Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
terça-feira, 24 de novembro de 2015
A VOLTA AO MUNDO EM 80 MINIATURAS E ARTE SEM FRONTEIRAS
Ida Luppi é colecionadora de miniaturas e postais.
Guarda dentro de armários envidraçados um verdadeiro exército de miniaturas que
revelam o seu amor a esses pequenos símbolos. Sua coleção ficou famosa e as
pessoas da família quando voltam das viagens sempre lhe trazem como lembrança
uma pequena miniatura. Ida é mãe de Luciano Luppi, ator e diretor de teatro.
Luciano escreve, atua, participa de eventos com sua esposa Ivana, artista
plástica e cantora.
Agora o casal elaborou um pequeno palco onde as
miniaturas de Ida Luppi puderam sair das vitrines para também participarem de
eventos. Escolheram 80 miniaturas de diversos países, coladas no mapa de um
globo terrestre para compor o espetáculo “A volta ao mundo em 80 miniaturas”. É
um espetáculo que acontece em uma caixa escura decorada com cartões postais, que
também pertenceram a Ida Luppi.
Apresentado para 1 ou 2 espectadores, integra a proposta das chamadas
“Caixas lambe-lambe” encontradas há anos em festivais de bonecos em diversos
países. O espetáculo revisita o clássico de Júlio Verne “A volta ao mundo em 80
dias”, estimulando não somente os sonhos de viagem para lugares diferentes,
como também para a viagem em direção ao interior de nós mesmos, a “volta para
casa”. São 80 miniaturas provenientes de
diversos países, coladas no mapa de um globo terrestre ou espalhadas no chão da
caixa. O espetáculo tem a duração de 3 minutos e acontece com música e
iluminação adequadas para a grande função de rodar o mundo. No início, mãos
humanas sustentam o globo, num gesto de proteção. Durante a música, o globo
gira, mostrando suas miniaturas, suas terras e seus mares. No final, um pequeno
anjo sobe até sua estrela que brilha ao longe, num apelo comovente. Há um impacto emocional neste teatrinho, que
ressuscita no espectador imagens da infância e sonhos de viagem da juventude. A
iluminação é de Luciano Luppi e a trilha sonora é de Evaldo Nogueira e Ivana
Andrés com poesia final de Luciano
Luppi.
O espetáculo acaba de participar do Festival de
Caixas de Teatro, que integrou o Festival Internacional de Teatro de Bonecos,
no Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte.
O casal está sempre elaborando algo novo, inclusive
ajudando pessoas deficientes a encontrar um caminho dentro da arte. Trabalham
com Evaldo Nogueira, músico deficiente visual e o trio já percorreu festivais
de música, saraus, empresas e teatros, sempre trazendo alegria para o público.
Arte sem fronteiras é uma das mais importantes
iniciativas do grupo Voz e Poesia. É uma
palestra-show, focando o debate em
estórias de superação.
O espetáculo está ligado à causa da diversidade, em especial à da pessoa com deficiência, que é o caso de três dos cinco artistas do grupo: os reconhecidos músicos Evaldo Nogueira e Márcio Batista e a artista plástica Kátia Santana.
O espetáculo abre com uma palestra e vai sendo entremeado com canções e poesias, sendo aberto ao público para livre expressão de depoimentos. Ao mesmo tempo, Kátia Santana (cadeirante e portadora de paralisia cerebral) pinta um quadro ao vivo que, depois de pronto, é doado para a instituição.
O espetáculo está ligado à causa da diversidade, em especial à da pessoa com deficiência, que é o caso de três dos cinco artistas do grupo: os reconhecidos músicos Evaldo Nogueira e Márcio Batista e a artista plástica Kátia Santana.
O espetáculo abre com uma palestra e vai sendo entremeado com canções e poesias, sendo aberto ao público para livre expressão de depoimentos. Ao mesmo tempo, Kátia Santana (cadeirante e portadora de paralisia cerebral) pinta um quadro ao vivo que, depois de pronto, é doado para a instituição.
*Fotos de arquivo
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terça-feira, 17 de novembro de 2015
II JORNADA DE ESTUDOS INDIANOS
A II Jornada de Estudos Indianos
aconteceu em Belo Horizonte, na UFMG, com o intuito de congregar interessados
nos diálogos científicos e culturais entre Brasil e Índia.
Aconteceu discretamente, sem grandes
alardes da mídia, apresentando uma forma positiva de incentivar a nossa
aproximação com aquele país asiático. A Índia continua sendo uma fonte
inesgotável de conhecimentos e propostas para um mundo melhor.
Fui convidada a participar dessa Jornada
com uma exposição de trabalhos sobre a Índia, realizados desde a década de 1970,
e meu livro Oriente – Ocidente –
integração de culturas foi apresentado numa mesa em forma de livro de
artista. Ao mesmo tempo, um vídeo projetado na parede mostrava minhas andanças
pela Índia. Foram 45 anos de trabalho visando essa aproximação que agora está
acontecendo.
A curadoria da mostra coube à Marília
Andrés Ribeiro e ao Paulo Baeta, a coordenação da Jornada coube ao Roberto Luís
Monte-Mor, diretor do Centro de Estudos Indianos da UFMG. A exposição foi uma
parceria do Instituto Maria Helena Andrés (IMHA) com o Centro de Estudos
Indianos (CEI).
Assisti, no dia 11 de novembro, à
palestra de meu filho Maurício Andrés Ribeiro. Ele apresentou uma visão
panorâmica da evolução e o itinerário do ser humano sobre o planeta, desde a
época dos primeiros habitantes até os dias de hoje. A proposta de aprofundar o
conhecimento sobre a evolução da consciência nos revelou com extrema clareza
uma visão positiva neste mundo conturbado por guerras e tragédias.
Para essa mesa redonda sobre a Evolução da Consciência Humana, vieram Deepti Tewari Puri e Ariamani, duas representantes
da Índia, radicadas em Auroville, no sul da Índia. Ali existe, desde a década de 1960, uma comunidade
que foi considerada pela Unesco como um exemplo para o futuro da humanidade.
Na década de 1970 ali estive conhecendo
os vários departamentos, todos eles dedicados ao desenvolvimento da
consciência, por meio dos recursos mais abrangentes de educação pela arte. Há
uma preocupação constante em fazer a criança se desenvolver através do
exercício de suas potencialidades.
Auroville é um exemplo que continua
dando certo, regido pelas ideias de Sri Aurobindo, grande mestre indiano, que
abriu uma perspectiva para o nosso futuro. Professores vindos da Europa e das
Américas visitam aquela comunidade que se baseia na Yoga Integral, onde a arte
e a espiritualidade estão sempre presentes, junto com a ciência, a ecologia e o
esporte. A presença das duas representantes de Auroville foi muito importante
para se compreender a dimensão do trabalho de internacionalização da UFMG,
incentivando diálogos científicos e culturais dos brasileiros com os países do
Oriente.
Acrescento aqui alguns textos sobre Sri
Aurobindo recolhidos do meu livro Encontro com Mestres no Oriente.
“O Yoga Integral de Sri Aurobindo é a
união de todos os caminhos: Bhakti (devoção), Karma (trabalho), Jnãna
(sabedoria) e Raja (meditação).”
“Sri Aurobindo, em suas meditações,
previu a queda dos mitos e a unidade planetária em níveis espirituais. O
Supramental desceria sobre a humanidade do futuro, colocando os seres humanos
diretamente ligados ao Cosmos. Uma educação baseada no despertar da
criatividade e nas tendências naturais da criança possibilitaria maior
receptividade para a descida dessa luz, que Aurobindo percebeu em seus momentos
de meditação.”
*Fotos de Maurício Andrés e Marília
Andrés
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segunda-feira, 9 de novembro de 2015
INFLUÊNCIAS E TROCAS
Observando os ornamentos florais dos oratórios em
Minas Gerais e a ornamentação da capela do Taquaral, perto de Ouro Preto e
Mariana, sentimos a proximidade com a Índia hindu e islâmica.
Os padrões portugueses, chegando ao Brasil em naus
colonizadoras, trouxeram inspirações de além-mar freqüentemente assimiladas na
Índia ou na China.
A historiadora Maria Luiza Galeffi, numa palestra
dada em congresso do barroco em Ouro Preto, relata o seguinte fato: quando padrões
de Portugal chegaram à Bahia para serem colocados como ornamentação nas colunas
das igrejas barrocas, o mito hindu do pavão foi substituído pelo do pelicano,
símbolo do Cristo, que deu a vida por seus filhos.
No início da colonização, os portugueses se estabeleceram
por algum tempo na costa leste da Índia, no golfo de Bengala e mais tarde em
São Tome de Mylapore, Madras, fundando ali um centro de atividade têxtil. Característica da arte
daquela região são os desenhos de pavões entrelaçados com guirlandas e
arabescos, na mesma disposição dos arabescos que decoram as igrejas barrocas. São
impressos em tecido, em cores brilhantes, da região de Madras estado de Tamil
Nadul, sul da Índia.
Não seriam esses padrões que inspiraram a
ornamentação barroca de Portugal, chegando posteriormente ao Brasil, onde a
substituição dos mitos ocorreu? Essa pergunta eu deixo para os interessados em
estudos de arte, história e pesquisas culturais. Sendo uma síntese, nossa
pesquisa é somente uma pista para um trabalho mais aprofundado, para uma análise
mais detalhada dos dados obtidos.
Outros estudos poderão ser feitos no futuro por
historiadores, sociólogos, antropólogos e artistas, lembrando que o caminho das
Índias não se fechou com os navegantes, mas pode ir muito além no futuro, por
meio de trocas culturais com as ex-colônias portuguesas. (Quinta parte do
estudo comparativo apresentado no Seminário de Goa, 1983)
*Fotos da internet
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terça-feira, 3 de novembro de 2015
ARTESANATO FAMILIAR E MÚSICA INDIANA
Na Índia, como a máquina ainda não tomou a liderança
nas atividades domésticas e a televisão ainda é um privilégio para poucas
famílias, atividades artísticas e manuais são uma forma de unir as famílias.
Eles sentam-se no chão, com tesouras espalhadas, papéis, arames, tecidos, e
trabalham juntos.
A feitura de bonecas é tarefa da dona de casa,
envolvendo avós e avôs. Há um festival de bonecas a cada ano, que muda de
acordo com o calendário Hindu. O Festival Dasara, como é chamado, dura dez dias
e começa na lua de outubro. Em Mysore há uma cerimônia da boneca feita a mão em
frente à deusa de 16 mãos Shakti (em Chamundi hills, sul da Índia). Os hindus a
veneram como exterminadora do orgulho. Artistas e artesãos se ajoelham com suas
bonecas e humildemente imploram pela destruição do ego.
No vale do Jequitinhonha, no interior de Minas
Gerais, o artesanato é um modo de sobrevivência para um grande número de
famílias. As famílias vivem juntas, como na índia. Há uma fileira de casas
formando um pequeno quarteirão e em cada casa um forno de cerâmica. O barro é
moldado por mãos femininas. Ele é batido numa mesa de forma primitiva e levado
ao forno para cozinhar. Lidando com terra, água e fogo, as artesãs chegam
próximas da essência do ser humano, algumas vezes por meio dos mesmos símbolos
e arquétipos que inspiraram artesãos em outras partes do mundo. Há uma
liberdade para criar figuras de quatro ou cinco cabeças nos grandes vasos de cerâmica
utilitária e também há, como na Índia, descrições de cenas de casamentos e
procissões, hábitos dos homens do interior, suas práticas de trabalho, seus
sonhos.
A cultura milenar da Índia data da era dos Vedas, e
os livros sagrados eram cantados durante sacrifícios ao ar livre. Os livros
eram as composições dos rishis, transmitidas oralmente de geração a geração.
Há uma grande afinidade entre a música religiosa
indiana e o canto gregoriano, música de forma circular e repetitiva. Em seu
aspecto mais popular, a música indiana lembra os desafios cantados por
violeiros nordestinos ou as cantigas do folclore brasileiro de origem africana.
Na música indiana, como nos desafios brasileiros, há
sempre uma parte estrutural formando uma moldura para a improvisação criada no
impulso do momento.
Na Índia, esses desafios e improvisações são feitos
com instrumentos de percussão tais como tablas, uma de metal e outra de
madeira. No Brasil, a percussão é feita com tambores, atabaques, cabaças,
agogôs. Há um ritual completo para criar a tabla, do mesmo modo como no Brasil
há um ritual e mesmo um batismo dos instrumentos com água sagrada da igreja
mais próxima, na construção de um tambor sagrado.
Há também uma troca espontânea com outros países por
meio da música brasileira e sentimos que os músicos em geral são, no presente,
os melhores difusores de nossa cultura na Índia, especialmente em Goa,
ex-colônia de Portugal.(Quarta parte do estudo comparativo apresentado no Seminário de Goa, 1983)
*Fotos de Maurício Andrés e da internet
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segunda-feira, 26 de outubro de 2015
MINAS BARROCA E TEMPLOS HINDUS
Na terra brasileira floresceu nos séculos dezessete
e dezoito a arte Barroca, poderosa em sua expressão, na qual, a partir dos elementos decorativos, do
movimento de formas e do simbolismo mágico das figuras, o passado de descobertas
e buscas é retomado.
O Barroco, que o historiador Carmo Azevedo denomina
“a arte do mar e dos grandes aventureiros”, passa por uma transformação no
Brasil, na região de Minas Gerais, em uma arte da terra, da busca de ouro e
pedras preciosas. A mão que esculpiu e moldou a forma manteve o artesão próximo
de sua própria origem. Os modelos vêm de além-mar e encontram eco na região
montanhosa de Minas Gerais, nos entalhes naturais, nos arabescos das montanhas,
na sinuosidade dos rios, nas encostas de pedra, seguindo os padrões desenhados
no coração da terra pelos veios do ouro.
As minas de ouro construíram as cidades de Minas
Gerais. Foram construídas igrejas nas quais as mãos dos artesãos e artistas que
vieram da Europa e da Ásia se misturaram àquelas dos nativos, mulatos e índios.
Elas expressaram a integração de culturas e o sincretismo religioso. Na Igreja de Nossa Senhora do Ó em Sabará, de
inspiração oriental, dragões domesticados voam no espaço sobre pagodes
chineses. Síntese oriente-ocidente alcançada por meio da arte, mãos brasileiras
se juntando a povos e raças distantes, numa mesma energia.
A arte Islâmica do norte da Índia e os templos
protestantes mostram uma feição comum, que é a ausência da figura humana. Em
contraste, os templos do sul da Índia e as igrejas católicas barrocas mostram
um grande número de figuras humanas, animais e plantas. O espaço é quase
congestionado e a madeira entalhada canta e vibra com a riqueza de detalhes.
Sentimos essa riqueza de detalhes nas faces internas
e externas dos templos Hindus, principalmente no sul. Ali, deuses dançam e
tocam música, adornados com braceletes e colares mostrando que dança, música e
artes em geral são caminhos para alcançar a união com o Divino. Também nos
tempos áureos do barroco as artes se fundiam tentando transmitir um conjunto de
riqueza mundana e a religiosidade daquela época. Artistas e manifestações
públicas de teatro, música e dança eram estimulados. As procissões eram na
realidade coreografias seguidas pelos fiéis, tornando toda a cidade um palco,
adornado com flores, toalhas de mesa decoradas penduradas nas janelas,
oferecendo no todo um espetáculo majestoso e espetacular.
Na Índia, também, nos tempos antigos, a integração
das artes foi alcançada dentro dos templos e festivais. A dança, a música, a
poesia e o canto, eram parte de um ambiente criado por arquitetos, artistas
plásticos e artesãos. Havia uma integração dos vários ramos da arte para
promover a união com o Supremo Criador do Universo.
O artista mais famoso do período colonial em Minas,
Antonio Francisco Lisboa, conhecido como o Aleijadinho, transmite em suas
esculturas o movimento da dança e há estudos sobre sua obra, comparando os
profetas de Congonhas do Campo com a coreografia de um balé.
Germain Bazin descreve nos profetas influências das
vestimentas da igreja oriental. Notamos
que essas vestes, principalmente no que concerne a coberturas da cabeça,
parecem com as roupas dos deuses do panteão hindu, os turbantes nas cabeças de
Budas e também as torres elaboradas e refinadas dos templos e stupas. ( Terceira
parte do estudo comparativo apresentado no Seminário de Goa, 1983)
*Fotos de Marília Andrés e da internet
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segunda-feira, 19 de outubro de 2015
EXPANSÃO DO ORIENTE, FUSÃO DE CULTURAS
Goa teve o papel de unificar duas civilizações.
Navios vinham da China, trazendo coisas fantásticas do extremo oriente;
porcelanas chinesas de diferentes tipos, caixas, arcas de madeira, telas
elaboradas. Esse comércio aumentou a síntese e a construção de templos promoveu
a integração no campo artístico.
Aludindo a isso, o historiador português
Carlos de Azevedo comenta: “Quase todos os retábulos nas igrejas indianas são
colocados diante de um fundo decorativo de entalhes ricamente trabalhados, onde
a noção do uso do espaço é puramente oriental, o que aumenta o interesse e a
originalidade de toda essa arte indo-portuguesa.”
Símbolos hindus foram substituídos por símbolos
cristãos, mas as decorações, os arabescos “preenchimento do vazio” mantiveram
características orientais.
As manifestações e símbolos artísticos,
transcendendo as palavras, capturaram em linha direta a integração de
diferentes povos, desvendando sua origem comum, que é a origem do ser humano na
Terra.
As ideologias separam os homens porque são conceitos
mentais. A mente resiste à invasão de suas verdades pessoais. Mas a verdade é
única, indivisível, e brilha sobre tudo como o sol do meio dia, iluminando a
Terra como um todo.
Interessa-me, no presente estudo, a documentação da
influência indiana na arte portuguesa que, por seu turno, veio ecoar no Brasil
alguns anos mais tarde, através do Barroco.
Buscamos nossas origens, nossos pontos de contato
com a Índia, como se pudéssemos retomar por meio dos dados históricos e das
manifestações artísticas, religiosas e culturais, o caminho das Índias, gerador
da energia das grandes descobertas, da intensificação do comércio e do
florescimento das artes. (Segunda parte do estudo comparativo apresentado no
Seminário em Goa, 1983)
*Fotos da internet
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segunda-feira, 12 de outubro de 2015
INFLUENCIAS CULTURAIS INDO-PORTUGUESAS NO BRASIL
O texto abaixo foi
apresentado em 1983 num seminário Indo-Português em Goa, Índia. Naquele
seminário eu fui a única representante do Brasil.
“Este trabalho é uma
tentativa de uma síntese oriente-ocidente por meio de um estudo comparativo
entre a colonização portuguesa no Brasil e na Índia. Os portugueses, no tempo
das descobertas, anexaram à coroa portuguesa parte do território indiano e o
domínio português em Goa, Damão e Diu, na costa oeste da Índia, durou até 1961,
quando a Índia anexou de volta a seu território as terras ocupadas pelos
portugueses.
Brasil
e Índia, frutos dos trópicos
Introduzindo esse
estudo comparativo dos paralelos e contrastes entre culturas ocidentais e
orientais que focaliza o caso especifico do Brasil e da Índia, criado pela
expansão do império Português, citamos as palavras de Fernando L. Gomes,
escritas na base do monumento em sua homenagem em Pangim, Goa: “ Se dependesse
de mim a fusão de todas as raças, todas as castas, todos os privilégios, numa
única família, compacta e unida, eu sacrificaria tudo para alcançar isso. Esse
dia seria para meu coração um dia de ventura real.”
Sentindo as semelhanças
que existem entre povos e os contrastes derivados de diferentes culturas,
observando como essas culturas se comunicam, começamos a compreender que os
seres humanos pertencem realmente a uma única família. Há ocasiões que promovem
as semelhanças entre países que às vezes estão muito distantes, como a Índia e
o Brasil. Esses países parecem ser irmãos. Quando estávamos no vale do
Jequitinhonha em Minas Gerais, pudemos sentir uma ligação que relacionava essas
culturas, na dança, na música, nos duelos cantados, no artesanato, na organização
familiar e nas festividades populares. Por quê tal semelhança?
Isso eu deixo aos
pesquisadores, antropólogos e historiadores. Como artista, tudo o que faço é
perceber as afinidades que ligam os povos. Há calor humano, afetividade,
comunicação e religiosidade no povo simples, ligado à terra e as tradições e
usando suas mãos em seu trabalho, mais frequentemente do que as máquinas.
Há espontaneidade e
alegria nas boas vindas ao visitante que chega, a mesma sinceridade que pude
testemunhar no sul da Índia, onde estive muitas vezes nos últimos anos e, de
modo especial, em Goa, ex-colônia portuguesa, uma terra irmã do Brasil, não
somente em seus aspectos geográficos mas também em suas manifestações culturais
e humanas.
Essas duas regiões da
Terra se assemelham sob o sol dos trópicos, misturando-se sob a mesma
intensidade de luz e de cor. No Vale do Jequitinhonha o verão aquece cidades e
vilas, diminuindo o ritmo do sertanejo. Na Índia, também, o sol escaldante do
verão brilha sobre os campos e aldeias, trazendo o mesmo comportamento aos seus
habitantes.
Todo o nordeste
brasileiro e o sudoeste da Índia têm os mesmos traços de vegetação. Na Índia,
como no nordeste brasileiro, os coqueiros são a riqueza da região. Famílias
pobres fazem suas choupanas de folhas de coqueiros, usam os cocos para muitas
finalidades, bebem a água de coco. Houve uma troca de sementes por meio dos
portugueses. Os conquistadores espalharam por terras distantes muitas flores e
frutos.
O caju foi do Brasil
para a Índia, a manga veio da Índia para o Brasil. Diferentes continentes se
comunicaram entre si por meio de sementes, flores e frutos que desabrochavam em
diferentes regiões do globo terrestre, promovendo a integração que cresceu da
terra.
Mas foi nos mares que
as culturas oriental e ocidental foram capazes de se encontrar. As várias
colônias sob o domínio português se conectaram por meio das caravelas que
cruzavam os oceanos e mares, colocando em contato diferentes culturas e
civilizações.
Foi o espírito
aventureiro e a paciência para suportar longos meses no mar, foi a busca de
riquezas e a necessidade de expandir o credo cristão e assegurá-lo com o poder
terreno, que intensificaram no passado a síntese do oriente e do ocidente.
*Fotos da internet
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segunda-feira, 5 de outubro de 2015
GTO E O ENCONTRO COM O ORIENTE
GTO, Geraldo Teles de Oliveira, tornou-se figura
conhecida e admirada no mundo das artes. Nascido em Divinópolis, Minas Gerais,
ele se projetou além das fronteiras do Brasil, como artista cujo potencial
criador ultrapassou os limites impostos pelo eixo Rio-São Paulo, criando
diretamente de Minas para o mundo. Sua arte é atemporal e alcança o
inconsciente coletivo de forma segura e firme.
GTO realizava seus trabalhos a partir de sonhos.
Percorrendo a exposição de GTO na Cemig, no espaço reservado à Arte Popular,
vou sentindo, passo a passo, a integração de culturas que a arte
espontaneamente promove.
Meus passos na Índia me conduziram a reflexões sobre
essa unidade formal que se projeta no tempo e nos faz visualizar obras afins em
artistas que descobrem o seu caminho próprio em países distantes. Percorrendo
os museus de Delhi, senti a semelhança dos nossos artistas do vale do
Jequitinhonha com a cerâmica indiana, e, agora revejo a Índia na obra de GTO.
Na Índia, artistas anônimos cavaram na pedra bruta
esculturas de animais e seres humanos. Não havia a preocupação de vender ou
expor em Galerias. Mas sob o impulso mágico da criação artística, ali deixaram
um documentário belíssimo do poder criativo do homem. Percorrendo a Índia,
encontramos nessas esculturas pertencentes a civilizações remotas, uma grande
afinidade com esse artista mineiro.
GTO foi um grande visionário e em seus
sonhos captou a mensagem das antigas civilizações, desde a pedra do sol dos
maias no México, até os templos de Kajuraho na Índia. Os
roteiros da arte são os roteiros da vida, porque arte e vida não se separam. Os
trabalhos de GTO vão nos revelando uma unidade formal existente nos caminhos
percorridos por artistas que viveram neste planeta, afastados no espaço, mas
unidos no tempo com a grandeza de suas criações espontâneas brotadas
diretamente da intuição.
O gesto do artista se irmana no tempo num grande
abraço de confraternização. GTO considerava a escultura como um legado divino e
uma missão. Seus entalhes em madeira atravessaram fronteiras e aproximaram
povos.
*Fotos da internet
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quinta-feira, 24 de setembro de 2015
MARIA HELENA ANDRÉS – DESENHO – PINTURA – ESCULTURA
A Escola Guignard foi
construída junto à serra do Curral e tem uma bela vista
para a cidade. Lá embaixo, as luzes de BH vão nos mostrando os caminhos do
passado. Recordo a escola no parque municipal, no porão do Palácio das Artes,
ainda em construção. Para chegar até a sala de aula, tínhamos de passar por
tábuas e pedras.
Hoje a escola está
reconhecida oficialmente, tornou-se uma universidade. Fui convidada para ali
mostrar meus desenhos e esculturas. Houve uma seleção de meus quadros. Para a
curadoria da exposição participaram Marília Andrés, Cláudia Renault, Eymard
Brandão e Ana Cristina Brandão, diretora da escola. Foram até o meu atelier no
Retiro das Pedras e ali mesmo escolheram as obras a serem expostas. A
disposição dos quadros conduz o espectador a uma viagem no tempo, desde a
década de 50, sempre o desenho acenando mudanças. Ele registra os caminhos da
vida, desde os trabalhos em carvão, sinalizando as viagens feitas pelos
veleiros, até a passagem dramática pela fase de guerra denunciando a violência.
O desenho continua seu percurso, abre espaço para novas direções.
Foi através do desenho,
tridimensionado no computador, que iniciei meu caminho na escultura. O caminho
do desenho foi longo e demorado e ainda continua abrindo espaço para o futuro.
Transcrevo abaixo o
texto de Carlos Wolney e Ana Cristina Brandão:
“Nas comemorações dos
70 anos da Escola Guignard – UEMG, apresentamos essa importante exposição da
artista Maria Helena Andrés, que foi professora e diretora da escola nos anos
60. A exposição é um recorte de sua ampla e consolidada produção.
A gestualidade firme da
artista imprime movimentos fluidos e leves que revelam em uma composição de
equilíbrio, o domínio da forma e do espaço e transmite uma consciência espacial
constante em suas imagens.
Maria Helena Andrés, em
suas viagens pelo mundo, com um olhar sensível e firme, em especial para a
Índia, encontrou motivação nas impactantes paisagens, que a levaram a uma nova
tomada de consciência.
A observação e sutil
percepção dos signos, símbolos, cores, cheiros e formas do peculiar universo
indiano, com certeza, marcaram significativamente o processo de criação da
artista, verificado nas pinturas, desenhos e esculturas.
A visível delicadeza e
força intelectual de Maria Helena nos leva para o universo pessoal da artista,
repleto de sabedoria, registrada em suas publicações.
Maria Helena exerce
liberdade e disciplina, apreendidas nas aulas do Mestre Guignard.
Admirável vê-la, hoje
na Escola Guignard, com uma vitalidade que estimula artistas e futuros artistas
no prazer do fazer e no sabor de saber.”
Ana Cristina Brandão e
Carlos Wolney Soares (setembro de 2015)
*Fotos de Maurício
Andrés e Walmir Goes
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quarta-feira, 23 de setembro de 2015
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