Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
domingo, 18 de maio de 2014
REALIDADE E SONHO
A França, desde
o século XIX tornou-se o principal centro das artes e a maioria dos movimentos
artísticos do modernismo teve início em Paris e ali se desenvolveu. Contra a
arte decadente e imitativa das academias de Belas Artes, começaram a germinar
na França as primeiras ideias revolucionárias. Dali surgiu o movimento moderno
de renovação. Foi na primavera de 1874 que jovens pintores hoje considerados
mestres, tais como Renoir, Monet, Pizarro, Sisley, Degas, Cézanne, inauguraram em
Paris a primeira exposição de arte moderna. A denominação impressionista dada
pejorativamente ao grupo por um crítico mais exaltado foi adotada.
Hoje em Montmartre os
turistas se aglomeram entre mesinhas, cavaletes e tintas. Querem ver os
artistas pintando. Atualmente, quase todos são acadêmicos, atendendo ao gosto
dos clientes, em contraste com os primeiros modernistas, que se reuniam naquele
mesmo local e que romperam com as normas do passado para trazer o novo, o
criativo. Sofrendo a incompreensão da crítica, passavam fome, não vendiam seus
quadros, recusavam condecorações.
Hoje, suas telas são
disputadas por preços astronômicos, pertencem aos grandes colecionadores e
fazem parte do acervo dos melhores museus do mundo.
Van Gogh morreu
pobre, era sustentado pelo irmão, nunca vendeu um só quadro. Hoje, suas telas
valem milhões de dólares. O mercado de arte num plano internacional tornou-se
uma bolsa de valores.
Os
intermediários disputam entre si o privilégio de vendas, daqueles que muitas
vezes sofreram privações para realizar suas obras.
Guignard foi um
deles. Viveu de forma simples, morreu pobre. Dava os quadros de graça para os
amigos, era generoso também em seus ensinamentos. Não guardava segredo de nada.
Pintava na frente de seus alunos, para que eles aprendessem a sua maneira de
pintar, mas não exigia seguidores. Respeitava as tendências individuais dos
jovens. Era admirado por intelectuais. Viveu numa época em que os
artistas plásticos tinham a liberdade de criar dos poetas e por isso mesmo
Guignard foi um poeta das cores. Pintava livremente como cantam os pássaros
celebrando a beleza dos céus de Minas, das ruas e montanhas de Ouro Preto.
Cecília Meireles em
seu artigo “Estrela Breve” registra de forma sensível a trajetória de Guignard
e sua morte repentina, no momento em que poderia desfrutar de uma vida mais
confortável. Num domingo, ela recebeu a notícia de que Guignard seria
finalmente amparado por uma Fundação, teria casa própria, automóvel, motorista
e segurança para trabalhar. “Com a Fundação Guignard tinham acabado aquelas
incertezas que afligiram o artista ao longo de sua existência”.
Em seu livro,
continua Cecília: “No Domingo, refletíamos sobre o mistério da vida: um homem
passa a maior parte da existência em sofrimento, abandono, miséria. De repente,
brilha sobre ele uma nova estrela e tudo muda. No domingo, despedimo-nos
contentes porque uma estrela bondosa viera iluminar o destino por tanto tempo
melancólico do pintor Guignard. Na segunda feira, veio a noticia de que o
grande pintor morrera.”
Isso nos faz
refletir sobre a condição da arte e dos artistas. A mesma história se repete ao
longo dos tempos.
Na sociedade
capitalista em que vivemos tudo vira mercadoria.
Esta visão
imediatista e consumista muitas vezes constitui um embaraço para pesquisas
históricas que poderiam ser feitas em torno daquele artista.
Esquece-se que uma
obra de arte autêntica nascida de um contato direto com o ser interno do
artista merece ser divulgada, conhecida e estudada.
O valor de um
trabalho artístico, suas qualidades expressivas, não se limita a números e
cifrões, mas atinge um espaço que lhe assegura realmente a permanência no tempo
e sua equiparação com as demais artes.
Este espaço, fora do
circuito mercadológico , os artistas conseguiram alcançar em vida e é justo que
eles possam servir de exemplo para outros.
*Fotos da internet
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domingo, 4 de maio de 2014
ABRACE A SERRA DA MOEDA
Este
convite é uma mensagem incisiva feita pelos moradores das montanhas.
Famílias
inteiras, jovens, idosos, crianças, cada um levando uma bandeira branca,
subiram o morro em procissão no dia 21 de abril, dia consagrado a Tiradentes,
herói da Inconfidência.
A
mensagem de paz foi levada até o topo da montanha, na proclamação de uma nova
Inconfidência, a inconfidência ecológica.
Levar
este abraço a todas as terras castigadas pela insensibilidade dos seres
humanos, é o que desejamos neste dia 21 de abril, segunda-feira, 2014.
Daqui
a alguns anos este clamor chegará aos ouvidos dos nossos netos e bisnetos,
todos aqueles que sobreviverão à destruição acelerada de Minas Gerais.
“Minério
não dá duas safras” foram as palavras de um antigo político de Minas Gerais
atestando para o que viria a acontecer anos após.
Sim,
a zona metalúrgica de Minas está sofrendo, o desgaste é galopante e é ingente
que se escute este alerta.
Minas
está morrendo...
Viajei
para Brasília recentemente.
Sentei-me
junto à janela do avião e fui apreciando
as plantações em torno da cidade de Brasília, todas organizadas em cores
diferentes obedecendo as formas geométricas – círculos coloridos lá em baixo,
círculos repetidos a perder de vista, um verdadeiro tapete de cores – ali as
plantações celebram a festa da natureza, e na próxima safra as cores serão
diferentes.
Procurei
no “Google” informações mais detalhadas sobre estas plantações que se
assemelham aos “ Crop Circles”, lá da Europa...
As
terras do Planalto Central são férteis e agradecem esta ordem das fazendas. Na
volta olhei para nossas Terras de Minas.
O
avião foi se aproximando de Belo Horizonte e ao invés de círculos coloridos, vi
crateras, escavações, sepultando para sempre a beleza da vegetação.
Na
sua destruição sem nenhuma reconstrução as Terras de Minas parecem dizer: Aqui,
em épocas remotas, existia uma montanha linda, um riacho, uma nascente.
É
urgente que se faça um planejamento tendo em vista a sustentabilidade. É
possível defender as montanhas que ainda restam, colocando-as como Monumentos.
O
Monumento Natural tem como objetivo básico preservar sítios naturais raros,
singulares ou de grande beleza cênica.
Algumas
montanhas rodeiam monumentos históricos como a Serra da Piedade ou os Profetas
de Congonhas.
Além
da beleza natural, Minas foi considerada como a caixa d’água do Brasil, em
especial a caixa d’água do sudeste brasileiro que já está também ameaçado pela
avidez dos seres humanos.
Acabar
com as nascentes de Minas, com os riachos e rios de nosso estado é afetar
também o Brasil como um todo.
Nosso
século está sendo muito egoísta para com as gerações futuras, desconhecendo por
completo que elas também têm direito à sobrevivência.
O
abraço na Serra da Moeda significou uma tomada de consciência.
Muitas
pessoas ali presentes tiveram o privilégio de beber água pura, vinda das
nascentes naturais.
É
preciso lembrar que a exploração do ferro, necessária ao progresso, não é tão
importante quanto a água que é essencial à vida.
O
abraço à Serra da Moeda se estendia para todas as outras serras e nascentes.
A
caminhada foi emocionante. Os helicópteros sobrevoavam a região registrando a
manifestação pacífica, onde crianças, adultos e idosos, caminhavam juntos com
bandeiras brancas. Havia uma mensagem de paz que se elevava aos céus, em prece
coletiva pela preservação dos rios das nascentes, das matas, dos animais
rupestres e das flores dos campos.
*Fotos de Maurício Andrés
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sexta-feira, 2 de maio de 2014
domingo, 13 de abril de 2014
VALOS, FLORESTAS LINEARES
Na fazenda de nossa família em Entre Rios de Minas, eu sempre ficava intrigada com os buracos que, como trincheiras, circundavam as áreas de terra. Um dia perguntei ao Euler, que mora na fazenda há muitos anos, o por que daquelas trincheiras. “São valos, cavados pelos antigos moradores dessas terras”. Segue abaixo um artigo do Euler sobre os valos:
“ Construídos no século XVIII, os valos são trincheiras de 1,5 a 2 metros de profundidade e largura, circundadas por árvores nas duas bordas. Junto com os muros de pedra e as cercas de madeira, também chamadas tapumes, constituíam as técnicas difundidas no Brasil colonial para delimitação de propriedades, separação de pastos e plantações. A vantagem evidente dos valos é a economia material: não requerem nenhum recurso a não ser a mão de obra para a retirada de terra.
Essa trincheira rural ainda separa no tempo as eras pré e pós revolução industrial. Claro que o arame farpado produzido na Inglaterra demorou mais de cem anos para se tornar popular no interior do Brasil. Enquanto isso, durante todo o século dezenove ainda se construíam valos, muros de pedra e tapumes. Esses últimos se popularizaram no semiárido com o uso do angico e da aroeira do sertão, madeiras de alta durabilidade: toneladas e mais toneladas de árvores foram derrubadas para que se cercassem os vizinhos, as vacas, as cabras, os jegues, os porcos e as galinhas.
No sudeste, os valos ainda permanecem nas regiões que foram ocupadas após a corrida do ouro do século dezoito: arredores de Ouro Preto, Mariana, São João del-Rey, Sabará e Caeté. Quem viaja pela região pode ver na paisagem linhas de árvores que sobem e descem os morros, quebrando a monotonia das pastagens de braquiária.
Meu avô plantava café na mata e nos valos. O café sombreado não produzia muito, mas tampouco demandava custosas adubações ou muitos tratos culturais. A sombra protege da geada, as folhas das árvores e gravetos em constante decomposição reciclam o solo e contribuem para sua estrutura porosa, sua umidade permanente e sua vida diversificada em fungos, bactérias, minhocas e milhares de outros pequenos seres – um verdadeiro conforto para a planta que costuma resultar em vida longa e produção continuada. Pés de café com mais de 100 anos ainda são produtivos nos quintais antigos das fazendas mineiras, nas bordas dos valos e das matas.
Nesse tempo em que se desconheciam a especialização e a economia de escala, a biodiversidade da produção era obrigatória. O manejo da matéria orgânica e a convivência harmônica com as matas naturais produziam um equilíbrio do solo que se refletia não na produção máxima por área (sofisma atual, que não leva em conta o custo real da energia não renovável embutida nos insumos químicos), mas na produção ótima, diversificada, econômica e permanente. Era motivo de orgulho dizer que numa propriedade se comprava apenas sal e querosene.
Em tempos de condomínios fechados, a versão monocultural do valo é a cerca viva de sansão do campo. Plantadas com espaçamento de vinte centímetros, as cercas vivas formam muros vivos e espinhentos que, embora não configurem abrigos para animais, têm a função principal de cercar a espécie humana. A diferença é que os valos evitam que os animais fujam, enquanto a cerca viva quer evitar, com a ajuda da escolta armada e das câmeras de segurança, que os humanos entrem.
Um ditado antigo diz que um cachorro vive dois tapumes, um cavalo vive três cachorros e um homem vive três cavalos. Talvez em razão da longevidade a perder de vista das nossas trincheiras de biodiversidade, o ditado não tenha sabido precisar quantos homens vive um valo.” (Euler Andrés Ribeiro, resumido da revista “Piseagrama”)
*Fotos de Euler Andrés Ribeiro e da internet
VISITE TAMBEM MEU OUTRO BLOG "MEMORIAS E VIAGENS, CUJO LINK ESTA NESTA PAGINA.
“ Construídos no século XVIII, os valos são trincheiras de 1,5 a 2 metros de profundidade e largura, circundadas por árvores nas duas bordas. Junto com os muros de pedra e as cercas de madeira, também chamadas tapumes, constituíam as técnicas difundidas no Brasil colonial para delimitação de propriedades, separação de pastos e plantações. A vantagem evidente dos valos é a economia material: não requerem nenhum recurso a não ser a mão de obra para a retirada de terra.
Essa trincheira rural ainda separa no tempo as eras pré e pós revolução industrial. Claro que o arame farpado produzido na Inglaterra demorou mais de cem anos para se tornar popular no interior do Brasil. Enquanto isso, durante todo o século dezenove ainda se construíam valos, muros de pedra e tapumes. Esses últimos se popularizaram no semiárido com o uso do angico e da aroeira do sertão, madeiras de alta durabilidade: toneladas e mais toneladas de árvores foram derrubadas para que se cercassem os vizinhos, as vacas, as cabras, os jegues, os porcos e as galinhas.
No sudeste, os valos ainda permanecem nas regiões que foram ocupadas após a corrida do ouro do século dezoito: arredores de Ouro Preto, Mariana, São João del-Rey, Sabará e Caeté. Quem viaja pela região pode ver na paisagem linhas de árvores que sobem e descem os morros, quebrando a monotonia das pastagens de braquiária.
Meu avô plantava café na mata e nos valos. O café sombreado não produzia muito, mas tampouco demandava custosas adubações ou muitos tratos culturais. A sombra protege da geada, as folhas das árvores e gravetos em constante decomposição reciclam o solo e contribuem para sua estrutura porosa, sua umidade permanente e sua vida diversificada em fungos, bactérias, minhocas e milhares de outros pequenos seres – um verdadeiro conforto para a planta que costuma resultar em vida longa e produção continuada. Pés de café com mais de 100 anos ainda são produtivos nos quintais antigos das fazendas mineiras, nas bordas dos valos e das matas.
Nesse tempo em que se desconheciam a especialização e a economia de escala, a biodiversidade da produção era obrigatória. O manejo da matéria orgânica e a convivência harmônica com as matas naturais produziam um equilíbrio do solo que se refletia não na produção máxima por área (sofisma atual, que não leva em conta o custo real da energia não renovável embutida nos insumos químicos), mas na produção ótima, diversificada, econômica e permanente. Era motivo de orgulho dizer que numa propriedade se comprava apenas sal e querosene.
Em tempos de condomínios fechados, a versão monocultural do valo é a cerca viva de sansão do campo. Plantadas com espaçamento de vinte centímetros, as cercas vivas formam muros vivos e espinhentos que, embora não configurem abrigos para animais, têm a função principal de cercar a espécie humana. A diferença é que os valos evitam que os animais fujam, enquanto a cerca viva quer evitar, com a ajuda da escolta armada e das câmeras de segurança, que os humanos entrem.
Um ditado antigo diz que um cachorro vive dois tapumes, um cavalo vive três cachorros e um homem vive três cavalos. Talvez em razão da longevidade a perder de vista das nossas trincheiras de biodiversidade, o ditado não tenha sabido precisar quantos homens vive um valo.” (Euler Andrés Ribeiro, resumido da revista “Piseagrama”)
*Fotos de Euler Andrés Ribeiro e da internet
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terça-feira, 1 de abril de 2014
O IMPACTO DO SER HUMANO NA EVOLUÇÃO DO PLANETA
Recebi
de Maurício Andrés o texto abaixo, que considero importantíssimo para a
conscientização dos problemas atuais do nosso planeta.
“A
partir da segunda metade do século XX, com a revolução da informática e do
conhecimento, a espécie humana ampliou sua capacidade de transformar a paisagem
do planeta Terra e a biodiversidade.
Como o ser humano tornou-se um agente que influi no
curso da evolução, as características do planeta que o hospeda são
crescentemente influenciadas por sua consciência, por seu conhecimento, bem
como pelas atitudes e comportamentos que adota individual ou coletivamente.
A espécie humana, por meio de sua cultura, ciência e
tecnologia, é capaz de influir sobre o rumo da evolução, ao modificar
geneticamente espécies existentes, num processo de seleção artificial. Uma
pequena parte dos sete bilhões de seres humanos, com maior ciência e
consciência, sabe que hoje ocorre uma grande extinção de espécies vivas; sabe
que as atividades de nossa espécie são uma das causas dessas transformações e
que elas afetam mais duramente alguns segmentos da sociedade do que outros; sabe que é possível influir no rumo da evolução. Nas grandes
extinções anteriores não se colocavam questões éticas ou políticas, pois na
natureza não existe o sentido do bem e do mal. No contexto atual, essas
questões éticas fazem sentido, pois a humanidade é a única entre as espécies
que dispõe da ética como um fator de seleção.
Postura ética e política diante dessa crise exige a
aplicação de valores tais como o da harmonia e da não violência. A ética
política busca a liberdade e o bem viver para todos ao evitar a guerra, a
violência, as relações indesejáveis, negativas, antagônicas e desarmônicas como
a predação, o parasitismo e a defesa de privilégios, o escravagismo, as
dominações social e politicamente injustas.
O ambientalista José Lutzenberger utilizou linguagem
poética para alertar que
"Só o cego intelectual, o imediatista, não se
maravilha diante desta multiesplendorosa sinfonia, não se dá conta de que toda
agressão a ela é uma agressão a nós mesmos, pois dela somos apenas parte. A
contemplação do inimaginavelmente longo espaço de tempo que foi necessário para
a elaboração da partitura e o que resta de tempo pela frente para um
desdobramento ainda maior do espetáculo até que se apague o Sol só pode levar
ao êxtase e à humildade. Assim, o grande Albert Schweitzer enunciou como
princípio básico de Ética 'o princípio fundamental‘ da reverência pela Vida em
todas as suas formas e manifestações'! Se há um pecado grave, esse é frear a
Vida em seu desdobramento, eliminar espécies irremediavelmente, arrasar
paisagens, matar oceanos" (LUTZENBERGER, 1970, p. 85).
O
ser humano interfere sobre o curso da evolução biológica e cultural no planeta.
Isso poderá, num cenário pessimista, levar ao autoextermínio da espécie; num
cenário mediano, a uma degradação crescente; e num cenário otimista, pode levar
ao aprimoramento do próprio processo evolutivo e do ambiente em que vivemos.
O futuro do ser humano está
em jogo. Não sabemos que tipo de ambiente, de climas e que espécies emergirão
ao final da atual mudança de era. É uma incógnita se emergiremos ao final desse
processo como uma espécie aprimorada ou se nos extinguiremos, juntamente com
outros milhares de espécies, incapazes de se adaptarem às novas condições
ambientais.
Nossa
espécie de seres em transição tanto pode ser incapaz de se adaptar às novas
condições climáticas e ambientais e sucumbir, como pode adaptar-se a
elas, evoluir para uma nova espécie com outra consciência e outro
comportamento, saindo melhorada e amadurecida ao final dessa época turbulenta.
Por meio de novos instrumentos e ferramentas, pode expandir sua capacidade
mental. Por meio de valores aprimorados, melhorar a qualidade de suas atitudes
e comportamentos. Pode passar, conscientemente, a produzir o ambiente e o
clima, tornando-se efetivamente indutora da evolução.” (Maurício Andrés, trecho do livro Meio Ambiente & Evolução
Humana, Editora Senac, Sao Paulo 2013, pgs 48 e 49.)
·
Ilustrações de
Maria Helena Andrés
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sexta-feira, 14 de março de 2014
GUARDIÃO DAS MONTANHAS
O quadro intitulado Guardião das Montanhas, pintado no Retiro das
Pedras em 1976, tem uma história, o seu título foi movido por uma
necessidade interior, que só hoje consigo interpretar: preservar,
defender e guardar a natureza dessa região privilegiada de Minas
Gerais. O "Guardião das Montanhas" está no limite entre o figurativo e
o abstrato, entre a terra e o céu. Embaixo as montanhas, bem
figurativas e riscando o céu incisivamente o gestual direto e firme do
guardião. Na vida real o guardião não é visível aos olhos, mas ele
existe. Existe e vai funcionar no tempo certo, quando a terra for
destruída pela ambição dos homens. A natureza parece serena e o sol se
levanta e se põe seguindo seu ciclo natural. Dizem que essa região foi
mar antigamente e da minha janela eu fico pensando: quantos anos se
passaram desde a formação dessas terras? Milhares de auroras e
poentes, milhares de plantas, de animais raros que se extinguiram.
Os homens vieram num passado recente, muito depois da formação da
paisagem. De acordo com os índios guaranis os homens vieram ao mundo e
receberam o dom da palavra para revelar aos outros seres humanos que
viemos da natureza e somos parte dela. Somos parte da natureza e parte
do universo.
Na Índia o Baghavad Gita nos diz: viemos de uma Essência e a ela vamos
retornar, todos nós, homens, animais e plantas.
O pensamento de retorno à Essência é o mesmo em todas as tradições.
Esse retorno pressupõe respeito e reverência pelo que já existe e se
formou naturalmente. As pedras existem e não foram plantadas, nem
cultivadas, sua formação espontânea seguiu o ritmo da criação da Terra
e remete a milênios. As pedras assistiram a história de Minas com a
chegada dos bandeirantes movidos sempre pela ambição das riquezas.
Pedras reluzentes, esmeraldas e brilhantes tiveram também uma história
a nos contar, de perdas e ganhos, de morte e ostentação, de viagens
pelos mares a caminho da corte. A ambição das riquezas movimentou e
povoou as cidades mineiras, construídas ao longo das montanhas,
seguindo o ritmo das lavras. Diamantina teve sua história de luxo e
poder, Vila Rica guardou por muito tempo seu título de capital das
Minas.
A história de Minas Gerais traz a memória dos exploradores da terra,
que para as montanhas traziam também a cultura de além-mar. Arquitetos
e artistas construíram as cidades que hoje são parte do nosso
patrimônio. Houve luta, injustiça e morte durante o processo lento da
exploração das pedras e do ouro, mas em compensação um legado
artístico nos foi deixado. Essas duas fases de exploração de Minas
Gerais já fazem parte do nosso passado. No momento assistimos a uma
terceira fase da exploração de Minas Gerais, a fase do Ferro.
Estamos na era da velocidade. A tecnologia moderna possibilitou o
acesso rápido a todos os empreendimentos. A devastação da natureza que
se processou lentamente nos séculos anteriores, hoje alcança uma
velocidade assustadora. Há máquinas que sugam o solo, penetram as
profundezas da terra em busca do minério mais procurado hoje em dia, o
ferro.
SOS Planeta Terra! É necessário que haja um desenvolvimento
sustentável nas áreas exploradas pelas mineradoras.
No 2º Festival de Inverno de Entre Rios de Minas, crianças da cidade
se manifestaram de uma forma surpreendente, conscientizando os adultos
da sua responsabilidade. Transcrevo um pequeno texto surgido
espontaneamente durante oficina de Literatura de Cordel:
Queremos viver
Queremos cantar
Queremos aprender
O verde preservar
É importante lembrar que a Serra da Calçada, onde estão situados
vários condomínios residenciais próximos a Belo Horizonte, faz parte
da Serra do Espinhaço, reconhecida pela Unesco como uma reserva da
Biosfera. Nesta região existem plantas e animais raros, que só podem
sobreviver nos campos rupestres. Com a derrubadas das árvores para
sondagem do solo, os animais desorientados começam a invadir os
condomínios vizinhos. Qual seria a forma de atuar nessas áreas
preservadas? Qual o caminho que podemos escolher para preservação
dessa natureza privilegiada?
Às vezes fico pensando o que seria do Pão do Açúcar e do Corcovado se
ali existisse minério de Ferro. O Cristo redentor, considerado hoje
como a 3ª maravilha do mundo moderno, não teria conseguido este grande
prêmio. O Cristo não está sozinho, pertence a uma paisagem de
montanhas que fazem do Rio de Janeiro a Cidade Maravilhosa.
Pedras em 1976, tem uma história, o seu título foi movido por uma
necessidade interior, que só hoje consigo interpretar: preservar,
defender e guardar a natureza dessa região privilegiada de Minas
Gerais. O "Guardião das Montanhas" está no limite entre o figurativo e
o abstrato, entre a terra e o céu. Embaixo as montanhas, bem
figurativas e riscando o céu incisivamente o gestual direto e firme do
guardião. Na vida real o guardião não é visível aos olhos, mas ele
existe. Existe e vai funcionar no tempo certo, quando a terra for
destruída pela ambição dos homens. A natureza parece serena e o sol se
levanta e se põe seguindo seu ciclo natural. Dizem que essa região foi
mar antigamente e da minha janela eu fico pensando: quantos anos se
passaram desde a formação dessas terras? Milhares de auroras e
poentes, milhares de plantas, de animais raros que se extinguiram.
Os homens vieram num passado recente, muito depois da formação da
paisagem. De acordo com os índios guaranis os homens vieram ao mundo e
receberam o dom da palavra para revelar aos outros seres humanos que
viemos da natureza e somos parte dela. Somos parte da natureza e parte
do universo.
Na Índia o Baghavad Gita nos diz: viemos de uma Essência e a ela vamos
retornar, todos nós, homens, animais e plantas.
O pensamento de retorno à Essência é o mesmo em todas as tradições.
Esse retorno pressupõe respeito e reverência pelo que já existe e se
formou naturalmente. As pedras existem e não foram plantadas, nem
cultivadas, sua formação espontânea seguiu o ritmo da criação da Terra
e remete a milênios. As pedras assistiram a história de Minas com a
chegada dos bandeirantes movidos sempre pela ambição das riquezas.
Pedras reluzentes, esmeraldas e brilhantes tiveram também uma história
a nos contar, de perdas e ganhos, de morte e ostentação, de viagens
pelos mares a caminho da corte. A ambição das riquezas movimentou e
povoou as cidades mineiras, construídas ao longo das montanhas,
seguindo o ritmo das lavras. Diamantina teve sua história de luxo e
poder, Vila Rica guardou por muito tempo seu título de capital das
Minas.
A história de Minas Gerais traz a memória dos exploradores da terra,
que para as montanhas traziam também a cultura de além-mar. Arquitetos
e artistas construíram as cidades que hoje são parte do nosso
patrimônio. Houve luta, injustiça e morte durante o processo lento da
exploração das pedras e do ouro, mas em compensação um legado
artístico nos foi deixado. Essas duas fases de exploração de Minas
Gerais já fazem parte do nosso passado. No momento assistimos a uma
terceira fase da exploração de Minas Gerais, a fase do Ferro.
Estamos na era da velocidade. A tecnologia moderna possibilitou o
acesso rápido a todos os empreendimentos. A devastação da natureza que
se processou lentamente nos séculos anteriores, hoje alcança uma
velocidade assustadora. Há máquinas que sugam o solo, penetram as
profundezas da terra em busca do minério mais procurado hoje em dia, o
ferro.
SOS Planeta Terra! É necessário que haja um desenvolvimento
sustentável nas áreas exploradas pelas mineradoras.
No 2º Festival de Inverno de Entre Rios de Minas, crianças da cidade
se manifestaram de uma forma surpreendente, conscientizando os adultos
da sua responsabilidade. Transcrevo um pequeno texto surgido
espontaneamente durante oficina de Literatura de Cordel:
Queremos viver
Queremos cantar
Queremos aprender
O verde preservar
É importante lembrar que a Serra da Calçada, onde estão situados
vários condomínios residenciais próximos a Belo Horizonte, faz parte
da Serra do Espinhaço, reconhecida pela Unesco como uma reserva da
Biosfera. Nesta região existem plantas e animais raros, que só podem
sobreviver nos campos rupestres. Com a derrubadas das árvores para
sondagem do solo, os animais desorientados começam a invadir os
condomínios vizinhos. Qual seria a forma de atuar nessas áreas
preservadas? Qual o caminho que podemos escolher para preservação
dessa natureza privilegiada?
Às vezes fico pensando o que seria do Pão do Açúcar e do Corcovado se
ali existisse minério de Ferro. O Cristo redentor, considerado hoje
como a 3ª maravilha do mundo moderno, não teria conseguido este grande
prêmio. O Cristo não está sozinho, pertence a uma paisagem de
montanhas que fazem do Rio de Janeiro a Cidade Maravilhosa.
*Fotos de Euler Andrés
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sábado, 1 de março de 2014
OLHE BEM AS MONTANHAS
Cantor, violonista, flautista,
compositor e arranjador, o músico Alexandre Andrés vem sendo reconhecido como
um dos artistas mais promissores da nova geração em Minas Gerais. Alexandre
Andrés vem desenvolvendo um trabalho criativo intenso, tanto na música
instrumental quanto no terreno das canções, feitas em parceria com o letrista
mineiro Bernardo Maranhão e registradas nos dois primeiros CD de Alexandre,
“Agualuz” (2009) e Macaxeira Fields (2012). Para esse show no Teatro SESC
Palladium, Alexandre lançou seu terceiro álbum autoral, intitulado "Olhe
bem as montanhas" que contará com um repertório que mescla canções e obras
instrumentais. O CD foi gravado em dezembro de 2013, contando com a
participação, além de Alexandre, dos músicos Rafael Martini, Trigo Santana e
Adriano Goyatá e do renomado engenheiro de som, Chico Neves.
Quando Alexandre nasceu, eu me
encontrava na Índia, com um pequeno grupo de brasileiros. Havíamos visitado o
ashram de Ramana Maharishi, situado no sul da Índia, junto à montanha de
Arunachala. Arunachala é considerada montanha sagrada, onde o deus Shiva
apareceu em forma de uma coluna de luz. Há cânticos devocionais em torno desta
montanha, as pessoas vêm de longe para reverenciá-la. Na despedida do ashram
viemos cantando Arunachala Shiva Shiva, até que ela sumisse na curva da
estrada. Foi quando me surpreendi cantando “Alexandre, Shiva, Shiva”.
Meu neto, Alexandre Andrés, naquele
momento, nascia no Brasil. Hoje, este mesmo neto já tem 23 anos, é um músico
conhecido no Brasil e no exterior, já percorreu o mundo, já esteve em Nova
York, produziu vários Cds e o último, Macaxeira Fields, conquistou recentemente
o prêmio de melhor música brasileira, concedido por um grupo de críticos e
jornalistas do Japão.
O CD Macaxeira Fields foi editado no
Japão e este próximo, que está sendo lançado em Belo Horizonte, também seguirá
para o Japão.
No momento, Alexandre está prestando
homenagem às nossas montanhas. “Olhe bem as montanhas” foi o título escolhido
por Alexandre para este novo CD. Lembro-me de Manfredo Souza Neto e seus
adesivos que, colocados nos carros, percorriam a cidade. Agora a música de
Alexandre homenageia as montanhas.
A música, de todas as artes, é a que
mais toca a sensibilidade das pessoas. Através da música, penetramos na
floresta Amazônica, sentimos a unidade do planeta, tomamos consciência de que
estamos morando num lugar privilegiado, cercado de montanhas. Alexandre e sua
equipe de jovens artistas está tocando para as montanhas, para que elas sejam
consideradas sagradas como a montanha de Arunachala, na Índia, e não como uma
fonte de lucros materiais.
Que a música abra a nossa consciência
para esta ligação que temos com a terra, com as águas, as montanhas e os céus
de Minas.
Lembro aqui as palavras de um grande
índio, o Chefe Seattle:
“Como
é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa idéia nos parece
estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível
comprá-los?
Cada
pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro,
cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira e
inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo. A seiva que
percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho.”
“Olhe
bem as montanhas” vai percorrer o mundo com a sua mensagem de paz.
*Fotos de arquivo,
de Maria Helena Andrés e da internet
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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
RAÍZES ECOLÓGICAS DAS MANIFESTAÇÕES SOCIAIS
O artigo abaixo é
uma resenha de um artigo maior de Maurício Andrés (*), publicado no caderno “Pensar” do jornal
Estado de Minas em 1-2-2014.
“Entre
2006 e 2013 ocorreram 843 protestos pelo mundo, em 87 países, na esteira dos
desdobramentos da crise econômica e financeira global. Em 2012 e 2013 houve protestos no Brasil, na Turquia, no Egito, na Tunísia
bem como revoltas na Espanha, Grécia, França, Estados Unidos.
Moisés Naim escreveu
que os protestos na Tunísia, Chile, Turquia e Brasil revelam seis aspectos
surpreendentemente semelhantes: pequenos incidentes se tornam grandes, os
governos reagem mal aos movimentos, não há líderes ou cadeia de comando, não há
ninguém nem grupo específico com quem negociar ou a quem prender, e é
impossível prever conseqüências.Naim citou a observação de Samuel Huntington,
segundo a qual, nos países em desenvolvimento, as demandas por serviços
públicos crescem mais rápido do que a capacidade dos governos para
satisfazê-las.
A radicalização e a polarização tornam-se métodos
para se fazer ouvir, para se fazer enxergar, exigir cuidado, obter atenção.
Demanda-se
mais transparência, mais justiça econômica e melhoria nos serviços públicos;
mais justiça fiscal, mais trabalho e emprego, mais moradia. Demanda-se também
mais liberdade de expressão, mais justiça ambiental e mais direitos para grupos
indígenas, étnicos, das mulheres, de minorias como as LGBT, de imigrantes, de
população carcerária. Reclama-se a reforma da previdência, pela reforma agrária
e por outras reformas.
Os protestos de
2013 mostraram que há crise de representação política tanto em governos
autoritários como na democracia representativa, que estaria falida. Muitas
pessoas em vários países do mundo não se sentem mais representadas nem pelos
representantes eleitos, nem pelos partidos políticos existentes. Os
manifestantes perderam a esperança e a confiança na democracia
representativa e nas instituições democráticas do modo como atuam. Há a
percepção crescente de que os políticos não priorizam as demandas da população;
há frustração com a política usual.
Protestou-se em toda parte contra a falta de democracia real, que impede que as
demandas econômicas e sociais sejam atendidas.
Aos motivos mais visíveis e manifestados
expressamente das insatisfações sociais é oportuno explicitar que em sua
origem, muitas remontam a fatores ambientais e climáticos.
De acordo com Jared Diamond , em seu livro
“Colapso”, o encadeamento de problemas que leva ao colapso começa com a sobrecarga
no ambiente, o esgotamento de recursos e da capacidade de suporte, mudanças
climáticas, tensão social, empobrecimento econômico, conflitos políticos e
finalmente o colapso. A escassez e encarecimento dos alimentos, por exemplo,
frequentemente têm origem em secas e eventos climáticos extremos, que tendem a
se tornar mais intensos e frequentes. Muitas sociedades estão se tornando
incapazes de relacionar-se, de modo duradouro, com a base física natural na
qual vivem.Tal incapacidade depreda recursos naturais, empobrece a base de riqueza natural, o que,
por sua vez, resulta no empobrecimento econômico e no acirramento de conflitos
políticos e sociais. Esses processos desagregadores provocam a decadência e o
colapso. A cegueira e a surdez dos governantes decorre em boa medida da falta
da compreensão sobre esses encadeamentos de problemas. A ecoalfabetização pode,
portanto, ser um modo eficaz de reduzir esse déficit de entendimento.
Procurar
compreender as raízes ecológicas profundas das insatisfações sociais, situá-las
como sinais e sintomas de uma crise maior no contexto da evolução social e
política da humanidade, pode ser valioso para
se participar ativamente ou como observadores conscientes nesses
processos que se desenvolvem em nosso tempo.”
(*) Escritor, autor dos livros Ecologizar, Tesouros da
Índia e Meio Ambiente & Evolução humana. www.ecologizar.com.brecologizar@gmail.com
*Fotos da
internet
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domingo, 2 de fevereiro de 2014
DUAS MONTANHAS SAGRADAS
Machapuchre constitui um dos pontos mais altos dos Himalaias.
Esse nome me fez lembrar Machu-Picchu no Peru.
Grande parte da população do Nepal mora em aldeias e trabalha no
campo, onde planta trigo, mostarda, couve-flor e milho. As plantas estendem-se
pelo vale ou vão subindo as montanhas em patamares verdes. Também os patamares
assemelham-se ao sistema inca de agricultura no Peru.
No passado, antes da submersão da Atlântida, as terras do
Oriente e do Ocidente eram unidas, e, talvez venha daí a semelhança dessas
palavras referentes às montanhas. Os símbolos eram também semelhantes e muitas
vezes tinham o mesmo significado. Existem esculturas de
serpentes
representando a energia de Kundalini, que podem ser encontradas na região dos
Himalaias e também na Cordilheira dos Andes. As mandalas tibetanas irradiam a
mesma energia da grande pedra do sol do calendário asteca e os símbolos fálicos
são também comuns nessas duas regiões do planeta. A semelhança de
comportamento, o aspecto físico, o modo de andar dos habitantes das montanhas,
o uso das mãos no artesanato, os grandes xales onde as mães carregam os filhos
às costas, nos dão testemunho de que o mundo é realmente uma única família. Não
existe separatividade entre Norte e Sul, Leste e Oeste. O mesmo sol ergue-se
sobre a terra, mas, quando nasce no Oriente está morrendo no Ocidente, para
depois, ali renascer de novo, com toda a solenidade de um momento cósmico.
*Fotos da internet
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sábado, 18 de janeiro de 2014
ECOLOGIZAR, O VERBO DA VEZ
Recebi de
Maurício Andrés o texto sobre ecologia, que transcrevo abaixo:
O
antropólogo,sociólogo e filósofo das ciências francês Bruno Latour deu uma
entrevista (O Globo, 28-12-2013), na qual falou que ‘ecologizar’ é o verbo da
vez: “Ecologizar é dizer: já que, de fato, não separamos questões de natureza e
de política, já que a História recente dos humanos na Terra foi o embaraçamento
cada vez mais importante das questões de natureza e de sociedade, se é isso que
fazemos na prática, então que construamos a política que lhe corresponda em vez
de fazer de conta que há uma história subterrânea, aquela das associações, e
uma história oficial, que é a de emancipação dos limites da natureza.
Ecologizar é um verbo como modernizar, exceto que se trata da prática e não
somente da teoria. É preciso inovar, descobrir novas formas, e isso se parece
com a modernização. Mas é uma modernização que aceita seu passado. E o passado
foi uma mistura cada vez mais intensa entre os produtos químicos, as florestas,
os peixes, etc. Isso é “ecologizar”. É a instituição da prática e não da
teoria.”
Até 2007, esse verbo
ainda não existia em dicionários em português, mas existia em castelhano. Em
2007, ele foi incluído na enciclopédia global Wikipédia, depois de um período
de debates sobre a pertinência de inclui-lo.
Ver link http://pt.wikipedia.org/wiki/Ecologizar.
Em outubro de 2007, a pesquisa do termo ecologizar no Google apresentava 9.670
registros. Em abril de 2009 havia 20.500 registros e em janeiro de 2014, 22.200
registros em português. Em francês, para o verbo ecologiser, havia 9.970
resultados.
Definições
do verbo ecologizar podem ser encontradas em alguns dicionários, porém de modo
ainda rudimentar. No
Aulete, é definido como “Conscientizar para a importância
dos princípios ecológicos”. Tal definição ressalta o aspecto da consciência,
mas não o de sua aplicação prática.
Uma
professora da cidade de Salta, na Argentina, fez um dicionário de verbos.
Meninas de 9 a 12 anos foram convidadas a defini-lo e
ilustrá-lo. Um dos
que elas definiram foi o verbo Ecologizar. As definições dadas pelas crianças
argentinas refletem com clareza a variedade de concepções. Elas focalizam o mundo animal e vegetal; relacionam o ser humano
com o ambiente; chamam a atenção para a responsabilidade humana por cuidar da
Terra e do ambiente. Uma delas expressou as ameaças relacionadas com os
desequilíbrios ecológicos e climáticos (Pensar que no futuro não existiremos);
outra mostrou a importância da consciência ecológica (Usar a cabeça para
proteger o meio ambiente); outra, ainda, chamou a atenção para a unidade entre
o ser humano e o mundo, cujos destinos se entrelaçam (Pensar que se algo ocorre
com a Terra, também acontecerá com o homem); outra enfatizou a importância de
conhecer o aspecto original da ecologia, que relaciona bichos e plantas com seu
ambiente (Inventar uma “plantologia” e uma “animalogia”); a relevância da ação
humana (Fazer de nosso mundo um lugar melhor). Outras definições apontaram o
poder do sentimento, do amor, do afeto, do cuidado com o planeta (Sentir o meio
ambiente em suas mãos e cuidar dele); (Unir-se com a vida. Amar o mundo onde
vives); (Dar um grande abraço no planeta). As meninas expressaram ideias
relacionadas com o medo, com as consequências para o ser humano em sua relação
com o meio ambiente, a importância da ciência e do pensamento.
No livro O verde é
negócio, Hans Jöhr mencionava a “ecologização” da empresa, do escritório, da
fábrica, do processo, do comércio internacional. Alguns pioneiros, como Edgar
Morin, propuseram ecologizar o pensamento.
De minha parte, defino ecologizar
como a ação de aplicar em todos os campos da vida os conhecimentos das ciências
ecológicas. Ainda existe um déficit de compreensão do que seja
ecologia. Entendimentos rudimentares a associam a bichos, plantas e sua relação
com o ambiente em que vivem. Alguns a associam com a concepção biológica, pois
a ecologia se originou nas ciências naturais no século XIX. Entretanto, ao
longo do século vinte ela se ramificou em inúmeros campos – ecologia humana,
ecologia cultural, ecologia política, ecologia social, ecologia energética,
ecologia profunda ou do ser etc. Cada um desses campos tem seu
conjunto próprio de conhecimentos e práticas. Ecologizar é um
verbo e verbo é ação. Ecologizar é ativar o modo de ação ecológica necessário
para direcionar o rumo da evolução. Da mesma forma como a sociedade se
informatizou rapidamente no final do século XX, precisa rapidamente se
ecologizar no inicio do século XXI.
Por
acreditar na fecundidade desse verbo e das potencialidades de sua aplicação,
escrevi em 1998 o livro Ecologizar. Em sua 4ª edição, em 2009, o livro
desdobrou-se numa trilogia: o primeiro volume aborda os princípios para a ação;
o segundo volume aborda os métodos para a ação. E o terceiro volume aborda os
instrumentos para a ação. Como alguém que em sua vida profissional atuou na
gestão ambiental, aprendi que o campo da gestão ambiental é um campo de gestão
de conflitos, de construção de consensos possíveis e de criação de uma cultura
de paz. Naquele mesmo ano de 1998, Bruno Latour perguntava em artigo
“Modernizar ou ecologizar? essa é a questão”. Ele abordava o tema a partir de
uma visão da ecologia política, de gestão de conflitos de interesses que se
manifestam em vários dos temas ecológicos.
É preciso
saudar o fato positivo de que ecologizar esteja sendo hoje proposto por Latour
como o verbo da vez.
*Fotos de arquivo
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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
AMÍLCAR DE CASTRO, REPETIÇÃO E SÍNTESE
Escrevo num guardanapo no pátio do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) em Belo Horizonte. Enquanto
espero, vejo grupos de teatro interpretando histórias de BH, os tempos
imemoriais da rua da Bahia, a boemia da Gruta Metrópole, as meninas olhando o
bonde passar.
Lá dentro, nos salões do CCBB, maravilhosamente
reformados para este espaço cultural, uma exposição histórica e cultural
acontece. É a retrospectiva com mais de 500 obras, de meu amigo e grande
artista Amílcar de Castro. Felizmente ainda estou aqui na Terra para ver os
colegas famosos sendo visitados, estudados e pesquisados pelo público interessado
em arte. Amílcar começou a estudar arte à sombra do Parque Municipal, rodeado
de alunos e alunas do Mestre Guignard. Saímos juntos para exposições e, lado a
lado, aprendemos a usar o lápis duro e a linha contínua.
Amílcar aproveitou as lições do mestre, desenvolveu
sua própria técnica, criou uma direção nova para a escultura mineira. O ferro
tornou-se arte, uma arte de síntese como ele mesmo denominou, síntese e
repetição. As formas são múltiplas e crescem em dimensões diferentes, alcançando
o espaço com força e coragem.
Amílcar, na
sua trajetória, conquistou um nome nacional e internacional
A escultura contemporânea requer uma equipe para sua
realização. Esta equipe necessariamente deve ser de grande competência e
Amílcar encontrou o caminho certo no arquiteto Allen Roscoe, seu assessor. A
exposição no CCBB vem comprovar o quanto de esforço foi exigido do jovem
arquiteto para que estas esculturas monumentais pudessem existir. Hoje Allen
trabalha para vários artistas, inclusive artistas do Rio e São Paulo. Allen
Roscoe foi também fundamental para a realização de minhas esculturas.
Amílcar costumava frequentar a Oficina 5, atelier
dirigido por Thais Helt, esposa de Allen, onde ele e vários artistas podiam
trabalhar em pedras litográficas. Thais preparava as pedras e cada artista se
expressava a seu modo. Muitas gravuras ali realizadas por Amílcar, estão
presentes nesta exposição. O atelier de Thais era um ponto de encontro de
artistas e ali podíamos também conversar e trocar idéias. Nesta equipe de trabalho, acrescento a
participação de Márcio Teixeira, que acreditou na potência de Amílcar e
patrocinou suas esculturas, bem como a excelente curadoria de Evandro Salles.
Reproduzo aqui alguns textos do catálogo da
exposição:
“Com curadoria de Evandro Salles, a exposição reúne
mais de 500 obras entre pinturas, esculturas em aço, madeira, vidro e mármore,
coleção inédita de projetos de esculturas e uma grande coleção de litografias,
muitas delas de grandes dimensões e nunca antes vistas em exposições.”
“O mineiro Amílcar de Castro foi um dos criadores –
ao lado de Lígia Clark, Lígia Pape e Hélio Oiticica, entre outros- de vertente
fundamental do movimento construtivo brasileiro, o Neoconcretismo. Esse
movimento configurou-se no Rio de Janeiro, no final da década de 1950 e seus
principais teóricos foram os críticos Mario Pedrosa e Ferreira Gullar.”
“Amílcar foi fundamentalmente escultor, desenhista e
artista gráfico. Como artista gráfico, foi autor de uma das mais importantes
reformas gráficas da imprensa brasileira: a reforma do Jornal do Brasil,
realizada em 1957.”
“A grande invenção escultórica de Amílcar foi seu
método construtivo denominado de “corte e dobra”, que consiste em, a partir de
um plano, inscrever uma forma e lançá-la ao espaço de três dimensões. (Evandro
Salles)
*Fotos de arquivo
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