Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
terça-feira, 30 de agosto de 2016
EXPERIÊNCIA ARTÍSTICA II
Se a visão de todo
artista é irredutível à visão comum, se ele não pode fugir à sua época ou a seu
tempo, tem no entanto a liberdade de escolha nos múltiplos caminhos a seguir.
A influência tem de vir de dentro, tem de ser espontânea,
nunca imposta por uma circunstância do momento. Se por uma questão de ordem
prática, para alcançar maior sucesso, o artista se abstém de criar o que sente,
deformando a expansão de sua personalidade, para copiar, friamente, a
experiência de outro, sua obra será falsa, inautêntica. Razão pela qual Rilke
convida o artista à solidão, desprezando o que vem de fora. Aconselha-o a
sondar se os alicerces de sua arte se constituem, realmente, de uma
necessidade.
Escreve ele em Cartas
a um Jovem Poeta: "Observe se esta necessidade tem raízes nas
profundezas do seu coração. Confesse à sua alma: 'Morreria se não me fosse
permitido escrever? Isto, principalmente. Na hora mais tranquila da noite, faça
a si esta pergunta: 'Sou de fato obrigado a escrever?' "
Devemos considerar esses conselhos de Rilke como uma
eliminatória para o artista. É um ser ou não ser, onde mediocridade, amadorismo
e passatempo não tem entrada. Muito menos o mito do sucesso, dos aplausos
fáceis.
Talvez o povo se engane quanto a essa exigência da alma do
artista, essa sede de se expressar mesmo sabendo que será criticado depois, de
criar sozinho, sem esperar compreensão e prêmios, apenas para satisfazer ao seu
desejo de absoluto, de infinito.
A arte é o transbordamento deste apelo interior e não, como
pensam muitos, um passatempo que se pode abandonar por tarefas mais úteis. O
mundo materializado e aprisionado à técnica não compreende senão o que tem
recompensa imediata. Para ele, o artista é um extravagante, um louco. E é
justamente realizando as coisas inúteis aos olhos do mundo que o homem se eleva
e se aproxima de Deus, em toda a sua grandeza. As investigações filosóficas, a
arte e a religião não tem sentido utilitarista. Procuram o engrandecimento do
homem e a sua integração mais perfeita no universo a que pertence. (Trecho do meu livro “Vivência e Arte”,
Editora Agir, 1966, já esgotado)
*Fotos de Maurício
Andrés e da internet
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segunda-feira, 29 de agosto de 2016
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
EXPERIÊNCIA ARTÍSTICA I
Sobre a experiência artística, temos uma página admirável do
grande poeta que foi Rainer Maria Rilke: "Versos não são, como tanta gente
imagina, simplesmente sentimentos - são experiências: é preciso ver muitas
cidades, homens e coisas, conhecer o voo dos pássaros e o gesto das flores,
quando se abrem pela manhã; voltar em pensamento aos caminhos das regiões
desconhecidas, aos encontros inesperados, às separações já de longe previstas,
às doenças da infância carregadas de profundas e graves transformações, aos
dias fechados ou de sol, às manhãs de vento ao mar, às noites de travessia e de
fuga. E tudo isto não basta. É preciso, também, as memórias das vivências
passadas e mesmo estas não bastam. Pois é preciso também saber esquecê-las,
quando são muitas, e ter-se a imensa paciência de esperar que voltem novamente.
E, quando então tudo tiver retornado dentro de nós, como o sangue, a brilhar e
a gesticular sem se distinguir de nós mesmos, só então pode acontecer que, na
hora rara, a primeira palavra de um poema se levante no meio daquelas
experiências e delas prossiga."
A descrição do processo poético, de Rilke, pode aplicar-se a
qualquer outra arte.
Consideremos o artista plástico diante de sua tela ou da
folha de papel em branco.
Ao escolher uma cor ou preferir uma linha, o artista revela
ao mundo parte de sua vida. Alguma coisa que lhe pertencia, exclusivamente, se
faz partilhar naquela forma nova, criada por ele.
São suas paixões, seus dramas. São suas primeiras impressões
de infância, o despertar para o mundo, as inquietações da adolescência, os
sonhos e arrebatamentos da mocidade, a plenitude da idade madura. É a alegria
do primeiro filho que nasce, as noites de vigília à beira do berço, a
capacidade humana e natural de poder dar-se a alguém.
A arte não é incompatível com as coisas simples da vida. E,
para ser artista, não é preciso viver de um modo extravagante e original. Não é
preciso vestir-se excentricamente e andar pelas ruas de madrugada em rodas
boêmias, embora a arte não exclua qualquer experiência.
A vivência artística é a realidade de uma vida interior
intensamente vivida, onde os acontecimentos grandes e pequenos, originais ou
rotineiros, tem um valor eterno.
É indispensável que este mundo interior exista, para que
haja criação autêntica. É indispensável que exista esta integração perfeita das
experiências com a vida do artista. Que elas façam parte do seu sangue, como
diz Rilke, para que mais tarde frutifiquem como obra de arte. A mão que traça
uma linha e mistura uma cor não estará praticando um gesto vazio de sentido,
mas realizando o que sua experiência exigiu de um modo particular e sincero.
A escolha das cores e formas é espontânea e identifica cada
artista, traduzindo sua personalidade.
É inútil tentar forçar determinado artista a abandonar os
seus meios honestos, sinceros, de expressão, por outros mais avançados, mas não
correspondentes, exatamente, ao seu temperamento e às suas exigências. Uma
forma nasce da contemplação de outra forma, da identificação de sensibilidades
e esta identificação tanto pode ter raízes populares quanto intelectuais.
(Trecho do meu livro “Vivência e Arte”, Editora Agir, 1966, já esgotado)
*Fotos da internet
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terça-feira, 9 de agosto de 2016
SURPRESAS DE UM ANIVERSÁRIO
Um encontro do Oriente
– Ocidente, através da arte, aconteceu em minha casa no Retiro das Pedras na
manhã de 31 de julho.
Organizado por Luciano Luppi e Ivana Andrés, a
programação teve início com uma homenagem ao poeta indiano Paranjape Makarand
que,em Brasília, lançou um livro com poemas sobre o Brasil, com ilustrações de
minha autoria na capa e contracapa. Ivana leu um trecho do livro, que faz
referência à artista Maria Helena Andrés num encontro com o poeta há alguns
anos atrás. Em seguida, Henrique Luppi interpretou outro poema, dessa vez com
impressões gerais do poeta sobre o Brasil. Para ele, o Brasil pode ser
considerado o coração do planeta, a Índia o espírito, e a Europa e os EUA a razão. Luciano Luppi interpretou outro
poema de Makarand, “Porque somos um Rizoma”, além de um poema de Tagore.
Em seguida
Alexandre Andrés cantou “A voz de todos nós”, em minha homenagem, um grande
presente para o meu aniversário.
Finalmente aconteceu um recital de música indiana,
realizado por Helder Araujo.Helder estudou na Índia com mestres da música na
cidade de Benares, a cidade mais antiga da Índia, à beira do Ganges.Trouxe para
nós uma apresentação devocional, tocando a cítara, instrumento tradicional da
Índia.
Escutávamos em silêncio os acordes daquela música e
me foi possível relembrar a Índia e seus músicos sentados no chão em tapetes.
Estava absorta nas minhas lembranças, trazendo a
música da Índia para o Brasil, escutava a música da Índia em solo brasileiro,
quando espontaneamente, sem nenhum ensaio preliminar, o som de uma flauta
começou a fazer duo com a cítara do Helder. Artur Andrés nos proporcionou uma grande
surpresa. Foi grande a emoção que sentimos naquela apresentação, a fusão de
duas culturas, de terras irmãs separadas por muitos mares.
A música é de todas as artes a que mais emociona e o
encontro Oriente – Ocidente feito espontaneamente numa festa de celebração dos
meus 94 anos foi realmente um presente vindo do alto.
Ali se encontraram a poesia, a literatura e a música
indicando novos caminhos no processo de integração planetária.
Naquele ambiente impregnado de muitas lembranças,
onde e, por muitos anos criei meus quadros, estavamacontecendo naquele momento
novas versões da arte que aproximavam o mundo ocidental do mundo oriental.
À tarde, no meu atelier situado no andar superior da
casa, um grupo de crianças promoveu espontaneamente uma escolinha de arte. Meus
bisnetos também participaram da festa e me deixaram um registro maravilhoso de
desenhos infantis.
*Fotos de Maurício Andrés
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segunda-feira, 1 de agosto de 2016
ARTE NAS RUAS II
“Paralelamente aos happenings e à arte de denúncia,
começaram a surgir manifestações
coletivas abertas à participação do público.
Iniciativas como Arte na Rua, proposta por Hélio
Oiticica, e Arte Pública no Aterro, organizada por Frederico Morais e Oiticica,
abriram espaço para qualquer pessoa se expressar criativamente. No Museu de
Arte Moderna do Rio de Janeiro, manifestações de arte coletiva emergiam
incentivadas pela mídia.
Os Domingos de Criação eram uma festa de arte, onde
todos podiam colaborar.
Um novo sentimento poético emergia do povo, as
manifestações coletivas levavam à
descoberta de novos valores. A denúncia cedeu lugar ao prazer de criar e
compartilhar. Havia a necessidade de usar a criatividade para buscar a paz,
numa sociedade conturbada pela violência.
A partir da década de 1990 a arte se dirigiu para
uma comunicação mais alegre com o povo. Espetáculos circenses foram realizados
nas ruas, com a participação do espectador. Grupos também se reuniram nas
praças, celebrando as danças circulares pela paz universal.
Essas manifestações coletivas buscavam, antes de
tudo, unir as pessoas dentro de um clima de solidariedade e confraternização. A
arte nas ruas veio trazer o lúdico ao transeunte apressado das grandes cidades,
em momentos de descontração oferecidos gratuitamente.” (trecho do meu livro “Os
Caminhos da Arte”)
No século XXI surgiram os eventos denominados “flash
mobs”. São ações inusitadas que congregam toda a população presente e que
acontecem em geral em terminais rodoviários e estações centrais de cidades em
vários países ao redor do mundo.
O flash mob durante a Jornada Mundial da Juventude
no Rio, realizado na praia de Copacabana foi considerado um dos maiores do
mundo.
Em 2014, em Bangladesh, grupos de dança se
apresentaram nas ruas, formando rodas, sob aplausos da população.
Em 2009, na Union Square, Nova York, os Elfos Doidos
se apresentaram em público durante o Natal, uniformizados.
A dança continua a unir as pessoas e a fazê-las
participar de eventos criativos.
O flash mob na Estação Central em Estocolmo foi um tributo a Michael Jackson, pouco depois de sua
morte.
Por ocasião da inauguração do Circuito Cultural da
Praça da Liberdade em Belo Horizonte, um flash mob levou dançarinos e público a
cantarem juntos a música “O que é, o que é” de Gonzaguinha.
Essas danças de rua, que acontecem simultaneamente
em várias partes do mundo, com a participação da comunidade, são criadas por
grupos de jovens dançarinos e movimentam toda uma população em torno da arte.
Podem ser consideradas como arte política, cuja
finalidade é romper os condicionamentos e despertar o lúdico, mudando os
valores de uma sociedade massificada e repetitiva.
*Fotos da internet
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segunda-feira, 25 de julho de 2016
ARTE NAS RUAS I
Durante o governo militar no Brasil, grupos de
artistas ligaram-se a uma política radical de denúncia, considerando a arte a
forma mais direta de manifestação de suas ideias. No final dos anos 60
observou-se a radicalização política dos artistas, críticos e intelectuais
brasileiros, em face do recrudescimento da repressão instaurada pelo AI-5. A
perseguição política a artistas e intelectuais de esquerda, que resultou no
exílio e na aposentadoria compulsória de muitos profissionais e no cancelamento
de várias exposições coletivas, foi acompanhada de vários manifestos de repúdio
às ações repressivas do governo militar.
Na década de 1960 o happening tornou-se uma das
grandes formas de desafio popular. Nas ruas, grupos promoviam o espetáculo, que
não se limitava à encenação dentro de um recinto fechado. Misturavam-se com o
povo, criavam situações, agrediam. A experiência englobava, em seu contexto,
teatro, artes plásticas, música, dança. A finalidade principal do happening era
a conscientização dos problemas do século: guerra, destruição, violência;
desafiar o transeunte a uma reflexão, tirá-lo da passividade. No happening o
espectador era também ator e, de acordo com suas reações, as cenas se modificavam.
O objetivo era vivenciar a experiência criadora em sua totalidade, provocar
reações por meio do choque, do escândalo, do ridículo, do poético.
Os artistas abandonavam a reclusão dos ateliês
fechados, guardavam as telas e adotavam como campo de ação as praias, as
estradas, as ruas cheias de transeuntes. Buscavam uma arte desmaterializada,
que não podia ser guardada em museus nem adquirida por colecionadores.
“Nosso primeiro objetivo é transformar em poesia a
linguagem que a sociedade de exploração reduziu ao comércio e ao absurdo.”
Essas palavras de Jean Jacques Lebel, autor de vários happenings em Paris,
definem a posição daqueles artistas rebeldes, inconformados com a
comercialização e a exploração da arte. Na década de 1960
os happenings levantaram polêmicas em vários países do mundo. No Brasil,
artistas e críticos se uniram contra a repressão militar organizando happenings
nas ruas, em sinal de protesto. Havia uma necessidade de conscientizar a
população do que se passava por detrás das prisões, e a forma encontrada para
isso foram os happenings, realizados em espaços públicos, quase sempre
perseguidos pelos militares.
*Fotos da internet
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quinta-feira, 14 de julho de 2016
EXPOSIÇÃO “ARTE E POLÍTICA”
Foi um trabalho de
muitos dias, muitas horas, nos porões do Museu de Arte da Pampulha (MAP), onde
estão as obras dos artistas que mereceram prêmios ou doaram quadros para o
acervo. Depois de escolhidos de acordo com o tema – Arte e Política – os
quadros ou vídeos (naquele tempo eram chamados de audio-visuais) foram
organizados para a exposição do Sesc Palladium e poderão ser vistos até o dia
30 de julho.
A proposta reúne artistas que se utilizaram espontaneamente de sua energia criadora para denunciar os erros da nossa sociedade, as injustiças, as torturas, as prisões por motivos ideológicos, as reivindicações sociais, as guerras, os crimes contra a natureza humana.
Não existe doutrinação, mas a evidência está explícita nas obras e na sinceridade com que foram criadas. A arte, como testemunho da sociedade se revela como uma porta voz dos oprimidos, como uma denúncia que se perpetua no tempo.
Vejamos agora a exposição Arte e Política, quase um documento da década de 1960, quando sofremos a ditadura militar no Brasil.
Os artistas que viveram aqueles anos de chumbo se manifestaram através de suas obras, de forma não verbal. Viveram uma época que não se podia bater palmas para quem estivesse fazendo um discurso contra o governo.
Hoje, felizmente os tempos mudaram. Estamos em 2016, na Galeria de Arte do SESC Palladium, na exposição organizada por Marília Andrés Ribeiro com a colaboração de Ana Luiza Neves e as equipes do MAP e SESC. Ali estão expostas as reivindicações de artistas que viveram épocas tumultuadas e deram a sua mensagem.
Ali estão os meus colegas Jarbas Juarez, Terezinha Soares, Beatriz Dantas, José Alberto Nemer, Marisa Trancoso, Julio Espindola dentre outros, cada um representando uma mensagem pessoal, uma conscientização do momento político.
Fui convidada a participar deste grupo com um trabalho da minha fase de guerra, intitulado Radioative Ship, uma denúncia à guerra atômica. Na década de 1960 estive nos EUA em viagem de estudos.
Foi por ocasião da guerra fria quando o medo de um ataque atômico pairava no ar. Abrindo a gaveta de um armário do Hotel onde estava hospedada em São Francisco encontrei um panfleto alertando sobre as providencias a serem tomadas no caso de um eventual ataque atômico.
“Quando as sirenes da defesa civil tocarem, aqui está oque você deve fazer: 1º alerta - Um som ininterrupto de sirene. Você terá tempo de fugir levando apenas um pequeno radio de pilha. Seguir as instruções.
2º alerta – Ataque imediato, não sair de casa, deitar de bruços no chão e esperar o estrondo longe das janelas. Depois de meia hora, se ainda estiver vivo, poderá sair em busca dos parentes, mas quando voltar terá que tomar um banho de chuveiro e mudar as roupas para se livrar da radiotividade.
3º alerta - È preciso lembrar que, em caso de terremoto, os avisos serão diferentes.”
Estes alertas me horrorizaram. Um mês depois, já as vésperas de regressar ao Brasil, um novo aviso, desta vez com a população correndo para os metrôs. Senti o impacto do drama dos japoneses em Hiroshima e Nagasaki. A destruição atômica é o grande drama da humanidade.
Regressando ao Brasil, voltei para o meu ateliê em Belo Horizonte e a minha pintura sofreu grande mudança. A obra Radioactive Ship é um documento trágico da época. Realizada com uma técnica de acrílica e colagem sobre cartão, usando pedaços de isopor molhado na tinta para permitir que a energia fluísse com mais intensidade, essa obra marcou o início de uma nova série, denominada Série de Guerra.
Trabalhei nesse quadro e em vários outros com a mesma intensidade e o mesmo propósito interno de denunciar a guerra fria e também as torturas e a violência que estavam acontecendo no Brasil durante a ditadura militar.
*Fotos de arquivo
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A proposta reúne artistas que se utilizaram espontaneamente de sua energia criadora para denunciar os erros da nossa sociedade, as injustiças, as torturas, as prisões por motivos ideológicos, as reivindicações sociais, as guerras, os crimes contra a natureza humana.
Não existe doutrinação, mas a evidência está explícita nas obras e na sinceridade com que foram criadas. A arte, como testemunho da sociedade se revela como uma porta voz dos oprimidos, como uma denúncia que se perpetua no tempo.
Vejamos agora a exposição Arte e Política, quase um documento da década de 1960, quando sofremos a ditadura militar no Brasil.
Os artistas que viveram aqueles anos de chumbo se manifestaram através de suas obras, de forma não verbal. Viveram uma época que não se podia bater palmas para quem estivesse fazendo um discurso contra o governo.
Hoje, felizmente os tempos mudaram. Estamos em 2016, na Galeria de Arte do SESC Palladium, na exposição organizada por Marília Andrés Ribeiro com a colaboração de Ana Luiza Neves e as equipes do MAP e SESC. Ali estão expostas as reivindicações de artistas que viveram épocas tumultuadas e deram a sua mensagem.
Ali estão os meus colegas Jarbas Juarez, Terezinha Soares, Beatriz Dantas, José Alberto Nemer, Marisa Trancoso, Julio Espindola dentre outros, cada um representando uma mensagem pessoal, uma conscientização do momento político.
Fui convidada a participar deste grupo com um trabalho da minha fase de guerra, intitulado Radioative Ship, uma denúncia à guerra atômica. Na década de 1960 estive nos EUA em viagem de estudos.
Foi por ocasião da guerra fria quando o medo de um ataque atômico pairava no ar. Abrindo a gaveta de um armário do Hotel onde estava hospedada em São Francisco encontrei um panfleto alertando sobre as providencias a serem tomadas no caso de um eventual ataque atômico.
“Quando as sirenes da defesa civil tocarem, aqui está oque você deve fazer: 1º alerta - Um som ininterrupto de sirene. Você terá tempo de fugir levando apenas um pequeno radio de pilha. Seguir as instruções.
2º alerta – Ataque imediato, não sair de casa, deitar de bruços no chão e esperar o estrondo longe das janelas. Depois de meia hora, se ainda estiver vivo, poderá sair em busca dos parentes, mas quando voltar terá que tomar um banho de chuveiro e mudar as roupas para se livrar da radiotividade.
3º alerta - È preciso lembrar que, em caso de terremoto, os avisos serão diferentes.”
Estes alertas me horrorizaram. Um mês depois, já as vésperas de regressar ao Brasil, um novo aviso, desta vez com a população correndo para os metrôs. Senti o impacto do drama dos japoneses em Hiroshima e Nagasaki. A destruição atômica é o grande drama da humanidade.
Regressando ao Brasil, voltei para o meu ateliê em Belo Horizonte e a minha pintura sofreu grande mudança. A obra Radioactive Ship é um documento trágico da época. Realizada com uma técnica de acrílica e colagem sobre cartão, usando pedaços de isopor molhado na tinta para permitir que a energia fluísse com mais intensidade, essa obra marcou o início de uma nova série, denominada Série de Guerra.
Trabalhei nesse quadro e em vários outros com a mesma intensidade e o mesmo propósito interno de denunciar a guerra fria e também as torturas e a violência que estavam acontecendo no Brasil durante a ditadura militar.
*Fotos de arquivo
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segunda-feira, 4 de julho de 2016
REFLEXÕES SOBRE A GUERRA E A PAZ
O vento agita
a legião de bandeiras em frente ao edifício das Nações Unidas, onde são
discutidos os problemas do mundo. Nos grandes salões da ONU, alguns homens
debatem os problemas da humanidade. Distribuem responsabilidades, marcam
fronteiras, determinam os direitos humanos.
Representantes de todos os países
ali se reúnem, defendendo cada um os interesses de seu povo. Traçam-se os
destinos do mundo. Através de filmes, projeções, teipes, painéis fotográficos,
publicações, telas, o visitante toma conhecimento de todas as misérias que
afligem a Terra: a pobreza, as injustiças, a fome, as doenças, as guerras.
Sente-se o sofrimento do nosso planeta, suas lutas e conquistas, seu progresso
e também o quanto de sacrifício e dores este progresso exige. A paz é
reivindicada através de acordos, discursos, polêmicas, no grande tribunal das
Nações Unidas.
Naquela casa, que recolhe os problemas mais
angustiantes da humanidade, a sala de meditação é o momento de silêncio. Oferece-nos, sob outra forma, a paz que se
pretende alcançar e que é objeto de intermináveis reuniões. E ela não é
discutida em voz alta, nem assinada em atas. A sala é tão pequena que não se
permite a entrada de muita gente. Não se fala nem se escuta, sente-se o
silêncio. Uma estranha emoção nos invade quando penetramos nesse ambiente
escuro, desabitado, onde as coisas são percebidas devagarinho, à medida que nos
costumamos com a penumbra. As sombras não nos deixam perceber de uma só vez as
cores do painel abstrato ao fundo. Uma pedra retangular no centro da sala
convida à introspecção. Um raio luminoso projeta-se sobre ele, vindo de um
pequeno orifício no teto. Aquela luz de paz, vinda do alto, tem a pureza de uma
revelação. É como se essa luminosidade, penetrando pela fresta, atingisse nossa
percepção, fazendo-nos refletir sobre nós mesmos, o significado da vida, nossa
condição na Terra e o silêncio que virá depois. Abre-nos para o absoluto.
Por
que tanta luta e violência, tanta crueldade e ambição? O futuro de todo homem é
encontrar um dia o silêncio e a eternidade. No edifício das Nações Unidas de
Nova York, a sala de meditação é o encontro com a paz interior.
*Fotos da internet
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segunda-feira, 27 de junho de 2016
EXPOSIÇÃO “QUASE UM MUSEU DE OBJETOS ESQUECIDOS”
“Todos
os nossos guardados, nossas lembranças e recordações. Nosso passado, nosso
presente e futuro. Tudo aflora e se abre diante de nossos olhos. Abrimos
gavetas, reviramos caixas. Encontramos o elo perdido. Não são recordações. São
memórias do presente, atuais.
Cada
momento, cada minuto nos reserva uma surpresa, como a caixa de doces ou o vidro
com licor. Podemos crescer ou diminuir. Como assim achar melhor.” (George Helt)
Com esta introdução penetramos na mostra de Thais
Helt “Quase um museu de objetos esquecidos” exposta na AM Galeria de Arte em
Belo Horizonte.
Frequentei o
atelier de Thais Helt durante algum tempo, quando ela dirigia a reconhecida
Oficina 5. Thais abriu para os artistas a possibilidade de um contato direto
com a litografia. Em sua oficina passaram os artistas mais conhecidos de Minas,
para um encontro com a gravura. Um dos maiores frequentadores era Amilcar de
Castro.
A Oficina 5 foi um marco na arte de Minas e um ponto
de reunião de artistas.
Na mostra da AM está exposto de forma admirável todo
um passado da artista, e colecionadora de memórias. São caixas de vidro feitas
sob medida para guardar um cotidiano que muitas vezes é relegado ao lixo, como
sucata.
O reaproveitamento de coisas que sobram neste
tumultuado século XXI nos propõe momentos de reflexão.
O lixo, o supérfluo é o grande problema da nossa
sociedade de consumo, feita para viver o momento e jogar fora o que sobrou. O reaproveitamento
do que ficou para trás tem sido fonte de inspiração para alguns de nossos
melhores artistas, tais como Farnese Andrade, meu colega da Guignard, Vic
Muniz, Celso Renato e muitos outros. Nas páginas de Lygia Clark, ela falava de
sua peregrinação pelas ruas de Paris à cata de coisas jogadas fora, para depois
reorganizá-las de forma artística.
Há uma linha de conduta que une esses artistas,
todos eles tirando sua fonte inspiradora daquilo que muitas vezes é desprezado.
Com grande criatividade e sabedoria, eles sabem
transformar o lixo em obra de arte.
A exposição de Thais nos ensina a olhar com mais
atenção para as pequenas coisas do cotidiano, muitas vezes relegadas ao
completo esquecimento.
A tônica é transformar, reorganizar o caos e fazer
surgir um objeto novo, com toda a dignidade de um momento de luz.
Thais teve um itinerário silencioso, paciente. Foi
coletando coisas em vários baús, já sabendo que um dia elas se transformariam
em arte. O conjunto de obras nos mostra o paciente e tranquilo olhar da artista
para as coisas do seu cotidiano, objetos que remetem a memórias do passado.
Parabéns à Thais e aos artistas que se dedicam a
transformar as coisas comuns em arte.
*Fotos de Eliana Andrés e de arquivo
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segunda-feira, 20 de junho de 2016
A EDUCAÇÃO NO SRI AUROBINDO ASHRAM II
Conhecemos uma professora
do Ashram que fala doze línguas e ensina francês, alemão e inglês. Seu
depoimento é de uma pessoa que tem vivência de muitos anos no Ashram. Começou a
estudar em 1944, um ano depois da fundação da escola. O International Centre of
Education visa antes de tudo uma educação para a vida, dando às crianças a
realização de seus potenciais. O professor tem como princípio fundamental não
ensinar, mas despertar aquilo que já existe na criança em estado latente. Ele
não traz normas de fora nem impõe conhecimento, é apenas guia que orienta e
conduz.
O sistema de educação é
livre, respeitando a vocação e a individualidade da criança. Parte-se do
princípio de que as crianças não são iguais e portanto têm de ser guiadas de
forma diferente. O aluno aprende na escola do Ashram de acordo com os
ensinamentos de Sri Aurobindo e da Mãe, procurando despertar seu potencial em
todos os sentidos – físico, artístico, mental, espiritual.
Para cada tipo de
personalidade há um meio diverso de orientação. O professor não se põe como autoridade,
mas convive de modo amigável com os alunos, como um companheiro. As aulas
começam com música, para relaxamento do corpo e da mente. As artes ocupam lugar
de destaque para ajudá-la espontaneamente ao encontro com as raízes mais
profundas do ser, preparando a criança para a nova raça do futuro. A educação
física também é ensinada com a mesma finalidade de preparar o corpo para a
transformação que virá com o despertar do supramental. Aprende-se ginástica,
natação, esportes como vôlei, boxe, futebol, esgrima, lançamento de discos,
judô, yoga e luta livre.
A agilidade e a atenção
são desenvolvidas na prática do esporte. Dentro dessa formação global, Sri
Aurobindo e a Mãe não descuidaram de nada. Deram ênfase a
uma preparação para o futuro, visando despertar e equilibrar a criança física,
emocional e mentalmente.
*Fotos de Maurício Andrés
e da internet.
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