liberdade), inaugurada no final de 2003 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro propunha uma retomada histórica do abstracionismo no Brasil, com ênfase nos anos 50.

Aproveitando uma viagem de férias no Rio, fiz um roteiro cultural com meus netos, todos interessados em arte: “- Vó, você deve estar do lado da liberdade, não é?”– “Não sei, posso estar nos dois, já que andei por vários caminhos. ” Naquela exposição, eu estava do lado que correspondia à ordem, disciplina. Foi com emoção que pude rever os artistas da década de 50 que participavam das Bienais de São Paulo. Lá estavam, ao meu lado, vizinhos do mesmo biombo, os companheiros de artes da época, muitos já falecidos: Milton Dacosta, Maria Leontina, Mário Silésio, Alfredo Volpi, Amílcar de Castro, Cícero Dias, Edith Bhering, Fayga Ostrower, Iberê Camargo, Lygia Clark, Manabu Mabe, Tomás Santa Rosa. Senti-me a própria sobrevivente, percorrendo a mostra.

O Concretismo na década de 50, nos propunha disciplina, concentração, limpeza de cores, uma arte mental, intimista, sem impulsos emocionais. Cultivava-se a virtude da paciência. Os quadros levavam meses para serem feitos e o instrumento usado na época para se conseguir uma linha perfeita era uma espécie de caneta ou bisturi, chamado tira-linhas, instrumento gráfico em desuso hoje em dia na era do computador. Com as linhas paralelas eu fazia postes de luz e partituras musicais. Gostava de ficar horas pintando, porque me fazia bem à alma.

Passar pelo concretismo foi para mim uma lição de vida. O fazer artístico significava crescimento. A integração de varias áreas das artes, necessária a uma revisão de valores, era um dos pontos mais importantes do movimento concretista que surgiu a partir da primeira Bienal de São Paulo. Poetas, músicos e pintores se uniam dentro do mesmo ideal estético dando prioridade à pureza da forma. O grande incentivador do concretismo foi o crítico de arte Mário Pedrosa, que visitava os artistas em seus ateliês e muitas vezes chegava até Minas Gerais para acompanhar o trabalho dos artistas mineiros que buscavam uma arte pura, desligada dos padrões figurativos. Os júris de seleção das primeiras Bienais, que às vezes eliminavam 90% dos trabalhos apresentados, eram o grande teste a ser enfrentado. Naquele tempo não existiam curadores de arte e os artistas se dispunham a passar por essa experiência.

A aprovação na Bienal era a minha chance de descer das montanhas e viajar para São Paulo, encontrar os amigos companheiros de jornada, participar dos eventos internacionais e estudar o pensamento dos grandes artistas abstratos europeus. Trocava idéias com os paulistas Maria Leontina, Milton Dacosta, Arcângelo Ianelli e Volpi. Todos tínhamos vindo de antecedentes figurativos e isto transparecia em nossos trabalhos. Não havia a preocupação matemática dos concretistas suíços, seguíamos o comando da sensibilidade e da intuição. Naquela ocasião as idéias espiritualistas de Kandinsky começaram a me acenar como uma estrela luminosa. Os grandes pintores abstratos europeus, principalmente os da vanguarda russa, não se limitavam aos aspectos formais; tinham uma busca interior, um contato direto com níveis mais profundos de consciência.

O rompimento com a figura e o tema indicaram também direções novas para a escultura brasileira. A exposição do artista suíço Max Bill no Museu de Arte de São Paulo em 1950, impulsionou a nova geração de escultores ao questionamento dos moldes tradicionais da escultura figurativa, para abraçar a forma tridimensional pura. Do grupo de Minas, três artistas escultores aderiram ao movimento: Amílcar de Castro, Franz Weissmann e Mary Vieira. Mais tarde, Mary deixou o Brasil para se radicar na Suíça, onde se tornou uma aluna e seguidora de Max Bill vindo a ser uma artista de renome internacional.

Repensar o concretismo é também repensar os caminhos por onde passamos. Aqui em Minas Gerais a nossa visão da arte vinha dos antecedentes líricos de Guignard. Um pequeno grupo se reunia no ateliê de Marília Gianetti, projetado pelo arquiteto Sylvio de Vasconcellos. Marília Gianetti, Mário Silésio, Nely Frade e eu formávamos o grupo de pintores que na década de 50 encontraram o seu próprio caminho dentro da arte não figurativa.

A mesma preocupação do simples estava em todos nós. Revendo os quadros da exposição do Museu de Arte Moderna no Rio cheguei à conclusão de que houve em todos um ponto de mutação comum: a necessidade de eliminar o supérfluo, reduzir o impulso emocional e buscar a essência, na arte e na vida.

Naquela exposição, foi-me possível constatar um fato: Todos nós mudamos depois de algum tempo, alguns radicalmente, outros sem grandes saltos. O caminho da liberdade foi uma conseqüência do exercício da disciplina. Ali no museu, frente a frente estavam os opostos complementares de tudo que existe na natureza e na criação.

A exposição MHAndres -Linha e Gesto, organizada por Roberto e Marilia Andrés, agora no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, significa também disciplina e liberdade, duas vertentes constantes em meu itinerário artístico. Percorrendo a exposição pode-se ver como estes dois impulsos estão ali presentes, buscando sempre no passado uma linguagem renovada. A acessoria e entusiasmo do grupo de jovens colaboradores do evento possibilita a renovação do diálogo entre os curadores, artistas e o público.



*IMAGENS:
1) Maria Helena Andrés – Fantasia de ritmos,1958
2) Mário Silésio – Ritimo,1957
3) Marília Gianetti Torres – Composição n° 2, 1956
4) Amílcar de Castro – Sem título, 1963
5) Franz Weissman – Escultura
6) Mary Vieira – Escultura,Parque do Ibirapuera, SP