Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
ESCRITA JAPONESA
Alguns críticos ocidentais, especialmente os franceses, falam da caligrafia de um quadro quando se referem ao modo de um pintor conduzir um pincel, ao traço característico do artista. Dizem que um quadro é legível quando comunica através da clareza do traço, da emoção e da sensibilidade linear. As origens desse conceito vêm da China e influenciaram o Ocidente através do Japão, país que serviu de ponte entre o Oriente e o Ocidente.
Observando de perto a pintura do Extremo-Oriente podemos ver clara a predominância da escrita como forma de expressão. Os artistas da China Antiga e do Japão escreviam textos poéticos em suas telas de seda e usavam o mesmo pincel para escrever letreiros ou cartazes. As cenas desenrolavam-se linearmente através dos grandes painéis, como se a natureza, perdendo os limites de espaço captados por nossa percepção, pudesse se desdobrar em tela panorâmica, revelando o conjunto de várias paisagens. Árvores e folhagens obedeciam a um ritmo caligráfico de intensidades variadas. As manchas sugeriam espaços indefinidos, esfumaçados, cheios de nuvens. Os poemas acompanhavam o traçado das árvores e dos rochedos, com a mesma sensibilidade do desenho. A letra integra-se à paisagem, faz parte dela, não se destaca do conjunto como elemento dissonante. A caligrafia oriental é por si mesma artística e sugeriu ao Ocidente a pintura de ação, o grafismo e o abstrato lírico.
Meu filho Maurício relata que no livro de Almerinda da Silva Lopes sobre Arte Abstrata no Brasil, (publicado pela Editora C/Arte em 2010) ela realça o pioneirismo na reaproximação com o oriente do crítico de arte Mario Pedrosa, depois de uma viagem feita ao Japão como bolsista da UNESCO, em 1959, com o prêmio que lhe foi concedido durante o congresso de críticos de arte realizado em Brasília, cidade prestes a ser inaugurada. Escreve Almerinda que Mario Pedrosa, ao retornar daquela viagem, “ redigiu o ensaio denominado: A caligrafia sino-japonesa moderna e a arte abstrata no Ocidente, na qual revelava ter encontrado respaldo para discorrer sobre a escritura informal ou lírica. E em uma seqüência de matérias publicadas no Jornal do Brasil, no mesmo ano, Pedrosa afirmava: “toda a arte chinesa, e mesmo a japonesa é iconográfica, isto é, feita em função de uma idéia ou símbolo”. Em outro texto publicado no ano seguinte, o crítico referia-se mais detalhadamente ao significado da escrituração do gesto pictórico, tomando como referência, mais uma vez, a caligrafia oriental: “Se, no Oriente, a primeira das artes, em importância e ordem cronológica de seu aparecimento foi a Escritura, ou a Caligrafia, no Ocidente a relação entre pintura e escritura foi totalmente outra. A escrita nasceu, aqui, já de um modo ou com objetivo prático, utilitário, de meio para fim. No Oriente, a escrita, ela mesma, se transformou num fim, muito antes de a Europa apresentar-se como um continente separado e marcado por uma civilização autônoma. Da caligrafia chinesa nasceram as pinturas chinesa e japonesa. No Ocidente, a pintura só depois de desenvolvida dava motivo ao nascimento de uma variação pictórica com algo de caligráfico ou de escritura.”
Maurício Andrés buscou naquela publicação sobre arte abstrata elementos para comentar sobre as afinidades com o modo de expressão japonês em minha própria pintura: “Ao buscar inspiração no Oriente, Maria Helena fez trajetória inversa à de pintores japoneses que migraram para o Brasil, tais como Tomie Ohtake, Kazuo Wakabayashi, Tomoshige Kusuno, e Manabu Mabe. Seu abstracionismo lírico tem afinidade com o Oriente, com a gramática icônica dos japoneses. Essa gramática icônica é apropriada pela propaganda e pela publicidade ao conceber logomarcas e outros signos gráficos de forte apelo comunicativo. Não por acaso, a própria logomarca do Instituto Maria Helena Andrés, criado em 2005 para desenvolver trabalhos de educação pela arte, identifica ao mesmo tempo os traços da artista e sua assinatura tendo, ao mesmo tempo similaridade com a caligrafia oriental.”
Fotos da internet e de Maurício Andrés
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sábado, 26 de março de 2011
JAPÃO, UM ALERTA PARA O MUNDO
“Hoje os EUA são o país com maior número de usinas nucleares: são 104 no total. Isso representa 18% da matriz energética daquele país. A França está no topo dos países com maior dependência desse tipo de energia: 80% da matriz é nuclear. No Brasil, o uso de energia nuclear não chega a 3% do total que é consumido.”
“O Japão tem 55 reatores nucleares que funcionam em 17 usinas distribuídas pelo país. Juntas, elas geram 36% de toda a energia consumida pelos japoneses.”
“O vazamento de césio 137, assim como de outros elementos radioativos, pode provocar deformação nas células da população exposta. Consequentemente a ocorrência de câncer.” (Informações da Folha de São Paulo, 13/03/2011)
O vazamento na usina de Fukushima, no Japão, nos traz mais uma vez à memória os ataques nucleares de 1945. As bombas mataram 140 mil japoneses em Hiroshima e calcula-se que mais de 340 mil tenham sido expostos diretamente à radiação. Em Nagasaki estima-se que os mortos foram 74 mil na explosão e mais de 70 mil até um ano depois.
O uso da energia nuclear passa a ser um alerta para o mundo. Países como a Suíça e Alemanha começam a rever seus projetos de energia nuclear. E os efeitos da radiação atômica estão sendo estudados por cientistas do mundo inteiro.
Grupos de ambientalistas protestam contra as usinas nucleares, justificam que se o Japão, um país tão preparado para esses acontecimentos, não consegue proteger sua população, certamente a Europa também não conseguiria.
Todos nós precisamos pensar um pouco sobre outras formas de energia menos agressivas e perigosas.
No Brasil o aquecimento solar é utilizado em 10.000 habitações populares. Belo Horizonte é a capital solar do Brasil, com placas de captação em 2.000 edifícios. Tive a oportunidade de assistir a uma palestra do engenheiro Carlos Faria “Energia Solar – Mercado, Legislação e Aplicações”, no Seminário Internacional Sustentabilidade e Ecoconstrução, em Setembro de 2010 em Belo Horizonte : “A cidade que (re)construirmos hoje definirá nosso compromisso futuro com a sustentabilidade do planeta.” Carlos Faria é coordenador da Iniciativa Cidades Solares do Brasil. Naquela palestra ele nos mostrou como a energia solar vem sendo utilizada em diversos países: Portugal, França, Espanha, Itália, Alemanha, China, Índia, Brasil e vários outros. Destaca-se Israel, onde a instalação de aquecedores solares é obrigatória desde 1980.
Os tradicionais moinhos de vento da Holanda, que povoaram a imaginação das crianças e de todos nós, estão sendo relembrados agora, com a utilização da energia eólica.
Gostaria de acrescentar aqui a experiência de Teresa e Pedro com energia solar para uso popular. “ Em Aracaju existe uma iniciativa afim de aproveitar a energia solar para a cocção de alimentos. O fogão solar pode ser feito de forma simples, com materiais reutilizados, como caixas de papelão e chapas de zinco. Participei de várias oficinas por todo o Estado de Sergipe, ensinando a cozinhar com o sol. O povo vibrou com a novidade, pois muitas pessoas dependem da lenha cada vez mais escassa.”
Teresa me presenteou com um fogão feito em uma caixa de papelão, revestido internamente com papel alumínio. Procurei um lugar que tivesse muito sol e instalei o fogão na frente da minha casa. Depois de 1 hora o vapor começava a subir da panela e uma vizinha me perguntou curiosa: - o que você está fazendo aí? – cozinhando feijão, eu respondi. – só mesmo você Maria Helena! E eu pensei comigo mesma: hoje ninguém acredita, mas um dia terão que acreditar.
O fogão solar pode também ser considerado “arte contemporânea à margem dos museus”.
*Fotos da internet
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sexta-feira, 18 de março de 2011
CARNAVAL: ARTE CONTEMPORÂNEA À MARGEM DOS MUSEUS
Na década de 1960, Helio Oiticica, pioneiro da arte contemporânea no Brasil, era componente da Escola de Samba da Mangueira. Uma de suas mais famosas performances foi levar para o Museu de Arte Moderna do Rio, durante a ditadura brasileira a escola de samba da Mangueira, alegando que aquilo era uma obra de arte tão importante quanto as que estavam dentro do museu. Naturalmente, a época não era apropriada para entender essa extensão da arte para a vida e, por causa disso, a Escola de Samba foi retirada do Museu.
Maurício e Aparecida já desfilaram em escolas de samba: Salgueiro, Mangueira, Unidos da Tijuca. Ele nos deu o depoimento abaixo:
“Quando, há muitos anos atrás, desfilei pela primeira vez no sambódromo, fiquei impressionado com a organização pouco burocrática. A única informação que nos pediram antes era o tamanho dos nossos pés e de nossas roupas, para prepararem a sandália e a fantasia com que iríamos sambar. Nem o nome era necessário, bastava uma senha e nos disseram que, entre os foliões fantasiados, havia muitos que não podiam ser identificados por razões policiais. Outra informação relevante era o centavo no final do valor pago pela fantasia. Cada folião pagava um valor diferente e a diferença estava no centavo. Maurício pagou R$250,01 e Aparecida R$250,02 por exemplo e assim por diante. A concentração era um momento importante, para se conhecer os companheiros de ala e aprender a cantar bem o samba da escola e depois o desfile passava durante 30 a 40 minutos pelo sambódromo. Era tudo muito organizado e disciplinado, não podendo haver atrasos. Existiam monitores que tangiam as alas no andamento certo a fim de evitar que houvesse buracos entre os sambistas e foliões.
A tecnologia de organização da escola de samba é uma referência que pode inspirar outras organizações a trabalharem coletivamente e obterem, no prazo correto e sem maior complicação, os melhores e mais belos resultados. O resultado de conjunto ficou muito bonito, aquilo que Darcy Ribeiro chamava de “o maior espetáculo da terra.”
A tecnologia de organização da escola de samba é uma referência que pode inspirar outras organizações a trabalharem coletivamente e obterem, no prazo correto e sem maior complicação, os melhores e mais belos resultados. O resultado de conjunto ficou muito bonito, aquilo que Darcy Ribeiro chamava de “o maior espetáculo da terra.”
Em 2011, Alice, filha de Mauricio e Aparecida, desfilou na São Clemente, com dois amigos alemães que queriam ter a experiência do desfile junto com os brasileiros, revelando como as escolas de samba estão presentes em varias gerações. De minha casa, no Retiro das Pedras pude acompanhar o desfile, que foi filmado com uma câmera de celular diretamente da televisão. Ela dá o seguinte depoimento:
”Meus amigos alemães, que já ouviram muito falar do carnaval brasileiro, fizeram questão de desfilar na Sapucaí. Assim, três meses antes do carnaval, decidimos sair na escola de samba São Clemente e contratamos a confecção das três fantasias – lindas, de pierrôs. Ficamos muito tocados com a alegria que as fantasias pareciam trazer com suas simples presenças: os alemães não paravam de sorrir, quiseram experimentá-las imediatamente e, ao sairmos de casa e entrarmos no primeiro ônibus em direção ao sambódromo, as pessoas nos paravam na rua, desejando sorte para a escola de samba, tiravam fotos. Tudo fazia parte de uma performance espontânea, desligada do trabalho de curadores. Sem dúvida era um processo de arte – bem que o Helio Oiticica tinha razão! Escola de samba é arte contemporânea!”
Marília participou de blocos carnavalescos no Rio em 2011 e nos deu o depoimento abaixo:
“No Rio de Janeiro os blocos carnavalescos emergem dos bairros congregando a população local: idosos, jovens, crianças e até bebês participam dessa celebração de alegria que transparece na alma do povo, resgatando as antigas marchinhas carnavalescas dos anos 1930/40 e as brincadeiras com confetes e serpentinas. O trio elétrico comanda os foliões, produzindo uma unidade sinergética entre as pessoas. Dança, música e brincadeiras proporcionam aos participantes a oportunidade de sentir de perto o que é o carnaval brasileiro.”
*Fotos de Marília Andrés, Maurício Andrés e Alice Andrés
quinta-feira, 10 de março de 2011
MEDITAÇÃO NO TRABALHO
Uma das características mais pronunciadas da civilização oriental é a busca de uma realidade interior, de um plano espiritual de vida que reúne todas as coisas numa totalidade.
O oriental procura através da religião, da filosofia ou da arte, a integração do homem à natureza e ao cosmos, buscando encontrar além do tempo e do espaço o valor intrínseco das coisas. Para isto serve-se de guias, mestres e filósofos. Alguns renunciam à vida familiar, recolhendo-se às comunidades espiritualistas ou ashrams. Outros aproximam-se da natureza, buscando no silêncio das florestas ou no interior de grutas afastadas a resposta para suas indagações. Há também aqueles que aperfeiçoam-se como chefes de família, transmitindo aos filhos os ensinamentos dos mestres.
Buscam o encontro com o Ser Interno através da meditação e do auto-conhecimento. Essa realidade interna, quando reconhecida, liberta a mente das inquietações provocadas pela agitação do mundo. A tranqüilidade mental, visada por toda a filosofia do Oriente, não conduz à apatia, mas à serenidade do homem superior.
Transcrevo aqui trechos do artigo de Débora Rubin (Revista “Isto É” de 1/12/ 2010) sobre Meditação no Trabalho:
“Tendência na Europa e nos EUA, que criaram até salas para meditar dentro das empresas, a prática se espalha entre profissionais brasileiros.(...) Essa foi a semente para um movimento que só cresce no exterior e já começa a se instalar no Brasil. Grandes executivos e respeitadas corporações perceberam como o ato de meditar pode melhorar a dinâmica dos ambientes corporativos e a vida de cada profissional. Nos EUA e na Europa, por exemplo, é cada vez mais comum as companhias criarem salas de meditação. Algumas equipes fazem até minutos de silêncio antes de uma reunião, como forma de fazer com que os participantes fiquem menos discursivos e mais atentos ao que está sendo discutido. (...) Menos ansiedade, mais concentração, capacidade de lidar com o estresse e com a competitividade. Para a monja Coen, do Zen Budismo, meditar não é ausentar-se, pelo contrário, é desenvolver presença absoluta. (...) Segundo York Stillman, diretor do Centro Shambala, com a mente mais clara há menos desentendimentos, mais opções e mais criatividade. A meditação também ajuda a recuperar o verdadeiro significado do trabalho, a felicidade de servir o outro. É o que prega dom Laurence Freeman, monge beneditino e presidente da Comunidade Mundial de Meditação Cristã. Segundo o religioso, a delicadeza nas relações e a atenção plena aos colegas, clientes e fornecedores deveriam ser a base da vida profissional, mas são atitudes que caíram no desuso conforme a pressa, a competição e o estresse dominaram a cena. Meditar é uma forma de combater os infelizes padrões profissionais do mundo moderno, acredita Freeman. Há mais de 20 anos ele é convidado por grandes empresas para ensinar os funcionários a meditar.”
O estado de meditação pode ser alcançado também em outras situações da vida, como nos momentos de criação artística. Compara-se o artista ao místico. Tanto um quanto outro voltam-se para o infinito, buscando alguma coisa mais que as simples tarefas utilitárias. O místico, no plano sobrenatural, e o artista, no plano natural, estão ligados por uma semelhança que se traduz na ascese, na busca do espiritual. Um procura a vida espiritual, o outro a idéia criadora, mas ambos transcendem o mundo com suas limitações e incertezas. Ambos se inclinam à vida interior, tentando sondar a profundidade de sua própria alma, onde se encontram as verdadeiras riquezas.
Em meados do século XX o monge beneditino Bede Griffiths trouxe para o Cristianismo a meditação baseada nas práticas milenares da Índia. Em seguida, foi inaugurado em Londres um centro de meditação cristã onde a palavra MARANATA que significa o nome de Jesus em aramaico, deve ser repetida durante a meditação*Fotos de Maurício Andrés e da internet
sábado, 26 de fevereiro de 2011
VIAGENS ESPACIAIS ONTEM E HOJE
As viagens espaciais continuam presentes no imaginário dos artistas.
Percorrendo a exposição de Mariko Mori no ICCBB de Brasília, os objetos aéreos estão pousados na terra e as crianças podem brincar com os extra-terrestres.
Há uma escadinha para se entrar num dos objetos. Lá dentro a pessoa pode se relaxar e, enquanto isto, ver no teto seus pensamentos projetados em formas e cores. São propostas diferentes e realizações diversas sobre o mesmo tema.
“Mariko Mori é um grande nome das artes visuais no Japão com grande relevância no ocidente e expõe no Brasil pela primeira vez, nos CCBBs de Brasília, Rio e São Paulo.
Oneness apresenta obras em grandes dimensões onde a artista funde espiritualidade, fotografia e moda sob uma ótica peculiar que pretende rever e recriar um mundo repleto de referências contemporâneas.
“Um artista vê o mundo, olha para o momento presente, com um ponto de vista único. Minha missão é dividir o que vejo no meu campo de visão. Preciso criar um novo espaço para poder respirar no mundo. Isso vai abrir as portas para um novo futuro”, declara a artista ao enfatizar a necessidade de uma consciência espiritual universal.
Ao unir sua arte com o design de ponta, Mariko usa da tecnologia para transcender valores humanos e levar o fruidor a uma experiência sinestésica, como o que acontece ao adentrar Wave UFO, uma nave espacial de mais de seis toneladas que proporciona uma gama de sensações advindas de recursos que aliam a computação gráfica, animação, ondas cerebrais, som e engenharia arquitetônica e resultam em uma obra mutável em si mesma a partir do olhar do outro. Wave UFO esteve na Bienal de Veneza em 2005 e foi um grande sucesso.
Oneness é a obra que nomeia a exposição e traz figuras confeccionadas em technogel que interagem ao toque do visitante e discute a conectividade como a perda dos limites entre si mesmo e os outros, um dos preceitos budistas mais difundidos que reafirma que o mundo existe como um só elemento. (Curadoria de Nicola Goretti)
Transcircle é uma releitura dos monólitos pré-históricos com nove pedras de vidro coloridas e brilhantes. A mostra apresenta também vídeos, fotografias e desenhos.
Recuo ao passado nos anos de 1969, quando o homem conseguiu pousar na lua pela primeira vez.
Naqueles dias eu inaugurava uma exposição no Rio de Janeiro no Copacabana Palace. Os quadros ali expostos representavam objetos aéreos, vôos espaciais carregando pessoas da Terra para outros planetas. Na época fui entrevistada por vários jornalistas cariocas.
Reescrevo alguns textos publicados na época:
“Uma coleção inteiramente inspirada em foguetes, plataformas espaciais, gigantescas máquinas interplanetárias, marca a nova fase da pintora Maria Helena Andrés, que abandona os barcos e as engrenagens de guerra – suas duas fases anteriores – para ocupar-se de uma temática mais otimista, o quixotismo espacial.”
“Maria Helena Andrés, sobretudo em suas grandes telas, com domínio perfeito da técnica, espatulada, organizada e rítmica, obtém efeitos de grande beleza cromática. São aparentes suas referências dramático-poéticas, de naves naufragadas ou aviões estraçalhados no espaço” (Aracy Amaral, JB, 5/8/69)
“Maria Helena Andrés é uma pintora que, lenta mas conscientemente, avançou por todos os meandros da arte moderna e que, no momento, a “Odisséia do Espaço” também a conquistou e foi incorporada à sua obra.”( José Roberto Teixeira Leite)
“Explorando ainda a fase espacial, imagino um encontro poético do passado com o futuro – Naves espaciais sobrevoando nossas cidades históricas – Denominei esta série de “Encontro no tempo” (Maria Helena Andrés).
Aquela exposição de naves espaciais, marcou o início de minhas buscas no campo da unidade planetária e unidade cósmica. Foi também o início do meu interesse pelas religiões orientais e minhas viagens à Índia. Tomar consciência de que somos Um, é o grande passo a ser conquistado.
A era espacial está sendo anunciada não só pelos artistas, mas também pelos físicos. Stephen Hawking, grande físico inglês, em entrevista ao site Big Think, se diz otimista em relação ao futuro do planeta. “Fizemos muito progresso nos últimos cem anos, mas se quizermos ir além dos próximos cem, o futuro é o espaço”.
*Fotos de Adriana Moura e Maurício Andrés
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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
MEDITAÇÃO
Acabo de ler o artigo do jornalista Gilberto Dimenstein publicado na Folha de São Paulo (domingo, 6 de fevereiro). Neste artigo, Dimenstein analisa o trabalho que está sendo feito na Universidade de Harvard, nos EUA, sobre os efeitos da meditação budista nas pessoas em estado de estresse e depressão. Os orientais praticam a meditação há milênios e agora os seus efeitos estão sendo estudados pelos maiores cientistas do mundo ocidental. Gilberto Dimenstein nos diz em seu artigo:
“Estão conseguindo fazer aqui em Harvard a união das crenças milenares do budismo com a neurociência, mostrando como a meditação altera áreas do cérebro e produz bem-estar: menos ansiedade, depressão e dores crônicas. E até menos propensão à obesidade.
Submeteram 2.250 universitários a testes de ressonância magnética, depois de passarem por exercício de meditação. As imagens exibiram ampliação nas áreas do cérebro associadas à memória, à aprendizagem e ao equilíbrio emocional e redução daquelas ligadas ao estresse.
Essa química entre um conhecimento de 2.500 anos com neurocientistas e psiquiatras, munidos com máquinas que detalham o funcionamento do cérebro, reflete a inquietação dos cientistas diante da epidemia de ansiedade, traduzida no consumo crescente de remédios.”
Segundo Dimenstein, Ronald Siegel, professor de psicologia de Harvard nos ensina técnicas simples de meditação, como por exemplo “caminhar de um jeito diferente”. Em seus ensinamentos, Ronald Siegel “se concentra em cada passo e observa como o movimento produz reações em seu corpo. Deixa-se entregar ao vôo de um passarinho, à brisa que bate em seu rosto ou aos risos de uma criança brincando no parque, sempre observando como cada coisa se passa dentro dele. Estar presente de fato, não fugir da realidade, é um jeito de moldar o cérebro para as adversidades, diz o professor. Estar presente não significa, acrescenta, sentir só a brisa no rosto num dia primaveril, mas não fugir do sofrimento”.
Acrescento aqui o depoimento de Eliana Andrés, professora de Yoga em Belo Horizonte :
“Em 2005 fui convidada pelo doutor Cid Veloso a ministrar a “Oficina de Yoga” no VI Congresso Nacional da Rede Unida, no Campus da UFMG, em Belo Horizonte.
Ofereceram-me uma tenda branca, espaço suficiente para desenvolver um trabalho de prática de Yoga para grupos pequenos.
O Congresso atendia a um público relacionado à área de saúde e no intervalo entre palestras e as outras atividades da programação, foi dado ao participante a possibilidade de usar aquele espaço. Ali desenvolvemos seqüências de asanas (posturas), prãnãyãmas (exercícios respiratórios), relaxamento e práticas de meditação, de acordo com a necessidade de cada um.
A experiência das pausas no trabalho, num ambiente silencioso, onde as pessoas tiram o sapato, movimentam a coluna vertebral, ou simplesmente permitem ao corpo uma postura que alivia o peso sobre os pés, parece sem importância.
A receptividade das inúmeras pessoas que experimentaram aquela vivência durante 3 dias, demonstrou o contrário.
Para mim, aquela foi uma experiência inesquecível, inovadora, exemplo a ser estendido não somente a Congressos e repartições públicas, mas a todos os locais de trabalho.”
*Fotos de Maria Helena Andrés e internet
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
ATIVIDADES DO IMHA E COLÔNIA DE FÉRIAS
Hoje é dia de festa no IMHA, situado bem em frente ao Banco do Brasil em Entre Rios de Minas. Vejo as crianças pintando os muros e, com sua espontaneidade, registrando também um pouco da história da cidade. Ontem Teresa preparou tinta de terra e um grupo pintou a base com um tom ocre. No muro interno foram feitos desenhos de imaginação e no muro externo um mapa da cidade com os principais pontos turísticos: o posto no trevo, o Poliesportivo, a Igreja de Sta Efigênia, a Igreja Nossa Senhora das Brotas, os bancos Itaú e Banco do Brasil, a sede do IMHA, a Praça Senador Ribeiro, a rua cheia de casas coloridas, carros e pedestres, até o Hospital Cassiano Campolina (ainda por ser desenhado) com suas palmeiras imperiais. Também foi colocado o Campo de Futebol que fica na altura da Igreja Matriz com um jogo imaginário entre o Atlético e o Cruzeiro. O mapa ainda não está completo e outras crianças poderão contribuir com suas observações e imaginação.
Fico me lembrando dos meus filhos pintando os muros de minha casa em Belo Horizonte , 20 metros de muro que eu caiava de branco para eles criarem suas histórias de bichos, muitas vezes também com tinta feita de terra. Era uma alegria aquela performance de pintura, uma abertura para a liberdade dentro da arte.
Na distância do tempo, podemos lembrar o caminho dos velhos bandeirantes, a cavalgada dos tropeiros, a triagem feita neste local, berço do Cavalo Campolina. Terra de muitas cores, de muitas histórias. Nos dias de hoje, a terra continua produtiva e as pequenas fazendas vão levando verduras orgânicas para BH.
Em 2005 um movimento foi criado na cidade com a inauguração do IMHA, destinado ao desenvolvimento das artes e a implantação de uma cultura que se alimenta do passado e se fortalece no presente. Quatro Festivais de Inverno e um Mutirão Cultural deram incentivo a novas iniciativas. Participei de vários cursos, inclusive sobre a História de Entre Rios. Tudo isto permite uma soma de conhecimentos que mais tarde também serão repassados nos blogs.
No dia 13 de fevereiro será lançado, com a chegada de novos computadores, o Ponto de Cultura, além do Projeto “Resgate com Arte”.
Há um mês atrás foi realizada na fazenda Luisiânia uma experiência inédita: uma Colônia de Férias para crianças. O objetivo foi levar as crianças a conhecerem o processo da alimentação e o cultivo do alimento orgânico, desde o plantio até a culinária. As crianças permaneceram 5 dias na fazenda Luiziânia, dormindo na casa grande, onde tenho o meu atelier. Levantavam cedo para participarem da ordenha, recolherem ovos no galinheiro e colherem verduras para o almoço.
Nada chegava pronto, como estavam acostumadas a ver nas cidades. Faziam pão, bolo, biscoito, yogurte, inhoque e praticamente só comiam o que criavam.
Participavam de todo o processo da alimentação. Por exemplo: colher a batata, descasca-las, cozinha-las, amassa-las, enrolar a massa, cortar, cozinhar ... e comer o inhoque.
Agora, passo a palavra ao Pedro, um dos responsáveis pela iniciativa:
“Não havia entre as crianças a atitude de recusar os pratos que lhes eram servidos. Comiam de tudo, com o maior apetite, porque tudo era feito por elas. A programação incluía um passeio a cavalo para conhecer a sede original, a “Fazenda da Barrinha”. Ali as crianças conheceram um moinho dágua e aprenderam como moer o milho para fazer o fubá. Prepararam ninhos para os passarinhos e, em conjunto, criaram um grande espantalho para ser colocado na horta. Todas as noites o livro Indez era lido para as crianças. No último dia, organizou-se uma pintura coletiva com a colaboração de todos os participantes.
*Fotos de Luciano Luppi e Euler Andrés
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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
MOTHER TERESA DE CALCUTÁ
Teresa de Calcutá foi sem dúvida a grande presença cristã na Índia. “Mother Teresa”, como é conhecida, nasceu em Skopje, na Yugoslávia, em 1910. Desde cedo sua vocação religiosa manifestou-se através de um chamado interno para o serviço e a dedicação aos semelhantes. Tendo sido enviada para a Índia a fim de fazer o noviciado na congregação de Nossa Senhora de Loreto, a jovem irmã fez os votos de pobreza, castidade e obediência, em caráter de prova. Dedicou-se no início do magistério como professora do St. Mary’s High School de Calcutá. Um dia, viajando de trem de Calcutá para Darjeeling, irmã Teresa impressionou-se vivamente com a pobreza da Índia. Através das janelas do trem as cenas de pobreza desfilavam diante de seus olhos. Aspirando dedicar-se totalmente ao serviço social, irmã Teresa deixou suas atividades de educadora, para entregar-se de corpo e alma aos humildes. Ela cuidou daqueles que não tiveram teto para se abrigarem do frio, da chuva e das adversidades.
Nas ruas de Calcutá sentimos muito fortemente a sua presença, recolhendo crianças, leprosos e moribundos. Os mais pobres entre os pobres, são também os que sofrem o desprezo da sociedade. A fama de Mother Teresa estendeu-se pelo mundo. Agraciada com o Prêmio Nobel, ela destinou o dinheiro recebido às suas instituições de caridade.
Ultrapassando todos os preconceitos de casta ou qualquer fanatismo religioso, as missionárias de caridade, lideradas por Teresa, enxergaram no pobre o próprio Cristo. “O que fizerdes a um destes pobres e pequenos, a mim o fareis.”
Mother Teresa tem grande respeito pelas crenças alheias. Sua tolerância religiosa é sustentada pela certeza de que Deus é o mesmo e pode ser encontrado através de qualquer religião.
A grandeza de atuação das missionárias de caridade alcança uma dimensão mais alta e mais abrangente, onde a separatividade dos conceitos mentais não tem entrada. Nesse espaço sem limites do Amor, as diferenças religiosas não existem. Todos são acolhidos como seres humanos na casa do Pai.
Há alguns anos atrás, quando um vendaval desceu sobre Bangladesh e matou centenas de pessoas, as missionárias de caridade, como um pequeno exército de anjos, vieram ajudar a enterrar os mortos.
Em 1979, quando estivemos em Calcutá, procuramos conhecer de perto o trabalho de Mother Teresa. As irmãs nos receberam com simpatia e as crianças da creche se acercaram de nós pedindo colo. Fomos ver o berçário. Haviam 100 crianças, algumas encontradas nas ruas, outras filhas de mães solteiras. Ali chegavam crianças com problemas de alimentação, desnutridas. As jovens noviças substituíam o carinho materno que faltou a essas criancinhas. Havia uma alegria contagiante na fisionomia das irmãs e era justamente essa alegria que irradiava e enchia de Luz o ambiente. À tarde, quando as luzes da cidade começavam a se acender, elas reuniam-se para cantar Vésperas. Entramos por corredores enormes em direção à capela, onde as irmãs cantavam. Oitenta moças sentadas no chão, em cima de tapetes rústicos, vestidas com saris brancos, fizeram-nos sentir de perto as nossas origens cristãs. O verdadeiro espírito cristão ali estava e uma força invisível preenchia o ambiente de Energia e Luz.
*Fotos da internet
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
THOMAS MERTON, CRISTIANISMO E BUDISMO
Os inúmeros templos de Bangkok são famosos no mundo inteiro. A experiência de vê-los de perto, em seu deslumbrante lirismo, despertou-nos uma emoção quase musical. A mesma motivação que em um país inspira a sobriedade, em outros manifesta-se como uma explosão colorida. A arquitetura dos templos de Bangkok parece uma festa de cores. Há unidade comovente dentro da multiplicidade de enfeites e formas rebuscadas. As torres são apelos para o estado supremo de iluminação pretendido pelo Budismo. Subimos escadas estreitas que lembram os degraus da difícil ascese do homem em direção ao desapego, à paciência e a renuncia. Lá embaixo, monges budistas com cabeças raspadas, vestidos de túnicas alaranjadas, seguiam o exemplo de Buda, o príncipe Sidarta, que renunciou à vida de conforto e riqueza para realizar o seu propósito. A renúncia para eles significa a busca pela libertação e o encontro com o Nirvana. É o dissipar da ilusão, a permanente vigilância e a plena atenção ao momento presente.
A suntuosidade dos tempos, as flores de porcelana incrustadas nas torres, formavam um contraste com a humildade dos monges.
As escadas dos templos de Bangkok fizeram-me refletir sobre a ascese das diversas doutrinas, consideradas como degraus para se alcançar o infinito. Lá embaixo, os pequenos sinos vendidos nas barracas tocavam festivos ao sabor do vento. Tinham a mesma configuração das torres. Eram leves e pareciam querer levantar vôo. As escadas circundando o templo, a forma de sino de algumas torres, a hierarquia das religiões, lembraram-me um outro monge cujos passos ressoaram nessas pedras. Vestia-se como os trapistas cristãos ocidentais e trazia ao oriente a mensagem de Cristo. Veio em missão de paz, buscando, naquelas terras distantes, a harmonia com seus ideais de perfeição. Descobriu que os diversos caminhos eram apenas linguagens diferentes, mas em suas camadas mais profundas, continham a mesma verdade. Esteve no oriente procurando nos mosteiros o entrosamento com suas inspirações ocidentais.
Thomas Merton, conhecido monge cristão, autor dos livros: Homem algum é uma lha, Montanha dos sete patamares e Zen e as aves de Rapina, morreu subitamente em Bangkok. Sua visita aos mosteiros orientais, seus estudos sobre o Taoísmo apresentando ao ocidente A Via de Chuang Tzu , revelaram-nos o Thomas Merton interessado profundamente na aproximação de diversos caminhos.
O grande pensador cristão sentiu-se atraído pela profundidade do pensamento oriental e de certo modo precedeu a atual busca da unidade de todas as religiões. Ele nos mostrou que o simples fato de nos apegarmos a uma visão parcial e tentarmos colocar nossos condicionamentos como a única verdade significa obscurecer a verdade. As considerações de Thomas Merton para o livro taoísta De Chuang Tzu estão acima das limitações impostas pelo radicalismo religioso. Não existem regras matemáticas para a vida. Dentro de nós há uma energia que é comum a todos os nossos irmãos. No entanto as buscas diferem como diferem as situações e a intensidade dos impulsos.
Thomas Merton, através de seus livros buscou uma aproximação com seus irmãos orientais, sem querer modificá-los ou converte-los ao cristianismo.
*Fotos da internet
sábado, 8 de janeiro de 2011
MÚSICA INDIANA E MÚSICA EUROPÉIA
Um passado de mais de 5000 anos de cultura transparece através dos grandes monumentos de arte, e a história da Índia é contada nos entalhes feitos diretamente nas pedras, nas esculturas, nas pinturas dos templos e das grutas, na arte erudita e na arte popular. A grande vocação espiritual do povo indiano manifesta-se através de uma filosofia onde os ensinamentos dos Vedas se entrosam com crenças populares.
“Anteriormente julgava-se que a história começava com a Grécia, até que se descobriu que o povo advindo das margens do Cáspio, tinha-se desmembrado, indo um ramo para a Índia e outro para a Grécia e Europa Ocidental, através da Pérsia.”
Romila Thapar, em seu livro “A History of India” escreve: “Europeus, estudiosos da língua sânscrita, descobriram semelhanças entre o Sânscrito, o Latim e o Grego. Essa descoberta veio reforçar a teoria da existência, no passado, de uma língua comum usada pelos Indo-Europeus.”
“A música da Índia, pouco a pouco apurada e simplificada, espalhou-se pela Europa. Há um certo parentesco entre a música do Oriente e a música da Grécia Antiga, variando as escalas pela colocação dos meios tons. A música do Oriente tem caráter melódico e desconhece a polifonia, que é conquista moderna da arte musical européia.
A cultura milenar da Índia remonta à época dos Vedas, em que se cantavam os hinos sagrados durante os sacrifícios que se celebravam ao ar livre. Esses hinos eram composições dos Rishis, transmitidos oralmente de geração em geração.” (Dr Antonio Menezes, Panjim, Goa)
Os Vedas são um conjunto de livros que contêm as revelações dos Rishis. Combinando a religião com a filosofia e a arte, os hindus buscam um ideal de perfeição onde a clareza do filósofo une-se à devoção do santo e ao senso estético do artista.
Há grande afinidade entre a música religiosa indiana e o canto gregoriano, música circular repetitiva. Em seu aspecto mais popular, a música indiana faz lembrar os desafios cantados pelos violeiros nordestinos ou os cânticos do folclore brasileiro de origem africana. Na música indiana, assim como nos desafios brasileiros, há sempre uma parte estrutural que forma o arcabouço para a improvisação criada na hora, ao sabor do movimento.
Na Índia, esses desafios e improvisos se fazem através de instrumentos de percussão denominados “tablas”, sendo uma de metal e a outra de madeira. No Brasil a percussão é feita com tambores, atabaques, cabaças, agogôs, etc.
Existe todo um ritual para se criar e construir uma tabla, assim como, no Brasil, há também todo um ritual e até batismo dos instrumentos, com água benta (buscada na igreja mais próxima), na construção de um Tambor Sagrado.
Viajando pelo sertão de Minas Gerais, observei o esquentamento dos tambores, sobre um fogão de lenha, para produzir um som melhor. O som dos tambores é obtido com as mãos, como os atabaques africanos ou as tablas indianas. O ritmo de percussão tirado por mãos humanas, assemelha-se nas diferentes regiões do Globo Terrestre.
*Fotos da internet
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
CANTO GREGORIANO E HINOS VÉDICOS
Podemos ver, nas diversas religiões, a busca da harmonia do ser humano por meio da harmonia de sons. Na Bíblia, David conseguiu amenizar com uma harpa a cólera do rei Saul. Ao som de uma lira, Pitágoras transmutava as vibrações de seus discípulos. Na mitologia grega, os primeiros grandes músicos foram os deuses. Apolo, deus da beleza e da arte, é conhecido como o músico que, ao tocar sua lira, encantava os deuses do Olimpo. Pã inventou a flauta de cana e, ao som de sua música se irmanava com os pássaros e com toda a natureza. Entre os mortais descendentes dos deuses gregos destacava-se Orfeu, que, sob a magia de sua música, fazia mover os rochedos, os montes, o curso dos rios.
Em todas as religiões, o canto sempre foi o meio mais simples de se entrar no estado de harmonia e paz. Os cânticos devocionais unificam as pessoas e, por seu intermédio, a espiritualidade chega mais direto aos corações do que por meio do discurso falado. Existe uma afinidade entre o cântico dos Vedas, na Índia, e o canto gregoriano na tradição cristã. Percebemos que ambos nos elevam para um plano mais sutil, rumo ao estado contemplativo.
O Canto gregoriano foi resgatado de manuscritos antigos pelo papa Gregorio Magno, que fez uma coletânea do que era cantado nas celebrações. Pretendia unir os devotos por meio do canto monódico ou uníssono.
No período das perseguições religiosas, os cristãos se reuniam nas catacumbas e cantavam em louvor a Deus enquanto esperavam a sentença final. O canto, provocando o estado de religiosidade, ajudava-os a superar o medo da morte.
No Oriente, o cântico de mantras, harmonizando corpo-emoções-mente, é também considerado uma forma de meditação. A cultura milenar da Índia remonta à época dos Vedas, quando se realizavam rituais com a entoação de hinos e invocações diante da chama sagrada. A tradição hinduísta dá ao mantra, ou som místico, um significado profundo dentro de sua religião. Trata-se de um recurso para o Yogue atingir o som inaudível e não manifesto. Por meio do som ele busca a Realidade Última. De acordo com o Yoga, cada objeto tem um som natural, que pode ser captado, modificado e sintonizado com a música universal. Para os Sufis, “aquele que conhece o mistério do som sabe o mistério do universo.” Nós não conseguimos ouvir o som abstrato que nos circunda e envolve, porque estamos com a consciência centralizada em nós mesmos, em nossos problemas e na vida material. Mas, segundo eles, aquele que tiver a capacidade de sintonizar-se com esse som conhecerá o presente, o passado e o futuro.
A entoação desses cânticos tem caráter melódico e circular repetitivo, assim como o canto gregoriano; portanto, existe uma semelhança entre o canto gregoriano e os hinos védicos. A atmosfera mística que ambos proporcionam levou-me a pesquisar as origens comuns das duas manifestações devocionais.
“O canto gregoriano tem origens orientais. As reverendíssimas beneditinas da Abadia de Nossa Senhora das Graças, em Belo Horizonte , lembram que os monges sempre trabalhavam cantando orações nas lavouras, mas a base dessa melodia – introspecção, contemplação e monodia - veio das sinagogas judaicas e dos cultos hebraicos.” (Pe Nereu de Castro)
Esses grupos devocionais do passado inclinavam-se em atitude de reverência diante da majestade do Deus criador. Durante a entoação dos cânticos sagrados, criavam uma atmosfera de harmonia e unidade, impulsionados por uma energia interior. Essa mesma atmosfera pode ser sentida até hoje nos diversos templos e mosteiros de várias regiões do planeta. Não importa se entoamos um cântico em Sânscrito ou em Latim. A intensidade da busca dessa experiência depende da intenção e da nossa atitude de entrega durante a entoação dos sons sagrados. Esses sons podem nos conduzir além das estrelas, no espaço etéreo, onde não existe a dualidade dos conceitos mentais.
Nos cânticos de louvor, sentimos que o Divino pode manifestar-se no humano.
* Fotos de Marília Andrés e da internet
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
TEILHARD DE CHARDIN, UM CAMINHO PELO ESPAÇO
As idéias evolucionistas de Sri Aurobindo encontram ressonância no grande filósofo católico Teilhard de Chardin.O diálogo entre o Oriente e o Ocidente abre-se a um plano espiritual único. Buscando o conhecimento da Verdade surgiram ao mesmo tempo, em lugares diferentes, dois pensadores cujas idéias contêm a mesma previsão para o futuro da humanidade. Esses dois homens não tiveram contato entre si, viveram em mundos separados, herdeiros de tradições diversas, mas receberam ao mesmo tempo a mesma intuição.
A evolução cósmica, que se processa no universo em movimento à procura de maior consciência e organização, a evolução da vida, do pensamento e do homem é o princípio básico da filosofia de Sri Aurobindo e Teilhard de Chardin.
Um núcleo da Verdade Universal está em nós e é despertado quando o procuramos. É ele que nos faz achar, em meio à multiplicidade de costumes, de línguas, de tradições, de raças e pensamentos, a Unidade do Ser. Do Oriente ao Ocidente, o mesmo núcleo impulsiona uma só voz.
Teilhard fala do advento de uma super-reflexão que levaria o homem a uma plataforma superior. Essa evolução não estaria distante de nós, mas se realiza num futuro próximo. A evolução seria acelerada dentro de pouco tempo, até atingir o ponto Ômega. Então a humanidade formaria um todo consciente de si mesmo, englobando as conquistas materiais da técnica e da ciência. Elas não seriam recusadas nesse plano evolutivo, mas seriam integradas e espiritualizadas. Teilhard não considera o ser humano como o ponto final da evolução, mas ela continua seu processo através do homem, conscientizada e engrandecida por ele.
Segundo o pensamento de Teilhard de Chardin, o homem é o encarregado de irradiar e projetar a evolução. Esse homem novo, que os dois grandes pensadores do Ocidente e do Oriente assinalaram em suas reflexões, não está longe de nós, mas já começa a existir. Há uma onda de consciência que nos impulsiona para o alto. Sentimos o despertar da intuição na busca dos valores espirituais.
O Eu Superior revela-se, não somente para os orientais mergulhados em meditação, mas já começa a ser uma realidade para o Ocidente. Há uma inquietação agitando a juventude, a necessidade de quebrar tabus, ultrapassar situações e superar o cotidiano. Muitos, angustiados na escuridão da procura, entregam-se às drogas, procurando através delas alcançar a transformação. Mas a evolução não se processará artificialmente. A ascenção do homem para um plano mais elevado será feita, conscientemente, com seus próprios recursos interiores. Um impulso de dentro nos conduzirá, aceleradamente, como uma flecha para o alto.
A conquista do espaço e a consciência da existência de outros mundos habitados, significa um imperativo na escala evolucionista, um salto para o futuro e já constitui, de certo modo, o início do movimento acelerado que nos está atingindo.
O caminho das estrelas só poderá ser conquistado pelo homem realmente integrado e evoluído. Incentivado em sua criatividade, iluminado espiritualmente, ele avançará em sua totalidade de corpo e alma para os planos mais elevados. Estamos sendo conduzidos ao testemunho de que energias unificadoras formarão um só caminho, o do homem terrestre chamado a agir, dentro de seu plano e com seus recursos criadores.
Desenvolvendo sua própria criatividade, o homem se elevará do caos para a harmonia, da violência para a serenidade, da competição para a compreensão, da diversificação para a Unidade e do individualismo para a Totalidade.
*Fotos da internet (telescópio Hubble)
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