Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
ARTE E EVOLUÇÃO HUMANA NO ASHRAM DE SRI AUROBINDO
Em 1979, visitei uma comunidade na Índia cujo modo de viver tem atraído pessoas de todo o mundo. Seu fundador, Sri Aurobindo, foi o pensador oriental que mais se aproximou de nossa civilização. Procurava um entrosamento das idéias espiritualistas do Oriente com o dinamismo progressista do ocidente. Sua filosofia, baseada na evolução, prevê a transformação do homem acreditando que “por detrás da inteligência existe em todo o ser humano outra ordem de consciência ainda oculta, que espera o momento de surgir.”
A insatisfação do homem, seu desejo de progredir, é uma prova disto. Essa sede de progresso que nos impulsiona para a evolução não se prende apenas ao raciocínio lógico, mas o ultrapassa. A evolução, processada anteriormente pelas forças da natureza, seria realizada agora conscientemente, no próprio homem, através de praticas, exercícios e o desenvolvimento de suas energia internas.
Tendo sido educado na Europa e conhecendo bem a civilização ocidental, Sri Aurobindo considerava impossível dominarmos as conquistas da ciência e da técnica sem a ajuda de um poder maior do que a inteligência. O desenvolvimento interior através da ioga integral viria despertar nossas potencialidades adormecidas, conduzindo-as à ação. A busca e a educação dessas energias existentes em todo ser humano são formas de atividade que identificam a filosofia do mestre. Tornar consciente o que está inativo e forçá-lo a atuar, despertar, discernir, desapegar-se, agir, purificar-se e evoluir. A transformação se realizaria inicialmente em cada pessoa que já estivesse preparada, mais tarde atingindo a todos. Essa evolução para um plano mais alto de existência se efetuaria normalmente através do desenvolvimento das aptidões de cada um, considerando-se que o trabalho feito com amor conduz ao aperfeiçoamento da pessoa. Qualquer forma de atividade pode ser considerada veículo de evolução. O trabalho assim realizado prevê a ajuda mutua e o espírito comunitário. O trabalho feito com idealismo transforma e purifica o homem. A vocação já é o chamado para a evolução. Bloqueá-la significa atraso.
A criatividade também ajuda a despertar as energias interiores. Através dela, usamos a intuição que nos conduzirá à descoberta da realidade interna. O exercício da criatividade, em todos os seus aspectos - científicos, filosóficos, artísticos - ajuda em nossa integração, conduzindo-nos a planos mais altos. É necessário despertá-la por meio da arte na educação e do incentivo aos artistas e pesquisadores. Mas a evolução exige o aperfeiçoamento total do homem. Baseado nisso, Sri Aurobindo incentivou o esporte, acreditando que o corpo deveria se fortalecer para ajudar na transformação espiritual que se processaria através dele. Suas idéias unificam matéria e espírito. O progresso tecnológico avança, impulsionado por outras forças que ultrapassam as dimensões da inteligência e do raciocínio lógico. Dentro desse impulso totalizante e unificador, o homem crescerá em direção à sua evolução.
A experiência comunitária de Sri Aurobindo apoiada pela UNESCO traz-nos a mensagem de esperança. Suas idéias, aliando a agudeza do ocidente com a iluminação do oriente, conduzem-nos à reflexão. Nossas forças também poderão ser dirigidas e transformadas para que o homem do futuro possa encontrar uma humanidade melhor.
A partir de suas idéias de Unidade Planetária, foi construída a cidade de Auroville (Cidade Aurora) sob o patrocínio da UNESCO. No Brasil as idéias de Sr Aurobindo foram propagadas em Belo Horizonte e Salvador, na década de 70, por Rolf Gelewski, que ensinava através da dança, um despertar do Yoga Integral.
*Fotos da internet
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quarta-feira, 15 de junho de 2011
AVENIDA CANADÁ, CAMINHO DAS ARTES
O artista é um fruto de sua época. Naturalmente, vivendo e participando das experiências de seu tempo, ele transmitirá a inquietação do mundo em seus trabalhos. Não será nunca um retrógrado, um porta-voz de seus antepassados.
Ele é a síntese de seus contemporâneos e, justamente por viver e sofrer os problemas da vida moderna, espontaneamente, sem que ninguém lhe imponha, ele se manifestará, também, de um modo atual correspondente aos avanços da civilização. Ele tem a possibilidade, que outros não tiveram, de estar a par de tudo o que se passa na Europa, na Ásia, na África e nas Américas, de todas as notícias do que se faz de mais avançado no mundo. Isto de certo modo o modifica, torna-o mais universal.
Fazemos parte da humanidade toda, de um modo muito mais vivo que os homens de antigamente, que ignoravam, por completo, os acontecimentos do resto do mundo.
Devido às novas tecnologias, os artistas, que antes viviam retirados nas montanhas podem participar ativamente dos movimentos culturais de qualquer parte do planeta. Um exemplo disto é o dinamismo de 3 galerias localizadas em grandes galpões na Avenida Canadá, no bairro Jardim Canadá. Este corredor cultural já foi denominado “Caminho das Artes”, por sua localização na estrada que liga Belo Horizonte a Inhotim, um dos centros de Arte Contemporânea mais reconhecidos do planeta.
O corredor cultural começa na Galeria Lemos de Sá, que possui um acervo escolhido de artistas, com ênfase no trabalho de Amílcar de Castro. Todos os sábados pela manhã, Beatriz, a dona da galeria, abre os imensos portões para um encontro com as pessoas interessadas num bate papo cultural. Beatriz chegou recentemente de 2 feiras de arte, uma em São Paulo e outra em Buenos Aires , para onde levou um acervo selecionado de obras de artistas mineiros.
No dia 28 de maio, uma outra galeria abriu suas portas. Hamilton Aguiar me convidou a participar desta primeira exposição, onde pude ver meus quadros sendo reproduzidos de forma gráfica. Hamilton veio dos Estados Unidos, onde residiu por 20 anos. É artista plástico e tem contatos importantes no exterior. Sua presença neste “Caminho das Artes” é de grande importância para a divulgação de nossos artistas. Na inauguração escutamos as palavras de Hamilton e da fotógrafa Heloisa Oliveira, que expôs fotos do Butão. Ambos tiveram grande experiência fora do Brasil e isto também é um enriquecimento para todos nós. Em junho ele participará de uma exposição em Nova York , levando também obras de artistas mineiros. No dia 9 de junho ele inaugurou uma exposição no Museu Inimá de Paula, em Belo Horizonte.
À tarde, na mesma Avenida Canadá, artistas jovens contemporâneos se reuniram no JACA (Centro de Arte Contemporânea) situado no mesmo quarteirão das duas outras galerias. A proposta do JACA é trazer artistas de fora para ali fixarem residência por 2 meses, desenvolvendo trabalhos inéditos que aproximam os povos através da arte. Frequentemente suas portas se abrem para estudos e palestras culturais. Dirigido por Francisca Caporali, o JACA foi todo enfeitado de bandeirinhas coloridas, para festejar o aniversário de seu filho Gabriel, meu bisneto de 2 anos. As crianças que ali estiveram são filhos de artistas e estavam se divertindo com os balões e os pula- pulas.
A arte nos remete à nossa própria infância. As melhores lembranças que eu tenho da minha infância são as festas de aniversário. Elas me conduziram para o caminho das artes.
*Fotos de Marcelo Coelho e Beatriz Lemos de Sá.
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quinta-feira, 9 de junho de 2011
INTEGRAÇÃO DE DOIS GRUPOS MUSICAIS
No domingo, 5 de junho, assisti à integração de 2 grupos musicais, Quebra Pedra e Agua Luz. O objetivo de fundir os 2 grupos num só espetáculo, resultou numa harmonia perfeita, um exemplo a ser seguido por outros grupos de arte, inclusive pelos artistas plásticos. Unidade na multiplicidade é a tônica do Século XXI e estes jovens músicos estão abrindo o caminho dentro da arte, da quebra do ego e da competição para alcançar a luminosidade do coletivo. Parabéns pelo espetáculo. Todos nós que estávamos na platéia percebemos emocionados que algo de novo estava acontecendo.
Com grande sucesso, o cantor, compositor e flautista Alexandre Andrés, juntamente com os músicos Gustavo Amaral e Luiz Gabriel estrearam no dia 20 de maio, na Sala Juvenal Dias, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte , o show “Terra das Laranjeiras”. Com um repertório exclusivamente autoral, cada um dos três jovens compositores dedicou uma composição a alguém. Alexandre dedicou uma de suas composições a sua avó, Maria Helena. Intitulada “A Voz de Todos Nós”, transcrevo a letra criada pelo poeta Bernardo Maranhão:
A Voz de Todos Nós
(Alexandre Andrés – Bernardo Maranhão – dedicada a Maria Helena Andrés)
“Sombra de mímica dança enlaçando a nudez
Tango sonâmbulo, peso de um passo a caminho dos pés
Dando espaço ao tempo, o tempo passa bem (2x)
Feito relâmpago antecipando o trovão
Feito libélula irradiando os azuis do verão
Sinto sussurrar a voz do coração (2x)
Lágrima límpida, corre no canto do olhar
Lâmina lúcida, brilho do lírio no lago ao luar
Tão comum, a dor e o bem de cada um (2x)
Página pálida, margem da imaginação
Letra de música, risca da quilha nas ondas do som
Traz pra minha voz a voz de todos nós
Faz de minha voz a voz de todos nós
Um silêncio por dizer (-)
um remanso, um bem querer (-)
uma pausa plena
Dentro da árvore_um bando de passarim (-,- - -)
Cantoria(-), nuvens douradas (;)entre o céu e a serra
(;)flor do pântano, terra dos tuiuiuis
Fim de mundo (-), lugar propício, (;)faz do fim o início”
Foi com muita alegria que me foi possível receber este presente de meus netos músicos, já que considero a todos como netos. A tradição musical da família se estende para o futuro levando a mensagem de amor a todos que acreditam nesta grande missão da música em nosso Planeta. Alexandre é também membro do grupo instrumental Diapasão, como flautista e compositor com quem. No segundo semestre de 2011, estará lançando o seu primeiro CD com este grupo.
Alexandre Andrés com o seu CD autoral de canções, intitulado "Agualuz", lançado pelo Projeto Natura Musical no ano de 2009, recebeu críticas de importantes músicos e jornalistas, tais como:
"Alexandre Andrés, mineiro de BH, de apenas 19 anos, estréia de forma fulminante em "Agualuz". O disco independente ganhou tiragem ampliada por ter sido selecionado no edital do projeto Natura Musical, junto com a turnê de lançamento. Ele toca violão e canta no disco as músicas que compôs com o poeta Bernardo Maranhão, mas também é responsável pela densa polifonia dos arranjos. Alexandre domina vários estilos da MPB, alguns entrelaçados como a vertiginosa Romanceada. A prosa arquitetônica de Guimarães Rosa perspassa o enredo de forma explícita (Rosa) ou implícita (Névoa-nada, Margem da Terceira Rua). Mônica Salmaso legitima as escalas enviesadas de Cadência, Regina Amaral pavimenta o piano da ecoante Uirapurú, e André Mehmari pontua Revoar. Requinte puro." (Tárik de Sousa – Jornal do Brasil, 23/10/2009)
Sobre o CD “Agualuz”, o crítico musical Ailton Magioli escreveu: “Dono de trabalho surpreendente, diante da sua faixa etária, Alexandre Andrés explora em sua música melodias e harmonias dignas da tradição mineira, casada com uma poesia que prima por rigor e qualidade nem sempre perceptíveis na música popular” (O Estado de Minas, 21/11/2008).
“I enjoyed listening to Águaluz” “I thought the level of musicianship was very high and it made me smile”
(Michael Riesman, diretor musical do compositor norte americano Philip Glass, – Sobre o CD Águaluz de Alexandre Andrés)
“...o Alexandre é um jovem extremamente talentoso. Quando ouvi sua música, por primeira vez, senti ali um grande frescor... pude notar ali, claramente, a 'voz' de um compositor...” (André Mehmari, SESC Instrumental/TV SESC).
*Fotos de Artur Andrés
quinta-feira, 26 de maio de 2011
VOZ E POESIA
Estamos vivendo uma época de retorno às nossas origens. Um retorno muitas vezes de atitudes que nos remetem a valores da própria essência do ser humano e que apontam para uma abertura de consciência e uma transformação da sociedade.
Sabemos que os antigos gregos eram também poetas e os antigos hindus eram também cantores. Poesia e música transmitiam em seu contexto a antiga sabedoria do mundo. No mundo contemporâneo esta transversalidade está sendo estudada por filósofos e pensadores da arte. O saber está sendo transmitido de geração em geração em forma de poesia e canto.
Nesta síntese das artes, onde a poesia encontra a filosofia e a música, existem grupos que vêm trabalhando há muito tempo neste caminho que espontaneamente liga arte, ciência, religião e filosofia.
São poemas, cânticos e vídeos apresentados de forma circular como os antigos grupos. A tônica é a busca da Unidade do Século XXI, que se sobrepõe à separatividade do Século XX.
Estamos divulgando como um exemplo desta volta às origens, o trabalho pioneiro dos poetas e cantores Luciano Luppi, Ivana Andrés e Evaldo Leoni, que apresentaram seu espetáculo interativo “Cartas Poéticas” no Teatro Don Silvério em Belo Horizonte.
Transcrevo abaixo algumas poesias deste espetáculo:
SOBRE OS FILHOS
(Kahlil Gibran)
Vossos filhos não são filhos vossos.
São os filhos e as filhas do desejo ardente da vida por si mesma.
Eles vêm através de vós, e embora vivam convosco , não vos pertencem.
Podeis presentear-lhes com vosso amor, mas não com vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas,
pois suas almas moram na mansão do amanhã,
que vós não podeis visitar, nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles,
mas não procureis fazê-los iguais a vós,
porque a vida não anda para trás ,
e nem permanece nos dias que já se passaram.
Sois como o arco do qual vossos filhos
são arremessados como flechas vivas.
O Arqueiro mira o alvo na direção do infinito,
e vos estica com toda a sua força ,
para que suas flechas se projetem rápidas, para muito longe.
Para vossa alegria, deixai-vos curvar pela mão do Arqueiro,
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
ama também o arco que permanece estável.
HOUVE UM INSTANTE
(Antonio Roberto Soares)
Houve um instante
Em que todas as músicas do mundo
Marcaram encontro com o pôr do sol
Em que a brisa pegou carona com o arco-íris
E foi testemunhar a chegada dos pássaros da primavera
Houve silêncio
Um silêncio terno e quente
Silêncio de mar
De amanhecer
Um perfume lento de todas as flores da terra
E uma paz maciamente infinita
Houve um instante
Em que tudo isto aconteceu ao mesmo tempo
E no mesmo lugar
No meu coração
Perguntei a Deus o nome de tanta poesia
A resposta veio à noite
Com as estrelas
Amor
*Fotos de Leandro Luppi
domingo, 15 de maio de 2011
UAKTI EM ROMA
O nosso conhecido grupo UAKTI, de Minas Gerais esteve recentemente fazendo uma apresentação na Embaixada do Brasil em Roma.
O grupo UAKTI em todas as suas apresentações fora do Brasil, tem sido o grande emissário da paz entre as nações do mundo.
Sua música, de inspiração indígena, atravessa as fronteiras levando uma mensagem de harmonia e integração planetária pelos diversos países por onde passa.
Assisti em 2001 no Guggenhein de Nova York a uma apresentação e workshop do grupo. Foi uma época conturbada na cidade de Nova York com a explosão das Torres Gêmeas. Havia um contraste entre a paz e a guerra. Diante de uma platéia ainda traumatizada com a queda das duas Torres, eles acenavam com uma proposta de paz e harmonia.
Agora, novamente estarão apresentando numa Europa conturbada pelo clima de guerra, as vibrações sonoras com propostas de paz entre os homens.
Brasileiro não quer a guerra, é a favor da paz. Nos sons sem palavras eles nos tocam o coração, emitindo vibrações da terra na percussão e do espaço na flauta. A flauta nos lembra a lenda do UAKTI, um índio brasileiro que encantava as mulheres da tribo. De acordo com o depoimento de Artur Andrés, UAKTI era um índio grande, que tinha o corpo aberto em buracos. Quando ele corria pela floresta o vento, passando pelos buracos do seu corpo, produzia sons lúgubres, soturnos que atraíam as mulheres da tribo. UAKTI as seduzia. Os índios da tribo, enciumados, caçaram e mataram UAKTI. No local onde ele foi enterrado, nasceram 3 palmeiras. Os índios passaram a utilizar a madeira dessas palmeiras para tecerem flautas que, segundo eles, quando tocadas, reproduziam os sons do UAKTI correndo pela floresta. Nos rituais indígenas, as mulheres tinham que ser retiradas para bem longe, pois se ouvissem esses sons, poderiam se tornar impuras.
Assim também na Índia, Krishna, o deus da música, encantava as gopis (camponesas) com sua flauta.
Os mitos levam semelhanças e significados formais. Atravessam tempo e espaço para lembrar ao ser humano a sua origem cósmica. O índio UAKTI no Brasil, mergulhado nas florestas, lembra o deus Krishna na Índia, encantando as camponesas. Transmutar energias é o significado de ambos. Comover os corações, reverter a violência é o que todos nós sentimos.
A música deste grupo de Minas Gerais é uma música que nos conduz a um espaço interno dentro de nós, onde não existe tumulto, violência ou divisões. Na multiplicidade de instrumentos feitos com a maior variedade de materiais, tubos de PVC, cabaças, tablas, tambores, tampas de panelas, etc, Marco Antônio Guimarães, idealizador do Grupo, criou inúmeras composições. Marco Antônio tirou música até das tempestades, e os sons que ele ouviu da água batendo no chão e escorrendo do telhado, motivaram a criação do CD Águas da Amazônia, que o Grupo mostrou no Guggenhein de Nova York em 2001. Atualmente os demais componentes do Grupo, Artur Andrés, Décio Ramos e Paulo Santos têm dado continuidade ao UAKTI, não somente nas apresentações, como também acrescentando novas composições.
Recentemente, numa apresentação no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, foi introduzido um gigantesco instrumento de sopro semelhante aos instrumentos dos monjes budistas, cujo som lembra o timbre grave e soturno do índio UAKTI.
A música tem esta possibilidade de unir as pessoas e a estes emissários da Unidade Planetária os nossos votos de maior sucesso.
*Fotos de Regina Amaral, Sylvio Coutinho e Jefferson Oliveira
O grupo UAKTI em todas as suas apresentações fora do Brasil, tem sido o grande emissário da paz entre as nações do mundo.
Sua música, de inspiração indígena, atravessa as fronteiras levando uma mensagem de harmonia e integração planetária pelos diversos países por onde passa.
Assisti em 2001 no Guggenhein de Nova York a uma apresentação e workshop do grupo. Foi uma época conturbada na cidade de Nova York com a explosão das Torres Gêmeas. Havia um contraste entre a paz e a guerra. Diante de uma platéia ainda traumatizada com a queda das duas Torres, eles acenavam com uma proposta de paz e harmonia.
Agora, novamente estarão apresentando numa Europa conturbada pelo clima de guerra, as vibrações sonoras com propostas de paz entre os homens.
Brasileiro não quer a guerra, é a favor da paz. Nos sons sem palavras eles nos tocam o coração, emitindo vibrações da terra na percussão e do espaço na flauta. A flauta nos lembra a lenda do UAKTI, um índio brasileiro que encantava as mulheres da tribo. De acordo com o depoimento de Artur Andrés, UAKTI era um índio grande, que tinha o corpo aberto em buracos. Quando ele corria pela floresta o vento, passando pelos buracos do seu corpo, produzia sons lúgubres, soturnos que atraíam as mulheres da tribo. UAKTI as seduzia. Os índios da tribo, enciumados, caçaram e mataram UAKTI. No local onde ele foi enterrado, nasceram 3 palmeiras. Os índios passaram a utilizar a madeira dessas palmeiras para tecerem flautas que, segundo eles, quando tocadas, reproduziam os sons do UAKTI correndo pela floresta. Nos rituais indígenas, as mulheres tinham que ser retiradas para bem longe, pois se ouvissem esses sons, poderiam se tornar impuras.
Assim também na Índia, Krishna, o deus da música, encantava as gopis (camponesas) com sua flauta.
Os mitos levam semelhanças e significados formais. Atravessam tempo e espaço para lembrar ao ser humano a sua origem cósmica. O índio UAKTI no Brasil, mergulhado nas florestas, lembra o deus Krishna na Índia, encantando as camponesas. Transmutar energias é o significado de ambos. Comover os corações, reverter a violência é o que todos nós sentimos.
A música deste grupo de Minas Gerais é uma música que nos conduz a um espaço interno dentro de nós, onde não existe tumulto, violência ou divisões. Na multiplicidade de instrumentos feitos com a maior variedade de materiais, tubos de PVC, cabaças, tablas, tambores, tampas de panelas, etc, Marco Antônio Guimarães, idealizador do Grupo, criou inúmeras composições. Marco Antônio tirou música até das tempestades, e os sons que ele ouviu da água batendo no chão e escorrendo do telhado, motivaram a criação do CD Águas da Amazônia, que o Grupo mostrou no Guggenhein de Nova York em 2001. Atualmente os demais componentes do Grupo, Artur Andrés, Décio Ramos e Paulo Santos têm dado continuidade ao UAKTI, não somente nas apresentações, como também acrescentando novas composições.
Recentemente, numa apresentação no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, foi introduzido um gigantesco instrumento de sopro semelhante aos instrumentos dos monjes budistas, cujo som lembra o timbre grave e soturno do índio UAKTI.
A música tem esta possibilidade de unir as pessoas e a estes emissários da Unidade Planetária os nossos votos de maior sucesso.
*Fotos de Regina Amaral, Sylvio Coutinho e Jefferson Oliveira
quinta-feira, 5 de maio de 2011
ARTE E PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA
Os acontecimentos na escola do Realengo no Rio de Janeiro, que traumatizaram o mundo inteiro, precipitaram diversas ações voltadas para prevenir a violência.
Minha neta Alice, que coordena a área de controle de armas do Instituto Sou da Paz, deu o seguinte depoimento sobre uma campanha junto as crianças para conscientiza-las sobre a importância de prevenir a violência: “Foi interessante a experiência acontecida na zona sul da cidade de São Paulo, na região do M’Boi Mirim, em abril de 2011. Entre os dias 11 e 15, o Instituto Sou da Paz articulou a Semana do Desarmamento Infantil, junto com a Polícia Militar, a Guarda Civil e a Subprefeitura do M’Boi Mirim. Durante esses dias, as crianças da região receberam aulas sobre os perigos das armas e puderam trocar armas de brinquedo por revistas em quadrinhos. As crianças deram uma lição de cidadania. Além de entregar as arminhas, elas também entregaram filmes e jogos violentos. Muitas escolas que aderiram à iniciativa depois nem puderam oferecer os gibis em troca das arminhas entregues – mas não isso não foi um problema!”
Alice continua seu depoimento lembrando o papel da criatividade artística como forma de expressão a serviço de uma cultura de paz: “As crianças não só entregaram arminhas como também compuseram músicas e peças de teatro pelo desarmamento, pintaram e desenharam símbolos da paz e transformaram brinquedos violentos: uma espada virou um pássaro, e outras espadas foram “plantadas” em um vaso e viraram flores. Foi um espetáculo!”
Vivemos em período de transição, de lutas e idéias contraditórias, mas a experiência nos faz conscientizar e discernir. A juventude, corajosamente, quebra as estruturas convencionais e nos obriga a uma revisão de valores. A criança já começa a ser despertada para a criatividade e a arte, considerada elemento indispensável na educação. Segundo Herbert Read “A finalidade geral da educação é estimular o crescimento do que cada ser humano possui de individual, harmonizando ao mesmo tempo a individualidade assim conseguida com a unidade orgânica do grupo social ao qual pertence o indivíduo”. Esse estímulo ao crescimento individual em harmonia com o grupo é o papel da arte na educação. Nela a criança encontra apoio para o seu desenvolvimento integral, que não é feito na base da concorrência ou da vaidade pessoal, mas na base da colaboração e do respeito mutuo.
Pertencemos a uma comunidade da qual não devemos fugir. É nela que vamos crescer. Ela nos ajudará a conquistar essa harmonia. A arte na educação não visa o incentivo de uma só criança mais bem dotada, mas a integração de todas no conjunto que formará a grande orquestra do futuro. Daí o perigo dos concursos infantis, das promoções que jogam uns contra os outros e que, em lugar de integrar, desintegram; em lugar de educar, deseducam. A criatividade é a forma de encontrar a liberdade, aquela liberdade que brota de dentro para fora, de uma pequena luminosidade que se acende dentro de cada ser humano, para caminhar ao encontro da libertação completa. É liberando a energia criadora que damos o primeiro passo para esse encontro. Enganam-se muitos pensando que só os artistas criam e os outros apenas contemplam. A energia criadora é propriedade de todo o ser humano e manifesta-se em graus, intensidades e maneiras diversas. Ela é a força que conduz o homem a superar-se a si mesmo identificando-se com sua própria interioridade. A criatividade é necessária ao homem e sempre o tem acompanhado em sua evolução. Agora, na era contemporânea, nesse encontro do oriente com o ocidente, encontramos a arte como forma de educação e recuperação do homem no século XXI, abrindo caminho por entre a barreira do materialismo, da massificação e da violência, despertando a criatividade que todo ser humano possui. A arte está sendo, mesmo inconscientemente, a energia que nos conduz a indagações mais profundas e nos prepara para a evolução. A criatividade estimulada e desenvolvida desde a infância será a forma de equilíbrio necessária a nossa época de automação. Incentivemos a criatividade, o trabalho das mãos, a libertação das potencialidades humanas e enxergaremos através delas o homem integral.
Pertencemos a uma comunidade da qual não devemos fugir. É nela que vamos crescer. Ela nos ajudará a conquistar essa harmonia. A arte na educação não visa o incentivo de uma só criança mais bem dotada, mas a integração de todas no conjunto que formará a grande orquestra do futuro. Daí o perigo dos concursos infantis, das promoções que jogam uns contra os outros e que, em lugar de integrar, desintegram; em lugar de educar, deseducam. A criatividade é a forma de encontrar a liberdade, aquela liberdade que brota de dentro para fora, de uma pequena luminosidade que se acende dentro de cada ser humano, para caminhar ao encontro da libertação completa. É liberando a energia criadora que damos o primeiro passo para esse encontro. Enganam-se muitos pensando que só os artistas criam e os outros apenas contemplam. A energia criadora é propriedade de todo o ser humano e manifesta-se em graus, intensidades e maneiras diversas. Ela é a força que conduz o homem a superar-se a si mesmo identificando-se com sua própria interioridade. A criatividade é necessária ao homem e sempre o tem acompanhado em sua evolução. Agora, na era contemporânea, nesse encontro do oriente com o ocidente, encontramos a arte como forma de educação e recuperação do homem no século XXI, abrindo caminho por entre a barreira do materialismo, da massificação e da violência, despertando a criatividade que todo ser humano possui. A arte está sendo, mesmo inconscientemente, a energia que nos conduz a indagações mais profundas e nos prepara para a evolução. A criatividade estimulada e desenvolvida desde a infância será a forma de equilíbrio necessária a nossa época de automação. Incentivemos a criatividade, o trabalho das mãos, a libertação das potencialidades humanas e enxergaremos através delas o homem integral.
Fotos de Luciano Luppi e da internet
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quarta-feira, 27 de abril de 2011
THRANGU RINPOCHE
Tenho anotados em meu diário de 1978 os ensinamentos que Thrangu Rinpoche me passou.
Thrangu Rinpoche nasceu no Tibet em 1933. Reconhecido aos quatro anos como a reencarnação de um dos grandes lamas (ou monjes do budismo tibetano), foi preparado, através de estudos, meditações e retiros, para ser um dos maiores instrutores do Budismo. Encontrei-o em 1978, em um mosteiro tibetano situado em Bouddhanath, em Kathmandu, no Nepal. Nessa ocasião, foi-me possível receber os seus ensinamentos e participar de um curso especialmente preparado para os ocidentais.
A doutrina de Sunyata ou do vazio torna-se fácil de ser compreendida através de seu livro: The open door to emptiness, ou A porta aberta para o vazio. O Vazio, segundo Rinpoche, não é um nada branco ou uma ausência de qualidades. Apesar de ser um estado de ser indescritível, o Vazio é a potencialidade total, que dá nascimento a todas as formas. Esse campo supremo do insight ou o espaço básico de todos os dharmas, é frequentemente referido como a mãe de todos os Budas e Boddhisattvas (pessoa que alcançou a iluminação para benefício de todos), pois, assim como a mãe dá nascimento às crianças, também o insight dentro da natureza fundamental produz todas as ações iluminadas do passado, do presente e do futuro. Todas as aparências têm o vazio como qualidade essencial. Quando esvaziamos o sofrimento, percebendo-o na essência de onde vem, ele imediatamente desaparece. Muitas vezes estamos presos às nossas preocupações, e somente abrindo as portas da compreensão tomamos consciência de que tudo nasce do vazio e desaparece no vazio.
A lição do lama começava com a concentração em uma pedrinha. No dia seguinte, concentrávamos no retrato de Buda ou numa paisagem, até que pudéssemos perceber que não existe a separação entre o observador e a coisa observada. A recomendação era concentrar por muito pouco tempo, sem forçar. Ela podia ser feita três vezes ao dia, mas não devia ultrapassar cinco minutos. Quando nossa concentração já estivesse treinada, então poderíamos entrar em meditação. A meditação começava com a observação de nossa respiração entrando e saindo de nossas narinas. Não devíamos interferir no seu ritmo natural, mas apenas observá-la.
A quarta lição referia-se à observação de nossos pensamentos. Sentávamos em silêncio, o corpo relaxado, os olhos semi-cerrados. Se viesse algum pensamento, apenas observávamos sem nos identificarmos com ele.
Thrangu Rinpoche orientava os alunos de forma simples, e ao final do curso recebíamos um pequeno xale branco, um rosário de contas de madeira e um mantra para ser repetido diariamente como forma de meditação.
“OM MANI PADME HUM”. Esse mantra é muito conhecido nas comunidades tibetanas. OM é a vibração da qual todo o universo emana, estando na origem de todos os mantras. MANI PADME ou “a jóia no lótus” é a Sabedoria Eterna contida em nossos corações. HUM, representa a Realidade Ilimitada, contida dentro do ser humano, que une os objetos separados ao OM universal.
“Quando um mantra nos é transmitido por um mestre qualificado, a integração da sabedoria desse mantra em nossa consciência é muitíssimo facilitada. Através do poder da sabedoria do mantra, haverá facilidade para nos comunicarmos com a nossa verdadeira sabedoria interior, permanecendo contudo livres das distrações externas.” Através da recitação de mantras podemos transcender os sons e as palavras externas, para escutarmos um sutil som interior que já existe em nós.
*Fotos da internet
segunda-feira, 11 de abril de 2011
ENSINAMENTOS TIBETANOS
“Leva-se vinte anos para estudar o Budismo, mas se a pessoa estiver preparada aprende em dois dias”. Quem estava falando era um jovem lama, de uns trinta anos, ladeado por dois discípulos canadenses. Estava na varanda de um mosteiro, a paisagem embaixo descortinava-se numa grande planície plantada, a terra dividida em espaços retangulares, preparada com cuidado para as chuvas que se aproximavam. Varas de bambu com panos coloridos, graficamente preparados com mantras, balançavam ao sopro do vento, espalhando paz no campo. Podiam-se ver as mesmas bandeiras em redor da grande stupa, ou templo budista, onde os devotos realizavam suas preces. As comunidades tibetanas se espalharam pelos Himalaias e é comum se ver bandeiras coloridas em toda essa região, incluindo o Butão. Os lamas viajam pela região levando os ensinamentos de Buda. Numa das palestras a que assisti, o lama se despediu dizendo: “Amanhã estarei dando aulas no Butão.” Os tibetanos falam pouco, não se ouve vozerio como na Índia, são discretos, e quando aprendem o inglês, resumem-se ao essencial.
A meta é o encontro com o estado de Vazio, onde as preocupações, conflitos e ansiedades não têm vez. É o encontro do homem com ele mesmo, com a sua própria interioridade, além do bem e do mal, do prazer e da dor, na busca do equilíbrio perfeito entre o corpo, a emoção e a mente. Procuram viver nesse estado de não envolvimento emocional, ou melhor, de não permanência nas conseqüências da emoção e nos embaraços criados pela mente. Todos explicam a mesma coisa de forma diferente, mas sempre estão prontos a ajudar as pessoas interessadas. Vem gente de longe para participar dos cursos e entrar em contato com os lamas.
Há várias técnicas de meditação, variando de acordo com as necessidades dos discípulos, mas todas levam ao mesmo ponto: o estado de atenção necessário a uma plena consciência das coisas. Todas insistem no não pensamento. Sentir, olhar e perceber o presente sem interferências do passado ou do futuro. Os nossos sofrimentos vêm de nós mesmos, dos nossos conflitos mentais e do acúmulo de imagens conflitivas na mente. Quando aprendemos a olhar a mente de forma direta, quando a esvaziamos por completo, percebemos um estado de Serenidade e Paz, que seria o estado natural do ser humano.
O caminho do meio, pregado por Buda há 2.500 anos, conduz a um estado de alegria sem excessos e à Felicidade a que tem direito a pessoa durante o seu curto tempo de permanência na terra. Mas, de um modo geral, esse tempo é gasto em várias atividades e somente uns poucos se aproximam da beleza desses momentos como um privilégio especial. Os ensinamentos dos lamas, quando se referem à observação dos próprios pensamentos, assemelham-se às instruções de Krishnamurti. “Olhe dentro de você mesmo, observe os movimentos de seu ego, suas reações à vida diária.”
Quando tomamos consciência de que tudo está na nossa própria mente, quando compreendemos como surgem, permanecem e acabam os nossos pensamentos, sentimos que eles são realmente os geradores de todos os nossos altos e baixos. O momento presente é sempre belo e cheio de luz. Somos nós que criamos a nossa própria dor.
*Fotos de Heloisa Oliveira
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segunda-feira, 4 de abril de 2011
ESCRITA JAPONESA
Alguns críticos ocidentais, especialmente os franceses, falam da caligrafia de um quadro quando se referem ao modo de um pintor conduzir um pincel, ao traço característico do artista. Dizem que um quadro é legível quando comunica através da clareza do traço, da emoção e da sensibilidade linear. As origens desse conceito vêm da China e influenciaram o Ocidente através do Japão, país que serviu de ponte entre o Oriente e o Ocidente.
Observando de perto a pintura do Extremo-Oriente podemos ver clara a predominância da escrita como forma de expressão. Os artistas da China Antiga e do Japão escreviam textos poéticos em suas telas de seda e usavam o mesmo pincel para escrever letreiros ou cartazes. As cenas desenrolavam-se linearmente através dos grandes painéis, como se a natureza, perdendo os limites de espaço captados por nossa percepção, pudesse se desdobrar em tela panorâmica, revelando o conjunto de várias paisagens. Árvores e folhagens obedeciam a um ritmo caligráfico de intensidades variadas. As manchas sugeriam espaços indefinidos, esfumaçados, cheios de nuvens. Os poemas acompanhavam o traçado das árvores e dos rochedos, com a mesma sensibilidade do desenho. A letra integra-se à paisagem, faz parte dela, não se destaca do conjunto como elemento dissonante. A caligrafia oriental é por si mesma artística e sugeriu ao Ocidente a pintura de ação, o grafismo e o abstrato lírico.
Meu filho Maurício relata que no livro de Almerinda da Silva Lopes sobre Arte Abstrata no Brasil, (publicado pela Editora C/Arte em 2010) ela realça o pioneirismo na reaproximação com o oriente do crítico de arte Mario Pedrosa, depois de uma viagem feita ao Japão como bolsista da UNESCO, em 1959, com o prêmio que lhe foi concedido durante o congresso de críticos de arte realizado em Brasília, cidade prestes a ser inaugurada. Escreve Almerinda que Mario Pedrosa, ao retornar daquela viagem, “ redigiu o ensaio denominado: A caligrafia sino-japonesa moderna e a arte abstrata no Ocidente, na qual revelava ter encontrado respaldo para discorrer sobre a escritura informal ou lírica. E em uma seqüência de matérias publicadas no Jornal do Brasil, no mesmo ano, Pedrosa afirmava: “toda a arte chinesa, e mesmo a japonesa é iconográfica, isto é, feita em função de uma idéia ou símbolo”. Em outro texto publicado no ano seguinte, o crítico referia-se mais detalhadamente ao significado da escrituração do gesto pictórico, tomando como referência, mais uma vez, a caligrafia oriental: “Se, no Oriente, a primeira das artes, em importância e ordem cronológica de seu aparecimento foi a Escritura, ou a Caligrafia, no Ocidente a relação entre pintura e escritura foi totalmente outra. A escrita nasceu, aqui, já de um modo ou com objetivo prático, utilitário, de meio para fim. No Oriente, a escrita, ela mesma, se transformou num fim, muito antes de a Europa apresentar-se como um continente separado e marcado por uma civilização autônoma. Da caligrafia chinesa nasceram as pinturas chinesa e japonesa. No Ocidente, a pintura só depois de desenvolvida dava motivo ao nascimento de uma variação pictórica com algo de caligráfico ou de escritura.”
Maurício Andrés buscou naquela publicação sobre arte abstrata elementos para comentar sobre as afinidades com o modo de expressão japonês em minha própria pintura: “Ao buscar inspiração no Oriente, Maria Helena fez trajetória inversa à de pintores japoneses que migraram para o Brasil, tais como Tomie Ohtake, Kazuo Wakabayashi, Tomoshige Kusuno, e Manabu Mabe. Seu abstracionismo lírico tem afinidade com o Oriente, com a gramática icônica dos japoneses. Essa gramática icônica é apropriada pela propaganda e pela publicidade ao conceber logomarcas e outros signos gráficos de forte apelo comunicativo. Não por acaso, a própria logomarca do Instituto Maria Helena Andrés, criado em 2005 para desenvolver trabalhos de educação pela arte, identifica ao mesmo tempo os traços da artista e sua assinatura tendo, ao mesmo tempo similaridade com a caligrafia oriental.”
Fotos da internet e de Maurício Andrés
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sábado, 26 de março de 2011
JAPÃO, UM ALERTA PARA O MUNDO
“Hoje os EUA são o país com maior número de usinas nucleares: são 104 no total. Isso representa 18% da matriz energética daquele país. A França está no topo dos países com maior dependência desse tipo de energia: 80% da matriz é nuclear. No Brasil, o uso de energia nuclear não chega a 3% do total que é consumido.”
“O Japão tem 55 reatores nucleares que funcionam em 17 usinas distribuídas pelo país. Juntas, elas geram 36% de toda a energia consumida pelos japoneses.”
“O vazamento de césio 137, assim como de outros elementos radioativos, pode provocar deformação nas células da população exposta. Consequentemente a ocorrência de câncer.” (Informações da Folha de São Paulo, 13/03/2011)
O vazamento na usina de Fukushima, no Japão, nos traz mais uma vez à memória os ataques nucleares de 1945. As bombas mataram 140 mil japoneses em Hiroshima e calcula-se que mais de 340 mil tenham sido expostos diretamente à radiação. Em Nagasaki estima-se que os mortos foram 74 mil na explosão e mais de 70 mil até um ano depois.
O uso da energia nuclear passa a ser um alerta para o mundo. Países como a Suíça e Alemanha começam a rever seus projetos de energia nuclear. E os efeitos da radiação atômica estão sendo estudados por cientistas do mundo inteiro.
Grupos de ambientalistas protestam contra as usinas nucleares, justificam que se o Japão, um país tão preparado para esses acontecimentos, não consegue proteger sua população, certamente a Europa também não conseguiria.
Todos nós precisamos pensar um pouco sobre outras formas de energia menos agressivas e perigosas.
No Brasil o aquecimento solar é utilizado em 10.000 habitações populares. Belo Horizonte é a capital solar do Brasil, com placas de captação em 2.000 edifícios. Tive a oportunidade de assistir a uma palestra do engenheiro Carlos Faria “Energia Solar – Mercado, Legislação e Aplicações”, no Seminário Internacional Sustentabilidade e Ecoconstrução, em Setembro de 2010 em Belo Horizonte : “A cidade que (re)construirmos hoje definirá nosso compromisso futuro com a sustentabilidade do planeta.” Carlos Faria é coordenador da Iniciativa Cidades Solares do Brasil. Naquela palestra ele nos mostrou como a energia solar vem sendo utilizada em diversos países: Portugal, França, Espanha, Itália, Alemanha, China, Índia, Brasil e vários outros. Destaca-se Israel, onde a instalação de aquecedores solares é obrigatória desde 1980.
Os tradicionais moinhos de vento da Holanda, que povoaram a imaginação das crianças e de todos nós, estão sendo relembrados agora, com a utilização da energia eólica.
Gostaria de acrescentar aqui a experiência de Teresa e Pedro com energia solar para uso popular. “ Em Aracaju existe uma iniciativa afim de aproveitar a energia solar para a cocção de alimentos. O fogão solar pode ser feito de forma simples, com materiais reutilizados, como caixas de papelão e chapas de zinco. Participei de várias oficinas por todo o Estado de Sergipe, ensinando a cozinhar com o sol. O povo vibrou com a novidade, pois muitas pessoas dependem da lenha cada vez mais escassa.”
Teresa me presenteou com um fogão feito em uma caixa de papelão, revestido internamente com papel alumínio. Procurei um lugar que tivesse muito sol e instalei o fogão na frente da minha casa. Depois de 1 hora o vapor começava a subir da panela e uma vizinha me perguntou curiosa: - o que você está fazendo aí? – cozinhando feijão, eu respondi. – só mesmo você Maria Helena! E eu pensei comigo mesma: hoje ninguém acredita, mas um dia terão que acreditar.
O fogão solar pode também ser considerado “arte contemporânea à margem dos museus”.
*Fotos da internet
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sexta-feira, 18 de março de 2011
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