Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
segunda-feira, 13 de março de 2017
quinta-feira, 2 de março de 2017
COMPOSIÇÃO E ORGANIZAÇÃO
A famosa definição de Maurice Denis resume a pintura
ocidental, ao dizer que um quadro, quer seja um cavalo de batalha, uma mulher
nua ou qualquer outro tema, é, antes de tudo, uma superfície plana recoberta de
cores que se reúnem numa certa ordem. Consciente ou inconscientemente, o
artista procura a união dos opostos, o equilíbrio das linhas, dos espaços, a
justaposição de cores, os contrastes de luzes e sombras. Ordena o caos. A arte
é a forma de realizar esse desejo de harmonia. Os elementos dispersos
integram-se num todo.
Organizar é uma necessidade interior do ser humano,
que se manifesta de maneira concreta na criação artística. A procura do
equilíbrio é uma constante em toda a história da arte. Compor é equilibrar,
reunir, contrastar, organizar. Manifesta-se por meio da razão ou da
sensibilidade, de acordo com a tendência do artista.
A criatividade, procurando
o equilíbrio, não obedece necessariamente a medidas teóricas. A busca do
equilíbrio externo reflete a necessidade do homem de se integrar às forças
eternas que regem o cosmo, a natureza e os seres criados. Leonardo da Vinci
fundamentava suas composições no movimento dos astros e planetas. A estatuária
grega foi construída dentro de proporções ideais. O artista atual constrói sua
obra livremente, de acordo com seu tipo humano. Intelectual ou emocionalmente,
a ordem é procurada. Ela se revela na forma exata da Pop Art
ou na espontaneidade do Expressionismo. Por meio da razão ou da
intuição, do pensamento ou da sensibilidade, o artista sempre busca expressar a
ordem.
A própria elaboração de um quadro é forma de
estruturar, construir. A primeira mancha de cor sobre a tela branca exige outra
cor para contrabalança-la. A direção de uma linha desperta a necessidade de
outra. O desenvolvimento do trabalho exige a supressão de uma figura, o
deslocamento de uma forma, o aparecimento de uma cor. As tonalidades se
contrastam e se combinam, os traços se organizam, as formas se completam. O
artista cria divisões novas, destrói para construir, suprime para realçar,
dirige e comanda os elementos que integrarão o conjunto do quadro. Realizando a
ordem exterior, busca a integração de suas energias com o poder eterno que rege
céus e terra.
O princípio
Yang-Yin adotado pelos antigos mestres taoístas sempre existiu com outra
denominação na arte do Ocidente, desde os tempos mais remotos até os nossos
dias. Mudam-se as denominações, amplificam-se os termos, mas o significado é o
mesmo. A união dos contrários, das forças opostas, é a procura sempre presente,
na arte e na vida, da síntese final, da unidade na multiplicidade.
Mas a arte exige, também, expressividade. René
Huyghe, na introdução do seu livro “A
Arte e a Alma”, cita o grande escultor Rodin para esclarecer a
necessidade de expressão na obra de arte: Não existe talvez nenhuma obra de
arte que extraia o seu encanto apenas do equilíbrio das linhas e dos tons e se
dirija unicamente à vista. Também ela deve ser criada pela alma e para a alma –
e exprimi-la, nutri-la, enriquecê-la.
A expressividade é o sopro vital que ilumina o
quadro. Não se dirige ao intelecto, mas à alma. Transcende o exato equilíbrio
da forma. Dá-lhe movimento e energia. Ajuda na harmonia final do quadro. A
expressividade se manifesta numa simples pincelada ou no resultado final do
quadro. É por meio desse sopro vital que a comunicação artística se realiza. A
expressividade é a linguagem da alma, e é compreendida e admirada através da
alma.
(Trecho do meu livro “Os Caminhos da Arte”, editora
C/Arte, 2014)
*Fotos da internet
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
REDESCOBERTA DO EU INTERIOR
O mundo moderno, preocupado com o consumo, o lucro e
a competição, envolve-se na fumaça das glórias externas, esquecendo-se da
realidade interna, cuja existência muitas vezes não chega a vislumbrar. O
raciocínio lógico impede a abertura para a intuição. A meditação, a
interiorização, a arte, conduzem-nos a esta limiar de luz, e, portanto, trazem
consigo a paz interior.
A arte é uma das formas mais penetrantes de
redescoberta deste Eu interior, que todo homem possui, mas, muitas vezes, não
chega a perceber. Os artistas têm espontaneamente a tendência de abrir a porta
da intuição e deixar que o Eu interno fale: seja na combinação de cores, de
sons ou de palavras. Esta abertura para a intuição coloca-os de certo modo em
atitude receptiva, deixando fluir o que estava adormecido no inconsciente.
A intuição ilumina a mente durante o curso do
trabalho, ou chega de surpresa, muitas vezes de madrugada, quando tudo dorme. A
maior riqueza do artista é o diálogo silencioso que trava consigo mesmo,
superando os dias de sucesso ou de fracasso. Este diálogo significa para ele
forma de purificação e equilíbrio. Muitos artistas conseguiram este equilíbrio
e chegaram a testemunhá-lo em seus depoimentos. Mas, para isto, tiveram de se
manter na indiferença às solicitações e pressões externas, aos acenos do lucro,
da ambição e das glórias. Os prêmios e o reconhecimento público são importantes
na medida em que colaboram para o incentivo e o aumento da criatividade. A
criatividade é a chama que deve se manter acesa, em contato permanente com a
vida interior.
Mas este encontro com o Eu interior não é privilégio
dos artistas, todo ser humano é um criador em potencial, portanto nasceu com a
predisposição para entrar em contato com a realidade interna, chave de sua
integração. O trabalho feito com amor, colabora nesta integração. O homem que
segue suas tendências naturais, que se desenvolve dentro da profissão para a
qual foi chamado, está colaborando de certo modo para o seu próprio equilíbrio
e para o equilíbrio daqueles que o cercam. Sentir-se integrado naquilo que se
faz, é fator importantíssimo não só para o rendimento do trabalho, como para o
desenvolvimento e progresso do meio em que se vive. O trabalho feito em
ressonância com a vocação de cada um, do cozinheiro ao sapateiro, do camponês
ao industrial, do médico ao engenheiro, da dona de casa à modista, ajuda na
reconstrução da pessoa humana equilibrando suas energias internas e externas.
Muitas vezes nos entregamos a tarefas que não gostamos, julgando ser este o
nosso dever, não reservando um só momento para o desenvolvimento de nossa
vocação. Esquecemo-nos de que ela nos foi dada por Deus para ser desenvolvida,
e não reprimida. Por meio dela seremos livres. Desenvolver a própria vocação
não é forma de egoísmo, mas procura de totalidade.
Nesta época de massificação e desajuste social, é
necessário compreender que as energias do homem precisam se integrar, crescendo
em harmonia com suas aspirações, de acordo com suas tendências naturais. Esta
integração virá beneficiar o progresso do homem como pessoa, refletindo-se em
seu ambiente. O despertar das energias interiores através do desenvolvimento
das inclinações individuais se dará no trabalho, no esporte, na arte, no estudo
ou na reflexão.
*Fotos de arquivo e da internet
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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
GUARDANAPOS DE CARLOS STARLING
“Guardanapos” é o título do livro de Carlos Starling
, escrito ao sabor do momento, nas mesas, nos jantares, nos encontros com
amigos. Carlos Starling é médico infectologista, especialista em Medicina
Preventiva e Social, mestre e professor de Medicina, poeta, escritor, gourmet e
ciclista.
Logo de cara, me simpatizei com o livro, pois também
escrevo em qualquer papel que estiver
à minha frente. Somos escritores repentistas, do momento. Guardanapos,
escrito em guardanapos, é um depoimento sensível das vivências de um médico,
cientista, escritor, pai de família. Nada escapa à sua visão da vida, o mundo
externo provocando palavras, rimas poéticas.
O dia a dia de um poeta é registrado no seu
cotidiano, no trem que passa, nas filhas brincando, nas vivências íntimas de um
médico escritor...
Aliás, por que os médicos, de um modo geral, gostam
tanto de arte?
Meu marido, Luiz Andrés, não escrevia poemas, mas
apreciava a arte, enxergava o futuro de seus familiares artistas, dava incentivo
e preparava para mim telas enormes...
Fico pensando no quanto devo a ele o incentivo e
coragem para seguir em frente. Ele me dizia sempre:
“Artista não pode ficar parado aqui em Belo
Horizonte, tem de conhecer outros lugares. E com este incentivo tive coragem de
me aventurar pelo mundo...
Mas, voltemos ao nosso amigo Carlos, casado com
minha neta Joana.
Agora tenho nas mãos o seu livro e volto a refletir
sobre o médico poeta.
A medicina é também uma arte, a arte de cuidar do
ser humano, tornar mais leve o seu sofrimento, curá-lo.
No momento, tendo Joana ao seu lado, Carlos pesquisa
sobre o papel que está em sua frente, no restaurante, enquanto espera o almoço
chegar.
É ali, naquele momento, que a poesia vem à tona em
sua intensidade. Quantos guardanapos seriam necessários para um poema intensivo
como “Síria”?
Da sua coletânea este poema é o que mais nos toca no
momento em que a Síria está sendo destruída e arrasada pela ira dos canhões.
O problema dos refugiados, da Síria destruída ali
está registrado de forma poética.
“Guardanapos” é uma coletânea de 26 poemas de
centenas escritos por Carlos. O livro foi idealizado e produzido por sua esposa
Joana Caporali Andrés Starling. Produzido secretamente, o livro foi um presente
de aniversário de Joana para Carlos, e apresenta um pequeno recorte de décadas
de escrita.
SÍRIA
Fujo
para a vida,
Lanço
minha sorte ao mar.
Deixo
meu quintal,
Meu
parreiral,
Meus
lírios que não floriram.
Ondas
levam meus sonhos,
Meus
filhos,
Meus
álbuns de família.
Ancoro
num deserto de farta solidão,
Sou
um número,
Uma
onda dissonante,
Uma
imagem repetida.
Abro
os olhos do mundo
Para
o futuro incerto...
Amor
é o que espero,
Vida
é o que quero,
Apenas
vida.
Síria,
Síria,
Minha
Síria,
Otomana,
desértica,
Minha
Síria, Assíria, Curda, Turca,
Minha
Síria Grega, Armena,
Minha
Síria Druza,
Sunita,
Alaudita...
Bendita
Minha
Síria Yasidi,
Árabe
e Cristã.
Minha
Síria tiranizada,
Arrasada
pela ira dos canhões insensatos...
Minha
Síria milenar,
Romana,
Francesa,
Levante,
Levante...
Abrace
seus filhos com carinho.
Minha
Síria plural,
Plana,
Fertil,
Eufrates.
Onde
foram seus filhos?!
Abrace-os,
abrace-os...
Minha
Síria Damasco,
Alepo,
Latakla,
Hama,
Ama
teus filhos,
Para
onde foram teus filhos?!
Abrace-os...
Levante...
Levante...
Minha
Síria de Bana Alabed,
De
Bana e Fatermah
Pede
paz,
Paz
é o que pede Bana Alabed...
Paz Levante.
Levante
paz...
(Novembro
de 2016)
*Fotos
de arquivo
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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
COLEÇÃO ADOLPHO LEIRNER NO MUSEU DE HOUSTON
Conheci Adolpho Leirner
quando ele veio a Belo Horizonte me procurar, nos anos 1980. Naquela ocasião
ele estava formando a sua coleção de pinturas construtivas de artistas
brasileiros.
Desde aquela época pude
vislumbrar a importância de deixar nas mãos de um renomado colecionador de São
Paulo o que de certo modo representava o início de minha história artística, a
entrada na arte não figurativa. Não tinha muitas telas disponíveis, mas me
senti feliz de participar daquela coleção.
A coleção de Adolpho
Leirner deixou o Brasil para estar presente no Museu de Houston, nos Estados
Unidos. Ali ela pode ser vista por milhares de pessoas, viajar pelo mundo, ser
televisionada, pesquisada, transformada em livros. Enfim, pode mostrar que a
arte brasileira atingiu um patamar elevado de seriedade, equiparado à de outros
países do primeiro mundo.
O Brasil é um país
sério e a coleção Adolpho Leirner é o testemunho disso. A coleção causou um
impacto quando chegou aos Estados Unidos e ali em Houston apresenta o elevado
nível de nossa arte.
Volto ao começo do
concretismo, quando ele surgiu no Brasil. Foi o impacto causado pelas ideias
vanguardistas de Max Bill, a abertura da 1ª Bienal de São Paulo e o prêmio dado
ao artista brasileiro Ivan Serpa, considerado o papa do concretismo.
Foi a minha amizade com
o casal de artistas de São Paulo, Maria Leontina e Milton Da Costa, que me
possibilitou uma abertura maior para essa tendência. Milton da Costa e Maria
Leontina vinham até Belo Horizonte para me visitar e eu participava sempre de
reuniões na residência deles em São Paulo. Eles assistiram a minha entrada no
construtivismo e a eles devo apoio e incentivo. Nos corredores das primeiras
bienais de São Paulo alguma coisa nova surgia e conseguia levar nossos artistas
à formação de um grupo de alcance internacional.
Adolpho Leirner
percebeu isto e registra em seus depoimentos o início de sua coleção com uma
pintura de Milton Da Costa. Na coleção de Leirner participo como artista
independente e como independentes viajamos pelo mundo.
Recentemente pude ver,
com emoção, no youtube, a abertura da exposição construtiva brasileira em
Zurich, na Suiça. A repórter falava ao microfone, tendo por detrás dela um
quadro de Mário Silésio, nosso companheiro de arte.
Realmente, o testemunho
dado pelos artistas ultrapassa as reivindicações políticas para alcançar um
nível transcendente que unifica os povos, sem conflitos. Percorrer uma
exposição de arte construtiva nos leva a um estado elevado de concentração e
meditação.
A arte construtiva
propõe uma forma impessoal, sem fronteiras regionalistas, que congrega os
irmãos desse planeta num todo espiritual, transcendente. Isso porque o seu
processo exige disciplina e muita concentração. Exige limpeza, clareza e
desligamento do mundo real para a construção de uma outra realidade artística.
A cor teria que ser pura, a forma clara, sem nuances. O artista teria que criar
a partir dos elementos plásticos disponíveis: cor, linha, forma que seriam
organizados em determinado espaço. Isto significava mergulhar dentro de si
mesmo em busca da ideia primordial que se transformaria numa forma nova,
completamente desligada da figuração externa.
Nós os artistas
independentes de Minas, que não participamos dos movimentos concreto e neoconcreto,
estamos juntos nessa coleção. Na época formávamos um pequeno grupo e hoje
podemos ser vistos nas imensas salas do Museu de Houston, no Texas. Sair do
Brasil é uma conquista, participar de coletivas internacionais faz parte da
união planetária, tão sonhada pelos pensadores espiritualistas. Nosso recado
foi dado e hoje está visualizado nos imensos salões desse museu americano.
Estar presente no
mundo, dar testemunho de nosso país, projeta-lo coletivamente e possibilitar o
estudo de um momento importante da arte brasileira, foi oque realizou Adolpho
Leirner ao vender a sua coleção para um grande museu americano.
*Fotos de arquivo
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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
PELAS VEREDAS DE SI V
Dando
continuidade ao depoimento de Artur Andrés sobre os pensamentos de Gurdjieff,
transcrevo o texto abaixo:
“A sua vida,
exatamente como ela é – neste emprego, nesta
família, neste
contexto social – é a condição ideal para que você possa
se trabalhar. Ninguém
precisa ir para uma caverna para atingir a
iluminação. Tudo no
mundo pode ser material de aprendizado. A
grande questão é
desenvolver uma atitude generosa perante a vida, uma
aceitação plena em
relação ao próximo. E é apenas ao trabalhar sobre
si, aceitando suas
próprias contradições, que alguém se torna capaz de
exercer isso em
relação ao outro. Senão, ocorre o que vemos o tempo
todo: o sujeito lê
mil livros, faz isso e aquilo, mas está sempre julgando
as outras pessoas. De
novo, a palavra é aceitação. É esse o desafio, e é para dar conta
dele que estamos
aqui."
O filósofo Friedrich Nietzsche dizia que uma espécie de oração de cada
pessoa ao iniciar o dia deveria ser um pensamento do tipo “Hoje vou
dar alegria a alguém”.
Uma oração que sempre acompanhava Gurdjieff, foi lida por ocasião da sua morte: “Que Deus
e todos os seus anjos nos preservem de fazer o mal,
ajudando-nos sempre e em toda parte a nos lembrarmos de nós mesmos”.
Gurdjieff dizia:
"Um de meus maiores
aprendizados foi reconhecer que há muita coisa
a ser feita e que,
sem um trabalho constante sobre eu mesmo, não terei
chance alguma de
ajudar nesse processo. Foi compreender que liberdade
não significa fazer
apenas o que é mais cômodo, o que me dá mais prazer,
mas que liberdade é
aprender a fazer o que deve ser feito. Uma pessoa virtuosa é aquela que se dá conta de sua própria nulidade, de que, na verdade, não sabe nada. É alguém que, a partir dessa visão, desse não saber, permanece aberto a aprender. Acredito que a busca
do silêncio interno seja uma das grandes metas
do trabalho interior.
Somente quando estamos apoiados nessa condição de
um maior equilíbrio
interno é que podemos, pouco a pouco, aprender
realmente a ouvir, a
ver, a sentir. A habilidade de tocar um instrumento, de
fazer música e,
ainda, de ouvi-la, depende essencialmente dessa busca."
Segundo Gurdjieff: “O silêncio não é a ausência de sons, mas a
ausência do
ego".
Site:
www.gurdjieff.org.br
CDs:
Cantos
e Ritmos do Oriente (Gurdjieff/de Hartmann), de Artur Andrés,
Mauro Rodrigues e
Regina Amaral (Sonhos e Sons)
Hinos,
Preces e Ritos (Gurdjieff/de Hartmann), de Artur Andrés e Regina
Minhas reflexões após a leitura dos textos de
Gurdjieff:
Esquecer as coisas é um fato. Todo ser humano
esquece. Será falta de memória ou falta de atenção? Os yogues falam muito sobre
a atenção no agora. Prestar atenção nos acontecimentos e como eles nos atingem
interna e externamente. Não atuar mecanicamente, mas estar atento a tudo. Não
pensar, ver.
Vou observando as minhas distrações, tomo
consciência delas. Depois vou observando outros distraídos e tento me consolar
com isto. Ser distraído é não estar presente, não viver o momento, estar com a
cabeça no passado ou no futuro.
*Fotos de Maria Helena Andrés e da internet
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terça-feira, 3 de janeiro de 2017
PELAS VEREDAS DE SI IV
Dando
continuidade ao depoimento de Artur Andrés sobre os pensamentos de Gurdjieff,
transcrevo o texto abaixo:
“Segundo
Gurdjieff, a fala é uma dassituações em que somos mais inconscientes. Na maioria das
vezes, nos esquecemos de que falar éalgo tão contundente quanto uma ação
física. Não é à toa que, empraticamente todas as tradições espiritualistas, o
silêncio é considerado umaferramenta valiosa. Por exemplo, uma das principais
causas de vazamentode nossa energia é a expressão repetida de emoções
negativas. Como
aquelas pessoas que estão sempre
reclamando detudo. Se o tempo está nublado, a pessoa reclama da chuva, se faz
sol,reclama do calor, e por aí vai. É muito importante prestar atenção quando
dizemos alguma coisa dessas, expressando inconscientemente essas emoções
negativas, e ver o efeito que isso gera em nós, pois o efeito é só
um: perda de energia.
Uma das frases mais emblemáticas
de Gurdjieff é esta: “Não há
injustiça no mundo”. Quando se
tenta compreender isso, começamos a
perceber que toda e qualquer
situação da vida, cada evento por que
passamos, acontece exatamente
como tem que acontecer. Se quisermos
mudar o curso de nossa vida,
precisamos conhecer as forças que atuam
sobre nós e, a partir dessa
consciência, criar meios de nos libertarmos
dessas forças ou, pelo menos, de
conseguirmos vê-las, pois a visão já é uma
porta para a liberação interior.
Segundo Mikhail
Naimy, em seu “O Livro de Mirdad”, este é o caminho que leva à liberação das
preocupações e da dor:
“Pensai como se
cada um de vossos pensamentos tivesse de ser gravado a
fogo no céu para
que todos e tudo o vissem. E, verdadeiramente, assim é.
Falai como se o
mundo todo fosse um único ouvido, atento a escutar o que
dizeis. E,
verdadeiramente, assim é.
Agi como se
todos os vossos atos tivessem de recair sobre vossa cabeça. E,
verdadeiramente,
assim é.”
Em
relação a essa liberação interior, até agora falamos de uma busca
que a
pessoa realiza por si mesma.
Para a
educação de jovens e crianças, Gurdjieff sugere que os jovens sejam preparados
para enfrentar os embates do cotidiano de uma forma diferente da que vem
ocorrendo em nossa cultura, em que a educação fortalece muito o aspecto da
comodidade,
dos pais tentando ao máximo
proteger os filhos dos desafios da vida. O
resultado disso, como se vê, é
uma geração de jovens desconectados da
realidade.
Em oposição a isso,
Gurdjieff incentiva a educação através do contato com as várias faces da existência.
Muita coisa ele aprendeu com o próprio pai.
Ele o
levava para tomar banho nas águas geladas do inverno russo. Outras pessoas
contam como, aos seisanos de idade, se criavam situações para elas trabalharem
o medo. O pai deuma criança a levava para acampar na floresta e, chegando lá,
dizia:
“Vamos fazer uma fogueira, pois
aqui tem muitos lobos, mas eles não se
aproximam do fogo. Assim, se você
mantiver o fogo aceso, não tem
perigo”. Mas logo o pai sumia e,
por mais de uma hora, a criança ficava
sozinha, cuidando de manter o
fogo aceso. Claro, o pai estava por perto,
vendo tudo de trás de uma árvore,
mas, para a criança, era todo um
processo de descoberta da atenção
e da coragem .” (Trechos da entrevista de Artur
Andrés com Lauro Henriques Jr, publicada no livro “Palavras de Poder”, vol 1,
Editora Alaúde)
* Artur Andrés Ribeiro é doutor em música pela
UFMG, onde leciona. É um dos fundadores do grupo Uakti e já trabalhou com
Milton Nascimento, Paul Simon e Philip Glass. É um dos coordenadores do
Instituto Gurdjieff de Belo Horizonte.
*Fotos
da internet
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