sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Agradecimentos em Diamantina

 

Trechos da fala de Maria Helena durante a inauguração do painel em 3-10 2023:

Eu agradeço de coração a todos vocês.

Agradeço a Nossa Senhora Aparecida.

A minha família me ajudou muito.

Agradeço ao pessoal do Paraná, que realizou tão bem esta ampliação do quadro feito no 

Retiro das Pedras, em tamanho pequeno.








Agradeço essa iniciativa extraordinária de realizar esse trabalho aqui na Serra dos Cristais.

O nome cristal dá uma ideia de energia da terra e estamos aqui para esperar a energia dos céus.

O painel é para todos.

Muito obrigado a todos vocês.

Painel sobre Chica da Silva

 

Um dia, um senhor apareceu lá na minha casa em Belo Horizonte, afim de me convidar para realizar um painel. Seria para o Hotel Del Rey em Belo Horizonte. Teria que citar a cidade de Diamantina, onde viveu a Chica da Silva e onde meu pai tinha estudado por um tempo.

 Comecei a desenhar os primeiros croquis do painel, mas sempre acompanhando um pouco a história. Ele me forneceu informação sobre a história da Chica da Silva e eu comecei a imaginar aquela escrava, dominando a cidade de Diamantina, vindo de longe pessoas para conhecê-la. Ela era muito importante, era uma escrava inteligente. 

Para ter mais informações, recorri ao Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, retirando alguns trechos sobre a Chica da Silva. Alguns textos estão escritos no painel. 

"Que andor se atavia naquela varanda?

É a Chica da Silva

É a Chica que manda "

Comecei a imaginar a vida da Chica da Silva da minha forma, pensando que ela era como uma pessoa muito bonita e muito poderosa também para mandar na cidade. Casada com um homem muito importante. Pensar na cidade de Diamantina, de onde os portugueses levaram muitos brilhantes.

Recentemente eu estive lá e pude ver a varanda onde Chica da Silva ficava. Muito interessante lembrar disso tudo.

Maria Helena  e sua irmã Maria Regina diante da casa de Chica da Silva- 2023 Foto Maurício Andrés.
 

Voltemos à época em que eu recebi o convite.

Mandei fazer três telas, uma central de tamanho maior, mas todas muito altas. Era difícil colocar as telas no meu ateliê, tive que colocá-las no chão. Naquela época eu era muito mais jovem, deitava no chão para pintar, suspendia a tela, e a movimentava para pintar de todos os lados. Eu tinha que fazer um esforço físico para acompanhar o esforço mental. Foram feitos os três painéis e depois de prontos foram colocados no Hotel Del Rey, na praça Afonso Arinos.

 Para o pagamento de parte do painel, o dono do Hotel propôs uma permuta.

 

"Mas permuta, como? Se eu moro em Belo Horizonte, por que vou querer uma permuta de hotel na minha própria cidade?"

 

"Não tem importância", me respondeu ele. "Nós temos um ótimo restaurante no hotel. Você pode convidar pessoas para almoçar ou jantar, que nós teremos o maior prazer de pagar parte desse painel com jantares."

 

Eu achei muito interessante. Eu tenho uma família grande, os filhos eram jovens e muito interessados em pratos apetitosos. Íamos ao Hotel Del Rey para comer uma fatia do painel. Foi maravilhoso pensar isso. Eu já fiz muitas permutas, gosto muito disso e trocava com prazer a permuta de um hotel por alguma coisa que fosse interessante. Neste caso foram os jantares. Levava a família inteira e eles adoravam. 

 

Dessa forma foi feito o painel. 

Deixo agora a palavra para o Maurício discorrer sobre os lugares onde esteve o painel da Chica da Silva:

“Esse painel foi encomendado para o Hotel Del Rey  e posteriormente esteve no Hotel Dayrell em Belo Horizonte. Em sua antologia biográfica, o livro Guerreira de Bronze, A.L.P. Gouthier,  descendente de Chica da Silva, e proprietária  do  painel, descreve essa trajetória. O painel de Francisca - a escrava que queria ver o mar e para quem foi construído um barco e um lago em Diamantina - foi levado para um apartamento em Ipanema de frente para o mar. O painel atualmente se encontra em Lisboa, Portugal, para onde foi chamado e onde faleceu o contratador de diamantes João Fernandes, que a amava. O belo painel de Maria Helena Andrés sobre Chica da Silva simboliza esse reencontro."  

 

 Fotografias do tríptico: Daniel Morcillo-Soares

Um poema de Cecília Meirelles está pintado sobre a obra.

 Chica da Silva

 Isso foi lá para os

Lados do Tijuco,

Onde os diamantes

Transbordavam do Cascalho

 Que ardor se atavia

Naquela varanda.

É a Chica da Silva,

É a Chica que manda.

 Cara cor da noite,

Olhos cor de estrela,

Vem gente de longe

Para conhecê-la.

 Escravas, mordomos

Seguem como um rio,

A dona do dono

Do Serro do Frio.

 E em tanque de assombro

Veleja o navio,

Da dona do dono

Da Serra do Frio.

 Aonde o leva, a brisa

Sobre a vela panda?

A Chica da Silva,

A Chica que manda.

 Poema © Cecília Meireles.

 








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quinta-feira, 12 de outubro de 2023

A inauguração do retábulo a Nossa Senhora Aparecida em Diamantina

 













 

No dia seguinte, subimos o morro mais uma vez, para assistir as festividades do primeiro dia da Novena a Nossa Senhora Aparecida.

Foi numa tarde chuvosa que a Santa subiu o altar.

Para a Inauguração do retábulo a Nossa Senhora Aparecida, Dom Darci idealizou uma performance antes da cerimônia litúrgica. Trouxe um pescador com sua rede, simbolizando aqueles que encontraram a imagem no rio Paraíba do Sul, em São Paulo. A rede de pesca, antes vazia, se encheu de peixes, após a descoberta da Santa. Foi o primeiro milagre de Nossa Senhora Aparecida.

Dom Darci relatou os 5 milagres, apontando cada um no painel de azulejos.

Um cortejo de crianças vestidas de anjo antecedeu a imagem da Santa, esculpida em terracota.

Dom Darci explicou aos fiéis que Nossa Senhora Aparecida é a mesma Nossa Senhora da Conceição, venerada em Portugal e na Europa.

Nesta performance, o manto de Nossa Senhora Aparecida foi trazido separado da imagem, bem como a coroa.

A imagem foi vestida com o manto e eu fui escolhida para coroar a Santa. Antes, Dom Darci informou ao público sobre o meu currículo, exposições, premiações e trabalhos realizados na Índia. Senti que naquele momento ele fazia alusão às minhas reflexões sobre a integração Oriente-Ocidente através da arte e da cultura.

Em seguida, já com a túnica e a coroa, Nossa Senhora Aparecida foi colocada no centro da Mandala do painel de azulejos.

Naquele momento, sentimos que uma luz brilhante circundava a Mandala.

Ao ver aquela luz, me lembrei da frase:

“Constrói o teu edifício bem alto e ele falará por ti.”

Primeira visita ao painel de azulejos em Diamantina

 





Diamantina se preparou para  a Solene Celebração Eucarística de abertura da Festa de Nossa Senhora Aparecida, bem como para a inauguração do Retábulo e dos painéis da Igreja de Nossa Senhora Aparecida, cuja concepção artística foi de minha autoria.

Fiquei emocionada ao ver o painel de azulejos e a minha obra ampliada e repintada pelas mãos cuidadosas de Carla, jovem artista residente no Paraná. Não a conheci pessoalmente, mas lhe envio os meus agradecimentos e os meus parabéns! O trabalho ficou magistral!

 

A minha primeira visita à igrejinha do alto da Serra dos Cristais ocorreu às vésperas da inauguração, numa tarde muito linda.

Logo de entrada, o painel se descortinou e o Artur acompanhou meus passos com sua flauta mágica, música de Mozart se estendendo pelas montanhas. Tudo foi muito lindo e me provocou lágrimas de emoção.

Ali, diante do altar da santa, eu agradeci as bênçãos recebidas e os milagres que me deram energia para realizar, aos 101 anos de idade, aquela obra monumental.

Fico muito grata pela atuação permanente de minha família, ajudando na realização deste projeto.

Dom Darci, arcebispo de Diamantina, sugeriu algumas mudanças que considerei fundamentais, solucionando o problema de uma porta que existia na parede e que desequilibrava a composição. Ele interferiu magistralmente, criando duas paredes laterais onde foram colocados os anjos e as flores que eu desenhara. Flores do cerrado e anjos pequeninos foram “salpicados” nos azulejos, que ocupam o primeiro plano, onde também está Jesus Crucificado. De acordo com a liturgia, a cruz deve vir sempre à frente!

Aos poucos fui percorrendo o espaço vazio, ladeada por duas filhas e ouvindo o filho tocar a sua flauta. Muito linda a experiência.

Artista de cinema em Diamantina





 Pediram-me para registrar a viagem a Diamantina. Em geral eu escrevo direto, ao vivo, em cadernos de anotações. Mas desta vez não foi possível.

Tive de virar artista de cinema!

Elas têm que posar para as lentes do fotógrafo:

“Olhe para aqui...

Olhe para ali...”

Os cineastas vêem tudo por meio das lentes de suas câmeras. Em Diamantina sobem e descem montanhas filmando as pessoas.

O fotógrafo ou o cineasta são pessoas que aprenderam a arte de ver, de olhar, pesquisar as pessoas e as paisagens dentro das lentes de sua câmera.

Fiquei ali, subindo e descendo ladeiras para sair no filme.

A iniciativa foi muito boa. Vamos ver o resultado.

Bernardo, dono da pousada “Pouso da Chica”, onde estamos hospedadas, é um amigo de juventude do Maurício, e ambos se dedicam atualmente, nas horas vagas, à arte cinematográfica. 

Diamantina me surgiu no momento com sua beleza de mais de 300 anos, toda pintada de branco, para esperar a “Vesperata”, festa tradicional da cidade.

sábado, 17 de junho de 2023

MONICA SARTORI E VICTOR BRECHERET NO MUSEU INIMÁ DE PAULA

 

Neste domingo de sol, saímos das Pampulha para visitar duas exposições no centro de Belo Horizonte, no Museu Inimá de Paula, situado na tradicional Rua da Bahia. Visitamos primeiro a exposição de Monica Sartori, artista da Geração 80, que já expôs em Sala Especial na Bienal de São Paulo. Monica é minha vizinha, moramos no mesmo condomínio, o Retiro das Pedras. Em seguida, visitamos a exposição de Vitor Brecheret, no primeiro andar do Museu.



Percorremos a exposição apreciando como a artista se expressa com maestria através da linha. São linhas paralelas, sinuosas, sensíveis.



Agora, Monica transforma a linha, percorre vales e montanhas e nos mostra as flores do cerrado.

São flores campestres, que nascem espontaneamente, sem ninguém plantar ou regar. São simples e belas, nascem no campo e apreciam o sol nascendo e se pondo, totalmente ao sabor da natureza e dos ritmos de nascimento e morte.



Monica sempre viveu no Retiro e as flores do cerrado são suas companheiras de vida.

Ali no Retiro, os campos se estendem a perder de vista. As linhas de Mônica continuam vibrando em música, desta vez espalhando flores pelo caminho.



Sua exposição faz bem à alma.

Descendo para o primeiro andar do Museu Inimá de Paula, visitamos a exposição de Victor Brecheret, que também procura, como Monica Sartori, uma ligação com a natureza, a terra e suas origens. Monica revela ao público as flores do cerrado, que surgem espontâneas, sem ninguém plantar. Brecheret pertence a uma outra geração, anterior, estudou na Itália. Ali encontrou outros modernistas em plena atividade. Sua arte é uma síntese do modernismo que se instalou no Brasil, aliado às nossa origens indígenas. Brecheret era escultor, mas também grande desenhista. Seu trabalho contínuo e ininterrupto transmite a força de um artista genuinamente brasileiro que estudou e transmitiu as tradições dos povos originários. Sua simplicidade de linhas e formas estavam perfeitamente expressadas pela arte dos indígenas, arte simples e despojada. Os indígenas viveram há milênios nas florestas, mas não se inspiraram nas plantas e nas flores de seu meio ambiente.



São padrões geometrizados que se enquadram perfeitamente nos padrões da arte construtiva.

Quando Brancusi nos trouxe a pureza das formas, Brecheret encontrou nas origens brasileiras esta mesma característica.

Percorrendo a exposição podemos sentir perfeitamente esse encontro da arte europeia com a arte simples e despojada dos indígenas brasileiros.



“Eu nunca te encontraria se antes não estivesses comigo” (Saint Exupery)

Este despojamento do supérfluo, próprio do modernismo, dialogava de forma penetrante com as características vindas da Europa.

Brecheret se debruçou no estudo dos indígenas e percorreu o mundo maravilhoso dos habitantes das nossas florestas.

Conheci em 1951 a arte de Brecheret que foi premiada na I Bienal de São Paulo. Nossas origens brasileiras ressurgem das florestas, levantando a bandeira da simplicidade de formas.

Nas palavras de Maria Izabel Branco Ribeiro, curadora da exposição: “Brecheret não registrava as peculiaridades dos diferentes grupos indígenas, mas o mundo novo que vislumbrava.”

Visualizando as duas exposições, percebemos que existe uma ligação entre elas, que não se expressa em estilos diversos, mas têm uma ligação profunda com as nossas origens. A pesquisa da terra e da vegetação do cerrado, caracterizado pelos desenhos de Monica Sartori se encontram com a arte de Brecheret sob o mesmo teto, no Museu Inimá de Paula, apesar de pertencerem a épocas diferentes. Elas têm em sua origem mais profunda o “eterno agora”, a busca incessante do ser humano em torno da mesma ideia: Quem somos, de onde viemos e para onde vamos?

*Fotos de Marília Andrés

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domingo, 21 de maio de 2023

COMENTÁRIO SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE ARTE E EDUCAÇÃO PARA MARIA HELENA ANDRÉS

 


Recebi de Regina Helena de Freitas Campos o texto abaixo, que foi apresentado no dia 15 de maio, em Evento de Extensão da Escola Guignard

COMENTÁRIO SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE ARTE E EDUCAÇÃO PARA MARIA HELENA ANDRÉS

Escola Guignard, UEMG, Belo Horizonte, 15/05/2023

 

Regina Helena de Freitas Campos

Professora de Psicologia Educacional na



UFMG

Presidente do Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA – www.cdpha.pro.br)

 




Gostaria em primeiro lugar de ressaltar minha grande admiração por Maria Helena, como artista, mãe, educadora. A convivência com ela, desde a juventude, frequentando sua casa como colega e amiga da Ivana (sua filha), e mais tarde vendo-a a atuar como artista no atelier de litografia de minha irmã Cacau, junto com Ivana e outras artistas, que funcionava na casa de nossa mãe, tive oportunidade de observar sua inteligência, sensibilidade e generosidade, sempre compartilhando seus pensamentos e intuições, estimulando a ampliação de nossa consciência e criatividade, participando de nossa educação. Para mim, Maria Helena tem sido uma fonte de inspiração em meus trabalhos em psicologia e educação, sempre manifestando interesse por minhas experiências e compartilhando seus ensinamentos e perspectivas.

Nesta oportunidade de falar sobre essas interações com a grande artista e arte-educadora que conhecemos, farei referência a suas propostas educacionais expressas no livro Caminhos da arte, de sua autoria, publicado pela Editora C/Arte em 2000 (Andrés, 2000).

No livro, Maria Helena define a educação como um processo que visa desenvolver a auto consciência e a consciência ampliada, em articulação com as relações com o meio em que vivemos e com as pessoas, promovendo a criatividade. Afirma que, através da arte, o ser humano experimenta o autoconhecimento, a relação com os outros e com o universo, em formas de comunicação que superam a verbalização. Na formulação de sua perspectiva sobre a educação recorre à psicologia de Pavlov, à experiência própria e de outros colegas como o arte-educador brasileiro Augusto Rodrigues, as educadoras Nathalie de Salzman (venezuelana) e Lúcia Pimentel (nossa colega na UFMG), os educadores indianos Krishnamurti e Sri Aurobindo, e companheiros e companheiras, artistas como ela.

Criatividade é um conceito em psicologia que diz respeito à capacidade humana de criar coisas novas, sejam objetos, sentimentos, ideias, reflexões. O que permite a criatividade é, claro, a plasticidade do aparelho psíquico humano, que promove combinações novas, por ação da mente, da imaginação, a partir da experiência anterior, seja individual ou social, e dos conhecimentos já adquiridos através dessas experiências. Todo ato de criação tem também uma dimensão emocional, são as emoções e a curiosidade sobre o mundo que desencadeiam em nós a necessidade de inventar coisas novas, visando a integração com o ambiente e com as pessoas com quem compartilhamos o ser-no-mundo (Vigotski, 2018).

Como artista, Maria Helena considera a arte como “a grande auxiliar da educação” (p. 145). Como se daria essa colaboração? A educação visa transmitir conhecimentos. Contudo, o acúmulo de informações apenas teóricas, não vivenciadas pelo estudante, não é suficiente para a construção verdadeira do conhecimento, para a sua internalização subjetiva. Assim, a arte, ao proporcionar a oportunidade de o estudante vivenciar conceitos abstratos de forma mais concreta, muitas vezes lúdica, próxima da realidade, é que poderia contribuir para estabelecer uma articulação mais dinâmica entre o sujeito e o conhecimento.

No mesmo livro – Os Caminhos da Arte – Maria Helena observa que o educador deve ser “humilde diante do novo que desperta” (p. 145). Como o conhecimento transmitido é sempre novo para o aprendiz, é preciso dar a ele a oportunidade de vivenciar essas novidades a partir de sua própria subjetividade, conectando-as com experiências anteriores. Assim, o desenvolvimento da consciência, com o auxílio da arte, “torna-se um processo natural de crescimento”, sendo o movimento criador um impulso espontâneo do ser humano, que se realiza através de ações. As pessoas estão sempre interrogando o mundo que as cerca, investigando como se organiza, descobrindo suas leis, se conscientizando e, consequentemente, expandindo suas possibilidades de intervir no ambiente e nas relações com o outro. O aprendiz  procura conhecer os objetos e acontecimentos do mundo físico, do mundo social e do mundo emocional agindo sobre eles, e percebendo como respondem a seus questionamentos e perguntas.

A ação sobre os objetos tanto físicos quanto sociais ou emocionais pode sempre ser mediada por atividades artísticas - a dança, as artes plásticas, a música, o teatro, as artes em geral. Através delas se instaura a vivência do espaço e das formas (artes plásticas),do movimento (dança), dos sons, do tempo e do ritmo (música), da sociabilidade e construção da alteridade (teatro), da linguagem e da função simbólica (literatura), etc.

Piaget, o grande estudioso do desenvolvimento humano, especialista em interrogar as crianças sobre sua visão de mundo e suas ações, certamente concordaria com essas afirmações sobre a educação. Para o psicólogo suíço, o desenvolvimento é um processo de superação do egocentrismo (como auto-referência) e é essa superação contínua das limitações que nos são impostas por nosso próprio ponto de vista que permite o acesso ao conhecimento e a conquista da objetividade (possível) para os seres humanos. Para ele, o progresso do conhecimento não procede da mera adição de detalhes ou de novos níveis, como se o conhecimento mais amplo fosse somente um complemento do anterior, mais pobre ou incompleto. Pelo contrário, os conhecimentos mais complexos exigem uma reformulação contínua dos pontos de vista prévios, por meio de um processo que retrocede e avança, corrigindo a cada momento tanto os erros iniciais sistemáticos como aqueles que surgem no transcorrer do caminho. Piaget cunhou os conceitos de assimilação (o movimento do sujeito em direção ao mundo que o cerca, aos objetos, sejam concretos ou abstratos), a acomodação (quando o quadro de referência anterior do sujeito se transforma para acomodar um novo conhecimento) e equilibração (quando um equilíbrio – muitas vezes dinâmico, precário – é atingido, a partir do qual se iniciam novas descobertas).Esse processo dialético, segundo Piaget, obedece a uma lei de desenvolvimento bem definida, a chamada “lei da descentração”, como ocorre com a ciência, quando ela passa da perspectiva geocêntrica para a heliocêntrica, ou como ocorre com a criança pequena, quando um conceito, por exemplo o de vovô, deixa de se referir apenas à imagem de uma personagem privilegiada e passa a se referir a todo um conjunto de seres humanos compreendidos em um sistema de relações de equivalência (Piaget, 1976; Parrat-Dayan, 2007).

Maria Helena considera que as artes promovem a conexão entre o corpo e a natureza, entre o sujeito e as outras pessoas, que desencadeia o processo de conhecimento descrito acima a partir dos sentidos. Especialmente nas artes plásticas, as mãos funcionam como “intermediárias entre a mente, o físico e as emoções” (p. 147). Segundo ela, na educação pela arte “as mãos ocupam um lugar de grande importância, pois permitem o extravasamento imediato dos símbolos do inconsciente, aflorados através de formas, cores e sinais gráficos” (p. 147). Essa afirmação lembra a psicóloga e educadora russo brasileira Helena Antipoff, que considerava as mãos como um prolongamento físico da inteligência, afirmando que o sujeito pensa com as mãos, experimentando, operando... (Antipoff, 1992, p. 125; Almeida, 2017).

Outro momento de expressão de grande impacto no desenvolvimento é o aprendizado do desenho. Para Maria Helena, os sentimentos e representações do mundo na criança são revelados nos desenhos, na pintura, na modelagem. Todas essas atividades não verbais seriam uma expressão direta das emoções, dos sentimentos e do intelecto, trazendo à tona aquilo que a palavra não consegue expressar.

Também a poesia, “forma direta e quase musical de expressão criadora” (p. 147), seria uma via para o desenvolvimento da consciência, na medida em que expressa uma síntese de várias formas de expressão de uma visão de mundo permeada pelas emoções.

A propósito dessas funções da arte, Maria Helena lembra os pensamentos inspiradores de Augusto Rodrigues, que dialogou intensamente com Helena Antipoff a propósito da arte-educação (Almeida, 2017). Para Rodrigues, a arte seria um fator relevante no processo de tornar a cultura viva, palpável, pois que através dela “o homem traz à superfície o que há de mais profundo dentro dele, descendo a seu âmago” e dele emergindo a partir da subjetividade mais genuína. Esse movimento proporcionaria ao ser humano a possibilidade de, conhecendo-se a si mesmo, conhecer o seu semelhante. Nas palavras de Maria Helena:

O “(...) núcleo interior (do ser humano) é atingido no momento criador, despertando espontaneamente a consciência de si mesmo. A arte é o caminho direto para essa redescoberta do eu, porque o ato criador representa o próprio encontro com a vida” (Andrés, 2000, p. 148)

            Essa articulação entre o momento de criação e a consciência de si parece ser a síntese da proposta de arte-educação de Maria Helena. As etapas do autoconhecimento associado à criação do novo seriam, na sua visão:

1) explorar as potencialidades contidas no próprio corpo, com seus movimentos e vibrações mais sutis, incluindo, claro, sua relação com a mente;

2) compreender a grandeza do potencial contido no psiquismo, visando nossa realização como seres humanos, “vivos e habitantes do planeta”;

3) experimentar o sentimento de paz interior que “brota espontâneo desse conhecimento de nós mesmos” (Andrés, 2000, p. 149).

            Sintetizando o processo que descreve (e que ela conhece bem, como artista que é), Maria Helena resume o sentimento de plenitude que dele decorre, usando o famoso dito do oráculo de Delfos: “Conhece-te e sê livre” (p. 149).

            A propósito dessa experiência de autoconhecimento e libertação proporcionada pelo fazer artístico na educação, a autora cita sua larga vivência com experimentos educacionais de autores como Nathalie Salzman (a educação para o despertar da consciência e o desenvolvimento do sentimento), Lúcia Pimentel (uso de novas tecnologias para ampliar o alcance da experiência educativa). Inspira-se também nas propostas educacionais dos indianos Krishnamurti e Sri Aurobindo, que propõem o desenvolvimento do aprendiz de forma integral (corpo, emoções e mente), articulando a atividade espontânea ,o respeito a todas as formas de vida, a liberdade de pensamento, o prazer de aprender sem depender de recompensas ou punições, despertando o interesse por tudo o que se passa ao redor dele, proposta sintetizada na afirmação de que “é de dentro de si mesma que a criança (=o aprendiz) vai buscar o seu caminho para atuar no mundo com plena consciência” (Andrés, 2000, p. 151). Através de atividades artísticas e esportivas e das práticas da ioga e da meditação seria possível   conseguir esse foco no autoconhecimento e no desenvolvimento integral das potencialidades humanas, associando as culturas ocidental e oriental, razão e intuição.

            Experiências práticas de arte educação conectadas a essas reflexões são citadas na Índia, onde a autora teve oportunidade de observar educadores e filósofos colocando em ação suas ideias, e no Brasil, no trabalho de artistas populares do Vale do Jequitinhonha, de educadores inovadores da Escola Guignard (como Sara Ávila) ou em outros lugares.

            O objetivo seria sempre estimular a melhor conexão com o mundo, através de uma “consciência cósmica”, na qual, “quando temos a mente vazia de conceitos e teorias, podemos perceber a eternidade de cada instante, sentindo a vida como o próprio movimento criador se manifestando” (Andrés, 2000, p. 185).

            Em conclusão, recomendo fortemente a referência ao livro Caminhos da arte como inspiração para os educadores na atualidade, por sua relevância para nossas preocupações contemporâneas – a autocentração, a paz interior e exterior, o cuidado com as outras pessoas e com o meio ambiente – e por sua extrema sensibilidade! (Depoimento de Regina Helena Campos)




Referências:

Almeida, Marilene Oliveira (2017) As vozes de Helena Antipoff e Augusto Rodrigues no ensino de arte em Minas Gerais (1940-1960): diálogos e colaborações entre a arte e a educação nova. Belo Horizonte: SC Literato.

Andrés, Maria Helena (2000) Caminhos da arte. Belo Horizonte: C/Arte.

Antipoff, Helena (1992) Coletânea das obras escritas de Helena Antipoff (Vol. IV – Educação Rural). Belo Horizonte: Imprensa Oficial.

Parrat-Dayan, Sílvia. Piaget e a pedagogia. In: Assis, R.M.; Lourenço, E. & Borges, A.A.P. (Orgs.) Cultura, direitos humanos e práticas inclusivas em psicologia e educação. Belo Horizonte: CDPHA e Editora PucMinas, 2015, p. 51-64.

Piaget, Jean (1990) Epistemologia genética. São Paulo: Martins Fontes.

Vigotski, L.S. (2018) Imaginação e criação na infância (Trad. Zoia Prestes e Elizabeth Tunes). São Paulo: Expressão Popular.

*FOTOS DE MARILENE ALMEIDA

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