terça-feira, 14 de abril de 2015

terça-feira, 31 de março de 2015


TERRITÓRIOS DO BRINCAR E GRUPO UAKTI

No imenso galpão com teto de bambu e decoração oriental, a música vai se tornando parte de um todo que inclui a natureza bucólica do entorno.
Neste cenário cheio de sons da natureza, outros sons são criados dentro de um pequeno estúdio. Assisti à criação de uma trilha sonora dedicada a um documentário intitulado “O território do brincar”.
O músico Alexandre Andrés, regula os altos e baixos da flauta soprada por seu pai Artur, na sala ao lado, separada por uma parede de vidro.
Durante uma hora ali fiquei assistindo à criação de sons destinados a integrar as imagens do filme.
Aquela trilha sonora nos levava a uma experiência única, da união entre as imagens e os sons.
No dia seguinte, conheci a educadora Renata Meireles e o seu marido, o cineasta David Reeks que vieram de São Paulo para terminar o vídeo. Foi armada uma tela grande onde pudemos assistir a uma sequência de brincadeiras de criança. Segundo Renata, o documentário tem como ponto de partida a tentativa de afirmação do olhar da criança e seu uso sobre os brinquedos.
“Trabalhamos a ideia do brinquedo, não como suporte de uma cultura, ou seja, o que a cultura oferece para a criança, mas primordialmente, sobre o que a criança oferece para a cultura, e como acontece a apropriação que as crianças fazem do brinquedo.”.
Estas palavras, retiradas de uma entrevista de Renata Meireles, serviram de orientação para sentir de perto os objetivos do casal de artistas pesquisadores. Conhecer o universo da criança, sua espontaneidade em viver a liberdade de expressão de forma lúdica e prazerosa, foi o que pude sentir ao ver o vídeo “Territórios do brincar.”
O vídeo vai nos conduzindo à nossa própria infância, às brincadeiras de esconde-esconde, ao jogo da maré, aos carrinhos de rolimã, onde escorregávamos pelas ladeiras de Belo Horizonte. No filme, há uma sequência de crianças escorregando pelas dunas de uma praia, outras jogando nos córregos barcos de papel ou construindo pequenos caminhões de madeira. Na Avenida Afonso Pena em Belo Horizonte, havia um canal onde corriam as águas do córrego “Acaba mundo” que desaguava no rio Arrudas. Fazíamos pequenos barcos de papel, que jogávamos no córrego e corríamos rua abaixo, acompanhando o percurso dos barquinhos. Os brinquedos da nossa infância eram, em sua maioria, fabricados por nós mesmos. Lembro-me também de caleidoscópicos feitos por meu irmão Paulo, a partir de cacos de vidros coloridos que recolhíamos nas ruas da cidade. Brincávamos de Tarzã e Jane, habitantes das florestas, pulando de “galho em galho” nas mangueiras do nosso quintal.
As crianças do documentário são crianças que não possuem brinquedos comprados nos shoppings. O próprio fato de fazer o seu brinquedo, já contribui para criar uma relação com o seu imaginário.
Brinquedos comprados não dão esta possibilidade de pesquisar a curiosidade inerente à criança. Muitos demonstram sua curiosidade desconstruindo e reconstruindo os brinquedos comprados.
No ano 2000 Renata Meireles, criadora do projeto “território do brincar”, conheceu David Reeks. Juntos criaram o projeto BIRA (Brincadeiras Infantis da Região Amazônica). Ela como educadora e pesquisadora, ele como cineasta, percorreram 16 comunidades indígenas e ribeirinhas do Amapá, Pará, Amazonas, Roraima e Acre. Produziram muitos filmes, premiados em vários festivais de cinema.
Agora, com o Grupo UAKTI, fizeram uma parceria aliando a sonoridade da flauta e da percussão aos jogos infantis, que vão levando a alegria a espontaneidade da criança pelo Brasil afora.

*Fotos da internet

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quarta-feira, 11 de março de 2015


REFLEXÕES SOBRE A EXPOSIÇÃO “FOTOGRAFIA E NATUREZA”

No dia 14 de março de 2015, a Galeria Lemos de Sá, em parceria com o Instituto Maria Helena Andrés, inaugura uma exposição de 4 artistas plásticos pertencentes a diferentes gerações, mas unidos por uma temática comum: a NATUREZA, estudada através dos 5 elementos da matéria, terra, água, fogo, ar e éter. A temática nos faz refletir sobre a nossa identidade com a natureza. Na realidade, somos parte da natureza.
Cabe aos artistas trazer esta mensagem ao mundo, através das diversas formas de arte.
Terra
Estamos na zona metalúrgica de Minas Gerais, onde a natureza construiu, ao longo de milênios, um território cheio de riquezas. As terras de Minas têm variações de cores de grande beleza. Eymard Brandão nos dá o testemunho do elemento Terra. Há muito tempo ele vem pesquisando o entorno de seu atelier em Nova Lima. Eymard fotografou pacientemente as pedras reluzentes, o chão onde as marcas dos caminhões traçam um desenho de força e poder. Eymard  recolhe as pedras e a terra revolvida. Seu testemunho está ali, fotografado e ampliado em quadros. Os caminhões passam deixando sua marca no chão.
Água
Pedro Ariza veio de Málaga, no sul da Espanha, junto ao mar Mediterrâneo. Ali seu avô era agricultor e operador de cinema. Desde cedo o menino teve contato com películas cinematográficas, trabalhava junto com os tios, como aquele menino do filme “Cinema Paradiso.” Daí veio a sua vocação para a fotografia.
Para esta exposição na Galeria Lemos de Sá, sob a curadoria de Marília Andrés Ribeiro, Pedro nos trouxe um documentário do mar mediterrâneo. A água, o segundo elemento da matéria ali está registrada com a força e beleza das ondas daquele mar que banha a Europa e a África. Pedro nos trouxe também da Espanha, um vídeo feito por uma equipe de artistas, poetas, músicos, fotógrafos, cinegrafistas, apresentando bailarinas que, no fundo de uma piscina, realizam uma dança subaquática. Este vídeo será mostrado pela primeira vez no Brasil a convite da Galeria Lemos de Sá, durante a inauguração da exposição “Fotografia e Natureza”.
Fogo
Jayme Reis , aliando o seu espírito de aventura ao fazer artesanal, já percorreu com seus barcos, mares nunca dantes navegados e, numa proeza de fotoshop, construiu um grande barco com 3 pequenos barcos. Sua ligação com a fotografia veio da necessidade de ampliar seu espaço criativo para outras regiões, registrando idéias e formas poéticas.
Nesta exposição, Jayme está mostrando o fogo, o elemento da matéria que destrói e constrói ao mesmo tempo. O fogo, usado desde os primórdios de nossa civilização, tem uma profunda conotação espiritual em várias tradições. Fogo é luz, é aquecimento, é mudança. Ele, ao mesmo tempo que consome o que é velho, faz despertar o novo com todo o seu potencial energético. Jayme fez uma fogueira de móveis velhos de um antigo ateliê, consumindo rascunhos, restos de trabalhos.  As fotos desta exposição nos mostram o fogo crepitando em várias situações.
Ar
O tema do meu trabalho, para esta exposição, é o ar, o quarto elemento da matéria. Há 40 anos moro no alto das montanhas. Aqui construí uma casa e um atelier de artes plásticas que, no momento, abriga a sede do IMHA (Instituto Maria Helena Andrés.
Da minha casa posso ver as montanhas que se perdem de vista e, nas noites de tempestade escuto o vento que derruba as árvores e sacode as vidraças. Este mesmo vento burilou esculturas num passado longínquo, indicando a direção das pedras do leste para o oeste, do oriente para o ocidente. Percorrer as montanhas com uma pequena câmera, registrar o “aqui e agora” das manhãs e tardes, passou a ser também uma segunda vertente do meu paisagismo abstrato.
Para a exposição, escolhi o local onde tive, há 40 anos atrás o primeiro impacto das montanhas.
Neste local, perto da capela, com a ajuda do meu amigo e artista Jayme Reis, pude fazer fotos que poderiam ser ampliadas para a exposição.
Éter
Coube à curadoria de Marília Andrés Ribeiro, realizar a síntese deste trabalho, selecionar artistas, incentivá-los, buscar um local adequado para cada um dentro da galeria. O papel do curador é importante na arte contemporânea, onde ele atua como se fosse o regente de uma orquestra. É trabalho muitas vezes anônimo, mas de grande importância para o resultado final de uma exposição.

Pode significar o quinto elemento da matéria, o éter, que permeia tudo e coordena os outros elementos de forma invisível.

*Fotos de Maria helena Andrés, Eymard Brandão, Jayme Reis e Pedro Ariza

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terça-feira, 3 de março de 2015


A CALIFÓRNIA E O ORIENTE

 Recebi de Maurício Andrés Ribeiro o texto sobre a Califónia e o Oriente, que transcrevo abaixo:

“Na costa da Califórnia o sol se põe no Oceano Pacífico. Do outro lado do Oceano estão a China, o Japão, o continente asiático e mais adiante a Índia. A Califórnia recebeu muita influência do oriente, com os migrantes chineses, japoneses, indianos. Na Califórnia, a globalização começou há muitos anos e a mistura de povos é sentida em todos os níveis.

Havia centros de triagem para os migrantes que adentravam a baia de San Francisco. Criaram-se Chinatowns e proliferam restaurantes de culinária cambojana, tailandesa, vietnamita e de outros países asiáticos.

Nos Estados Unidos, Los Angeles é o maior porto de intercâmbio comercial com a China e o Japão, e a partir dele se distribuem os produtos importados.
Jovens chineses, japoneses, indianos hoje disputam vagas e frequentam as boas universidades americanas.

Em Los Angeles e na Califórnia, yoga e hábitos alimentares veganos e vegetarianos se disseminam. A lei do karma hindu propõe que há débitos e créditos associados a cada ação humana, que podem somar positivamente ou negativamente, gerando débitos a serem pagos nessa ou em outra encarnação. Palavras sânscritas como karma são apropriadas no contexto dos serviços de crédito em San Francisco.

Na Califórnia há abertura para modos de vida e de consciência pioneiros. Há centro de educação de Jiddhu Krishnamurti em Ojai, perto de Santa Barbara. O Instituto Esalen, voltado para o conhecimento holístico, está no Big Sur.

Em Encinitas, perto de San Diego, um Centro de Auto realização dissemina as propostas espiritualistas de Paramahansa Yogananda. Situado na orla do Pacifico, com uma magnifica vista do oceano e do ar, mantém um jardim aberto ao público, propício à meditação e à contemplação.

 A Sede do Centro de Auto Realização de Yogananda em Encinitas serve de hospedagem para os mestres.”

(*) Maurício Andrés Ribeiro é autor de Ecologizar, Tesouros da Índia. www.ecologizar.com.br/ ecologizar@gmail.com

*Fotos de Maurício Andrés Ribeiro

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015


CENTRO DE KRISNAMURTI EM TIRADENTES II

 Durante uma semana participei das vivências educacionais que são o “trabalho de campo” do Centro Krishnamurti em Tiradentes. Krishnamurti entende a educação como um processo total de aprender com tudo na vida:
            “Todo movimento da vida é aprender. Nunca há um tempo no qual não exista o aprender. Toda ação é um movimento de aprender e todo relacionamento é aprender.”
  Gabriel participa das atividades cotidianas durante todas as manhãs. Ele tem 11 anos e está interessado em aprender tudo (colocar corretamente a mesa do café, cuidar dos coelhinhos, regar o jardim e fazer vasos novos, ajudar a esticar o alambrado da cerca nova e, naturalmente, em participar das “oficinas” de artes, violão, ritmo, desenho e cores). Incentivei-o a fazer colagens, uma alternativa para evitar o cheiro forte da tinta. O menino começou a criar e recortar em papel uma árvore que eles vêm cuidando – e que é sistematicamente atacada por uma praga. Na véspera, Rachel – a responsável pelo Centro de Estudos - havia convocado todos a irem para o trevo no quarteirão de baixo, afim de retirar mais uma vez a parasita de cima da árvore. Foi uma experiência importante não só para as crianças, mas para todos nós. Há exatamente um ano atrás esta árvore estava tão tomada pela parasita que estava a ponto de morrer sufocada. A turma reunida conseguiu libertá-la e hoje ela está verdinha, respirando o sol da cidade. Assim, foi estendida esta solidariedade para a população de Tiradentes, que agora pode se refrescar com a sombra e beleza da arvorezinha. Gabriel está fazendo duas colagens: uma com a árvore coberta de parasita e outra com a árvore livre.
            O cuidado do professor em qualquer destas “oficinas vivas” de trabalho/lazer é não ensinar, não favorecer uma aprendizagem por imitação. O importante é o despertar da criança, jovem ou adulto para a sua vida interior. É deixar livre o contato consigo mesmo, o conteúdo a ser aprendido é só uma ferramenta para o auto-descobrimento.  O professor permanece atento, presenciando o aluno tirar de si mesmo o aprendizado. Ele está presente, numa atenção impessoal, afetuosa, sem julgar ou comparar (nada que alimente a separatividade). Ele dá “orientações técnicas” que podem ou não serem aproveitadas, olhando tudo o que acontece sem a pressão de um resultado pré-determinado. Há uma alegria neste aprender sobre si mesmo, sobre o outro e sobre o mundo.
Após a sessão de colagens, a brincadeira inverteu – e aí foi a vez do Gabriel me ensinar a fazer os tsurus de dobradura. Tive que “entrar na linha”, senão não dava certo o dobrar no próximo passo.
Assim, as vivências e aprendizados acontecem de forma natural e compartilhada pelos visitantes, moradores, empregados e alunos, que se reúnem de forma prazerosa e criativa. Participei de um grupo improvisado de vocalistas, cantando desde músicas do folclore brasileiro, até o jazz de Louis Armstrong e a música “Imagine” de John Lennon – cada um cantando e acompanhando com instrumentos de corda o violão do Sr. Geraldo. Ao final do sarau, nos reunimos debaixo da jabuticabeira para saborear um picolé de coco queimado famoso na região.
Aliando trabalho à música e às artes plásticas – e a uma viagem de trenzinho até São João Del Rey, senti o processo de toda esta experiência como se fosse uma orquestra de sons e cores que promovia o lúdico para todos – uma alegria que só as crianças manifestam quando se envolvem com seus jogos criativos, livres de comparação e competição. Nessa atmosfera leve e afetuosa cada um podia entrar em contato com seus movimentos interiores, seus medos, ansiedades, projeções e outras coisas reprimidas que fazem parte da nossa história pessoal. Isto pode finalmente vir à tona sem preconceito, sem o perigo de ser recompensado ou punido.
Nas palavras de Krisnamurti: “Educação é aprender o que está acontecendo exatamente, sem teorias, preconceitos e valores. Os livros são importantes, mas o que é muito mais importante é aprender sobre o seu livro, a sua própria história, porque você é toda a humanidade. Ler este livro é a arte de aprender.”
Fotos de Rachel Fernandes
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015


CENTRO DE KRISHNAMURTI EM TIRADENTES I

  Neste final de janeiro estive hospedada no Centro de Estudos de Krishnamurti – o único do Brasil – em Tiradentes, MG. Rachel, minha sobrinha e amiga, é quem disponibiliza o Centro, promovendo encontros de estudo e trabalho cooperativo em uma atmosfera afetuosa, rica de auto-descobertas e cercada de natureza por todos os lados.
Lá nos encontramos em meio a um curso contínuo de auto-conhecimento aplicado à vida diária. É um “currículo” improvisado com as atividades normais de uma casa com jardim, horta, cachorros e coelhos, situada numa rua típica do interior de Minas Gerais. De um ano pra cá as atividades dessa “casa-escola” transbordaram para o entorno, ocupando o espaço público da rua com uma “horta demonstrativa”: canteiros feitos de material reciclado onde estão sendo cultivadas hortaliças não convencionais e plantas medicinais. Junto a este viveiro de mudas catalogadas há um “Livro da Horta” onde são apresentadas as características e propriedades da planta, assim como sugestões de uso e algumas dicas culinárias. Mudas são oferecidas ou trocadas com a população interessada em fazer ou ampliar sua horta caseira. Recentemente, inspirados nesta iniciativa,  professores e pais da escola local montaram uma horta comunitária, contando com várias doações de mudas, com a participação da comunidade local.
 Neste Centro de Estudos de Krishnamurti, há vários contextos de aprendizagem viva, onde a pessoa pode testar por si mesma os insights daquele grande filósofo e educador nascido na Índia e que por mais de 60 anos percorreu o mundo falando sobre a urgência de uma nova cultura, onde o ser humano possa “florescer em bondade” em uma atmosfera afetuosa e de lazer.
  Como disse Krishnamurti:
- “Estamos interessados em criar uma existência social diferente, uma geração futura que percebe a futilidade das guerras e do assassinato organizado; uma geração que está interessada no relacionamento global, sem o isolamento nacionalista; uma geração que está envolvida com a verdade.”
 - “Os seres humanos criaram uma sociedade que exige todo o seu tempo, toda a sua energia, toda a sua vida. Não existe lazer para aprender e assim a vida se torna mecânica, quase sem sentido. Assim, devemos ser bem claros em relação ao entendimento da palavra lazer – um tempo, um período quando a mente não está ocupada com o que quer que seja. É um tempo de observação. É só uma mente desocupada que pode observar. Uma observação livre é o movimento de aprender.”
  Neste centro em Tiradentes, a criança aprende fazendo ela mesma, com suas mãos, as tarefas diárias (jardinagem, cozinha, pequenos projetos no viveiro de mudas e de coelhos, projetos em marcenaria e construção, etc). Ao mesmo tempo ela está conectada com o mundo, com pessoas de outras cidades e países, com as notícias mundiais, e aprende a usar o computador com responsabilidade - e não ser usada pela “rede”.
 Realmente, somos uma só família. Aqui estamos participando e também criando com as crianças da Terra. É uma criação viva, em movimento, e anônima. Neste Centro de Estudos todos – moradores, visitantes, empregados e alunos – estão aprendendo juntos a arte de viver. Eles estão continuamente aprendendo, através do espelhamento da interação entre eles - e com a natureza - como eles realmente são. E nas lições práticas, cada hora é a vez de um aprender com o outro, em rodízio. Como Krishnamurti escreveu no final de seu livro “Cartas às Escolas”: “Aprender traz igualdade entre os seres humanos”.
  Durante o dia o Centro de Estudos oferece este período de trabalho e interação educacional. Em outro período a pessoa fica livre para passear, descansar, fazer estudo individual ou simplesmente ficar recolhida.
E toda noite nos reuníamos na sala para assistir a um DVD de Krishnamurti, um “curta” de suas palavras para plateias do momento. Lembro-me de Krishnamurti na Índia, falando para mais de 5.000 pessoas. Tomei um táxi para assisti-lo, rompi uma multidão e fiquei bem na frente escutando-o. Há mais de 40 anos que o acompanho através de vídeos e livros. Sua mensagem mobiliza nossas energias interiores, para nos integrarmos ao canto da vida, que está sempre nos chamando. 
Fotos de Rachel Fernandes
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terça-feira, 6 de janeiro de 2015


CÉLIA LABORNE, ARTISTA MÚLTIPLA

Conheci Célia Laborne desde criança, quando da criação do Minas Tênis Clube. Célia morava em frente, era nadadora oficial do Minas, conquistando ali várias medalhas.
Aquela coragem de se jogar nas águas da piscina, percorrer espaços, conquistar prêmios, não era para qualquer adolescente da época. Lembro-me de ficar sentada na arquibancada, torcendo por aquela nadadora mirim que, aos 12 anos de idade, conquistava troféus.
Mais tarde fui encontrar Célia na Escola de belas Artes Guignard, onde ela se inscreveu na primeira turma. Célia era muito sensível, desenhava flores e paisagens do parque e dava preferência às aguadas transparentes. O elemento água preponderava em seus trabalhos muito elogiados pelo mestre Guignard.
Transparência, sensibilidade, observação da natureza, das árvores, dos céus de Minas. As aquarelas e o desenho de linha com lápis duro, estimulados pelo mestre, caminharam juntos com outra forma de expressão da artista, a palavra escrita e falada. Surgiram versos espontâneos, líricos. O lirismo próprio de nossas montanhas, transbordava nos versos e nas cores, conjugando as duas formas de arte numa só inspiração.
Célia guardava os versos, que lhe vieram muito antes da pintura, desde os 13 anos de idade. Eram seus, o seu colóquio com os níveis mais profundos de consciência, uma abertura para o campo imensurável da poesia. Seus poemas surgiram da necessidade de expressão de uma jovem de Minas Gerais que, das montanhas lançava o seu canto.
Ser artista é um caminho neste planeta, um caminho de abertura de consciência, um diálogo com Deus.
Seus textos espiritualistas despertaram a atenção de pessoas ligadas à mesma sensibilidade, muitas vezes residindo em lugares distantes. Foi do Oriente que ela assimilou a profundidade dos pensamentos filosóficos e poéticos.
Célia foi cronista de vários periódicos da cidade de Belo Horizonte e sua coluna ficou conhecida através do jornal “Estado de Minas”, onde ela ocupava o espaço denominado “Vida Integral”. Célia foi a primeira e quase única jornalista que divulgou as filosofias orientais e as técnicas de meditação, relaxamento e a importância da respiração. Seus seguidores são múltiplos, e sua mensagem transpôs as fronteiras de Minas, para alcançar outros espaços mais amplos. Atravessou os mares, foi bem recebida em Portugal, na Europa e nos Estados Unidos. Em Florianópolis eles se transformaram em vídeo, através da iniciativa de um seguidor.
A mensagem de Célia é poética e espiritual, e penetra num espaço pouco explorado pelos poetas modernistas. Situa-se numa linha bem própria, estudando mestres de Yoga tais como Vivekananda, o primeiro a introduzir a Yoga no mundo ocidental. Sua mensagem é ecumênica, abrange religiões, filosofia e as ci~encias mais modernas tais como a física quântica. Ela partiu do estudo mais denso para os mais sutis.
Seu universo está situado em níveis mais altos de consciência, naquele espaço onde a palavra toca a alma das pessoas para ajuda-las a transcender o cotidiano.
O cotidiano é importante, mas existe um espaço além, onde muitas vezes a palavra não consegue penetrar.
Os textos de Célia nos conduzem para este espaço além do noticiário dos jornais. Célia é jornalista e poeta e continua divulgando suas mensagens através de seu blog “Vida em Plenitude”.
Ali a palavra é o toque mágico que nos conduz ao infinito, para uma dimensão transcendente, além da Terra.
Todos nós devemos um pouco a esta mensageira da paz e da harmonia entre os seres vivos.
Abaixo, segue um dos poemas de Célia Laborne:

Quem será Este que apenas antevejo e já me transfigura? E amplia em mim doação e paz – como um aroma a indicar amanhecida flor?

Quem é Ele que ainda não o vi e já o pressinto como o mais caro, amorável e luminoso? Comandando o tempo e o espaço, Ele chega...

Quem é Este que ainda não toquei e já vibra em mim e se comunica e se transmite?

Quem é Este que o silêncio desvenda?

Quem se oculta atrás de tanta força e harmonia e sabe fazer-se pequeno em minhas palavras?

Quem se vai tornando dádiva nas minhas humílimas mãos que transbordam em oferenda?

Ah! O Teu nome que é flor e canto e vento leve e suave cor... Teu nome mutável, maleável que se instalou em mim como seiva e fruto!

Este nome repercute e vibra para encher minhas horas e meus dias e dizer-me tudo sobre Teus caminhos.

Ah! O Teu nome violento, sem fronteiras, campo de amor e de conquista. O Teu nome que só o silêncio conhece...

Esse nome indecifrável que me acorda e se funde no meu próprio nome para fazer-me viva. O Teu nome que me dissolve e recria.

Enquanto o ouço desdobram-me como flor à espera da revelação...

Já não sou a voz, a palavra, a ideia, o gesto, mas e tão só, o instrumento dócil da entrega.

Entretanto, assim sendo, cresço em harmonia e tudo em mim se alarga e se faz ilimitado.

Sou o rio por onde navega o Criador da fonte; por isso posso identificar-me à vida, à luz, ao amor.

Agora, já não canto meu canto, entoo o hino do que está em mim.

*Fotos da internet


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