Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
terça-feira, 2 de outubro de 2018
FASE ESPACIAL I
Em
1969, por ocasião de uma exposição realizada em Belo Horizonte, solicitei ao
poeta e diretor da Imprensa Oficial, Paulo Campos Guimarães, um texto para o
catálogo, que transcrevo abaixo.
“O melhor retrato do artista é a sua obra, porque nela
se surpreende uma fisionomia moral. Por isso é que qualquer obra de arte, além
de ser o testemunho da capacidade puramente intelectual do artista, é,
sobretudo, a projeção de sua personalidade. Daí o acerto de Tolstoi, quando
define a arte como a emoção relembrada. Nela corre o rio da comunicação
estética de uma vivência.
Maria Helena Andrés, na sua pintura de
fuga à realidade bruta do mundo, procurando a estrela polar da paz, aparece de
corpo moral inteiro, mostrando sua extraordinária vocação artística, com a
graça divina do chamamento para esse recanto do mundo.
Sua pintura é ela própria, nas suas
concepções, na sensibilidade, no apurado sentimento de humanidade, na eterna
fuga das coisas sem alma e dos fantasmas de toda espécie que povoam o profundo
deserto da vida.
A afirmação de sua forte personalidade
e a impressionante unidade de sua obra artística emergem das cores vivas, mas
transparentes, dos traços negros e incisivos, mas metálicos, de seus quadros. É
que a realidade, circunscrita ao mundo material, não lhe basta. Ela, nas cores
transparentes, quer ver além dos objetos e dos corpos. Nos traços metálicos,
pretende iluminar essas realidades, com o brilho do espírito e da
sensibilidade.
Ainda, como Tolstoi, sua luta no campo
da pintura é um romance de poesia no clima da guerra e da paz. Os capítulos
épicos de seu ideário artístico são as próprias fases do seu trabalho criador.
Começou pela figurativa, em que se aproxima de Guignard, distanciando-se da
agressividade das coisas, através de retratos e paisagens do Parque. A angústia
da artista dentro do mundo criou-lhe a revolta, na fase de deformação da figura
humana. A guerra contra o lado mau do homem levou-a ao inevitável do
abstracionismo, mas em atmosfera da busca desesperada de paz, na fase
geométrica, pela pintura de cidades iluminadas, vistas de longe, e, na fase dos
barcos, pelos quadros de viagem para o mar. O oceano, no entanto, não lhe deu a
necessária tranqüilidade, que a artista só encontra na realização do seu
sentimento do mundo. Nasceu, então, a rebelião do anjo da arte, traduzida nos
quadros de guerra, definindo sua repulsa à destruição, porque, para ela, a
civilização é a vitória da humanidade sobre a animalidade. A pintura de guerra
feriu de tal forma a sua delicada sensibilidade que procurou refugiar-se na
história, criando o misticismo das madonas barrocas, que parecem santas, com a
conquista, pelo menos, da paz no passado. Esgotados os recursos da artista, na
aventurosa pintura de guerra e paz, partiu para o quixotismo espacial. Não
encontrando repouso na terra, habita hoje o mundo interplanetário, levando, em
busca de paz, para longe da guerra permanente, os homens e as mulheres, na
“Viagem Interplanetária”, o teatro, no “Espaço Azul”, o cinema, na “Projeção
Espacial”, o navio, na “Barca Espacial”, e o avião, na “Nave Espacial”.
Sua ansiedade diante do mundo adverso
fez com que ela retratasse até a travessia da barreira do som. A luta que
empreende na arte confunde-se, portanto, com a própria luta pela poesia do
caráter. A artista Maria Helena Andrés tem, assim, o seu destino de luta na
expressão da emoção e da comunicação da beleza muito parecido com o movimento
angustioso da flor que nasce entre pedras.”
*Fotos
de arquivo
VISITE
TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MEMÓRIAS E VIAGENS”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.
terça-feira, 25 de setembro de 2018
CRÍTICAS DA DÉCADA DE 60 IV
Nesta postagem, dou
continuidade às críticas sobre a minha obra, da década de 60.
MADONAS
“Esta
exposição de Maria Helena Andrés deve ser encarada como uma face de sua arte e,
não, como uma fase. Os trabalhos apresentados deixam transparecer a mesma
identidade de impulso criador que originou a temática dos barcos veleiros, da
guerra e das máquinas. Tratamento e tema variam, mas a dinâmica do traço ( e,
por extensão, a dos tons e das cores) alimenta-se da mesma seiva de
inconformismo às fórmulas mágicas, de incessante pesquisa no terreno da
abstração ordenadora.
Seria fácil dizer-se que Maria Helena
Andrés encontra-se na fase das madonas. Há, mesmo, uma tentação nesse sentido,
que seria o de ruptura. Acontece, porém, que os trabalhos imediatamente
anteriores da artista - veleiros, guerra, máquinas - ligam-se aos atuais pelo
mesmo processo de ordenação e simplificação do campo do visível e do
intuitível. Variam, sim, o tratamento, os materiais e os temas. Prossegue,
entretanto, o sentido da linha na procura de uma expressão cada vez mais
enriquecida.
Nesta face, ganha relevo o fato de que
existe em cada quadro um núcleo figurativo audaz. Em torno dele, as linhas se
desenvolvem no sentido de compor uma atmosfera própria, um clima barroco. E não
apenas as linhas, mas também os tons, as cores (e a luz) funcionam nessa
direção, formando tudo uma unidade cerrada causadora de uma só e forte
impressão formal.
Cada quadro desta exposição, por força
até das raízes comuns àquilo que seria a fase mais longa, cumpre com maestria
uma função orgânica no sentido estético. Elementos claramente distintos uns dos
outros, todos necessários, se conjugam para uma conclusão de referências e de
nexos de grande valor plástico.
É de se ressaltar ainda nesta face de
Maria Helena Andrés um de seus detalhes técnicos transbordante de espírito
barroco. É o da repetição dos elementos gráficos, também chamado recorrência. O
alinhamento repetitivo, a partir centro nucleado, conduz a um resultado muito
eficaz, dando significado ao que, de outro modo, não a teria. Os artistas
mineiros do século XVII sentiram, ou intuíram, as possibilidades da conjugação
dos elementos soltos, isolados para o resultado de uma impressão global. Maria
Helena Andrés retoma a experiência em plano atualizado, recriando-a em sua
essencialidade. Funde, assim, sentido de tempo a algo que permaneceria restrito
a sentido de espaço. E alcança a unidade não procurada na variedade que soube
alcançar pelo talento e pelo exercício.”
José
Guimarães Alves
Catálogo da exposição realizada na
Galeria Grupiara, Belo Horizonte, agosto de 1966
Moacyr
Laterza
Trecho da entrevista dada a Carlos Herculano Lopes. Estado de Minas, Belo Horizonte, 21 de
setembro de 1997.
*Fotos
de arquivo
VISITE
TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MEMÓRIAS E VIAGENS”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA
segunda-feira, 17 de setembro de 2018
CRÍTICAS DA DÉCADA DE 60 III
FASE DE GUERRA
“Na
sutileza das transparências, no exagero da sensibilidade, na leveza dos tons,
as emoções relembradas por Maria Helena, seja nos óleos ou nas aguadas, são
apenas do lado bom da vida. Mesmo quando sua temática se voltou para os
aspectos da guerra, motivada por uma época trágica, a artista sempre deixou
evidente em seus quadros, ao lado das formas destruídas aparentemente, a
impressão de beleza e o desejo de paz na comunicação da arte.”
Mari’Stella Tristão, Estado de Minas -
1970
Jayme Maurício. Correio da Manhã, 1965.
Márcio Sampaio
“Maria Helena
Andrés : Arte vivida dia a dia”, Revista Minas Gerais - Ano 1, nº 1, Belo Horizonte, março/abril de
1969
*Fotos de arquivo
VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MEMÓRIAS E VIAGENS”,
CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.
segunda-feira, 10 de setembro de 2018
O PODER DA MÚSICA
Por ocasião do Encontro entre Culturas Brasil-
Índia, na inauguração da Casa do Butão, foi lido o texto abaixo de minha
autoria, que focaliza a música, os sons da natureza e a busca da harmonia do
ser humano por meio da harmonia dos sons.
Se observarmos com atenção, verificaremos que a
música se manifesta em tudo aquilo que tem vida: no sopro do vento, no som do
mar, no estrondo do trovão, no canto dos pássaros, no zumbido dos insetos. Toda
a natureza é música constante. Fazemos parte também dessa grande orquestra
universal. Nos momentos de silêncio, quando escutamos as pulsações do nosso
corpo, começamos a observar que elas fazem coro com as pulsações da natureza.
Nossa respiração é ritmo e harmoniza-se com as batidas do coração, pulso e
cabeça. Diante de nós a natureza está pulsando em som ritmado. Todo o espaço
está cheio de sons.
Podemos ver nas diversas religiões, a busca da
harmonia do ser humano por meio da harmonia dos sons. Na Bíblia, David
conseguiu amenizar com uma harpa a cólera do rei Saul. Ao som de uma lira,
Pitágoras transmutava as vibrações dos seus discípulos. Na mitologia grega, os
primeiros grandes músicos foram os deuses. Apolo, deus da Beleza e da Arte, é
conhecido como o músico que, ao tocar a lira, encantava os deuses do Olimpo. Pã
inventou a flauta de cana e ao som de sua música se irmanava com os pássaros e
com toda a natureza.
Entre os mortais descendentes dos deuses gregos
destacava-se Orfeu, que, sob a magia de sua música, fazia mover os rochedos, os
montes e o curso dos rios.
Na Índia, a mitologia não significa apenas uma
lembrança do passado, mas está viva no cotidiano das pessoas. A figura de Krishna, deus do Amor, tocando
sua flauta, atrai as Gopis (jovens
camponesas). A atração delas por Krishna simboliza a aspiração humana de união
com o Criador.
A tradição hinduísta dá ao mantra, ou som místico,
um significado profundo dentro de sua religião. Trata-se de um recurso para o yogue atingir o som inaudível e não
manifesto. Por meio do som ele busca alcançar a Realidade Última. De acordo com
o Yoga, cada objeto tem um som natural, que pode ser captado, modificado e
sintonizado com a música universal. Para os Sufis,
“aquele que conhece o mistério do som sabe o mistério de todo universo”.
Nós não conseguimos ouvir o som abstrato que nos circunda e envolve, porque
estamos com a consciência centralizada em nós mesmos, em nossos problemas e na
vida material. Mas, segundo eles, aquele que tiver a capacidade de
sintonizar-se com esse som conhecerá o presente, o passado e o futuro.
Também os cristãos referem-se de modo semelhante a
essa música interior. Sertillanges, um dos maiores pensadores católicos,
refere-se à interpenetração entre essa música interna e todo o universo,
mostrando-nos como a harmonia das esferas, da qual falavam os antigos,
corresponde a uma vibração de almas que cada um de nós escutaria se descesse
profundamente dentro de si mesmo. Dela participam bons e maus, grandes e
pequenos, poderosos e humildes. Ninguém estaria excluído desse conjunto, que
visa a unidade na multiplicidade.
*Fotos de Maurício Andrés
VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MEMÓRIAS E VIAGENS”,
CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.
terça-feira, 4 de setembro de 2018
TEXTOS CRÍTICOS DA DÉCADA DE 60 II
Dando continuidade aos textos críticos da década de 60, transcrevo,dentre outros autores, textos em inglês, escritos por ocasião de exposição nos EUA.
“Miss Andres’ pastels in the
ground floor lounge are beautifully executed abstractions, dynamic arrangements
of many diaphonous strokes (as if done with the side of the chalk) reinforced
with heavier areas of similar shapes of considerable variety, most of the
paintings in black, white and grays, deep blue and a few other colors. In
strong contrast with their light backgrounds, these compositions in some
instances suggest sailing vessels in full rig”
“Os pastéis de
Maria Helena Andrés são abstrações magnificamente executados, arranjos
dinâmicos de traços diáfanos, com áreas mais fortes, em considerável variedade
de valores, a maioria dos trabalhos em preto, branco, cinza e azul profundo.
Fazendo contraste com o fundo claro, suas composições sugerem navios a vela em
grande velocidade.”
Florence S. Berryman
The Sunday Star, Washington D.C.,
U.S.A., April 2, 1961
“There is a quasi-explosive quality to Andrés works
dominated by swirling, fleeting rhythmic units that pervade all he
abstractions. The nonrepresentational movements result in a symphony which,
less structural than Tintoretto or Rubens, results in a creative charm in the
variety and activity of her color and linear effects. The manner of application
of color, by which a minimum of pigment yields a maximum of color effect, is a
triumph as an economy of means.
In her sense for compositional relation of masses, both in
two and three dimensional treatment, Andrés ranks high as an artist. Her light
is well used to diversify her designs with modelling and space relations
subdued and at times eliminated entirely emphasize the decorative aspects of
her drawings. Line and color are used with such a degree of sensitivity that
she renders and emotional impact upon the observer.”
P. Matticole
Written during the exibition
of the artist on Pan American Union, Washington D.C., U.S.A., March 1961
“Suas composições nos
apresenta uma clara, nítida canção gráfica, delicadamente recamada em
tonalidades suaves. Além da constante negra, os azuis, os terras, até brancos,
intervêm nos desdobramentos de seu lirismo informal, em que encontramos,
permanentemente, uma nucleação, ainda quando esta pareça fragmentada. Há uma
determinada fragilidade que apreciaríamos ver compensada por qualquer elemento,
nesses vôos espaciais de folhas quebradas, de hastes, de enrocamentos,
levemente indicados, de cristais partidos, de murmurações de ramas de sonho. Há
uma grande unidade conceptiva e de execução na arte do desenho de Maria Helena”
José
Geraldo Vieira
“Tendências diversas em três desenhistas”, Estado de São Paulo, São Paulo, abril de
1962
“Já
sua pintura se encontra enriquecida pela notável sensibilidade para as cores:
são elas, em seu clima geral, em suas muitíssimas nuances, que evocam as
atmosferas sugeridas pelos títulos, certamente colocados a posteriori..”
Olívio
Tavares de Araújo
“Forma e Cor: Maria Helena
Andrés ”. Texto escrito por ocasião da exposição realizada na
Galeria Grupiara, BH. Estado de Minas,
Belo Horizonte, outubro de 1963.
“Nos
anos 50 sua obra aproxima-se do Concretismo, mas é na década de 60 que ela
realmente assume a liberdade introspectiva da pintura informal, na vertente do
abstracionismo lírico.”
Casimiro
Xavier de Mendonça
Texto do catálogo Pintura Abstrata Efeito “Bienal”
1954-1963 da XX Bienal Internacional de São Paulo - Parque Ibirapuera, São
Paulo
“Abandonando-se
à imaginação, compondo à medida que trabalha, Maria Helena revela grande
segurança em seus traços negros, que são como a trama em torno da qual se
desdobra a festa de cores.”
Vera
Pacheco Jordão, 1960.
*Fotos
de arquivo
VISITE
TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MEMÓRIAS E VIAGENS”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.
segunda-feira, 27 de agosto de 2018
TEXTOS CRÍTICOS DA DÉCADA DE 60 I
Na década de 1960, quando foi
lançado o livro VIVÊNCIA E ARTE, eu presenteei um exemplar para o crítico
Clarival do Prado Valadares.
Eu estava expondo na Petit
Galerie, no Rio de Janeiro, uma exposição sobre a minha fase de guerra. Pedi ao
Clarival que escrevesse a introdução do catálogo.
Abaixo está o texto que ele
me escreveu:
“Não se exige de um
artista plástico o talento de redigir com clareza o que ocorre em seu mundo
interior de vivência estética. Às vezes, entretanto, acontece esta maravilhosa
casualidade, este dualismo, do pintor ser também escritor. Então eles nos legam
textos que se tornam preciosos porque iluminam direções e espaços, motivos e
razões, anseios e reflexões que não são os nossos.
Maria
Helena Andrés publicará, dentro de alguns meses, um livro de ensaio e
meditações, a que denominou, com propriedade, de Vivência e Arte, cuja matéria ensejou a Alceu Amoroso Lima um
prefácio em que admite a tese e lhe aplaude o modo claro e simples de
comunicar-se.
Em março do
corrente ano vi, em Belo Horizonte, a série de pintura – colagem que ela
desenvolvia incorporando uma unidade realística (recorte fotográfico) a uma
construção pictórica (composição abstrata) procurando unir forma e ideia.
Mais
recentemente Maria Helena Andrés reassumiu a figura humana, dramaticamente, mas
não por intuito narrativo. A figura volta a ser usada não mais como ilusão, e
sim como centro de ideia.
Esta
exposição que a Galeria Goeldi organizou para o público da Guanabara pretende
mostrar o trabalho de uma artista que ao mesmo tempo analisa e escreve sobre a
expressividade de sua data. Não se trata de ilustrações das ideias, embora ambas estejam implicadas
no mesmo propósito estético.
Tomei a iniciativa de
selecionar fragmentos de texto do livro de Maria Helena Andrés, Vivência e Arte, a fim de oferecer ao
visitante desta exposição uma participação mais direta com o pensamento da
autora.
É próprio da curiosidade
do público indagar o que a arte quer dizer. E é muito difícil ao crítico e ao
artista traduzi-la a contento. No caso de Maria Helena Andrés, as frases soltas
de seu livro permitem a visão do pensamento do artista que se reflete tanto na
imagem escrita de suas meditações como na imagem pictórica de seus quadros.
Que se veja, pois, no
texto selecionado da autora o roteiro natural de sua exposição de pintura.
“A ideia criadora é uma iluminação intuitiva e
repentina.”
“Durante o curso do trabalho ou do simples
esboço, a ideia ainda virgem reveste-se de cores e formas, de linhas e massas,
para formar um objeto novo, autônomo, independente e livre dos modelos tomados
como sugestão.”
“Ao escolher uma cor ou
preferir uma linha, o artista revela parte de sua vida.”
“A mão que traça uma
linha e mistura uma cor não estará praticando um gesto vazio de sentido, mas
realizando o que sua experiência exigiu de um modo particular e sincero.”
“A obsessão, esta vontade
tirânica de se expressar em detrimento de todas as outras formas de vida,
constitui a condição necessária para que o artista siga um caminho verdadeiro e
sincero.”
“E é justamente
realizando as coisas inúteis aos olhos do mundo que o homem se eleva e se
aproxima de Deus.”
“... a verdadeira arte
não envelhece, mas permanece, ao lado de nossa vida efêmera.”
“A forma é a expressão
exterior de uma verdade interior.”
“Poucas coisas permanecem
tão vivas quanto a arte, para identificar cada geração.”
“As frases de um artista
são espontâneas... Sua duração é a própria duração de um clima interior.”
“A colagem, quando usada
com habilidade e gosto, proporciona um equilíbrio de formas bastante
intelectual e sugestivo à composição inicial do artista.”
“No meio da tensão em que vivemos, surgiu uma
arte agressiva, pouco agradável à vista, traduzindo um expressionismo brutal
nascido do impacto de uma revolta.”
“O esforço humano nunca é
um gesto isolado...” “A arte é a síntese, a interpretação das experiências do
artista, de suas descobertas e derrotas, com as descobertas e derrotas de uma
civilização.”
Clarival do Prado Valladares
*Fotos de arquivo
VISITE TAMBÉM MEU OUTRO BLOG
“MEMÓRIAS E VIAGENS”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA
segunda-feira, 20 de agosto de 2018
TEXTOS CRÍTICOS SOBRE A MINHA PARTICIPAÇÃO NO MOVIMENTO CONSTRUTIVISTA DA DÉCADA DE 50 II
“Maria
Helena Andrés parte sempre, mesmo nos quadros de puro jogo formal de cores e
planos, de dados observados diretamente da realidade, extraindo deles oculta
beleza e submetendo-os aos ritmos próprios de sua composição. Nesta fase ,
última, atinge a pintora mineira um dos pontos altos de uma carreira que apenas
se inicia.
Profundamente ligada à sua terra e à
sua gente, com um raro conhecimento
artesanal, delicada e sensível, Maria Helena Andrés é um dos valores
novos de Minas, uma pintora de invulgar talento que se vai projetando firme e
poderosamente como uma das expressões plásticas do Brasil.”
Jacques
do Prado Brandão
“Maria Helena Andrés vista por Jacques do Prado
Brandão”. Correio do Dia, Belo
Horizonte, 20 de setembro de
“Já falei, em outra nota, dessa jovem
artista mineira que expõe presentemente na galeria do Instituto Brasil -
Estados Unidos, na rua Senador Vergueiro número 103.
O mérito maior que revelam seu quadros,
principalmente os da última fase, reside no fato da pintora ter marchado por si
mesma para a arte não representativa, na cidade de Belo Horizonte, onde, além
de raras incompletas exposições, não há museus, gabinetes de estampas ou
coleções privadas em que se encontrem quadros dessa tendência. Marchou para a
abstração levada mais pelo espírito de aventura e de pesquisa de um meio novo
de expressão - do que propriamente por
uma imposição do ambiente ou por simples conformismo.
Tendo começado a fazer abstrações ou
formas baseadas na realidade, como se vê de sua tela representando um rebanho
no pasto, em breve Maria Helena Andrés se encontrava diante dos problemas
específicos da pintura não-objetiva.
Seus últimos quadros já denotam um
progresso sensível, mostrando que a artista começa a manejar a linguagem
abstrata, livremente, por si mesma, sem recorrer à gramática dos abstratos
suíços ou dos concretos, em seu exercícios intermináveis de círculos,
quadrados, triângulos, “confettis” multicores, feixes de linhas, tudo isso
arranjado, com maior ou menor habilidade dentro do espaço pictórico.
A artista procura agora estruturar suas
composições dentro de ritmos ou de combinações de forças e cores menos
estereotipadas que as concretas já
conhecidas. E sabe desenhar com segurança, como se pode verificar pela série da
“Via Sacra”. Alguns desses desenhos possuem uma grande pureza linear. E são, ao
mesmo tempo, de uma qualidade arquitetônica irrecusável. Lembram esculturas de
fio de ferro, pela nitidez com que se erguem no espaço, parecendo feitas para
uma vida mais transcendente que a do simples desenho em preto e branco.”
Antônio
Bento
Diário
Carioca, Rio de Janeiro, 7 de
setembro de 1953, p. 6.
*Fotos
de arquivo
VISITE
TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MEMÓRIAS E VIAGENS”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.
terça-feira, 14 de agosto de 2018
TEXTOS CRÍTICOS SOBRE A MINHA PARTICIPAÇÃO NO MOVIMENTO CONSTRUTIVISTA DA DÉCADA DE 50 I
Relembrar
o construtivismo é relembrar os caminhos por onde passamos.
No
momento em que o construtivismo está em pauta e está sendo estudado, não
somente no Brasil, mas também na Europa, relacionei textos de críticos da
época, que se manifestaram na ocasião.
Transcrevo
nas próximas postagens, o que me foi possível guardar dos jornais da época, no
auge do movimento construtivista no Brasil.
“Maria
Helena Andrés é uma das mais talentosas e inteligentes artistas que surgiram em
Minas desde os anos 40, dotada que é de uma inata sensibilidade e bom gosto.
Com Mário Silésio e Marília Gianetti - não mencionando Guignard que já tem sua
fama e sua arte reconhecida além-fronteiras - representa a vanguarda das artes
plásticas em Minas Gerais, compondo com suas experiências e pesquisas, o que de
melhor, mais sério e ousado se faz aqui no campo da arte moderna, e,
particularmente, a arte abstrata. Saliente-se que, as realizações abstratas de
Maria Helena Andrés são bastante recentes e por isso ainda guardam
reminiscências figurativas. Talvez ela volte um dia à figura, não sei, porque
está sempre pesquisando, procurando antes de tudo o fazer - condição vital de
sua arte - , e nunca repetir-se monotonamente em fórmulas e esquemas. E depois,
talvez, retorne outra vez à abstração. Mas ser figurativa ou abstrata, importa
pouco, para ela, o fundamental é manter a qualidade de sua arte. O fundamental
é a pesquisa constante, é procurar
renovar-se a cada dia, buscando novos temas, materiais, novas maneiras
de dominar o espaço pictórico ou gráfico. Maria Helena não pára: desenha muito,
raciocina bastante sobre os problemas de sua arte. À espontaneidade e à
intuição, acrescenta o domínio da razão e da reflexão, isto é, medita sobre a
história da arte antiga e contemporânea, sobre a filosofia da arte e a
estética. Em sua criação não há nem o domínio puro e simples da intuição , nem
o excesso de racionalização e cerebralismo. Sua arte consegue, assim, ser
deliciosamente espontânea e sabiamente meditada. Desta síntese, sobressai em
seus temas e composições, um lirismo que é exclusivamente seu e que pode ser
visto, ora num retrato ou numa paisagem de sua fase mais guignardiana, ora na
fase dos balões e das colagens, ou mais recentemente, em suas esplêndidas
“cidades iluminadas” nas quais a abstração se intensifica.”
Frederico
Morais
Diário
de Minas, Belo Horizonte, 9 de março
de 1958
.........................................................................................................................
“As
últimas composições da artista denotam uma segurança que não se encontra em
muitos dos nossos abstratos de maior experiência. E revelam também uma
sensibilidade apurada. Sente-se que a pintora tem alguma coisa a dizer na
plástica abstrata, trazendo a sua contribuição a uma arte que requer
autenticidade, pois do contrário não passará de um simples exercício acadêmico”
.........................................................................................................................
Antônio
Bento
Diário
Carioca, Rio de Janeiro, setembro de
1953
Por ocasião da exposição realizada na
Galeria do Instituto Cultural Brasil - Estados Unidos, no Rio de Janeiro
........................................................................................................................
“Do
grupo de Belo Horizonte, Maria Helena Andrés se destaca pelo progresso que vem
fazendo e pela supremacia linear que dá às suas composições.”
Mario
Pedrosa
“O último esquadrão de pintores”, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro,
12
de julho de 1958
.........................................................................................................................
“Maria
Helena, ao que me parece, está em um período de fixação que seria imprudente
declarar definitivo. Sua pintura situa-se entre Mondrian e Juan Miró. De
Mondrian tem a segurança da composição quase geométrica, a maestria no emprego
das cores. De Miró, a graça infantil e travessa que vemos em “Figuras” ou em
“Boizinhos”. Maria Helena experimenta cores, experimenta ritmos, com segura
mão.”
Miranda
Netto
“A herança de Guignard”, Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 1º
de
julho
de 1962
........................................................................................................................
*Fotos
de arquivo
VISITE
TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MEMÓRIAS E VIAGENS”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA
segunda-feira, 6 de agosto de 2018
MARCELO XAVIER, OTIMISTA INCORRIGÍVEL
Hoje vou escrever um texto sobre Marcelo Xavier, um grande amigo
que frequenta a Asa de Papel. Está sempre alegre, comunicativo, disposto a
ajudar as pessoas. É artista, de múltiplas facetas, trabalha com livros infantis
a partir de ilustrações feitas com massas coloridas. As crianças adoram ouvir
histórias daquele artista que, sentado em
sua cadeira de rodas, se torna também uma criança, da mesma altura
delas. Anda pelas ruas da cidade, no
meio do trânsito, sempre sorrindo, feliz. Antes de ser cadeirante, descobriu a
arte.
“É formado em Publicidade pela PUC Minas e artista
plástico autodidata. Já fez muitas coisas na vida. Ilustrou livros, criou e
realizou inúmeros projetos gráficos, produziu e dirigiu programas para a
televisão, trabalhou em publicidade, com cenografias, figurinos e adereços para
espetáculos de teatro, música, dança, carnaval e programas de TV.
São palavras dele: “Num belo dia de 1986, uma bola
de massinha caiu do céu e me atingiu em cheio. Misturei-me a ela e saímos
rolando pelo mundo das histórias infantis, das ilustrações tridimensionais e
exposições. Essa bola cresceu e, hoje, rola pelo Brasil em oficinas de
modelagem e, fora do país, nas traduções de alguns títulos em inglês, espanhol
e japonês. Entre suas obras estão “Tem
de tudo nesta rua“, “Asa de papel”, “TOT”, “Se criança governasse o
mundo”, que tornaram-se bastante conhecidas do público e receberam importantes premiações.”
Olho com grande admiração este artista possuidor de
tantos prêmios. Marcelo Xavier, em seus
textos de muita criatividade, nos conduz ao seu mundo de forma positiva.
“Foi num domingo, rodando em minha cadeira de rodas,
por ruas vazias do bairro , que percebi estar ali o transporte do futuro, a
solução para o insuportável trânsito nas cidades, enfim – silencioso, limpo,
econômico e numa escala humana.
Enquanto o motorista de um carro sai arrastando pela
cidade um monte de aço, de combustível
caro e espaço ocioso, envolto pela irritante trilha sonora do motor e uma nuvem
de gases poluentes, a cadeira motorizada desliza silenciosamente, a uma
velocidade segura por locais em que transitam pessoas de todas as idades e
condições de locomoção.”
“Sou, sim, um
otimista incorrigível
Um bem-humorado irritante.
Como assim? Esse cara que não
Anda, portador de uma doença
Degenerativa sem cura, rindo
Desse jeito?
Sinto decepcioná-los, queridos
Pessimistas, mal-humorados
E fatalistas à minha volta.”
“Todo mundo cabe no mundo” é o título de um bloco
carnavalesco criado por ele, que atrai as pessoas pela sua proposta de contemplar
a inclusão e a diversidade.”
(Postagem com
trechos do livro “A estranha”, de Marcelo Xavier)
*Fotos da internet
VISITE TAMBÉM O MEU OUTRO BLOG “MEMÓRIAS E VIAGENS”,
CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA
segunda-feira, 30 de julho de 2018
PINTURA MODERNA BRASILEIRA I
Nosso estudo em linhas gerais do
panorama estético universal, partindo das primeiras correntes artísticas
modernas até a atualidade, trouxe-nos também considerações sobre a atual
pintura brasileira.
Não é nossa intenção estudar pormenores
da evolução da arte moderna em nossa terra, mas apenas fazer notar
sinteticamente os fatores principais de sua transformação no tempo, ligando-a
de maneira definitiva à arte universal.
A arte contemporânea desconhece
fronteiras e sua ligação com outras terras se faz não por modismo, mas pela
consciência que o artista moderno tem de pertencer à humanidade e a ela estar
ligado indissoluvelmente.
A contribuição brasileira à arte
universal já se faz sentir, não só através de nossa arquitetura, conhecida e
admirada no mundo inteiro, como também através de nossa escultura, pintura,
gravura e desenho. Dão testemunho disso os prêmios conferidos a nossos artistas
nas exposições bienais de Veneza e de Paris.
A alma de nosso povo, com suas lutas
para um desenvolvimento social, seu desejo de afirmação e progresso, está
expressa na mensagem que nossos artistas levam a outros povos e raças.
As características próprias de nossa
pintura se determinam através de elementos puramente plásticos, que formam o
denominador comum de nosso país e de nossa cultura. São formas às vezes ligadas
ao barroco ou às tradições populares, condicionadas ao nosso clima, ao colorido
de nosso céu e à exuberância de nossa vegetação.
Vivemos cercados de cores e por
contradição nos expressamos tão bem em preto e branco: depois da arquitetura,
foi a gravura brasileira que despertou maior interesse nos meios
internacionais.
A revisão histórica da arte moderna no
Brasil poderia ser estabelecida em três períodos distintos, que determinaram as
principais direções de nossas tendências artísticas. (Trecho de meu livro
“Vivência e Arte”, Editora Agir, 1966)
Atualmente,
está havendo na Europa, uma busca das experiências artísticas feitas no Brasil
nos anos de 1950 e 60. Este interesse foi motivado por vários fatores, entre
eles uma retrospectiva da Arte Construtiva Brasileira da Coleção Adolpho Leirner,
adquirida pelo Museu de Houston, nos EUA, sob a curadoria de Mari Carmem
Ramirez. Esta coleção foi exposta na Europa com grande sucesso.
*Fotos
de Maria Helena Andrés e de arquivo
VISITE
TAMBÉM MEU OUTRO BLOG “MEMÓRIAS E VIAGENS”, CUJO LINK ESTÁ NESTA PÁGINA.
Assinar:
Postagens (Atom)





































