Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
GLORIOSA IDADE
Foi ao som de Noel Rosa e bossa
nova, tocando na vitrola recém-consertada, que a artista
plástica, escritora e professora Maria Helena Andrés recebeu a repórter Ana
Brant do Estado
de Minas em sua casa, no Retiro das Pedras. “O vinil tem um som
mais quente, por isso gosto de escutar e dançar. Olha que disco mais atual este
do Noel! Foi feito há muito tempo atrás. Se bobear o que produzi há 50 anos
está mais atualizado em termos de mercado do que o que produzo hoje. Igual ao
Noel Rosa”, observa Maria Helena.
Prestes a celebrar 90 anos
em agosto, ela está às voltas com seus dois blogs, Minha vida de artista (mariahelenaandres.blogspot.com)
e Memórias e viagens (memoriaseviagensmha.blogspot.com), e com a
exposição que vai marcar o seu aniversário. “Tem gente que acha fantástico
esconder a idade. Acho fantástico não esconder. No Oriente, as pessoas têm o
costume de perguntar qual a sua gloriosa idade. E tenho uma gloriosa idade.
Longevidade é bom sim, mas tem que viver
bem. Longevidade com hospital
não adianta. Vivo bem. A pessoa não pode ficar à toa. Quando a cabeça está
desocupada, só pensa coisa que não presta e aí não vale a pena”, filosofa Maria
Helena, que teve sua formação artística com Carlos Chambelland, no Rio de
Janeiro; Alberto Guignard e Edith Bhering, em Belo Horizonte ; e
Theodoros Stamos, em Nova
York.
A mostra que vai celebrar suas
nove décadas de vida e os quase 70 de trabalho vai entrar em cartaz no dia 18
de agosto na Galeria Livrobjeto, na Pampulha. Além das telas com temas
recorrentes, como os barcos e as cidades, e esculturas inspiradas em desenhos
do concretismo que ela mesmo esboçou, Maria Helena Andrés releva que vai
apresentar vários pergaminhos, simulando rolos chineses, com pinturas e textos
produzidos por ela. “Esse projeto vai
mostrar o que estou fazendo agora. Não gosto de repetir. As pessoas têm essa
mania. Gosto de ir renovando minha obra de acordo com a idade. A gente se cansa
das mesmas coisas, por isso é bom variar. Minha principal preocupação é fazer o
que sinto vontade, usar a minha criatividade, atender uma necessidade interior,
mesmo que não atenda o mercado”, preconiza a artista, que acredita que um dos
segredos de estar tão bem aos 90 anos é ter sempre as mãos trabalhando e focar
no presente. “Senão elas atrofiam. E, além do mais, não faço planos. Não se
pode preocupar só com o passado ou o futuro. Viver o presente é o que importa e
o aqui e agora é sempre mais bonito”, garante.
Vivendo há 34 anos em uma casa no Retiro das
Pedras, onde também funciona seu ateliê, Maria Helena conta que costuma passar
uma parte da semana no ‘meio do mato’ e outra em Belo Horizonte e
que esse contato com a cidade é extremamente profícuo. “Costumo passar uns dias
aqui e outro em BH. Acho
extremamente importante ter esse contato com o meio urbano. Não dá pra ficar o
tempo todo isolado. É bom para a cabeça. Tem muita coisa interessante em Belo Horizonte. Seja
nas artes plásticas ou na música. A cidade está fervilhando em várias áreas”,
pontua.
Mas, sem dúvida, é no alto das
montanhas que ela se sente plena. Seja contemplando o horizonte, sentindo a
natureza, descendo e subindo com destreza as escadas sinuosas de sua casa, a
artista plástica sequer reclama da baixa temperatura, típica da região, e que
se intensifica neste período do ano. “Dou-me muito bem com frio e vento. O
pessoal diz que sou conservada. Claro, vivo numa geladeira”, brinca, enquanto
relembra as inúmeras viagens que fez pelo mundo, principalmente para o Oriente,
como Nepal, Tibete, Japão, Tailândia e Índia, onde chegou a morar por um ano.
Boa parte das experiências vividas
nesses países está nos blogs criados por ela, que são atualizados semanalmente,
com o auxílio da filha Ivana. Maria Helena diz que é adepta das novas
tecnologias e que isso facilita seu trabalho. A última aquisição foi um
presente do neto: um iPad. “Gosto muito de mexer com ele, é bem interessante.
Essas coisas modernas ajudam muito. São importantes como informação e como
formas de comunicação com o mundo. Tenho muito contato com pessoas de fora do
país. Meu blog tem cerca de 20 mil acessos e as pessoas ficam curiosas querendo
saber sobre Guignard, sobre o construtivismo em Minas, momentos que vivenciei
bem”, justifica.
Nascida poucos meses depois da
Semana de Arte Moderna, Maria Helena Andrés acredita que ter vindo ao mundo em
uma época tão efervescente culturalmente pode tê-la inspirado de certa forma.
“Enquanto puder viver nessa Terra, que é tão bonita, cheia de cores, sons, com
uma natureza maravilhosa, vou aproveitar o máximo. É um privilégio e temos
sempre que nos manifestar de forma positiva. Se for para espalhar negativismo
não compensa. É assim que deve ser”, resume.
*Fotos de Maria Tereza Correia e
Maria Helena Andrés
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domingo, 8 de julho de 2012
EYMARD BRANDÃO NA ÍNDIA
Visitei a exposição de Eymard
Brandão na Galeria da C/Arte, na Pampulha, em Belo Horizonte. Num
espaço muito próprio para seus quadros, onde se destaca a busca do
aproveitamento de recursos da terra, fui relembrando acontecimentos que, de
certo modo, marcaram a arte de Eymard.
Sua viagem à Índia em 1979
certamente contribuiu para esse trabalho contemplativo que busca na terra a sua
referência. Eymard tem seu atelier em Nova Lima e, nessa região onde as mineradoras
estão sempre em busca do lucro extraído da terra, Eymard, serenamente dela
extrai sua arte. Recolhe tintas e pedras do chão de Minas e, como alquimista,
vai construindo painéis coloridos que, vistos em seu conjunto, alinhados na
exposição livro-objeto, me recordam os sáris da índia. A Índia está presente
nessa exposição também no depoimento do próprio artista em seu livro da série
Circuito Atelier. Transcrevo em seguida trechos desse texto:
“A ecologia não surgiu em meu
trabalho. Foi sendo a ele incorporada gradativamente, por uma série de fatores
externos e internos. Estava me preparando para fazer o curso de pós graduação
em Londres, no Royal College of Arts, quando assisti a uma palestra de Maria
Helena Andrés. Nessa palestra ela abordava, entre outros assuntos, uma escola que
conheceu no sul da Índia chamada World Academy of Wonder ( a palavra wonder
significa uma forma específica de percepção na arte). Essa escola era uma das
unidades de uma universidade que englobava diversas áreas como arte,
literatura, música, fotografia, dança, teatro, etc. Mudar os referenciais e
viver esse encontro de Oriente e Ocidente através da arte passou a me atrair
profundamente. Enviei o currículo e recebi uma resposta promissora, juntamente
com a explanação dos cursos oferecidos. Consegui uma bolsa de estudos e tive,
naquele país, uma experiência de arte e de vida extremamente gratificantes.”
“Estudantes do mundo inteiro
conviviam nessa escola, com novas possibilidades de lidar com seu potencial.
Estruturas circulares eram desenvolvidas dentro de padrões milenares e, ao
mesmo tempo, contemporâneas, para o trabalho realizado nas formas de ensino ali
experimentadas. A história da arte era abordada pelo aspecto psicológico. E as
cores da natureza eram relacionadas com nossas emoções, para depois serem
aplicadas no papel, na tela ou em formas na terceira dimensão. Com folhas e
flores, construíamos belas mandalas. Uma estrada pela floresta levava a um
grande e bonito lago. Em frente a ele, subindo para a montanha, uma placa de
madeira indicava a entrada da escola. Nela, sugestivas palavras nos convidavam
a deixar as sombras de nossos egos para trás e lidar com as formas de estudo
ali propostas, onde conviver com os ritmos e mistérios da natureza eram um
ensinamento diário, por ser o universo em si, como um próprio campo no qual o
jogo cósmico da arte vem acontecendo desde tempos imemoriais.”
Relembrando minhas viagens à
Índia, vou encontrando referências também na arte de Eymard Brandão que é, sem
dúvida, uma manifestação de seu próprio self de artista. A palavra self, usada
por Jung para significar o centro psicológico do “ser” tem diferentes
denominações nas diversas religiões do mundo. Significa o Cristo interno dos
cristãos, o Atman dos hindus, a Luz interna de Krishnamurti.
O verdadeiro “eu” se encontra
na parte interior, mais profunda de nosso ser, nos disse Sri Aurobindo em seus
ensinamentos.
*Fotos de Maurício Andrés
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terça-feira, 26 de junho de 2012
RIO + 20, UM OBSERVADOR À DISTÂNCIA I
Recebi de Maurício Andrés o texto sobre Rio +20, que
transcrevo abaixo:
“Um observador à distância
De conferência sobre sustentabilidade
Vê ao longe o espetáculo,
Como um astronauta contemplando a Terra.
É desnecessária sua presença física
Pois está conectado por vários meios:
Manchetes de jornais anunciam os fatos.
Na internet, surfa sobre artigos reflexivos, análises,
avaliações críticas.
Nas redes sociais, anúncios buscam atrair o público para
eventos,
alguns curtem, comentam e compartilham.
A tevê lhe traz em casa matérias sobre segurança, trânsito
na cidade.
Ele se nutre de
extratos de artigos, análises, avaliações.
Vê a conferência através dos olhos de comentaristas,
articulistas, cientistas.
Participa ecologicamente:
Quieto em seu lugar, não causa a emissão de gases de efeito
estufa;
reduz impactos sobre
o planeta.
À distância, não tem
os inconvenientes do suor,
dos deslocamentos desgastantes no trânsito.
Sua vivência é isolada, individual,
ele tem tempo para refletir.
Está conectado no que ocorre no Rio
Transformado numa ágora global
O espaço público da feira e da política.
O cenário onde foi dada a partida
E o espetáculo
começou.
II
São 50.000 atores.
Parecem muitos,
mas juntos
correspondem a menos de
0,00001% dos 7
bilhões de seres humanos.
Há 1000 palcos e eventos;
190 delegações de países ricos, emergentes ou pobres,
e 167 chefes de estado.
Parlamentares, lideranças, sindicalistas, ativistas,
Crianças, jovens e mulheres,
indígenas,
cientistas,
acadêmicos e estudantes,
empresários,
consumidores, gestores, industriais, empreendedores,
profissionais, religiosos, acadêmicos, formadores de
opinião.
agricultores,
representantes de organizações não governamentais.
Há as emoções e a excitação da participação presencial;
a imersão no ambiente,
a troca de energia
humana entre os atores e as platéias,
congraçamento e
interação social.
E também o suor, o trânsito, a aglomeração.
O Rio é nesses dias
um microcosmo do mundo,
Um ponto de encontro da variedade humana,
uma Babel de línguas, religiões,
histórias,
de culturas, idéias e de estágios de consciência.
Entre os 99,99999% que não estão lá,
Uns acompanham as notícias. Outros, não.
III
No grande espetáculo da conferência,
há muita atividade e agitação.
Autoridades negociam palavras e vírgulas,
tiram e põem colchetes em textos oficiais.
Divergem e buscam consensos.
Entre os atores no meio do povo,
uns articulam, advertem, alertam, exortam;
denunciam e criticam,
reclamam, censuram, acusam,
reivindicam, exigem.
Há quem faça discursos que
entusiasmam, empolgam, energizam,
inspiram,
conscientizam, sensibilizam,
emocionam, comovem,
convencem.
Outros se auto-promovem em viagens egóicas.
Há quem fale e escute, dialogue,
Troque idéias, aprenda, ensine.
apresente boas
práticas e exemplos.
Alguns se defendem,
assumem compromisso, assinam pactos.
Lançam relatórios, fazem acordos,
mostram serviço.
É intensa a atividade dos 0,00001% da humanidade
que representam nos
palcos, tendas e pavilhões.
Enquanto isso, os demais 99,99999%
seguem suas vidas
E alguns tomam conhecimento do que ali se passa,
porque também há aqueles atores
que fotografam,
gravam, registram, entrevistam,
Comentam e transmitem ao vivo,
tuitam e postam mensagens e imagens
e assim divulgam o
espetáculo.”
(Maurício Andrés WWW.ecologizar.com.br)
*Fotos da internet
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terça-feira, 12 de junho de 2012
FELICIDADE INTERNA BRUTA PARA TODOS
“Rio + 20, Felicidade Interna Bruta.”
Este slogan, lançado ao mundo em 1972 pelo rei do Butão, está agora em pauta e vai
constituir motivo de debate na próxima conferência Rio + 20. Deixar de lado a
preocupação com o lucro e os valores materiais para buscar outros valores, é um
grande passo no caminho da Paz sobre o Planeta Terra. Valorizar o ser humano,
seu bem estar, sua felicidade unida à natureza é o que todos nós pretendemos
neste tumultuoso início do século XXI.
Caminhar para a paz universal é deixar que a felicidade chegue
a todos e não a um pequeno grupo de privilegiados.
O rei do Butão anteviu isto desde 1972, e o colocou em
prática em seu pequeno país, situado nos Himalaias. Quando um repórter veio
entrevistá-lo sobre o PIB de seu país, ele respondeu que este produto interno
bruto (PIB) tão badalado no mundo ocidental, não era prioridade para ele. A
prioridade era a paz e a felicidade para todos os seus súditos.
Hoje, intelectuais, antropólogos e cientistas do mundo
inteiro, inclusive dois Prêmios Nobel, começam a estudar suas idéias, buscando
adapta-las ao nosso ocidente materialista.
Transcrevo abaixo trechos do artigo de Heloísa Helvécia,
publicado no jornal Folha de São Paulo, em 5 de junho:
“A felicidade entrou no debate da Rio + 20. A criação de uma
alternativa ao PIB capaz de medir o bem estar dos países é o “assunto da hora”,
segundo a antropóloga americana Susan Andrews, coordenadora aqui do projeto FIB
(Felicidade Interna Bruta).
Sob patrocínio da ONU, o FIB butanês vem sendo recriado por
um time de intelectuais. O grupo fez um questionário que sonda padrão de vida,
governança, educação, saúde, vitalidade comunitária, proteção ambiental, acesso
à cultura, uso do tempo e bem-estar psicológico. No Brasil, o FIB é mais do que
um indicador, segundo Susan. É um catalisador de mudança social que tem o
potencial de unir poder público, empresas e cidadãos para a felicidade de todos.
É pensamento sistêmico na prática, diz a antropóloga graduada em Harvard, que é
também mestre em psicologia e sociologia. E monja.
A monja junta ao currículo o título de embaixadora do FIB no
Brasil, país para o qual ela veio por ocasião da Eco-92- e ficou.
Naquele ano, fundou o Parque ecológico Visão Futuro em
Porangaba, a duas horas de São Paulo. É uma das primeiras ecovilas do país.
Segundo disse Banki-Moon, secretário-geral da ONU, a Rio+ 20
precisa gerar um “novo paradigma” que não dissocie bem-estar social, econômico
e ambiental. Os três, para ele, definem a “felicidade global bruta”.
Susan Andrews acha que a introdução de indicadores mais
sistêmicos já é um movimento mundial. É parte do espírito do tempo.”
Heloisa Oliveira, fotógrafa mineira, muito familiarizada com
o Butão, esteve recentemente naquele país, preparando um filme sobre os
costumes e o modo de viver daquele povo. Heloisa estará participando da Rio +
20 com um depoimento na conferência intitulada “Cúpula dos Povos”. Sua abordagem sobre o FIB é
importante devido ao fato de que a nossa fotógrafa de Minas Gerais esteve várias
vezes no Butão e conheceu pessoalmente o rei daquele país.
*Fotos de Heloisa Oliveira
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sábado, 2 de junho de 2012
TAJ MAHAL
O Taj Mahal é conhecido
internacionalmente como o mais belo monumento dedicado ao amor. Uma das
maravilhas do mundo, o Taj Mahal é um grande mausoléu em mármore branco,
construído pelo imperador Shah Jahan em homenagem à sua amada esposa Muntaz Mahal,
falecida em 1630, por ocasião de seu décimo quinto parto. O Taj guarda os
restos mortais do casal. Nele trabalharam artesãos e artífices vindos de várias
regiões do planeta. O arquiteto que planejou o conjunto arquitetônico veio do
Irã e, sob sua orientação trabalharam artesãos vindos da Itália e da França,
que se aliaram aos artistas locais. Sua construção teve início em 1631 e só
ficou completa em 1653. O Taj Mahal representa a Índia, assim como a Torre Eiffel
representa a França.
Shah Jahan tinha a intenção
de construir um segundo Taj Mahal em mármore negro, uma imagem negativa do Taj
branco, onde ele próprio desejava ser sepultado. Antes que ele embarcasse nesta
outra construção, foi deposto por seu filho Aurangzeb. Shah Jahan passou o
resto de sua vida no Forte de Agra, construído defronte ao Taj. Dali podia
contemplar o Taj Mahal, onde estavam sepultados os restos mortais de sua amada esposa.
Um guia à frente indicava o
caminho, contando fatos históricos, mas eu preferia observar sozinha o trabalho
no mármore. Parece incrível que mãos humanas tenham esculpido e vazado a pedra
dura, até transformá-la numa janela de renda! Enxerga-se por entre as frestas,
a paisagem lá fora, os jardins e lagos que circundam o prédio.
De repente um som estranho,
cristalino encheu o recinto. Parecia o coro de muitas vozes, mas era a voz de
um indiano magro, que entoava o canto sagrado dos hindus. A grande torre
circular parecia captar o som e devolve-lo em forma de eco, e o mantra OM, subia
em espiral como uma revoada de pássaros e trombetas tocando. Meus ouvidos
continuaram escutando por muito tempo esse canto e suas vibrações se expandiam
através das janelas de mármore rendado. OM é a palavra sagrada dos yogues, e
segundo acreditam, tem repercussão cósmica. Entoado dentro do Taj Mahal, ele
ressoava com a força de uma orquestra misteriosa, cujos acordes se perdiam no
infinito. A música, de todas as artes, é realmente a que mais emociona. Atinge
imediatamente a alma, provocando adesão instantânea. Sua comunicação é rápida:
sensibiliza e conduz à ação. Desperta no homem o sentimento de amor ou de
violência, de serenidade ou agressividade, de pureza ou erotismo. Ela dá
impulso e faz mover o mundo. A intensidade mística do OM, rompendo o silêncio
do Taj Mahal, colocou-me em contato com a espiritualidade dos yogues. Naquele momento,
percebi claramente o papel da arte como purificadora da humanidade que se
massifica. A música é a forma de expressar a saudade que temos do absoluto. Ela
nos eleva a um plano superior, além das coisas criadas, iluminando-nos com a
pureza dos santos e a alegria das crianças. Devolve-nos o sentimento de Amor
Universal, integrando-nos ao mundo e ao cosmos.
*Fotos de Maurício Andrés e
da internet
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segunda-feira, 28 de maio de 2012
domingo, 20 de maio de 2012
EM BUSCA DO SER INTERNO
Uma das características mais
pronunciadas da civilização oriental é a busca de uma Realidade Interior, de um
plano espiritual de vida que reúne todas as coisas numa Totalidade.
O oriental procura através da
religião, da filosofia ou da arte, a integração do homem à natureza e ao
cosmos, buscando encontrar além do tempo e do espaço o valor intrínseco das
coisas. Para isto serve-se de guias, mestres e filósofos. Alguns renunciam à
vida familiar, recolhendo-se às comunidades espiritualistas ou ashrams. Outros
aproximam-se da natureza, buscando no silêncio das florestas ou no interior de
grutas afastadas a resposta para suas indagações. Há também aqueles que
aperfeiçoam-se como chefes de família, transmitindo aos filhos os ensinamentos
dos mestres.
Buscam o encontro com o Ser Interno
através da meditação e do auto conhecimento. Essa realidade interna quando
reconhecida liberta a mente das inquietações provocadas pela agitação do mundo.
A tranqüilidade mental visada por toda a filosofia do Oriente, não conduz à
apatia, mas à serenidade do homem superior.
O desenvolvimento interior é
o esquema de conduta, estimulado através dos séculos pelas diversas religiões
orientais, cujos fundamentos levam a uma visão cósmica da Verdade. A noção de
liberdade está na base desse desenvolvimento interior, dessa evolução para um
plano superior de existência, onde o espírito liberta-se das ligações
terrestres para se integrar à Essência Criadora de todas as coisas. O homem
realmente integrado é aquele que se liberta não somente do conforto material,
mas também da ambição, egoísmo, inveja, ciúme e todos os impulsos negativos que
encobrem a Realidade Interna, como uma nuvem escura encobrindo o sol. Para nós,
ocidentais, acostumados ao progresso material, à concorrência e à competição,
essa atitude nos parece estranha e profundamente apática. No entanto, ela nos
desperta para outros aspectos da vida e nos mostra o caminho aberto a um
progresso necessário ao equilíbrio do homem do século XXI: o progresso
espiritual e a descoberta da sua origem divina.
Há várias técnicas de
meditação, variando de acordo com as necessidades dos discípulos, mas todas
levam ao mesmo ponto: o estado de atenção necessário a uma plena consciência
das coisas. Todas insistem no não pensamento. Sentir, olhar e perceber o
presente sem interferências do passado ou do futuro. Os nossos sofrimentos vêm
de nós mesmos, dos nossos conflitos mentais e do acúmulo de imagens conflitivas
na mente. Quando aprendemos a olhar a mente de forma direta, quando a
esvaziamos por completo, percebemos um estado de Serenidade e Paz, que seria o
estado natural do ser humano.
O caminho do meio, pregado
por Buda há 2.500 anos, conduz a um estado de alegria sem excessos e à
Felicidade a que tem direito a pessoa durante o seu curto tempo de permanência
na terra. Mas, de um modo geral, esse tempo é gasto em várias atividades e
somente poucas pessoas se aproximam da beleza desses momentos como um privilégio
especial. Os ensinamentos dos lamas, quando se referem à observação dos
próprios pensamentos, assemelham-se às instruções de Krishnamurti. “Olhe dentro
de você mesmo, observe os movimentos de seu ego, suas reações à vida diária.”
Quando tomamos consciência de
que tudo está na nossa própria mente, quando compreendemos como surgem,
permanecem e acabam os nossos pensamentos, sentimos que eles são realmente os
geradores de todos os nossos altos e baixos. O momento presente é sempre belo e
cheio de luz. Somos nós que criamos a nossa própria dor.
*Fotos de Vânia Trindade e Marília
Andrés
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sexta-feira, 11 de maio de 2012
FLORESTAS
Maurício me enviou o texto abaixo, dando continuidade à postagem “Oásis
Terra.”
“Florestas e árvores são grandes aliadas de quem precisa de água, ou
seja, de todos nós. Ao regular o clima, absorver gás carbônico e ajudar na
infiltração da água no solo, as árvores e as florestas realizam processos
vitais e prestam valioso serviço. A
erosão nos solos e o escoamento superficial de água em áreas sem cobertura
vegetal é muitas vezes maior do que aquela que ocorre em áreas protegidas por
vegetação. Com o desmate, os rios são
assoreados e há perda de qualidade das águas, a redução dos lençóis
subterrâneos, a perda de solos.
Na ausência de florestas, necessita-se de mais obras estruturantes e há menor segurança hídrica. Assim, por
exemplo, quando o desmate e mau uso do solo prejudicam a qualidade da água, as
empresas de saneamento passam a gastar mais com produtos químicos no tratamento
de água, pois a vegetação filtra metais e matérias em suspensão na água,
reduzindo a necessidade de tratamento. Os mais penalizados por esses custos são
as populações mais pobres e vulneráveis. Preservar os serviços ambientais
prestados pelas arvores e florestas é, portanto, também uma questão de justiça
social e de equidade.
No Brasil, serviços de regulação do clima são prestados em escala macro
pela floresta Amazônica, sobre a qual chove a umidade vinda do oceano
Atlântico. As árvores bombeiam de volta à atmosfera uma parte dessa umidade,
que chove novamente sucessivas vezes em direção ao oeste. Ao encontrar a
barreira da cordilheira dos Andes, esse ar carregado de umidade, em verdadeiros
rios voadores, se dirige para o sul, umedecendo o centro-oeste e o sudeste
brasileiros. Não fosse essa umidade, o clima nessas regiões seria muito mais
seco e possivelmente haveria desertos. Sem a floresta amazônica, a agricultura
no Brasil central e do sudeste será seriamente prejudicada. Antonio Donato Nobre (No vídeo Tem um rio em cima de nós, no YouTube http://www.youtube.com/watch?v=HYcY5erxTYs&feature=player_embedded) nos ensina que a Amazônia pode ser vista como usina de serviços
ambientais que realiza gigantescas transferências de energia, ao
promover a evaporação de 20 bilhões de toneladas de água por dia, sendo um
poderoso motor do clima global. Caso esse volume de água tivesse que ser
evaporado por aquecimento, seriam necessárias 50 mil usinas do porte da
hidrelétrica de Itaipu.
Culturalmente,
a floresta é vista como algo sujo, a ser extirpado. As expressões da língua
revelam tal tipo de pensamento: limpar o mato, visto como sujeira; campo limpo
e campo sujo significam respectivamente uma área sem vegetação e uma na qual a
vegetação tenta se regenerar; quebrar o galho não é um ato negativo de destruição
da vegetação, mas uma forma de ajudar um amigo. Até mesmo os quintais urbanos
são cimentados, pois a vegetação
é vista como um estorvo que dá trabalho para limpar, que atrai bichos e
doenças. Nessa visão cultural, vegetação,
mato e floresta são sujeiras a serem removidas. Ainda não se valoriza
suficientemente o fato de que as florestas prestam serviços ecossistêmicos,
tanto em escala macro como em escala local.
Uma mudança de percepção cultural sobre a natureza, as águas e as
florestas é necessária para que o comportamento em relação ao ambiente passe a
ser mais amigável e menos agressivo. A valorização dos serviços ambientais
prestados pelas florestas e árvores, bem como a valorização da água como algo
essencial à vida, são atitudes positivas. Árvores e florestas são aliadas do ser humano na
gestão das águas do oásis Terra.
Maurício Andrés é autor de Ecologizar e de Tesouros da Índia WWW.ecologizar.com.br
*Fotos de Euler Andrés e Luciano Luppi
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sexta-feira, 27 de abril de 2012
OÁSIS TERRA
Maurício Andrés me enviou de Brasília textos sobre a água que virão
enriquecer este blog. Há muitos anos ele se dedica à defesa das águas do
planeta. Abaixo transcrevo o seu depoimento:
“Um oásis é um lugar em que há
água e vida no deserto e no qual as caravanas param para descansar e se
reabastecer antes de prosseguir viagem.
Na escala do sistema solar, a Terra é um lugar com solo fértil,
vegetação, vida animal e água. É um pequeno ponto no deserto dos espaços
siderais interplanetários. Na escala cósmica, a Terra é um oásis.
De onde vêm as águas que existem no oásis Terra?
Alguns astrônomos supõem que as águas se originaram no cinturão de
Kuiper, um
conjunto de cometas existente para além
da órbita de Netuno; outros especulam que ela
resultou do choque de corpos celestes gelados provenientes do cinturão
de asteróides situado entre as órbitas de Marte e de Júpiter. Tal como em outros processos de concepção, o
espermatozóide cósmico (um cometa ou asteróide) penetra no óvulo (a Terra) e a fecunda
com a água portadora das condições de gerar a vida. Além dessas hipóteses,
existe aquela de que a água tenha se formado a partir de elementos que existiam
na própria Terra desde sua origem.
Como a superfície do planeta é em sua maior parte coberta por água, ela
parece ser muita. Entretanto, na realidade seu volume é pequeno, comparado com o volume total da Terra, pois a
hidrosfera ocupa uma estreita faixa na superfície do planeta. A título de
comparação, se a Terra fosse do tamanho de uma bola de futebol, a água nela
existente teria o volume de uma bola de pingue-pongue. Diferentemente de Vênus,
onde ela é gasosa, e de Marte, onde está em estado sólido, na Terra a água é
encontrada em estado sólido, líquido e gasoso. Sendo muito sensível a variações
de temperatura, a água é o elemento por meio do qual a natureza responde
diretamente às mudanças no ciclo do carbono que provoca as mudanças
climáticas. Com o efeito estufa ela derrete, evapora. Intensificam-se e
tornam-se mais freqüentes eventos críticos tais como os que ocorreram no Brasil
em 2010: estiagens na Amazônia e cheias no nordeste, nas regiões metropolitanas
de São Paulo e do Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul. Tais eventos trazem
consigo prejuízos econômicos e sociais.
Do volume total no planeta, 97,6% da água
é salgada e apenas 2,4% é água doce. Várias regiões já sofrem de
estresse hídrico, em todos os continentes. Apesar do Brasil dispor de 12% de
toda a água doce do mundo, aqui também a relação entre demanda e
disponibilidade mostra problemas em áreas e bacias críticas, especialmente no
semi-árido nordestino, nas vizinhanças de regiões metropolitanas e em áreas
densamente povoadas e industrializadas ou onde exista grande demanda de água
para a irrigação na agricultura, como no Rio Grande do Sul.
Hidroconsciência e
hidroalienação
Na cultura brasileira, a consciência sobre a água ainda é pouco
desenvolvida e existe a ilusão de que ela constitui um recurso infindável. A
água é usada como depósito de lixo e resíduos. Lixões localizados à beira de
rios os levam para longe nas enchentes. O rio percebido como depósito de lixo
está presente na fala de uma mãe, no interior de Minas, ao deseducar a criança:
“Meu filho, não jogue o lixo no quintal, porque aí não é o rio!” A cultura
brasileira urbana dá as costas para a água, sendo usual encaixotar os córregos
urbanos e construir sobre eles vias de trânsito, retirando-os das vistas da
população. Até mesmo o Ipiranga celebrado no Hino Nacional, em cujas margens
plácidas D. Pedro I bradou o grito da independência brasileira, encontra-se
coberto por uma via pavimentada.
No Brasil, há grande hidroalienação, pois a população urbana cada vez
conhece menos sobre o ciclo integral da água, de onde ela vem, quando chega na
torneira, e para onde vai depois de escoar pelo ralo. O cidadão urbano pobre
vivencia fragmentos isolados do ciclo da água, do caminhão-pipa para o balde, e
no trajeto do esgoto que escorre a céu aberto nas favelas; o cidadão de classe
média vivencia o percurso da água da torneira ao ralo ou quando se vê preso num
engarrafamento de trânsito em vias urbanas alagadas.
Resulta dessa hidroalienação e da falta de investimentos que dela deriva,
que a principal fonte de poluição de águas é o despejo de esgoto in natura nos rios.
Maurício Andrés é autor de Ecologizar e de Tesouros da Índia WWW.ecologizar.com.br
*Fotos da internet
terça-feira, 10 de abril de 2012
ARTE COMO IDÉIA CRIADORA
Todo ser humano possui um artista interior. Tudo na vida tem um sentido eterno, que ultrapassa o domínio da matéria.
Cada um de nós guarda dentro do seu subconsciente as noções de Beleza, Verdade e Bondade. Esse mundo das idéias é muito mais real e verdadeiro que o outro, modelado pela matéria. Mas é invisível para os que não procuram e sentem apenas o seu aspecto exterior, sem atingir sua realidade mais profunda.
A arte, brotando desse universo interior, procura em linguagem específica a comunicação com os homens. Ela revela ao que a contempla algo do que tem escondido em si mesmo no mistério de seu ser interno.
Jacques Maritain diz que o mais insignificante transeunte não tem, no céu de sua alma, menos estrelas que um artista. O sentimento de Beleza é atributo do homem, pertence a todos. Mas, muitas vezes, é velado aos olhos da maioria. Cabe ao artista despertar esse sentimento em seus semelhantes, tornando-o visível e consciente na obra de arte.
A fonte de onde provém toda manifestação artística é a profundidade mesma da alma do artista. Antes de qualquer representação material, ela já existe, como sentimento informe, puro, ainda não delineado, mas que se traduz por uma imperiosa e inadiável exigência da alma, uma ânsia sem fim em busca de expressão. Arte é, pois, antes de tudo, transbordamento de vida interior. É uma vocação, um chamado.
A idéia criadora é uma iluminação intuitiva e repentina. É uma decisiva emoção que a principio se delineia, depois se aclara mais, e tende a vir à luz. Movido por ela, o artista descobre o que sempre o inquietava e que se achava adormecido em sua alma.
A criação artística divide-se em dois momentos distintos: a concepção da obra de arte, que é a idéia criadora propriamente dita, e a sua realização. Estabelece-se então um dialogo entre o artista e a obra criada.
A idéia criadora pode surgir inesperadamente, ou durante o curso de uma longa pesquisa. Mas, de uma ou de outra maneira, constitui sempre uma surpresa para o artista; e é, justamente, nesse caráter de surpresa, que se encontra toda a alegria da criação.
A arte não é apenas talento. É talento ou potencial somado à vocação, a um desejo imperioso de progresso. Esse progresso só poderá ser feito através do trabalho.
Ser artista não significa calcular friamente. Não significa reunir tratados de teoria e tratados de matemática para, da ciência, passar à arte, mas, sim, deixar que a experiência transborde, depois de amadurecida, deixar que a sua própria vida, mais profunda, o seu universo desconhecido, aflorem à luz do mundo como que por encanto. Essa linguagem criativa nasce de raízes profundas, de experiências passadas e sofridas, e não se submete a qualquer ordem vinda de fora, seja de escola, religião ou doutrina política.
Diz Lucio Costa que “Toda arte plástica verdadeira terá sempre de ser, antes de tudo, arte pela arte, pois o que a haverá de distinguir das outras manifestações culturais é o impulso desinteressado e invencível no sentido de uma determinada forma plástica de expressão”.
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