Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
terça-feira, 14 de abril de 2015
terça-feira, 31 de março de 2015
TERRITÓRIOS DO BRINCAR E GRUPO UAKTI
No imenso galpão com teto de bambu e decoração
oriental, a música vai se tornando parte de um todo que inclui a natureza
bucólica do entorno.
Neste cenário cheio de sons da natureza, outros sons
são criados dentro de um pequeno estúdio. Assisti à criação de uma trilha
sonora dedicada a um documentário intitulado “O território do brincar”.
O músico Alexandre Andrés, regula os altos e baixos
da flauta soprada por seu pai Artur, na sala ao lado, separada por uma parede
de vidro.
Durante uma hora ali fiquei assistindo à criação de
sons destinados a integrar as imagens do filme.
Aquela trilha sonora nos levava a uma experiência
única, da união entre as imagens e os sons.
No dia seguinte, conheci a educadora Renata Meireles
e o seu marido, o cineasta David Reeks que vieram de São Paulo para terminar o
vídeo. Foi armada uma tela grande onde pudemos assistir a uma sequência de
brincadeiras de criança. Segundo Renata, o documentário tem como ponto de
partida a tentativa de afirmação do olhar da criança e seu uso sobre os
brinquedos.
“Trabalhamos a ideia do brinquedo, não como suporte
de uma cultura, ou seja, o que a cultura oferece para a criança, mas
primordialmente, sobre o que a criança oferece para a cultura, e como acontece
a apropriação que as crianças fazem do brinquedo.”.
Estas palavras, retiradas de uma entrevista de
Renata Meireles, serviram de orientação para sentir de perto os objetivos do
casal de artistas pesquisadores. Conhecer o universo da criança, sua espontaneidade
em viver a liberdade de expressão de forma lúdica e prazerosa, foi o que pude
sentir ao ver o vídeo “Territórios do brincar.”
O vídeo vai nos conduzindo à nossa própria infância,
às brincadeiras de esconde-esconde, ao jogo da maré, aos carrinhos de rolimã,
onde escorregávamos pelas ladeiras de Belo Horizonte. No filme, há uma
sequência de crianças escorregando pelas dunas de uma praia, outras jogando nos
córregos barcos de papel ou construindo pequenos caminhões de madeira. Na
Avenida Afonso Pena em Belo Horizonte, havia um canal onde corriam as águas do
córrego “Acaba mundo” que desaguava no rio Arrudas. Fazíamos pequenos barcos de
papel, que jogávamos no córrego e corríamos rua abaixo, acompanhando o percurso
dos barquinhos. Os brinquedos da nossa infância eram, em sua maioria,
fabricados por nós mesmos. Lembro-me também de caleidoscópicos feitos por meu
irmão Paulo, a partir de cacos de vidros coloridos que recolhíamos nas ruas da
cidade. Brincávamos de Tarzã e Jane, habitantes das florestas, pulando de
“galho em galho” nas mangueiras do nosso quintal.
As crianças do documentário são crianças que não
possuem brinquedos comprados nos shoppings. O próprio fato de fazer o seu
brinquedo, já contribui para criar uma relação com o seu imaginário.
Brinquedos comprados não dão esta possibilidade de
pesquisar a curiosidade inerente à criança. Muitos demonstram sua curiosidade
desconstruindo e reconstruindo os brinquedos comprados.
No ano 2000 Renata Meireles, criadora do projeto
“território do brincar”, conheceu David Reeks. Juntos criaram o projeto BIRA
(Brincadeiras Infantis da Região Amazônica). Ela como educadora e pesquisadora,
ele como cineasta, percorreram 16 comunidades indígenas e ribeirinhas do Amapá,
Pará, Amazonas, Roraima e Acre. Produziram muitos filmes, premiados em vários
festivais de cinema.
Agora, com o Grupo UAKTI, fizeram uma parceria
aliando a sonoridade da flauta e da percussão aos jogos infantis, que vão
levando a alegria a espontaneidade da criança pelo Brasil afora.
*Fotos da internet
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quarta-feira, 11 de março de 2015
REFLEXÕES SOBRE A EXPOSIÇÃO “FOTOGRAFIA E NATUREZA”
No dia 14 de março de 2015, a Galeria Lemos de Sá,
em parceria com o Instituto Maria Helena Andrés, inaugura uma exposição de 4
artistas plásticos pertencentes a diferentes gerações, mas unidos por uma
temática comum: a NATUREZA, estudada através dos 5 elementos da matéria, terra,
água, fogo, ar e éter. A temática nos faz refletir sobre a nossa identidade com
a natureza. Na realidade, somos parte da natureza.
Cabe aos artistas trazer esta mensagem ao mundo,
através das diversas formas de arte.
Terra
Estamos na zona metalúrgica de Minas Gerais, onde a
natureza construiu, ao longo de milênios, um território cheio de riquezas. As
terras de Minas têm variações de cores de grande beleza. Eymard Brandão nos dá
o testemunho do elemento Terra. Há muito tempo ele vem pesquisando o entorno de
seu atelier em Nova Lima. Eymard fotografou pacientemente as pedras reluzentes,
o chão onde as marcas dos caminhões traçam um desenho de força e poder. Eymard recolhe as pedras e a terra revolvida. Seu
testemunho está ali, fotografado e ampliado em quadros. Os caminhões passam
deixando sua marca no chão.
Água
Pedro Ariza veio de Málaga, no sul da Espanha, junto
ao mar Mediterrâneo. Ali seu avô era agricultor e operador de cinema. Desde
cedo o menino teve contato com películas cinematográficas, trabalhava junto com
os tios, como aquele menino do filme “Cinema Paradiso.” Daí veio a sua vocação
para a fotografia.
Para esta exposição na Galeria Lemos de Sá, sob a
curadoria de Marília Andrés Ribeiro, Pedro nos trouxe um documentário do mar
mediterrâneo. A água, o segundo elemento da matéria ali está registrada com a
força e beleza das ondas daquele mar que banha a Europa e a África. Pedro nos
trouxe também da Espanha, um vídeo feito por uma equipe de artistas, poetas,
músicos, fotógrafos, cinegrafistas, apresentando bailarinas que, no fundo de
uma piscina, realizam uma dança subaquática. Este vídeo será mostrado pela
primeira vez no Brasil a convite da Galeria Lemos de Sá, durante a inauguração
da exposição “Fotografia e Natureza”.
Fogo
Jayme Reis , aliando o seu espírito de aventura ao
fazer artesanal, já percorreu com seus barcos, mares nunca dantes navegados e,
numa proeza de fotoshop, construiu um grande barco com 3 pequenos barcos. Sua
ligação com a fotografia veio da necessidade de ampliar seu espaço criativo
para outras regiões, registrando idéias e formas poéticas.
Nesta exposição, Jayme está mostrando o fogo, o
elemento da matéria que destrói e constrói ao mesmo tempo. O fogo, usado desde
os primórdios de nossa civilização, tem uma profunda conotação espiritual em
várias tradições. Fogo é luz, é aquecimento, é mudança. Ele, ao mesmo tempo que
consome o que é velho, faz despertar o novo com todo o seu potencial
energético. Jayme fez uma fogueira de móveis velhos de um antigo ateliê,
consumindo rascunhos, restos de trabalhos.
As fotos desta exposição nos mostram o fogo crepitando em várias
situações.
Ar
O tema do meu trabalho, para esta exposição, é o ar,
o quarto elemento da matéria. Há 40 anos moro no alto das montanhas. Aqui
construí uma casa e um atelier de artes plásticas que, no momento, abriga a
sede do IMHA (Instituto Maria Helena Andrés.
Da minha casa posso ver as montanhas que se perdem
de vista e, nas noites de tempestade escuto o vento que derruba as árvores e
sacode as vidraças. Este mesmo vento burilou esculturas num passado longínquo,
indicando a direção das pedras do leste para o oeste, do oriente para o
ocidente. Percorrer as montanhas com uma pequena câmera, registrar o “aqui e
agora” das manhãs e tardes, passou a ser também uma segunda vertente do meu
paisagismo abstrato.
Para a exposição, escolhi o local onde tive, há 40
anos atrás o primeiro impacto das montanhas.
Neste local, perto da capela, com a ajuda do meu
amigo e artista Jayme Reis, pude fazer fotos que poderiam ser ampliadas para a
exposição.
Éter
Coube à curadoria de Marília Andrés Ribeiro,
realizar a síntese deste trabalho, selecionar artistas, incentivá-los, buscar
um local adequado para cada um dentro da galeria. O papel do curador é
importante na arte contemporânea, onde ele atua como se fosse o regente de uma
orquestra. É trabalho muitas vezes anônimo, mas de grande importância para o
resultado final de uma exposição.
Pode significar o quinto elemento da matéria, o
éter, que permeia tudo e coordena os outros elementos de forma invisível.
*Fotos de Maria helena Andrés, Eymard Brandão, Jayme Reis e Pedro Ariza
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terça-feira, 3 de março de 2015
A CALIFÓRNIA E O ORIENTE
Recebi de Maurício
Andrés Ribeiro o texto sobre a Califónia e o Oriente, que transcrevo abaixo:
“Na costa da Califórnia o sol se põe no
Oceano Pacífico. Do outro lado do Oceano estão a China, o Japão, o continente
asiático e mais adiante a Índia. A Califórnia recebeu muita influência do
oriente, com os migrantes chineses, japoneses, indianos. Na Califórnia, a globalização começou
há muitos anos e a mistura de povos é sentida em todos os níveis.
Havia centros de
triagem para os migrantes que adentravam a baia de San Francisco. Criaram-se
Chinatowns e proliferam restaurantes de culinária cambojana, tailandesa, vietnamita
e de outros países asiáticos.
Nos Estados Unidos, Los
Angeles é o maior porto de intercâmbio comercial com a China e o Japão, e a
partir dele se distribuem os produtos importados.
Jovens chineses,
japoneses, indianos hoje disputam vagas e frequentam as boas universidades
americanas.
Em Los Angeles e na Califórnia, yoga e hábitos alimentares veganos e vegetarianos se disseminam. A lei do karma
hindu propõe que há débitos e créditos associados a cada ação humana, que podem
somar positivamente ou negativamente, gerando débitos a serem pagos nessa ou em
outra encarnação. Palavras sânscritas como karma são apropriadas no contexto
dos serviços de crédito em San Francisco.
Na Califórnia há abertura
para modos de vida e de consciência pioneiros. Há centro de educação de Jiddhu
Krishnamurti em Ojai, perto de Santa Barbara. O Instituto Esalen, voltado para
o conhecimento holístico, está no Big Sur.
Em Encinitas, perto de
San Diego, um Centro de Auto realização dissemina as propostas espiritualistas
de Paramahansa Yogananda. Situado na orla do Pacifico, com uma magnifica vista
do oceano e do ar, mantém um jardim aberto ao público, propício à meditação e à
contemplação.
A Sede do Centro de Auto Realização de
Yogananda em Encinitas serve de hospedagem para os mestres.”
(*) Maurício Andrés
Ribeiro é autor de Ecologizar, Tesouros da Índia. www.ecologizar.com.br/ ecologizar@gmail.com
*Fotos de Maurício
Andrés Ribeiro
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
CENTRO DE KRISNAMURTI EM TIRADENTES II
Durante uma semana participei das vivências educacionais que são o “trabalho de
campo” do Centro Krishnamurti em Tiradentes. Krishnamurti entende a educação
como um processo total de aprender com tudo na vida:
“Todo movimento da vida é aprender. Nunca há um tempo no qual não exista o
aprender. Toda ação é um movimento de aprender e todo relacionamento é
aprender.”
Gabriel participa das atividades
cotidianas durante todas as manhãs. Ele tem 11 anos e está interessado em
aprender tudo (colocar corretamente a mesa do café, cuidar dos coelhinhos,
regar o jardim e fazer vasos novos, ajudar a esticar o alambrado da cerca nova
e, naturalmente, em participar das “oficinas” de artes, violão, ritmo, desenho
e cores). Incentivei-o a fazer colagens, uma alternativa para evitar o cheiro
forte da tinta. O menino começou a criar e recortar em papel uma árvore que
eles vêm cuidando – e que é sistematicamente atacada por uma praga. Na véspera,
Rachel – a responsável pelo Centro de Estudos - havia convocado todos a irem
para o trevo no quarteirão de baixo, afim de retirar mais uma vez a parasita de
cima da árvore. Foi uma experiência importante não só para as crianças, mas
para todos nós. Há exatamente um ano atrás esta árvore estava tão tomada pela
parasita que estava a ponto de morrer sufocada. A turma reunida conseguiu
libertá-la e hoje ela está verdinha, respirando o sol da cidade. Assim, foi estendida
esta solidariedade para a população de Tiradentes, que agora pode se refrescar
com a sombra e beleza da arvorezinha. Gabriel está fazendo duas colagens: uma
com a árvore coberta de parasita e outra com a árvore livre.
O cuidado do professor em qualquer destas “oficinas vivas” de trabalho/lazer é não ensinar, não favorecer uma
aprendizagem por imitação. O importante é o despertar da criança, jovem ou
adulto para a sua vida interior. É deixar livre o contato consigo mesmo, o
conteúdo a ser aprendido é só uma ferramenta para o auto-descobrimento. O
professor permanece atento, presenciando o aluno tirar de si mesmo o
aprendizado. Ele está presente, numa atenção impessoal, afetuosa, sem julgar ou
comparar (nada que alimente a separatividade). Ele dá “orientações técnicas”
que podem ou não serem aproveitadas, olhando tudo o que acontece sem a pressão
de um resultado pré-determinado. Há uma alegria neste aprender sobre si mesmo,
sobre o outro e sobre o mundo.
Após a sessão de colagens,
a brincadeira inverteu – e aí foi a vez do Gabriel me ensinar a fazer os tsurus
de dobradura. Tive que “entrar na linha”, senão não dava certo o dobrar no
próximo passo.
Assim, as vivências e
aprendizados acontecem de forma natural e compartilhada pelos visitantes,
moradores, empregados e alunos, que se reúnem de forma prazerosa e criativa.
Participei de um grupo improvisado de vocalistas, cantando desde músicas do
folclore brasileiro, até o jazz de Louis Armstrong e a música “Imagine” de John
Lennon – cada um cantando e acompanhando com instrumentos de corda o violão do
Sr. Geraldo. Ao final do sarau, nos reunimos debaixo da jabuticabeira para
saborear um picolé de coco queimado famoso na região.
Aliando trabalho à música e
às artes plásticas – e a uma viagem de trenzinho até São João Del Rey, senti o
processo de toda esta experiência como se fosse uma orquestra de sons e cores
que promovia o lúdico para todos – uma alegria que só as crianças manifestam
quando se envolvem com seus jogos criativos, livres de comparação e competição.
Nessa atmosfera leve e afetuosa cada um podia entrar em contato com seus
movimentos interiores, seus medos, ansiedades, projeções e outras coisas
reprimidas que fazem parte da nossa história pessoal. Isto pode finalmente vir
à tona sem preconceito, sem o perigo de ser recompensado ou punido.
Nas palavras de
Krisnamurti: “Educação é aprender o que está acontecendo exatamente, sem
teorias, preconceitos e valores. Os livros são importantes, mas o que é muito
mais importante é aprender sobre o seu livro, a sua própria história, porque
você é toda a humanidade. Ler este livro é a arte de aprender.”
Fotos de Rachel Fernandes
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
CENTRO DE KRISHNAMURTI EM TIRADENTES I
Neste final de janeiro estive hospedada no Centro de Estudos de Krishnamurti –
o único do Brasil – em Tiradentes, MG. Rachel, minha sobrinha e amiga, é quem
disponibiliza o Centro, promovendo encontros de estudo e trabalho cooperativo
em uma atmosfera afetuosa, rica de auto-descobertas e cercada de natureza por
todos os lados.
Lá nos encontramos em meio
a um curso contínuo de auto-conhecimento aplicado à vida diária. É um
“currículo” improvisado com as atividades normais de uma casa com jardim,
horta, cachorros e coelhos, situada numa rua típica do interior de Minas
Gerais. De um ano pra cá as atividades dessa “casa-escola” transbordaram para o
entorno, ocupando o espaço público da rua com uma “horta demonstrativa”:
canteiros feitos de material reciclado onde estão sendo cultivadas hortaliças
não convencionais e plantas medicinais. Junto a este viveiro de mudas
catalogadas há um “Livro da Horta” onde são apresentadas as características e
propriedades da planta, assim como sugestões de uso e algumas dicas culinárias.
Mudas são oferecidas ou trocadas com a população interessada em fazer ou
ampliar sua horta caseira. Recentemente, inspirados nesta iniciativa,
professores e pais da escola local montaram uma horta comunitária, contando com
várias doações de mudas, com a participação da comunidade local.
Neste Centro de Estudos de Krishnamurti,
há vários contextos de aprendizagem viva, onde a pessoa pode testar por si
mesma os insights daquele grande filósofo e educador nascido na Índia e que por
mais de 60 anos percorreu o mundo falando sobre a urgência de uma nova cultura,
onde o ser humano possa “florescer em bondade” em uma atmosfera afetuosa e de
lazer.
Como disse Krishnamurti:
- “Estamos interessados em criar uma
existência social diferente, uma geração futura que percebe a futilidade das
guerras e do assassinato organizado; uma geração que está interessada no
relacionamento global, sem o isolamento nacionalista; uma geração que está
envolvida com a verdade.”
- “Os seres humanos criaram uma
sociedade que exige todo o seu tempo, toda a sua energia, toda a sua vida. Não
existe lazer para aprender e assim a vida se torna mecânica, quase sem sentido.
Assim, devemos ser bem claros em relação ao entendimento da palavra lazer – um
tempo, um período quando a mente não está ocupada com o que quer que seja. É um
tempo de observação. É só uma mente desocupada que pode observar. Uma
observação livre é o movimento de aprender.”
Neste centro em Tiradentes, a
criança aprende fazendo ela mesma, com suas mãos, as tarefas diárias
(jardinagem, cozinha, pequenos projetos no viveiro de mudas e de coelhos,
projetos em marcenaria e construção, etc). Ao mesmo tempo ela está conectada
com o mundo, com pessoas de outras cidades e países, com as notícias mundiais,
e aprende a usar o computador com responsabilidade - e não ser usada pela
“rede”.
Realmente, somos uma só família. Aqui estamos
participando e também criando com as crianças da Terra. É uma criação viva, em
movimento, e anônima. Neste Centro de Estudos todos – moradores, visitantes,
empregados e alunos – estão aprendendo juntos a arte de viver. Eles estão
continuamente aprendendo, através do espelhamento da interação entre eles - e
com a natureza - como eles realmente são. E nas lições práticas, cada hora é a
vez de um aprender com o outro, em rodízio. Como Krishnamurti escreveu no final
de seu livro “Cartas às Escolas”: “Aprender traz igualdade entre os seres
humanos”.
Durante o dia o Centro de Estudos
oferece este período de trabalho e interação educacional. Em outro período a
pessoa fica livre para passear, descansar, fazer estudo individual ou simplesmente
ficar recolhida.
E toda noite nos reuníamos
na sala para assistir a um DVD de Krishnamurti, um “curta” de suas palavras
para plateias do momento. Lembro-me de Krishnamurti na Índia, falando para mais
de 5.000 pessoas. Tomei um táxi para assisti-lo, rompi uma multidão e fiquei
bem na frente escutando-o. Há mais de 40 anos que o acompanho através de vídeos
e livros. Sua mensagem mobiliza nossas energias interiores, para nos
integrarmos ao canto da vida, que está sempre nos chamando.
Fotos de Rachel Fernandes
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terça-feira, 6 de janeiro de 2015
CÉLIA LABORNE, ARTISTA MÚLTIPLA
Conheci Célia Laborne desde criança, quando da
criação do Minas Tênis Clube. Célia morava em frente, era nadadora oficial do
Minas, conquistando ali várias medalhas.
Aquela coragem de se jogar nas águas da piscina, percorrer
espaços, conquistar prêmios, não era para qualquer adolescente da época. Lembro-me
de ficar sentada na arquibancada, torcendo por aquela nadadora mirim que, aos
12 anos de idade, conquistava troféus.
Mais tarde fui encontrar Célia na Escola de belas
Artes Guignard, onde ela se inscreveu na primeira turma. Célia era muito
sensível, desenhava flores e paisagens do parque e dava preferência às aguadas
transparentes. O elemento água preponderava em seus trabalhos muito elogiados
pelo mestre Guignard.
Transparência, sensibilidade, observação da
natureza, das árvores, dos céus de Minas. As aquarelas e o desenho de linha com
lápis duro, estimulados pelo mestre, caminharam juntos com outra forma de
expressão da artista, a palavra escrita e falada. Surgiram versos espontâneos,
líricos. O lirismo próprio de nossas montanhas, transbordava nos versos e nas
cores, conjugando as duas formas de arte numa só inspiração.
Célia guardava os versos, que lhe vieram muito antes
da pintura, desde os 13 anos de idade. Eram seus, o seu colóquio com os níveis
mais profundos de consciência, uma abertura para o campo imensurável da poesia.
Seus poemas surgiram da necessidade de expressão de uma jovem de Minas Gerais
que, das montanhas lançava o seu canto.
Ser artista é um caminho neste planeta, um caminho
de abertura de consciência, um diálogo com Deus.
Seus textos espiritualistas despertaram a atenção de
pessoas ligadas à mesma sensibilidade, muitas vezes residindo em lugares
distantes. Foi do Oriente que ela assimilou a profundidade dos pensamentos
filosóficos e poéticos.
Célia foi cronista de vários periódicos da cidade de
Belo Horizonte e sua coluna ficou conhecida através do jornal “Estado de
Minas”, onde ela ocupava o espaço denominado “Vida Integral”. Célia foi a
primeira e quase única jornalista que divulgou as filosofias orientais e as
técnicas de meditação, relaxamento e a importância da respiração. Seus
seguidores são múltiplos, e sua mensagem transpôs as fronteiras de Minas, para
alcançar outros espaços mais amplos. Atravessou os mares, foi bem recebida em
Portugal, na Europa e nos Estados Unidos. Em Florianópolis eles se
transformaram em vídeo, através da iniciativa de um seguidor.
A mensagem de Célia é poética e espiritual, e
penetra num espaço pouco explorado pelos poetas modernistas. Situa-se numa
linha bem própria, estudando mestres de Yoga tais como Vivekananda, o primeiro
a introduzir a Yoga no mundo ocidental. Sua mensagem é ecumênica, abrange
religiões, filosofia e as ci~encias mais modernas tais como a física quântica.
Ela partiu do estudo mais denso para os mais sutis.
Seu universo está situado em níveis mais altos de
consciência, naquele espaço onde a palavra toca a alma das pessoas para
ajuda-las a transcender o cotidiano.
O cotidiano é importante, mas existe um espaço além,
onde muitas vezes a palavra não consegue penetrar.
Os textos de Célia nos conduzem para este espaço
além do noticiário dos jornais. Célia é jornalista e poeta e continua divulgando
suas mensagens através de seu blog “Vida em Plenitude”.
Ali a palavra é o toque mágico que nos conduz ao
infinito, para uma dimensão transcendente, além da Terra.
Todos nós devemos um pouco a esta mensageira da paz
e da harmonia entre os seres vivos.
Abaixo, segue um dos poemas de Célia Laborne:
Quem será Este que apenas antevejo e já me transfigura? E amplia em mim doação e paz – como um aroma a indicar amanhecida flor?
Quem é Ele que
ainda não o vi e já o pressinto como o mais caro, amorável e luminoso?
Comandando o tempo e o espaço, Ele chega...
Quem é Este que
ainda não toquei e já vibra em mim e se comunica e se transmite?
Quem é Este que o
silêncio desvenda?
Quem se oculta
atrás de tanta força e harmonia e sabe fazer-se pequeno em minhas palavras?
Quem se vai
tornando dádiva nas minhas humílimas mãos que transbordam em oferenda?
Ah! O Teu nome que
é flor e canto e vento leve e suave cor... Teu nome mutável, maleável que se
instalou em mim como seiva e fruto!
Este nome repercute
e vibra para encher minhas horas e meus dias e dizer-me tudo sobre Teus
caminhos.
Ah! O Teu nome
violento, sem fronteiras, campo de amor e de conquista. O Teu nome que só o
silêncio conhece...
Esse nome
indecifrável que me acorda e se funde no meu próprio nome para fazer-me viva. O
Teu nome que me dissolve e recria.
Enquanto o ouço
desdobram-me como flor à espera da revelação...
Já não sou a voz, a
palavra, a ideia, o gesto, mas e tão só, o instrumento dócil da entrega.
Entretanto, assim
sendo, cresço em harmonia e tudo em mim se alarga e se faz ilimitado.
Sou o rio por onde
navega o Criador da fonte; por isso posso identificar-me à vida, à luz, ao
amor.
Agora, já não canto
meu canto, entoo o hino do que está em mim.
*Fotos da internet
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