terça-feira, 11 de agosto de 2015

terça-feira, 4 de agosto de 2015


O TRABALHO DAS MÃOS

 Atualmente, o artesanato tem sido estimulado, não somente nos países menos desenvolvidos, mas também nos industrializados. Se no Oriente constitui forma específica de trabalho, no Ocidente é o recurso de equilíbrio para o homem que vive da civilização mecanizada. Através do artesanato, ele realiza sua atividade criadora, latente em qualquer ser humano. “Neste mundo que se coletiviza, é indispensável encontrar na criatividade a sobrevivência do homem. O homem que não é e jamais será máquina, pois é senhor de todas as máquinas, está sendo ameaçado pela sua própria criação”. Nesta época de vida mecânica, de saturação de ideias, de telenovelas, de repetição de slogans, a criatividade seria a forma de continuarmos a ser gente e não “robots”.
Observando as barracas de arte de N. Delhi, lembro-me de Minas Gerais, das joias de prata de Tiradentes, da feira de arte da Praça da Liberdade. É realmente necessário no mundo de hoje o trabalho que o homem faz com as próprias mãos. Vejo agora este indiano fabricando uma joia. Ele cria uma obra única, pois nunca será repetida exatamente. Há sempre uma pequena diferença marcando a pulsação das mãos, uma energia vital que a máquina não pode transmitir. O trabalho manual integra o homem ao seu meio. A máquina não pode sufocá-lo. Seja como “hobby” ou profissão, como forma de terapia ou sobrevivência, o trabalho das mãos tem o seu papel que é fundamental e necessário. A aceleração do progresso tecnológico vai sufocando aos poucos todos os nossos recursos internos. A máquina tirou das mãos do homem o trabalho paciente (time is money) os computadores restringem seu raciocínio. A civilização nos trouxe a rapidez de produção e todas as facilidades para a aquisição de conhecimentos mas, a criatividade é necessária para restabelecer o equilíbrio do homem moderno. Criatividade que vai do arranjo de flores num vaso ao modelado do próprio vaso de argila. Da necessidade de combinar cores à necessidade de combinar sons ou palavras. Mas, seja modelando a matéria palpável, ou lidando com ideias, palavras e sons, a criatividade humana terá de se manifestar, caso contrário, o homem se massificará.

*Fotos da internet


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sexta-feira, 17 de julho de 2015


NOTURNOS DE SARA ÁVILA

Quando conheci Sara Ávila, nos idos tempos da Escola Guignard, quando ainda no parque municipal, ela era uma menina de um desenho muito sensível. Desenhava e pintava aquarelas de flores, muito apreciadas pelo mestre Guignard. Agora, sentada numa cadeira em frente ao grande painel “Noturno de Belo Horizonte”, fico pensando nas flores que me lembravam estrelas e este imenso e monumental painel que me lembra o céu estrelado. Pintado pouco antes do seu falecimento, o painel “Noturno de Belo Horizonte” é uma maravilhosa despedida do planeta, para habitar espaços superiores, cheios de luz.
Sara, com sua fase de “flotagem”, ficou reconhecida internacionalmente, mas não fazia uso disso, para se colocar acima dos colegas. Era discreta ao receber convites e homenagens fora do Brasil. Pertenceu por muitos anos ao grupo “Phases”, sediado na França e com o grupo percorreu a Europa e as Américas.
Na Escola Guignard foi professora de desenho e de criatividade, com um trabalho semelhante ao de Lygia Clark. Quebrar os condicionamentos através de jogos criativos, foi sua tarefa por muitos anos na Escola Guignard, e com isto conquistou a amizade dos jovens iniciantes nas artes.
Conversávamos muito sobre os projetos de cada uma e Sara se tornou  uma grande amiga.
Agora, contemplando o painel “Noturno de Belo Horizonte”, exposto na sala de exposições da Escola onde ela estudou e se tornou professora e diretora, fico pensando no grande poder que a arte tem de transmitir vibrações de deslumbramento e alegria perante a vida.
Ao se transferir de sua residência na Savassi para o bairro Belvedere, Sara se encantou com a cidade vista do alto, totalmente iluminada.
Esta série de “Noturnos” está aberta à visitação pública, na Escola Guignard e merece ser vista.

*Fotos da internet

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sexta-feira, 3 de julho de 2015


A REVELAÇÃO DO AVESSO, EXPOSIÇÃO DE FERREIRA GULLAR

Ferreira Gullar esteve em Belo Horizonte para a inauguração de sua exposição de colagens em relevo. Não me foi possível chegar a tempo para conhecê-lo pessoalmente, mas sua obra falou por ele. Falou de um potencial criador que se multiplica em diversas facetas, sem perder a essência.
Segundo o depoimento do próprio artista, todas as obras foram feitas seguindo a direção do acaso: “Inicialmente, desenhava garrafas, bules e cálices, recortava papéis coloridos e colocava em cima. Um dia, porém, já havia posto os recortes sobre o desenho para em seguida colá-los, quando meu gato deu um tapa na folha de papel e desarrumou os recortes. Colei-os tal como estavam: disso resultou que o desenho era a ordem e os recortes coloridos, a desordem. Depois não mais desenhava: jogava os recortes de papel e, conforme caíssem, os colava. Assim nasceram aves, dragões, cobras e lagartos, com os quais compus livros para criança (e para adultos também). E foi então que surgiram as colagens em relevo.”
Ferreira Gullar liderou o movimento neoconcretista no Rio, tendo como parceiros vindos de Minas, os artistas Amílcar de Castro, Lygia Clark e Franz Weissmann.
O movimento concretista surgido em São Paulo na década de 50 inspirou artistas que não pertenciam ao famoso eixo Rio-São Paulo. De Minas Gerais um pequeno grupo era formado por Mario Silésio, Marília Gianetti Torres, Nelly Frade e eu. Nossa amiga e colega Mary Vieira também se entusiasmou pelo concretismo de Max Bill e foi buscar na Suíça um aperfeiçoamento para o seu trabalho, tornando-se uma artista de renome internacional. O grupo de Minas, considerado independente, era ligado com grande entusiasmo às ideias concretistas nascidas na 1ª Bienal de São Paulo. Tínhamos o apoio de Mário Pedrosa, que muitas vezes nos visitava em Belo Horizonte.  Nosso grupo foi pequeno mas atuante. Agora, percorrendo a exposição de Ferreira Gullar, vou relembrando o passado e refletindo sobre o presente.
Os trabalhos de Gullar expostos na Galeria Lemos de Sá, em Nova Lima, revelam sua origem neoconcretista retomada em nova linguagem, em 2015. Gullar é crítico e também artista. Acompanho de longe o trabalho desse grande poeta, recentemente eleito como imortal na Academia Brasileira de Letras. Pertencemos à mesma geração e somos “sobreviventes” que testemunharam uma grande mudança que ocorreu no Brasil na década de 50, e até hoje se desdobra em novas linguagens e novos caminhos.

*Fotos de Maurício Andrés

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quinta-feira, 2 de julho de 2015

quinta-feira, 18 de junho de 2015


JACA E OS NAVEGANTES

A cada dia me surpreendo mais com as realizações da nova geração.
Fundado em 2011 por um grupo de jovens tendo a frente Francisca Caporali, o Jaca vai caminhando a passos largos, promovendo encontros, residências de artistas, trabalhos comunitários, e uma grande contribuição para a arte contemporânea no Brasil.
Ao final do ano de 2014 o Jaca se apresentou na grande galeria do Palácio das Artes, ali realizando um trabalho coletivo com artistas vindos de vários países das Américas.
Cada um deles trazia uma contribuição valiosa de suas experiências em diversas áreas de arte, uma abertura de consciência para os problemas que afligem os diversos grupos sociais.
Suas propostas iluminavam caminhos diversos, mostrando a capacidade dos jovens de propor situações criativas para a sociedade. Foi publicado num jornal – “A noite branca” com relatos de diversos artistas residentes.
Hoje, o Jaca propõe uma instalação bastante inovadora: diversos containers superpostos e distribuídos num espaço bem planejado estão servindo de abrigo para esta turma super criativa.
Hoje, no panorama mundial, instalações caminharam dos espaços fechados dos museus e galerias  para o céu aberto, haja visto as instalações de Inhotim com os módulos de Hélio Oiticica, e as esculturas onduladas do escultor  “Serra” no Gibbs Farm (Uma fazenda na costa leste de Nova Zelândia).
Os containers superpostos já viajaram por mares, chegaram a países, desembarcaram cargas, fazendo o intercambio comercial como fizeram em tempos atrás os navegantes com suas caravelas.
Agora, condenados ao silêncio e à imobilidade, esses containers coloridos são reutilizados para viver novas experiências. Esse grupo de jovens artistas corajosos decidiu traçar novos caminhos para esses módulos e os utilizaram como abrigo de um espaço de arte. Entrar em um container, tomar um chazinho feito pelos jovens na cozinha da nova sede do Jaca é uma experiência muito gratificante.
Procurar novos caminhos para este tumultuado século XXI, é uma proposta corajosa que serve de exemplo para outros artistas.
“Tudo aqui foi feito e orientado por nós” nos informou um dos artistas residentes.
Para mim foi uma experiência prazerosa usufruir deste projeto que de certo modo realiza um antigo desejo meu de usar um vagão de trem para servir de galeria de arte. Poderia ser em nossa fazenda, em Entre Rios de Minas.
Cortando a fazenda existe uma estrada de ferro que conduz o minério para o litoral do Brasil. Até hoje nenhum parou para me ceder o vagão.
Este meu projeto ficou apenas no sonho, a realidade está aqui, no Jardim Canadá, inaugurado por minha neta, Francisca.

*Fotos da internet

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quinta-feira, 4 de junho de 2015


TRÊS PIERRES E A ECOLOGIA DO SER


 Recebi de Maurício Andrés Ribeiro, o texto que transcrevo abaixo:                                   

 “O estudo da evolução da vida e da consciência assenta-se sobre algumas pedras fundamentais. Três Pierres, com visão cósmica e prospectiva, contribuíram para compreendê-la.

Pierre Teilhard de Chardin, padre e cientista com vivência na China, estudou a evolução e o fenômeno humano. Elaborou o conceito de noosfera, o conjunto de energias mentais, pensamentos, informações, geradas ou captadas desde o início da vida, que constitui uma sutil camada de consciência que circunda o planeta. Teilhard de Chardin propõe que a evolução promove a convergência de forças ascendentes para um ponto ômega.
 Pierre Dansereau, botânico e biogeógrafo do Quebec, no Canadá, foi um pioneiro da ecologia humana. Transportando-nos numa viagem no tempo, ele desenhou um diagrama no qual sintetizou as várias etapas na relação do ser humano com o ambiente. Desde a pré história até a atualidade, houve a fase da coleta de frutos e depois a caça e a pesca; em seguida, o pastoreio, com a domesticação de espécies animais; a domesticação dos vegetais, na revolução agrícola. No século XVIII a revolução industrial amplificou os impactos da ação humana sobre a natureza. Na segunda metade do século XX veio a urbanização acelerada. Vivemos a transição entre as fases da urbanização e a do controle climático. Como nona etapa, prospectiva, ele caracterizou a fuga exobiológica, ou transmigração, prenunciada pelas viagens espaciais.
Sua imaginação e inventividade estão presentes na mandala em que ele nos transporta para uma viagem por várias escalas, do pequeno ao grande, do ser humano interior até a família, a cidade, a região e o planeta. No centro dessa mandala ele situou o homem interior e as diversas percepções que tem sobre as paisagens exteriores em função de seus interesses, formações e condicionamentos culturais.  A compreensão dessa diversidade de estágios de consciência, ou noodiversidade, é básica nos processos de mediação de conflitos relacionados com a gestão ambiental. Pierre Dansereau incorporou a noosfera nos diagramas em que desenhou as interações entre a atmosfera, pirosfera, litosfera, hidrosfera, biosfera. Com isso, abriu o campo para integrar a subjetividade e as questões psicológicas às ciências ecológicas, para além da abordagem socioambiental.
Pierre Weil , psicólogo francês naturalizado brasileiro, trabalhou na perspectiva holística com a ecologia integral, que inclui a ecologia ambiental, a social e a ecologia interior. Formulou um método de transmitir a arte de viver em paz com a natureza, com a sociedade e consigo próprio e de reverter os desequilíbrios. Esse método é baseado no conhecimento das emoções, do corpo e do intelecto e no suposto de que a paz interior é fundamental para se alcançar a paz social e com a natureza. Buscou nas tradições do budismo tibetano elementos para trabalhar com os vários centros de energia do ser humano, os valores a eles associados e os comportamentos destrutivos ou positivos que derivam de tais valores.

As contribuições desses três Pierres – Teilhard de Chardin, Dansereau e Weil - ajudam a compreender as transformações da matéria inanimada para a vida e para a consciência.
A ecologia humana, a ecologia cultural, a ecologia pessoal e transpessoal e os demais campos das ciências ecológicas que buscam compreender a consciência humana são valiosos nesse período antropoceno da história. Esses campos, relacionados ao ser humano interior, subjetivo, psíquico, contribuem para o autoconhecimento sobre a espécie humana, que mostra capacidade crescente de, com suas ações, interferir sobre o rumo da evolução no planeta”. (Maurício Andrés Ribeiro é autor de Ecologizar, Tesouros da Índia; Meio Ambiente&EvoluçãoHumana.ecologizar@gmail.com  www.ecologizar.com.br)



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terça-feira, 12 de maio de 2015


KANDINSKY EM BELO HORIZONTE

 Percorri a exposição de “Kandinsky, tudo começa num ponto” no centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de Belo Horizonte. Observei com muita emoção os quadros deste grande artista, pioneiro da Arte Abstrata. Ao lado de trabalhos de seus contemporâneos e de artistas que o influenciaram, a exposição apresenta a obra de Kandinsky de forma holística, para entendermos como essas influências ecoam, ainda hoje, na arte contemporânea. Vestimentas xamânicas foram incluídas na exposição, assim como pinturas de outros artistas que conviveram com ele na ocasião.

Há mais de 30 anos quando estava escrevendo o livro “Os Caminhos da Arte”, estudei a obra de Kandinsky e o seu livro “O Espiritual na Arte” foi uma referência para mim naquela ocasião. Segue o capítulo escrito na época para o meu livro:

“Kandinsky, considerado o primeiro pintor abstrato, procurou, por meio da arte, o encontro com o seu mundo interior. Empenhou-se na redescoberta da poesia na pintura e na musicalidade das cores. Desligou-se das representações tradicionais do espaço à procura de outra dimensão situada no inconsciente. Pintou símbolos fantásticos, ligados às antigas civilizações orientais, que o colocaram como intermediário entre o Oriente e o Ocidente. Formas geométricas, triângulos, círculos, misturam-se aos arabescos, estrelas e faixas de cor.
Sua importância, projetando luz sobre o caminho da arte, não se limitou à pintura. Suas ideias, expostas no livro “O Espiritual na Arte”, revelam uma filosofia de vida. Considerava a necessidade interior elemento essencial na obra de arte, sem a qual tudo o mais se esvaziaria: regras , ensinamentos e todos os conceitos teóricos que tentam esclarecer, mas que, quase sempre, fazem secar a fonte criadora do artista.
Segundo Kandinsky em “O Espiritual na Arte”, a conceituação a todo custo, de escolas e tendências, a pretensão de querer encontrar numa obra regras e certos meios de expressão particulares de uma época, só pode servir para desorientar-nos e finalmente reduzir-nos ao silêncio. O artista deve ser cego frente à forma, reconhecida ou não, do mesmo modo que deve ser surdo aos ensinamentos e desejos de seu tempo. Seu olho deve estar aberto para sua própria vida interior, seu ouvido, sempre atento à voz da necessidade interior.
Refletindo sobre os problemas artísticos de seu tempo, a efervescência de ideias e conceitos e a rapidez com que eram consumidos e abandonados, Kandinsky refugiou-se no seu interior. Ali encontrou a resposta que lhe permitiu lançar diretrizes para sua arte e para sua vida.

Se a criatividade é uma das forças propulsoras do homem, se ela é uma forma de energia que integra e equilibra, não poderá se firmar nos conceitos exteriores, nas fórmulas, no sucesso, nas promoções. O êxito artístico, considerado por muitos como um fim a ser alcançado a todo custo, muitas vezes bloqueia e paralisa o desenvolvimento do ser humano em sua totalidade. Para encontrar essa totalidade, o artista afasta, como Kandinsky, seus olhos das contingências exteriores e os volve para seu interior. Os grandes artistas nos oferecem o exemplo de suas lutas e buscas, conscientizando-nos da necessidade de ampliar as fronteiras da arte para níveis mais altos. Kandinsky, além de pintor e professor, estava também preocupado em estudar a integração entre as diversas artes. Considerava a música uma propriedade do ser humano, e procurou o relacionamento existente entre as cores o os sons.” (Os Caminhos da Arte, Editora C/Arte)

*Fotos da internet

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terça-feira, 28 de abril de 2015


RIQUEZAS DA ÍNDIA PARA A EVOLUÇÃO HUMANA

Transcrevo abaixo este texto do Maurício Andrés Ribeiro sobre a Índia.

“O Centro de Estudos Indianos da UFMG promove palestras mensais sobre temas da Índia. Fui convidado para falar sobre as riquezas da Índia para a evolução humana. O público era jovem, interessado, fez muitas perguntas sobre castas, ecofeminismo, multiculturalismo, meditação. Ao final foi servido lassi e samosa, partes da cultura culinária indiana.
Falei que o ser humano está em evolução, em transição entre o que já foi desde o início da espécie até o homo sapiens de 160.000 anos e até os nossos dias do antropoceno, o período da história em que nossa espécie tem uma influência e provoca um impacto crescente no planeta e no clima. O rumo da evolução daqui para diante será cada vez mais influenciado pelo comportamento de nossa espécie e, em última instancia por sua consciência. Se ela pressionar num rumo de ecocídio, poderá provocar seu próprio colapso. Se tomar juízo e relacionar-se de modo amigável e harmônico com o ambiente e o planeta, a mãe terra, poderá ter um futuro promissor. Nesse contexto é que se inserem as riquezas da Índia para a evolução humana. Riquezas de um povo não são apenas econômicas, financeiras, materiais, mas também e principalmente as riquezas imateriais e intangíveis que criou e codificou, com as quais se guia na sua passagem pela terra. São riquezas filosóficas, de pensamentos e ideias, de práticas e cuidados com a saúde pessoal e ambiental. A Índia foi uma das duas grandes civilizações (a outra é a chinesa) que duraram mais de 4000 anos. Teve uma grande capacidade de resiliências, de responder positivamente às sucessivas ondas de invasões que sofreu em sua história. Desenvolveu um espírito de tolerância para com as diferenças, anfitrionando numerosos hospedes que se instalaram no fértil subcontinente indiano. Cultivou a unidade na diversidade, a consciência da unidade humana e dali brotaram diversas tradições sapienciais e espirituais. Para promover a coexistência pacifica entre esses diversos grupos, formulou e colocou em pratica o princípio da não violência, ou ahimsa, aplicado por Gandhi para alcançar pacificamente a independência do país em 1947. A psicologia indiana é muito sofisticada e o vocabulário de psicologia em sânscrito é muito mais rico do quer aquele em grego ou em inglês, permitindo descrever estados de consciência de modo mais acurado. A cosmovisão indiana é abrangente e ampla e sua cosmologia e mitos perduram por milênios. Sua concepção do que é o ser humano, com sua materialidade, suas emoções, sentimentos, intelecto, a sua valorização do amplo espectro da consciência, do infra ao ultra consciente, são riquezas imateriais valiosas num mundo em conflito, limitado em seus recursos naturais.  Por meio do Yoga consegue-se sintonizar um estado de consciência mais lúcido e a meditação ajuda a compreender de modo mais abrangente o mundo e a si mesmo. O dharma é a missão ou tarefa que cada indivíduo ou povo tem a desempenhar em sua vida. Ele não opõe direitos e deveres, que são ideias ocidentais e a dharmacracia é um modo de governo que aplica o dharma. Uma visão mundialista na política faz transcender os nacionalismos e o auto interesse estreito, colocando em primeiro lugar a saúde da mãe terra. O grande símbolo da Índia é a flor de lótus, que se alimenta do esgoto e do lodo embaixo, mas também da luz do sol que vem de cima.
Sendo os dois maiores países tropicais do mundo, Brasil e Índia podem compartilhar muitos conhecimentos e o Brasil pode se beneficiar da sabedoria de sua irmã mais velha e experiente. A capacidade antropofágica de digerir as influências de fora, o jeitinho ou jugaad, o clima a ecologia tropical e o ambiente, a capacidade de criar e improvisar a partir de uma base material precária, a criatividade, alegria, espiritualidade e inteligência espiritual são fatores que aproximam esses dois povos” (Maurício Andrés é autor de "Ecologizar" e "Tesouros da Índia")


*Fotos  de Maurício Andrés e da internet

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terça-feira, 14 de abril de 2015


GUIGNARD – CIRCUITO ATELIER

A Editora C/Arte acaba de lançar seu mais recente livro do Circuito Atelier, desta vez dedicado ao mestre Guignard. O livro é pequeno, ilustrado com desenhos de sua autoria dedicados à Amalita, Anita e Lola, figuras femininas que lhe deram inspiração. O livro é todo uma canção de amor à vida e à arte, mostrando aspectos ainda não conhecidos da vida do grande pintor, educador e pensador que foi Guignard. Organizado com muito carinho por Marília Andrés e Jacqueline Prado, este livrinho é uma joia que nos permite ter acesso ao processo de criação do mestre, suas aspirações, suas ideias e, principalmente, seu amor a Minas Gerais e a Ouro Preto. Gosto de livros pequenos que nos permitem viajar com as ideias, levá-las para onde caminhamos. Os livros grandes ficam em casa, em cima da mesa e dificilmente conseguimos carregá-los. O livrinho de Guignard está me acompanhando para onde vou.
Ali está concentrado seu pensamento, suas aspirações e os depoimentos de artistas e críticos sobre sua vida e obra. Procuramos destacar algumas palavras do mestre, através de pensamentos que ele transmitia em seus depoimentos.
“Sou um apaixonado por Leonardo da Vinci, pintor e desenhista...” nos dizia ele.
Em suas aulas na Escola do Parque, na década de 40, em Belo Horizonte, Guignard colocava nas paredes da sala as estampas dos grandes mestres europeus tais como Da Vinci, Miguel Ângelo, Boticelli, Dürer. Anos depois, durante uma viagem à Florença, constatei nos desenhos de Boticelli, uma afinidade muito grande com os desenhos de Guignard.
 Sua orientação para observarmos a natureza antes de começarmos a desenhar, permitia uma educação do olhar e nos conduzia a um encontro com esses grandes mestres do passado.
Guignard sempre valorizou o desenho como forma indispensável para a realização de qualquer obra de arte.
Voltamos ao seu depoimento onde ele focaliza a educação do olhar através da observação da natureza.
“Há em todo individuo sinais de sensibilidade pela pintura. Não se manifesta, muitas vezes, tal sensibilidade, porque não foi convenientemente observada e aproveitada. Para que vamos à Escola? Não é para aprender a ler e escrever? Da mesma forma poderíamos todos aprender a desenhar. Esteja certo: uns determinados maus gostos que ainda existem nesse mundo, são o resultado da falta de educação mais apurada e enérgica no desenho. E essa educação consiste em apurar a acuidade dos nervos óticos. É um exercício longo, eu confesso, mas dá excelentes resultados”.
Como ex-aluna de Guignard tive a oportunidade de acompanhar o mestre nesses exercícios de atenção que muitas vezes se assemelham ao treinamento de um discípulo da meditação vinda do Oriente.
“Minhas exigências são três”, nos dizia Guignard: “Faço questão de que meus discípulos tenham esses atributos – disciplina, tenacidade e amor à arte, o resto vai bem pois o meu ensino consiste em demonstrações práticas tanto no desenho quanto na pintura. Porque – digamos a verdade – desenhar não é brincadeira. É uma arte muito séria e nela, só chegaremos a resultados, que podem ser ótimos, com uma grande força – na observação e na perseverança. Mas não se deve forçar o entusiasmo: ele nasce de si mesmo ou... não chega a nascer. Mas já entrei em contacto com a maioria dos meus futuros alunos mineiros, e estou confiante no êxito do meu curso. Tenho certeza de que, para coroar vitoriosamente os trabalhos deste ano, com resultados práticos, poderei fazer uma bela “mostra”. Vocês hão de ver-me trabalhar! O meu obstinado interesse pelo desenho chega, muitas vezes, a tal concentração visual e do espírito, que me esqueço de tudo mais...até do almoço.”
Este entusiasmo o Guignard conseguiu passar para seus alunos e aqueles que continuaram e desenvolveram seu próprio caminho receberam do mestre um entusiasmo pela arte que o tempo não conseguiu apagar.
Guignard gostava de pintar ouvindo música. Numa entrevista com Frederico Morais ele evidencia o seu gosto pela música:
“A música é mais divina e muito mais importante porque é como um pássaro, está no ar, em todo lugar. E sempre age assim. (...) a música é a verdadeira arte, a única que tem possibilidade de expansão. A pintura pertence a um público restrito, apenas àqueles que freqüentam as exposições.”
Segundo o comentário de Frederico, “quando Guignard ministrava na escola de Belas Artes de Belo Horizonte queria a todo custo que os alunos comprassem uma vitrola – e eles não tinham dinheiro nem para tinta- e queria discos para poder pintar e ensinar pintura. Achava que só poderia ensinar com música. Não foi atendido”.
Com todas as dificuldades enfrentadas por sua escola, Guignard conseguiu estimular seus alunos para considerar a música uma companheira inseparável da pintura.

Fotos do Acervo da Escola Guignard

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