Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
terça-feira, 18 de novembro de 2014
DOM EUGÊNIO SALES E AS TAPEÇARIAS DE N.SRA DE COPACABANA
Cerca de 6000 fiéis acompanharam, há alguns anos, o velório de Dom Eugênio Sales no Rio. Uma
pomba branca, símbolo do Espírito Santo, pousou sobre o caixão e ficou durante
toda a tarde perto do corpo. Dom Eugênio morreu tranquilamente enquanto dormia,
uma morte serena de quem seguiu seu caminho ajudando os fiéis e praticando a
justiça.
Durante o regime militar ele, como chefe da Igreja
Católica, ajudou perseguidos e refugiados políticos a saírem do país.
“Estima-se que 4000 a 5000 pessoas tenham recebido
ajuda do então cardeal arcebispo do Rio para fugirem.” Fui acompanhando pelos
jornais, especialmente a Folha de São Paulo, as notícias referentes a Dom Eugênio e relembro a sua atuação justa e
coerente diante de outros fatos, não políticos. Na década de 1970, recebi a
encomenda de realizar 3 projetos de tapeçaria para a Igreja N. Sra de
Copacabana, no Rio de Janeiro. O projeto era de grande responsabilidade e eu,
como artista, me empenhei de corpo e alma na sua realização. As tapeçarias
foram executadas no Rio por minha prima Maria Ângela Magalhães que ali dirigia
um artesanato da mais alta qualidade. Maria Ângela, com seu talento artístico,
interpretava os projetos transformando a técnica do pastel no bordado. Ela
mesma tingia as lãs e orientava as bordadeiras. As tapeçarias da Igreja eram
enormes, duas para a nave principal e outra, também monumental, para a capela
ao lado. Tudo isto foi feito com muito amor e dedicação. Resolvi não cobrar da
Igreja: “Meus projetos são de graça!” isto foi declarado na época, mas o
cardeal, que liderava as reuniões, não concordou com a minha resolução. “Todos
os outros artistas cobraram, esta artista precisa receber também.”
Decidiram me enviar um cheque com o valor dado pela
equipe de produção.
Por incrível que pareça, esta atitude do cardeal me
possibilitou realizar a minha primeira grande viagem à Índia.
Naquela ocasião eu não tinha recursos para as
passagens, foi de grande importância para mim a decisão que foi tomada.
Até hoje relembro com muita gratidão este fato e
costumo repetir: “Foi o cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eugênio Sales
que me possibilitou realizar a minha primeira grande viagem à Índia.” Agora
posso dizer que o cardeal me deu a oportunidade de iniciar um diálogo inter
religioso.
*Fotos de arquivo e da internet
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terça-feira, 4 de novembro de 2014
OUTRAS PESSOAS, SER OU NÃO SER
No dia 25 de outubro de 2014 tivemos uma surpresa.
Luciano Luppi, o nosso talentoso ator, interpretou poemas de Fernando Pessoa no espetáculo "Outras Pessoas, ser ou não ser."
Lembrei-me novamente da Índia.
“Este é um lugar sagrado de arte, deixem as
preocupações do lado de fora”, dizia um cartaz à porta de uma sala de dança no
sul da Índia.
Realmente estávamos preocupados, alias o Brasil
estava preocupado e corria por todo o lado o mesmo assunto – política.
A recomendação de silêncio e reverência completa à
arte cênica não precisava de palavras. Ali estava o cenário, como uma
advertência.
Foi realmente impactante aquela figura imensa,
vestida de túnica escura, com uma máscara branca e luvas brancas. Confesso que
fiquei assustada, pois não esperava aquele primeiro choque. Não foi preciso
dizer que a turma de espectadores foi se assentando devagar, sem fazer barulho.
Dali em diante o espetáculo transcorreu com a maior seriedade, a palavra
acrescida e transmutada ao sabor da interpretação. Textos de Fernando Pessoa e
Shakespeare foram de certo modo o roteiro daquela viagem para um mundo além dos
interesses conflitantes do presente.
O silêncio foi necessário e aconteceu. As
palavras de Fernando Pessoa, o grande poeta português, foram nos dirigindo para
caminhos desconhecidos que só a arte pode desvendar. Ali as palavras não
estavam somente guardadas dentro de livros. Elas estavam vivas na
interpretação de Luciano e tocavam o
público como uma música. Ivana acompanhava os textos operando uma trilha sonora
condizente com a peça, despertando e conduzindo as emoções da platéia.
Realmente o silêncio era necessário, para que as
palavras do poeta português ecoassem por nossas montanhas.
No final, Luciano veio me oferecer o seu trabalho,
como um presente para o IMHA, agora com
nova sede no Retiro das Pedras.
Marília, como presidente, agradeceu a generosidade
dos artistas.
Este voluntariado, totalmente desapegado de
patrocínio, é uma benção que será aplaudida por todos nós.
Este é o nosso agradecimento .
Segue abaixo trecho de um poema de Fernando Pessoa:
“Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Sob a leve tutela
De deuses descuidosos,
Quero gastar as concedidas horas
Desta fadada vida.
Nada podendo contra
O ser que me fizeram,
Desejo ao menos que me haja o Fado
Dado a paz por destino.
Na verdade não quero
Mais que a vida; que os deuses
Dão vida e não verdade, nem talvez
Saibam qual a
verdade”
*Fotos de Ivana Andrés, Henrique Luppi e Maurício
Andrés
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quinta-feira, 16 de outubro de 2014
FUNÇÃO DA ARTE NA SOCIEDADE
A arte é um ponto de contato entre os homens; por meio dela
há uma comunicação maior de alma para alma.
A identificação de sensibilidades aproxima o espectador do
artista, ou seja, do sentimento transmitido pelo objeto criado
"A obra de arte, por concreta e objetiva que
seja, não possui efeitos constantes e inevitáveis, exige a cooperação do
espectador e a energia que este coloca dentro dela, recebeu o nome especial de
'empatia' ". (Herbert Read)
A comunicação artística é a descoberta pelo espectador, na
obra criada, de seus próprios sentimentos e emoções.
Assim como toda a criação é acompanhada de alegria
interior, também a comunicação do sentimento humano através da beleza artística
realiza-se num clima de alegria e compreensão.
A Arte foi colocada, por Deus, no mundo, para trazer esta
alegria aos homens. A alegria de poder compreender a mesma beleza e, por meio
dela, se compreenderem melhor. A música e a poesia trazem, de um modo mais
penetrante, esta comunicação interior de alma para alma. Elas nos elevam acima
de nós mesmos, despertando aquilo que estava adormecido em nosso íntimo.
"A música, ao contrário das outras artes, emociona mais
rapidamente. Pode orgulhar-se mesmo de arrastar multidões. E eis o comovente
espetáculo de milhares de ouvintes, em religioso recolhimento, dominados apenas
pelo poder da arte".(Matteo Marangoni)
Muitas vezes, o artista é o porta-voz de seus
contemporâneos. Ele tem o poder de envenenar ou elevar as massas, já que uma
obra de arte irmana e influencia os homens. Daí a preocupação dos estados
totalitários em manobrar os artistas, como instrumentos políticos, na defesa de
seus interesses. Eles sabem que a arte falando, diretamente, ao coração do
homem é a melhor mensageira de suas ideias. Sentindo a comunicação da beleza
através da arte, já somos, de certo modo, artistas também.
"Através da beleza artística, portanto, os artistas
(refiro-me aos que criam e aos que contemplam a beleza, pois o senso artístico
se manifesta tanto na criação como na contemplação da beleza) se falam íntima e
inteligivelmente. Compreendem-se. Amam-se. Choram as mesmas tristezas e cantam
as mesmas alegrias. Fazem-se mutuamente presentes". (Pe Orlando Vilela)
Na música, na dança, nas artes visuais e no cinema, esta
comunicação se faz com maior facilidade entre povos de raças diferentes, porque
não existe a barreira da língua. Podemos receber, diretamente, a mensagem de
beleza que um Beethoven ou um Bach nos trazem, podemos admirar as obras de
artistas do passado, de um Miguel Ângelo, um Greco, um Goya. E vemos que a
verdadeira arte não envelhece, mas permanece, ao lado de nossa vida efêmera.
Poucas coisas permanecem tão vivas como a arte, para identificar cada geração.
Passam-se os interesses do momento, a política, os costumes.
A ciência evolui. Mas a verdadeira obra de arte continua, através dos séculos,
trazendo um testemunho vivo de beleza para o mundo...( Trecho de meu livro
VIVÊNCIA E ARTE, Editora Agir)
*Fotos de internet
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quarta-feira, 1 de outubro de 2014
ARTE MODERNA, UMA REVOLUÇÃO NAS ARTES
O
texto abaixo foi extraído do meu livro “Vivência e Arte”, editado nos anos 60.
“A
França desde o século XIX tornou-se o principal centro das artes. Seria então
justo lembrar, ao iniciar este trabalho sobre arte moderna, que a maioria dos
seus movimentos artísticos teve início em Paris e ali se desenvolveu.
Contra a arte decadente e imitativa da
academia, começaram a germinar em França as primeiras ideias revolucionárias.
Daí surgiu o movimento moderno de renovação. A arte passou, novamente, a ser
vivida pelos artistas como fonte de criação pura, e não imitação da natureza.
Como pesquisa, e não submissão. Como experiência pessoal, e não cópia servil.
Não falo aqui, especialmente, da arte abstrata, mas da abstração na obra de
arte, qualidade essencial, indispensável, para haver criação autêntica.
O artista pode partir do modelo, mas
depois transforma linhas, muda cores e cai na abstração. O que a arte moderna
fez foi, justamente, recapitular estas verdades, esquecidas pelo academismo. A
revolução moderna foi um despertar do sono e do espírito de acomodação,
dominante até o princípio do século XIX, para redescobrir valores e concepções
eternas da verdadeira arte.
Segundo Flávio de Aquino, inventar foi
o grande feito do nosso século, em todos os terrenos do conhecimento humano".
Inventar, também, foi a maior realidade da arte contemporânea, acompanhando o
progresso científico do século XX.
Com a inquietação dos artistas
modernos, ávidos de liberdade, mundos desconhecidos foram revelados e a arte
passou a ser a expressão de sentimentos puros, transfigurados pela
personalidade dos autores.
Segundo Pe. Collet, "a arte é a
impressão digital duma civilização. Transmite, de certo modo, aos séculos seguintes,
o testemunho vivo do melhor e do pior da época, e antecipa também o futuro,
pois o artista, mesmo inconscientemente, recebeu o dom da profecia."
Não são as telas de Chagall, cheias de
um surrealismo lírico, como que uma visão antecipada dos acontecimentos mais
recentes, que movimentaram o mundo, como sejam a conquista dos espaços
interplanetários?
Vivemos no século da máquina, da
indústria, as descobertas científicas tentando dominar as forças do espírito,
pela própria força da matéria. Esta preponderância da matéria sobre o espírito
marcou pela violência quase toda a arte do nosso tempo.
O século em que se inventaram os campos
de concentração, que deu origem a duas guerras implacáveis, em que se descobriu
a força destruidora da energia atômica, que usou do progresso material contra
todos os direitos da pessoa humana, não mereceu outra ilustração a não ser a Guernica de Picasso.
*Fotos
da internet
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quinta-feira, 18 de setembro de 2014
POR QUE A SEMELHANÇA BRASIL - ÍNDIA
O texto abaixo foi escrito por
minha amiga Célia Laborne, quando o livro "Oriente- Ocidente, integração
de Culturas" foi editado. Célia foi minha colega na primeira turma da
Escola Guignard, mas se dedicou mais ao jornalismo. Célia é, além de
jornalista, escritora e poeta, atualmente muito reconhecida em Portugal. Ela
tem há muitos anos, um blog na internet, "Vida em Plenitude", que
pode ser acessado através desta minha página.
“Oriente e Ocidente são duas metades que se juntam e
se integram, hoje de forma maior e mais participada. Porém essa integração
começou há muitos séculos atrás, segundo os registros culturais e artísticos de
vários pesquisadores. Entre eles, a artista Maria Helena Andrés, que traduziu
suas pesquisas sobre o barroco, os hábitos e os costumes do oriente e ocidente,
especialmente representados pelo Brasil e a Índia, da forma mais viva e
perfeita , isto é, dentro de sua arte.
Viajando várias vezes para a Índia e Goa, Maria Helena estudou e
captou a semelhança nas estruturas básicas da cultura brasileira e indiana,
sobretudo. E dessa pesquisa nasceu um belíssimo livro onde há a amostragem
pictórica de tradições, de folclore, de música, de hábitos, etc, numa sucessão
de pranchas coloridas e artísticas. Verdadeiros painéis de integração Brasil-
Índia.
Maria Helena teve, na elaboração do livro, a ajuda
eficiente e valiosa de sua filha, também artista Eliana Andrés – também ela com
uma longa estada na Índia.
O livro, além da apresentação, é todo ele montado em
pranchas próprias para serem aproveitadas em belíssimos quadros. São trabalhos
feitos em momentos de inspirada e feliz criatividade da artista. Eles fazem um
paralelo, mostrando na parte superior do desenho a cena brasileira e no espaço
inferior uma equivalente cena indiana.
As pranchas começam mostrando os veleiros
portugueses que tomaram o caminho das Índias e das Américas e fizeram um
importante contato, por certo não o primeiro. Vêm em seguida, cenas típicas,
festas folclóricas, o Boi- Bumbá, os festejos do interior da Índia; as
procissões devocionais, com o povo aqui levando imagens cristãs e lá divindades
do hinduísmo.
Ou a Igrejinha do “Ó” com seu telhado chinês e os
profetas de Congonhas com turbantes orientais.
Também nova semelhança no artesanato. O trabalho dos
cesteiros como uma grande mandala no centro da prancha, mostra acima e abaixo o
povo diligente e criativo trabalhando ao ar livre. Ou ainda as cerâmicas de
forma muito parecida no artesanato popular.
E o livro é, assim, todo ele um desdobramento de
colorido, sensibilidade e, sobretudo,
profunda pesquisa do que se cultiva, se cria, se crê e se cultua em nossa terra
e na longínqua Índia.
Cada prancha é toda uma história, um aprendizado,
uma beleza nova, valorizada pela explosão do colorido que, nas duas terras, é
intenso e vive, além do desenho preciso de uma artista tarimbada e consagrada.
Maria Helena não se esqueceu de observar também a música, o ritmo, os tambores
e as toadas populares que soam familiares, segundo ela, aos ouvidos
brasileiros.
O livro é todo uma obra de arte e Maria Helena o
apresenta bem quando diz, logo no início:
“Sentindo as semelhanças existentes entre os povos e
os contrastes gerados pelas diversas culturas, observando como essas culturas
se comunicam , começamos a perceber que os seres humanos pertencem realmente a
uma só e única família. Há razões desconhecidas que promovem semelhanças entre
povos muitas vezes distantes, como a Índia e o Brasil. As terras parecem irmãs.
Quando estivemos no vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, pudemos sentir, a
cada instante, um elo ligando as duas culturas, na dança, na música, nos
desafios cantados, no artesanato, na organização familiar e nas festas
populares
“Maria Helena Andrés é uma artista do presente, isto
é, faz de sua arte integração e compreensão entre os povos, ela ensina unidade
e fraternidade através de sua forma de expressão: a pintura e o desenho, e faz
isso sem qualquer preocupação de vaidade, personalismo ou visão comercial.”
(Célia Laborne Tavares, Estado de Minas, 22/12/1984)
*Fotos de arquivo
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quarta-feira, 17 de setembro de 2014
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
ECOLOGIZAR O BANCO DO BRICS
Aconteceu recentemente um encontro dos BRICS em Fortaleza,
ocasião em que foi criado o Banco de Desenvolvimento do BRICS. Recebi de
Maurício Andrés Ribeiro o texto abaixo sobre a necessidade de se ecologizar a
economia.
“Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul constituem o BRICS, o grupo dos cinco maiores
países emergentes. Juntos, esses cinco
países têm 40% da população mundial e cobrem 23% das terras do planeta.
Em julho de 2014, eles se reuniram em Fortaleza e decidiram
criar o banco de desenvolvimento do BRICS, um projeto unificador entre esses
cinco países.
Bancos de desenvolvimento direcionam recursos para investimentos
e canalizam fluxos de capital para os projetos aprovados.Assim, o Banco
Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o BNDES, entre outros
concederam crédito para projetos necessários. Entretanto, foram alvo de críticas
por parte de organizações da sociedade, por terem financiado projetos social eambientalmente
questionáveis.
Os Princípios do
Equador, propostos em 2003 pela Corporação Financeira Internacional
(IFC), vinculada ao Banco Mundial, estabeleceram diretrizes sociais e
ambientais para as instituições bancárias. Naquele mesmo ano, a Declaração de
Collevecchio, apoiada por organizações da sociedade civil, ressaltou a
importância das instituições financeiras assumirem compromissos com a prevenção de impactos das atividades que
financiam, com a transparência das informações, com a prestação de contas à
sociedade. Ressaltou-se a necessidade de se repensar a missão dos bancos e a
urgência de que eles renunciem a oportunidades de negócios que sejam social ou
ambientalmente destrutivas.
Bancos de desenvolvimento precisam ter missão, mandato e orientação políticaclaramente
definidos pelas sociedades que os instituíram.
A espécie humana já domesticou animais e usou sua força. Já
domesticou vegetais e se alimentou com eles. Já canalizou a força das águas
para produzir energia, para matar sua sede e irrigar as plantações. Colocou a seu serviço as energias de todo tipo, fósseis e
renováveis.No contexto da crise ecológica e
climática planetária, é um desafio ecologizar o capital, pois, caso seja
deixado livre e sem regulação, sua força, como a das águas, pode ser
destrutiva. É preciso
colocar a força do capital a serviço do bem estar humano e da saúde
ambiental.
Assim, por exemplo, o banco do BRICS poderia
inovar na utilização de indicadores de sustentabilidade para orientar suas
operações e direcionar suas ações no sentido de reduzir injustiças equalizando
as pegadas ecológicas per capita dos habitantes dos países que o criaram.
O banco do BRICS poderia atuar como um laboratório para
experimentar esse modo de lidar com o capital,realizando
suas operações de crédito de forma sintonizada com uma visão ecologizada. Ele opera com 50 bilhões de dólares, recursos modestos se comparados com os
trilhões de dólares do capital circulante no mundo. Entretanto,essa poderia ser uma oportunidade para testar um novo modo de
relacionamento com o capital. Sendo exitoso, poderia servir como exemplo e
referência para regular os fluxos de capitais, colocando-os a serviço do bem
estar e da saúde humana e ambiental.”
( Maurício Andrés Ribeiro, autor
dos livros Ecologizar, Tesouros da Índia e Meio Ambiente &Evolução Humana. www.ecologizar.com.br e ecologizar@gmail.com)
*Fotos
de arquivo
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terça-feira, 19 de agosto de 2014
IGNACY SACHS, PIONEIRO NA COOPERAÇÃO ÍNDIA - BRASIL
Recebi de
Maurício Andrés Ribeiro o texto abaixo que nos mostra com muita clareza a
importante missão de estreitar o intercâmbio Oriente-Ocidente e, de modo
especial Brasil e Índia. Maurício nos lembra neste artigo a presença de Ignacy
Sachs que, na década de 50 iniciou este intercâmbio.
“Nos idos de 1977, quando pus os pés na Índia pela
primeira vez, sabia que percorria caminhos que Ignacy Sachs trilhara, pioneiramente, nos anos 50. Sou
grato a ele pelas orientações e pelas
valiosas referências que me ofereceu desde então. Sinto-me em ótima companhia
filosófica e intelectual, que me estimula a prosseguir no caminho das Índias.
Ignacy
Sachs é socioeconomista, nascido na Polônia e naturalizado francês. Viveu
quatorze anos no Brasil, dirigiu o Centro de Pesquisas sobre o Brasil
Contemporâneo na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris. Doutor
pela Universidade de Delhi, na Índia, durante mais de 65 anos Ignacy
Sachs trabalhou para a cooperação Brasil-Índia. Em uma entrevista,
impressionado com a independência da Índia em 1947, perguntava: “Como um
país colonizado consegue se livrar da dominação do maior império colonial do
mundo quase sem derramamento de sangue? A mensagem é absolutamente
extraordinária.”(1).
Gandhi enfatizava
a importância da autolimitação das necessidades e foi para Sachs uma referência
no tema do desenvolvimento: “Gandhi para mim era e continua a ser o precursor
das boas teorias de desenvolvimento, pela maneira como considerava a massa
camponesa como o ator central do processo de desenvolvimento.” Sachs também foi inspirado pelo prêmio Nobel de Economia
Amartya Sen: “Foi a leitura de Amartya Sen que me levou a propor a
reconceitualização do desenvolvimento em termos de universalização efetiva do conjunto
das chamadas três gerações de direitos: os direitos políticos, civis e cívicos
(a democracia como pedra angular, foundational value, diz Sen); os direitos
econômicos, sociais e culturais, incluindo o direito ao trabalho decente; e por
último os direitos coletivos do desenvolvimento, ao meio ambiente, à infância”.(2)
Nos anos
50, enquanto fazia o doutorado em Delhi,
Ignacy Sachs vivenciou o forte prestígio internacional daquele país, que
demonstrava grande confiança em si próprio e que recebia chefes de estado e
cientistas sociais de fama mundial. Também são presentes em textos de Sachs a admiração pela Índia, descrita como terra de
inspiração e laboratório do desenvolvimento. Neles, expressou sua dívida
intelectual para com os indianos e nomeou aqueles de quem recebeu estímulos: os
economistas K.N. Raj, ex-reitor da universidade de Delhi; Sukihomoy
Chakravarti; Deepak Nayar, reitor da universidade de Delhi; Amartya Sen. Além
deles, Sachs relembra a importância dos
contatos com outros cientistas, tais como o politólogo Rajni Kothari; o
historiador da ciência Rahman; Ashok Parthasarathi; Amulya K.N.Reddy; M.S.
Swaminathan; Anil Agarwal; o ecologista Gadgil e o historiador Guha.
Ao
acreditar na importância da cooperação entre países tropicais, que podem
construir civilizações modernas da biomassa, Sachs enfatizou a necessidade de
abre-alas para esse desenvolvimento e propôs que o Brasil e a Índia assumam tal
posição. Reforçou a importância dos brasileiros se aproximarem dos indianos
através de rede de cooperação técnica por biomas. Ao postular a reforma da ONU,
Ignacy Sachs enxergou as possibilidades da liderança colaborativa desses dois
países no aprimoramento das instituições internacionais, oxigenando o ambiente
e fazendo circular ideias novas, originárias do pensamento do sul.
Hoje
continuam precários os laços culturais e de comunicação entre esses países. Para
transpor esse abismo propôs estabelecer um centro de pesquisa sobre o Brasil
contemporâneo em uma universidade indiana e um centro de pesquisa sobre a Índia
contemporânea em uma universidade brasileira e intercambiar estudiosos e
bolsistas, criando massa crítica de pessoas que lancem pontes de cooperação.
Seria uma estratégia para, em poucos anos, formar um conjunto de jovens com
melhor conhecimento mútuo.
A Índia é
uma terra fértil para se estudar e compreender a evolução humana e o papel que a nossa espécie desempenha
nessa atual crise da evolução. O conhecimento aprofundado sobre psicologia e
sobre a natureza do ser humano encontrado em filosofias indianas ajuda a lidar
com esse grande ator da crise atual. No campo da ecologia do ser, dos estudos
da consciência e da educação integral, a civilização indiana é guardiã de
riquezas valiosas para a autosuperação humana.
A cosmovisão indiana propõe que cada um de nós
nessa vida tem seu dharma, sua missão ou tarefa a cumprir. Trabalhar
pela aproximação Índia-Brasil tornou-se parte de meu dharma, que exerço
com alegria. Agradeço à Índia pela inspiração que me proporcionou.” (Maurício
Andrés Ribeiro é ex-pesquisador visitante no Indian Institute of Management,
Bangalore. Autor de Tesouros da Índia para a civilização sustentável. www.ecologizar.com.br
ecologizar@gmail.com)
*Sachs foi professor da Universidade de Varsóvia
e conselheiro especial da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento, Eco-92. É autor de vários livros e artigos: Capitalismo de
Estado e subdesenvolvimento (Vozes, 1969), Ecodesenvolvimento: crescer sem
destruir (Vértice, 1981), Espaços, tempos e estratégia de desenvolvimento
(Vértice, 1986), Estratégias de transição para o século XXI; A terceira Margem.
[1] Estudos
avançados vol.18 no. 52 São Paulo Dec. 2004. Experiências internacionais de um
cientista inquieto. Entrevista com Ignacy Sachs
[2] In A Terceira Margem, pág. 316.
*Fotos de arquivo
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terça-feira, 5 de agosto de 2014
CONSIDERAÇÕES SOBRE O BELO
Escreve Edgar Poe: "Nós somos devorados por uma sede
inextinguível. Esta sede faz parte da imortalidade do homem. Ela é uma conseqüência
e, ao mesmo tempo, um sinal de sua existência sem termo"... "Então,
quando a poesia, ou a mais enervante das formas poéticas, a música, nos fazem
cair em lágrimas, choramos, não por excesso de prazer, e sim em razão de uma
melancolia positiva, impetuosa, impaciente, que experimentamos por causa da
nossa incapacidade de discernir,
plenamente, aqui nesta terra, uma vez por todas, aquelas alegrias divinas de
que, através do poema ou da música, não atingimos, senão vislumbramos." ¹
O homem tende naturalmente para o que é eterno. Ele se
inquieta, procurando uma razão de ser para sua vida, aspirando ao que há de bom
e verdadeiro no mundo. É o ideal de perfeição, a sede insaciável de eternidade.
O artista, procurando elevar-se acima de si mesmo através da
arte, aspira à Beleza absoluta, e, mesmo inconscientemente, procura Deus. A
beleza artística é um reflexo da Beleza Incriada, assim como toda luz é uma
certa irradiação da primeira Claridade Divina.
A tendência natural da arte é de se elevar, aperfeiçoando-se
cada vez mais.
Abrindo um parenteses, consideremos aqui um ponto menos
esclarecido: é preciso distinguir a beleza da natureza da beleza artística. O
belo em arte não é o belo da natureza. É frequente confundir-se a beleza
natural com a beleza espiritual, realizada na obra de arte. "Uma vez que
na vida a beleza física é geralmente regular e a tradição clássica faz da
regularidade uma das condições de beleza, constitui ainda opinião corrente que
o belo é, também, na arte, sinônimo de regular.” (Matteo Marangoni).
A beleza da arte é puramente espiritual,
expressiva. É a emoção dirigida pela inteligência em busca de uma forma ideal
que, muitas vezes, pode parecer feia e pueril aos olhos do leigo.
Assim, ouvimos julgamentos como estes, principalmente em se
tratando de Arte Moderna: "Isto até uma criança poderia fazer." -
"Isto não passa de um rabisco."
No entanto, o quanto de sofrimento e luta para se chegar
àquela simplicidade, àquele despojamento completo do supérfluo, àquela síntese
de vida.
Os escolásticos, seguindo a doutrina de São Tomás, dão como
condições de beleza a integridade, a proporção, brilho ou clareza. Mas
ressaltam, também, que não existe uma só maneira, mas mil e dez mil maneiras de
a noção de integridade e proporção poderem realizar-se. Tanto as figuras Gregas
e Egípcias, como as de Rouault e Picasso são perfeitamente proporcionais, nos
seus gêneros.
Como dizia Jacques Maritain, “as noções de integridade e
proporção não têm nenhuma significação absoluta; visam, antes, ao fim da obra,
que é de ' fazer resplandecer uma forma sobre a matéria”, isto é, de expressar
uma ideia coerente, harmoniosa.
"Todas as coisas que povoam a terra encontram-se em
constante mudança e, por conseguinte, em constante movimento; mas uma lei
igualmente universal governa seu movimento: um impulso para encontrar uma
condição de harmonia e repouso: harmonia, maturidade e cristalização. A forma
pela qual a matéria encontra um equilíbrio de forças constitui sua perfeição,
uma solução para o seu problema particular no qual não existe desperdício nem
superfluidade. Se acrescentarmos ou retirarmos algo a esta perfeição, a forma
perde seu equilíbrio, seu aspecto característico, e deve-se recomeçar a busca
de ambos." (Karel
Honsih)
Tudo o que existe, em sua constante renovação procura
atingir a Beleza Absoluta ou ser um reflexo dela.
A procura de perfeição através da arte assemelha-se a este
incessante movimento da natureza que busca o equilíbrio nas células
microscópicas, no desabrochar de uma flor, nos grandes espaços interplanetários
do universo.
"O Belo consiste na ordem e na grandeza", dizia
Aristóteles em sua Poética. Ordem e grandeza, no entanto, não poderão ser
padronizadas dentro de cânones rígidos, diversificando-se conforme a exigência
de cada obra de arte em particular.
A fusão dos diversos elementos que constituem a matéria
pictórica, a cor e a linha, os planos e as sombras, as texturas, os relevos
devem na sua multiplicidade de sugestões procurar a unidade de um conjunto
harmonioso.
Para haver beleza num quadro ou numa escultura, é preciso
que haja a adequação perfeita do espírito com a matéria, da ideia criadora com
a forma realizada.
(Trecho do meu livro “Vivência e Arte”, editora Agir, 1966)
*Fotos de Maria Helena
Andrés
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sábado, 19 de julho de 2014
EXPERIÊNCIA ARTÍSTICA
O texto abaixo é uma página do meu livro “Vivência e
Arte”, escrito na década de 60, quando eu me dedicava, não somente à criação
dos meus seis filhos, mas também aos estudos de filosofia e estética das artes.
Naquela época, continuava o meu caminho nas Artes Plásticas.
Sobre a experiência artística, temos uma página admirável do
grande poeta que foi Rainer Maria Rilke: "Versos não são, como tanta gente
imagina, simplesmente sentimentos - são experiências: é preciso ver muitas
cidades, homens e coisas, conhecer o voo dos pássaros e o gesto das flores,
quando se abrem pela manhã; voltar em pensamento aos caminhos das regiões
desconhecidas, aos encontros inesperados, às separações já de longe previstas,
às doenças da infância carregadas de profundas e graves transformações, aos
dias fechados ou de sol, às manhãs de vento ao mar, às noites de travessia e de
fuga. E tudo isto não basta. É preciso, também, as memórias das vivências
passadas e mesmo estas não bastam. Pois é preciso também saber esquecê-las,
quando são muitas, e ter-se a imensa paciência de esperar que voltem novamente.
E, quando então tudo tiver retornado dentro de nós, como o sangue, a brilhar e
a gesticular sem se distinguir de nós mesmos, só então pode acontecer que, na
hora rara, a primeira palavra de um poema se levante no meio daquelas
experiências e delas prossiga."
A descrição do processo poético, de Rilke, pode aplicar-se a
qualquer outra arte. Consideremos o artista plástico diante de sua tela ou da
folha de papel em branco. Ao escolher uma cor ou preferir uma linha, o artista
revela ao mundo parte de sua vida. Alguma coisa que lhe pertencia,
exclusivamente, se faz partilhar naquela forma nova, criada por ele. São suas
paixões, seus dramas. São suas primeiras impressões de infância, o despertar
para o mundo, as inquietações da adolescência, os sonhos e arrebatamentos da
mocidade, a plenitude da idade madura. É a alegria do primeiro filho que nasce,
as noites de vigília à beira do berço, a capacidade humana e natural de poder
dar-se a alguém.
A arte não é incompatível com as coisas simples da vida. E,
para ser artista, não é preciso viver de um modo extravagante e original. Não é
preciso vestir-se excentricamente e andar pelas ruas de madrugada em rodas
boêmias, embora a arte não exclua qualquer experiência.
A vivência artística é a realidade de uma vida interior
intensamente vivida, onde os acontecimentos grandes e pequenos, originais ou
rotineiros, tem um valor eterno.
É indispensável que este mundo interior exista, para que
haja criação autêntica. É indispensável que exista esta integração perfeita das
experiências com a vida do artista. Que elas façam parte do seu sangue, como
diz Rilke, para que mais tarde frutifiquem como obra de arte. A mão que traça uma
linha e mistura uma cor não estará praticando um gesto vazio de sentido, mas
realizando o que sua experiência exigiu de um modo particular e sincero.
*Fotos de Maria Helena
Andrés
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