Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
terça-feira, 11 de agosto de 2015
terça-feira, 4 de agosto de 2015
O TRABALHO DAS MÃOS
Atualmente, o artesanato tem sido estimulado, não
somente nos países menos desenvolvidos, mas também nos industrializados. Se no
Oriente constitui forma específica de trabalho, no Ocidente é o recurso de
equilíbrio para o homem que vive da civilização mecanizada. Através do
artesanato, ele realiza sua atividade criadora, latente em qualquer ser humano.
“Neste mundo que se coletiviza, é indispensável encontrar na criatividade a
sobrevivência do homem. O homem que não é e jamais será máquina, pois é senhor
de todas as máquinas, está sendo ameaçado pela sua própria criação”. Nesta
época de vida mecânica, de saturação de ideias, de telenovelas, de repetição de
slogans, a criatividade seria a forma de continuarmos a ser gente e não “robots”.
Observando as barracas de arte de N. Delhi,
lembro-me de Minas Gerais, das joias de prata de Tiradentes, da feira de arte
da Praça da Liberdade. É realmente necessário no mundo de hoje o trabalho que o
homem faz com as próprias mãos. Vejo agora este indiano fabricando uma joia.
Ele cria uma obra única, pois nunca será repetida exatamente. Há sempre uma
pequena diferença marcando a pulsação das mãos, uma energia vital que a máquina
não pode transmitir. O trabalho manual integra o homem ao seu meio. A máquina
não pode sufocá-lo. Seja como “hobby” ou profissão, como forma de terapia ou
sobrevivência, o trabalho das mãos tem o seu papel que é fundamental e
necessário. A aceleração do progresso tecnológico vai sufocando aos poucos
todos os nossos recursos internos. A máquina tirou das mãos do homem o trabalho
paciente (time is money) os computadores restringem seu raciocínio. A
civilização nos trouxe a rapidez de produção e todas as facilidades para a
aquisição de conhecimentos mas, a criatividade é necessária para restabelecer o
equilíbrio do homem moderno. Criatividade que vai do arranjo de flores num vaso
ao modelado do próprio vaso de argila. Da necessidade de combinar cores à
necessidade de combinar sons ou palavras. Mas, seja modelando a matéria
palpável, ou lidando com ideias, palavras e sons, a criatividade humana terá de
se manifestar, caso contrário, o homem se massificará.
*Fotos da internet
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sexta-feira, 17 de julho de 2015
NOTURNOS DE SARA ÁVILA
Quando conheci Sara Ávila, nos idos tempos da Escola
Guignard, quando ainda no parque municipal, ela era uma menina de um desenho
muito sensível. Desenhava e pintava aquarelas de flores, muito apreciadas pelo
mestre Guignard. Agora, sentada numa cadeira em frente ao grande painel
“Noturno de Belo Horizonte”, fico pensando nas flores que me lembravam estrelas
e este imenso e monumental painel que me lembra o céu estrelado. Pintado pouco
antes do seu falecimento, o painel “Noturno de Belo Horizonte” é uma maravilhosa
despedida do planeta, para habitar espaços superiores, cheios de luz.
Sara, com sua fase de “flotagem”, ficou reconhecida
internacionalmente, mas não fazia uso disso, para se colocar acima dos colegas.
Era discreta ao receber convites e homenagens fora do Brasil. Pertenceu por muitos
anos ao grupo “Phases”, sediado na França e com o grupo percorreu a Europa e as
Américas.
Na Escola Guignard foi professora de desenho e de
criatividade, com um trabalho semelhante ao de Lygia Clark. Quebrar os condicionamentos
através de jogos criativos, foi sua tarefa por muitos anos na Escola Guignard,
e com isto conquistou a amizade dos jovens iniciantes nas artes.
Conversávamos muito sobre os projetos de cada uma e
Sara se tornou uma grande amiga.
Agora, contemplando o painel “Noturno de Belo
Horizonte”, exposto na sala de exposições da Escola onde ela estudou e se
tornou professora e diretora, fico pensando no grande poder que a arte tem de
transmitir vibrações de deslumbramento e alegria perante a vida.
Ao se transferir de sua residência na Savassi para o
bairro Belvedere, Sara se encantou com a cidade vista do alto, totalmente
iluminada.
Esta série de “Noturnos” está aberta à visitação
pública, na Escola Guignard e merece ser vista.
*Fotos da internet
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sexta-feira, 3 de julho de 2015
A REVELAÇÃO DO AVESSO, EXPOSIÇÃO DE FERREIRA GULLAR
Ferreira Gullar esteve em Belo Horizonte para a
inauguração de sua exposição de colagens em relevo. Não me foi possível chegar
a tempo para conhecê-lo pessoalmente, mas sua obra falou por ele. Falou de um
potencial criador que se multiplica em diversas facetas, sem perder a essência.
Segundo
o depoimento do próprio artista, todas as obras foram feitas seguindo a direção
do acaso: “Inicialmente, desenhava garrafas, bules e cálices, recortava papéis
coloridos e colocava em cima. Um dia, porém, já havia posto os recortes sobre o
desenho para em seguida colá-los, quando meu gato deu um tapa na folha de papel
e desarrumou os recortes. Colei-os tal como estavam: disso resultou que o
desenho era a ordem e os recortes coloridos, a desordem. Depois não mais
desenhava: jogava os recortes de papel e, conforme caíssem, os colava. Assim
nasceram aves, dragões, cobras e lagartos, com os quais compus livros para
criança (e para adultos também). E foi então que surgiram as colagens em
relevo.”
Ferreira
Gullar liderou o movimento neoconcretista no Rio, tendo como parceiros vindos
de Minas, os artistas Amílcar de Castro, Lygia Clark e Franz Weissmann.
O
movimento concretista surgido em São Paulo na década de 50 inspirou artistas
que não pertenciam ao famoso eixo Rio-São Paulo. De Minas Gerais um pequeno grupo
era formado por Mario Silésio, Marília Gianetti Torres, Nelly Frade e eu. Nossa
amiga e colega Mary Vieira também se entusiasmou pelo concretismo de Max Bill e
foi buscar na Suíça um aperfeiçoamento para o seu trabalho, tornando-se uma
artista de renome internacional. O grupo de Minas, considerado independente, era
ligado com grande entusiasmo às ideias concretistas nascidas na 1ª Bienal de São
Paulo. Tínhamos o apoio de Mário Pedrosa, que muitas vezes nos visitava em Belo
Horizonte. Nosso grupo foi pequeno mas
atuante. Agora, percorrendo a exposição de Ferreira Gullar, vou relembrando o
passado e refletindo sobre o presente.
Os
trabalhos de Gullar expostos na Galeria Lemos de Sá, em Nova Lima, revelam sua
origem neoconcretista retomada em nova linguagem, em 2015. Gullar é crítico e
também artista. Acompanho de longe o trabalho desse grande poeta, recentemente eleito
como imortal na Academia Brasileira de Letras. Pertencemos à mesma geração e
somos “sobreviventes” que testemunharam uma grande mudança que ocorreu no
Brasil na década de 50, e até hoje se desdobra em novas linguagens e novos
caminhos.
*Fotos
de Maurício Andrés
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quinta-feira, 2 de julho de 2015
quinta-feira, 18 de junho de 2015
JACA E OS NAVEGANTES
A
cada dia me surpreendo mais com as realizações da nova geração.
Fundado
em 2011 por um grupo de jovens tendo a frente Francisca Caporali, o Jaca vai
caminhando a passos largos, promovendo encontros, residências de artistas,
trabalhos comunitários, e uma grande contribuição para a arte contemporânea no
Brasil.
Ao
final do ano de 2014 o Jaca se apresentou na grande galeria do Palácio das Artes,
ali realizando um trabalho coletivo com artistas vindos de vários países das
Américas.
Cada
um deles trazia uma contribuição valiosa de suas experiências em diversas áreas
de arte, uma abertura de consciência para os problemas que afligem os diversos
grupos sociais.
Suas
propostas iluminavam caminhos diversos, mostrando a capacidade dos jovens de
propor situações criativas para a sociedade. Foi publicado num jornal – “A
noite branca” com relatos de diversos artistas residentes.
Hoje,
o Jaca propõe uma instalação bastante inovadora: diversos containers
superpostos e distribuídos num espaço bem planejado estão servindo de abrigo
para esta turma super criativa.
Hoje,
no panorama mundial, instalações caminharam dos espaços fechados dos museus e
galerias para o céu aberto, haja visto
as instalações de Inhotim com os módulos de Hélio Oiticica, e as esculturas
onduladas do escultor “Serra” no Gibbs
Farm (Uma fazenda na costa leste de Nova Zelândia).
Os
containers superpostos já viajaram por mares, chegaram a países, desembarcaram
cargas, fazendo o intercambio comercial como fizeram em tempos atrás os navegantes
com suas caravelas.
Agora,
condenados ao silêncio e à imobilidade, esses containers coloridos são
reutilizados para viver novas experiências. Esse grupo de jovens artistas
corajosos decidiu traçar novos caminhos para esses módulos e os utilizaram como
abrigo de um espaço de arte. Entrar em um container, tomar um chazinho feito
pelos jovens na cozinha da nova sede do Jaca é uma experiência muito
gratificante.
Procurar
novos caminhos para este tumultuado século XXI, é uma proposta corajosa que serve
de exemplo para outros artistas.
“Tudo
aqui foi feito e orientado por nós” nos informou um dos artistas residentes.
Para
mim foi uma experiência prazerosa usufruir deste projeto que de certo modo
realiza um antigo desejo meu de usar um vagão de trem para servir de galeria de
arte. Poderia ser em nossa fazenda, em Entre Rios de Minas.
Cortando a fazenda existe
uma estrada de ferro que conduz o minério para o litoral do Brasil. Até hoje
nenhum parou para me ceder o vagão.
Este
meu projeto ficou apenas no sonho, a realidade está aqui, no Jardim Canadá,
inaugurado por minha neta, Francisca.
*Fotos
da internet
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quinta-feira, 4 de junho de 2015
TRÊS PIERRES E A ECOLOGIA DO SER
Recebi de Maurício Andrés Ribeiro, o texto que transcrevo abaixo:
“O estudo da evolução da vida e da consciência assenta-se sobre algumas pedras fundamentais. Três Pierres, com visão cósmica e prospectiva, contribuíram para compreendê-la.
Pierre
Teilhard de Chardin, padre e cientista com vivência na China, estudou a
evolução e o fenômeno humano. Elaborou o conceito de noosfera, o conjunto de
energias mentais, pensamentos, informações, geradas ou captadas desde o início
da vida, que constitui uma sutil camada de consciência que circunda o planeta.
Teilhard de Chardin propõe que a evolução promove a convergência de forças
ascendentes para um ponto ômega.
Pierre Dansereau, botânico e biogeógrafo do
Quebec, no Canadá, foi um pioneiro da ecologia humana. Transportando-nos numa
viagem no tempo, ele desenhou um diagrama no qual sintetizou as várias etapas
na relação do ser humano com o ambiente. Desde a pré história até a atualidade,
houve a fase da coleta de frutos e depois a caça e a pesca; em seguida, o
pastoreio, com a domesticação de espécies animais; a domesticação dos vegetais,
na revolução agrícola. No século XVIII a revolução industrial amplificou os
impactos da ação humana sobre a natureza. Na segunda metade do século XX veio a
urbanização acelerada. Vivemos a transição entre as fases da urbanização e a do
controle climático. Como nona etapa, prospectiva, ele caracterizou a fuga
exobiológica, ou transmigração, prenunciada pelas viagens espaciais.
Sua
imaginação e inventividade estão presentes na mandala em que ele nos transporta
para uma viagem por várias escalas, do pequeno ao grande, do ser humano
interior até a família, a cidade, a região e o planeta. No centro dessa mandala
ele situou o homem interior e as diversas percepções que tem sobre as paisagens
exteriores em função de seus interesses, formações e condicionamentos
culturais. A compreensão dessa
diversidade de estágios de consciência, ou noodiversidade, é básica nos
processos de mediação de conflitos relacionados com a gestão ambiental. Pierre
Dansereau incorporou a noosfera nos diagramas em que desenhou as interações
entre a atmosfera, pirosfera, litosfera, hidrosfera, biosfera. Com isso, abriu
o campo para integrar a subjetividade e as questões psicológicas às ciências
ecológicas, para além da abordagem socioambiental.
Pierre
Weil , psicólogo francês naturalizado brasileiro, trabalhou na perspectiva
holística com a ecologia integral, que inclui a ecologia ambiental, a social e
a ecologia interior. Formulou um método de transmitir a arte de viver em paz
com a natureza, com a sociedade e consigo próprio e de reverter os
desequilíbrios. Esse método é baseado no conhecimento das emoções, do corpo e
do intelecto e no suposto de que a paz interior é fundamental para se alcançar
a paz social e com a natureza. Buscou nas tradições do budismo tibetano
elementos para trabalhar com os vários centros de energia do ser humano, os
valores a eles associados e os comportamentos destrutivos ou positivos que
derivam de tais valores.
As
contribuições desses três Pierres – Teilhard de Chardin, Dansereau e Weil -
ajudam a compreender as transformações da matéria inanimada para a vida e para
a consciência.
A
ecologia humana, a ecologia cultural, a ecologia pessoal e transpessoal e os
demais campos das ciências ecológicas que buscam compreender a consciência
humana são valiosos nesse período antropoceno da história. Esses campos,
relacionados ao ser humano interior, subjetivo, psíquico, contribuem para o
autoconhecimento sobre a espécie humana, que mostra capacidade crescente de,
com suas ações, interferir sobre o rumo da evolução no planeta”. (Maurício
Andrés Ribeiro é autor de Ecologizar, Tesouros da Índia; Meio
Ambiente&EvoluçãoHumana.ecologizar@gmail.com www.ecologizar.com.br)
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terça-feira, 12 de maio de 2015
KANDINSKY EM BELO HORIZONTE
Percorri a exposição de
“Kandinsky, tudo começa num ponto” no centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de
Belo Horizonte. Observei com muita emoção os quadros deste grande artista,
pioneiro da Arte Abstrata. Ao lado de trabalhos de seus contemporâneos e de
artistas que o influenciaram, a exposição apresenta a obra de Kandinsky de
forma holística, para entendermos como essas influências ecoam, ainda hoje, na
arte contemporânea. Vestimentas xamânicas foram incluídas na exposição, assim
como pinturas de outros artistas que conviveram com ele na ocasião.
Há mais de 30 anos
quando estava escrevendo o livro “Os Caminhos da Arte”, estudei a obra de
Kandinsky e o seu livro “O Espiritual na Arte” foi uma referência para mim
naquela ocasião. Segue o capítulo escrito na época para o meu livro:
“Kandinsky, considerado
o primeiro pintor abstrato, procurou, por meio da arte, o encontro com o seu
mundo interior. Empenhou-se na redescoberta da poesia na pintura e na
musicalidade das cores. Desligou-se das representações tradicionais do espaço à
procura de outra dimensão situada no inconsciente. Pintou símbolos fantásticos,
ligados às antigas civilizações orientais, que o colocaram como intermediário
entre o Oriente e o Ocidente. Formas geométricas, triângulos, círculos,
misturam-se aos arabescos, estrelas e faixas de cor.
Sua importância,
projetando luz sobre o caminho da arte, não se limitou à pintura. Suas ideias,
expostas no livro “O Espiritual na Arte”, revelam uma filosofia de vida.
Considerava a necessidade interior elemento essencial na obra de arte, sem a
qual tudo o mais se esvaziaria: regras , ensinamentos e todos os conceitos
teóricos que tentam esclarecer, mas que, quase sempre, fazem secar a fonte
criadora do artista.
Segundo Kandinsky em “O
Espiritual na Arte”, a conceituação a todo custo, de escolas e tendências, a
pretensão de querer encontrar numa obra regras e certos meios de expressão
particulares de uma época, só pode servir para desorientar-nos e finalmente reduzir-nos
ao silêncio. O artista deve ser cego frente à forma, reconhecida ou não, do
mesmo modo que deve ser surdo aos ensinamentos e desejos de seu tempo. Seu olho
deve estar aberto para sua própria vida interior, seu ouvido, sempre atento à
voz da necessidade interior.
Refletindo sobre os
problemas artísticos de seu tempo, a efervescência de ideias e conceitos e a
rapidez com que eram consumidos e abandonados, Kandinsky refugiou-se no seu
interior. Ali encontrou a resposta que lhe permitiu lançar diretrizes para sua
arte e para sua vida.
Se a criatividade é uma
das forças propulsoras do homem, se ela é uma forma de energia que integra e
equilibra, não poderá se firmar nos conceitos exteriores, nas fórmulas, no
sucesso, nas promoções. O êxito artístico, considerado por muitos como um fim a
ser alcançado a todo custo, muitas vezes bloqueia e paralisa o desenvolvimento
do ser humano em sua totalidade. Para encontrar essa totalidade, o artista
afasta, como Kandinsky, seus olhos das contingências exteriores e os volve para
seu interior. Os grandes artistas nos oferecem o exemplo de suas lutas e
buscas, conscientizando-nos da necessidade de ampliar as fronteiras da arte
para níveis mais altos. Kandinsky, além de pintor e professor, estava também
preocupado em estudar a integração entre as diversas artes. Considerava a
música uma propriedade do ser humano, e procurou o relacionamento existente
entre as cores o os sons.” (Os Caminhos da Arte, Editora C/Arte)
*Fotos da internet
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terça-feira, 28 de abril de 2015
RIQUEZAS DA ÍNDIA PARA A EVOLUÇÃO HUMANA
Transcrevo abaixo este
texto do Maurício Andrés Ribeiro sobre a Índia.
“O Centro de Estudos
Indianos da UFMG promove palestras mensais sobre temas da Índia. Fui convidado
para falar sobre as riquezas da Índia para a evolução humana. O público era
jovem, interessado, fez muitas perguntas sobre castas, ecofeminismo, multiculturalismo,
meditação. Ao final foi servido lassi e samosa, partes da cultura culinária
indiana.
Falei que o ser humano
está em evolução, em transição entre o que já foi desde o início da espécie até
o homo sapiens de 160.000 anos e até os nossos dias do antropoceno, o período
da história em que nossa espécie tem uma influência e provoca um impacto
crescente no planeta e no clima. O rumo da evolução daqui para diante será cada
vez mais influenciado pelo comportamento de nossa espécie e, em última
instancia por sua consciência. Se ela pressionar num rumo de ecocídio, poderá
provocar seu próprio colapso. Se tomar juízo e relacionar-se de modo amigável e
harmônico com o ambiente e o planeta, a mãe terra, poderá ter um futuro
promissor. Nesse contexto é que se inserem as riquezas da Índia para a evolução
humana. Riquezas de um povo não são apenas econômicas, financeiras, materiais,
mas também e principalmente as riquezas imateriais e intangíveis que criou e
codificou, com as quais se guia na sua passagem pela terra. São riquezas
filosóficas, de pensamentos e ideias, de práticas e cuidados com a saúde
pessoal e ambiental. A Índia foi uma das duas grandes civilizações (a outra é a
chinesa) que duraram mais de 4000 anos. Teve uma grande capacidade de
resiliências, de responder positivamente às sucessivas ondas de invasões que
sofreu em sua história. Desenvolveu um espírito de tolerância para com as
diferenças, anfitrionando numerosos hospedes que se instalaram no fértil
subcontinente indiano. Cultivou a unidade na diversidade, a consciência da
unidade humana e dali brotaram diversas tradições sapienciais e espirituais.
Para promover a coexistência pacifica entre esses diversos grupos, formulou e
colocou em pratica o princípio da não violência, ou ahimsa, aplicado por Gandhi
para alcançar pacificamente a independência do país em 1947. A psicologia
indiana é muito sofisticada e o vocabulário de psicologia em sânscrito é muito
mais rico do quer aquele em grego ou em inglês, permitindo descrever estados de
consciência de modo mais acurado. A cosmovisão indiana é abrangente e ampla e
sua cosmologia e mitos perduram por milênios. Sua concepção do que é o ser
humano, com sua materialidade, suas emoções, sentimentos, intelecto, a sua
valorização do amplo espectro da consciência, do infra ao ultra consciente, são
riquezas imateriais valiosas num mundo em conflito, limitado em seus recursos
naturais. Por meio do Yoga consegue-se
sintonizar um estado de consciência mais lúcido e a meditação ajuda a
compreender de modo mais abrangente o mundo e a si mesmo. O dharma é a missão
ou tarefa que cada indivíduo ou povo tem a desempenhar em sua vida. Ele não
opõe direitos e deveres, que são ideias ocidentais e a dharmacracia é um modo
de governo que aplica o dharma. Uma visão mundialista na política faz
transcender os nacionalismos e o auto interesse estreito, colocando em primeiro
lugar a saúde da mãe terra. O grande símbolo da Índia é a flor de lótus, que se
alimenta do esgoto e do lodo embaixo, mas também da luz do sol que vem de cima.
Sendo os dois maiores
países tropicais do mundo, Brasil e Índia podem compartilhar muitos
conhecimentos e o Brasil pode se beneficiar da sabedoria de sua irmã mais velha
e experiente. A capacidade antropofágica de digerir as influências de fora, o
jeitinho ou jugaad, o clima a
ecologia tropical e o ambiente, a capacidade de criar e improvisar a partir de
uma base material precária, a criatividade, alegria, espiritualidade e
inteligência espiritual são fatores que aproximam esses dois povos” (Maurício Andrés é autor de "Ecologizar" e "Tesouros da Índia")
*Fotos de Maurício Andrés e da internet
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terça-feira, 14 de abril de 2015
GUIGNARD – CIRCUITO ATELIER
A Editora C/Arte acaba
de lançar seu mais recente livro do Circuito Atelier, desta vez dedicado ao
mestre Guignard. O livro é pequeno, ilustrado com desenhos de sua autoria dedicados
à Amalita, Anita e Lola, figuras femininas que lhe deram inspiração. O livro é
todo uma canção de amor à vida e à arte, mostrando aspectos ainda não
conhecidos da vida do grande pintor, educador e pensador que foi Guignard.
Organizado com muito carinho por Marília Andrés e Jacqueline Prado, este
livrinho é uma joia que nos permite ter acesso ao processo de criação do mestre,
suas aspirações, suas ideias e, principalmente, seu amor a Minas Gerais e a
Ouro Preto. Gosto de livros pequenos que nos permitem viajar com as ideias,
levá-las para onde caminhamos. Os livros grandes ficam em casa, em cima da mesa
e dificilmente conseguimos carregá-los. O livrinho de Guignard está me
acompanhando para onde vou.
Ali está concentrado
seu pensamento, suas aspirações e os depoimentos de artistas e críticos sobre
sua vida e obra. Procuramos destacar algumas palavras do mestre, através de pensamentos
que ele transmitia em seus depoimentos.
“Sou um apaixonado por
Leonardo da Vinci, pintor e desenhista...” nos dizia ele.
Em suas aulas na Escola
do Parque, na década de 40, em Belo Horizonte, Guignard colocava nas paredes da
sala as estampas dos grandes mestres europeus tais como Da Vinci, Miguel
Ângelo, Boticelli, Dürer. Anos depois, durante uma viagem à Florença, constatei
nos desenhos de Boticelli, uma afinidade muito grande com os desenhos de
Guignard.
Sua orientação para observarmos a natureza antes
de começarmos a desenhar, permitia uma educação do olhar e nos conduzia a um
encontro com esses grandes mestres do passado.
Guignard sempre
valorizou o desenho como forma indispensável para a realização de qualquer obra
de arte.
Voltamos ao seu
depoimento onde ele focaliza a educação do olhar através da observação da
natureza.
“Há em todo individuo
sinais de sensibilidade pela pintura. Não se manifesta, muitas vezes, tal
sensibilidade, porque não foi convenientemente observada e aproveitada. Para
que vamos à Escola? Não é para aprender a ler e escrever? Da mesma forma
poderíamos todos aprender a desenhar. Esteja certo: uns determinados maus
gostos que ainda existem nesse mundo, são o resultado da falta de educação mais
apurada e enérgica no desenho. E essa educação consiste em apurar a acuidade
dos nervos óticos. É um exercício longo, eu confesso, mas dá excelentes
resultados”.
Como ex-aluna de
Guignard tive a oportunidade de acompanhar o mestre nesses exercícios de
atenção que muitas vezes se assemelham ao treinamento de um discípulo da
meditação vinda do Oriente.
“Minhas exigências são
três”, nos dizia Guignard: “Faço questão de que meus discípulos tenham esses
atributos – disciplina, tenacidade e amor à arte, o resto vai bem pois o meu
ensino consiste em demonstrações práticas tanto no desenho quanto na pintura.
Porque – digamos a verdade – desenhar não é brincadeira. É uma arte muito séria
e nela, só chegaremos a resultados, que podem ser ótimos, com uma grande força
– na observação e na perseverança. Mas não se deve forçar o entusiasmo: ele
nasce de si mesmo ou... não chega a nascer. Mas já entrei em contacto com a
maioria dos meus futuros alunos mineiros, e estou confiante no êxito do meu
curso. Tenho certeza de que, para coroar vitoriosamente os trabalhos deste ano,
com resultados práticos, poderei fazer uma bela “mostra”. Vocês hão de ver-me
trabalhar! O meu obstinado interesse pelo desenho chega, muitas vezes, a tal
concentração visual e do espírito, que me esqueço de tudo mais...até do
almoço.”
Este entusiasmo o
Guignard conseguiu passar para seus alunos e aqueles que continuaram e
desenvolveram seu próprio caminho receberam do mestre um entusiasmo pela arte
que o tempo não conseguiu apagar.
Guignard gostava de
pintar ouvindo música. Numa entrevista com Frederico Morais ele evidencia o seu
gosto pela música:
“A música é mais divina
e muito mais importante porque é como um pássaro, está no ar, em todo lugar. E
sempre age assim. (...) a música é a verdadeira arte, a única que tem
possibilidade de expansão. A pintura pertence a um público restrito, apenas àqueles
que freqüentam as exposições.”
Segundo o comentário de
Frederico, “quando Guignard ministrava na escola de Belas Artes de Belo
Horizonte queria a todo custo que os alunos comprassem uma vitrola – e eles não
tinham dinheiro nem para tinta- e queria discos para poder pintar e ensinar
pintura. Achava que só poderia ensinar com música. Não foi atendido”.
Com todas as
dificuldades enfrentadas por sua escola, Guignard conseguiu estimular seus
alunos para considerar a música uma companheira inseparável da pintura.
Fotos do Acervo da
Escola Guignard
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