Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
GUIGNARD, O MESTRE III
No mercado de arte, os intermediários disputam entre si o privilégio de vendas, daqueles que muitas vezes sofreram privações para realizar suas obras.
Guignard foi um deles. Viveu de forma simples, morreu pobre. Dava os quadros de graça para os amigos, era generoso também em seus ensinamentos. Não guardava segredo de nada. Pintava na frente de seus alunos, para que eles aprendessem a sua maneira de pintar, mas não exigia seguidores. Respeitava as tendências individuais dos jovens. Era admirado por intelectuais. Viveu numa época em que os artistas plásticos tinham a liberdade de criar dos poetas e por isso mesmo Guignard foi um poeta das cores. Pintava livremente como cantam os pássaros celebrando a beleza dos céus de Minas, das ruas e montanhas de Ouro Preto.
Cecília Meireles em seu artigo “Estrela Breve” registra de forma sensível a trajetória de Guignard e sua morte repentina, no momento em que poderia desfrutar de uma vida mais confortável. Num domingo, ela recebeu a notícia de que Guignard seria finalmente amparado por uma Fundação, teria casa própria, automóvel, motorista e segurança para trabalhar. “Com a Fundação Guignard tinham acabado aquelas incertezas que afligiram o artista ao longo de sua existência”.
Em seu livro, continua Cecília: “No domingo, refletíamos sobre o mistério da vida: um homem passa a maior parte da existência em sofrimento, abandono, miséria. De repente, brilha sobre ele uma nova estrela e tudo muda. No domingo, despedimo-nos contentes porque uma estrela bondosa viera iluminar o destino por tanto tempo melancólico do pintor Guignard. Na segunda feira, veio a noticia de que o grande pintor morrera.”
Isso nos faz refletir sobre a condição da arte e dos artistas. A mesma história se repete ao longo dos tempos.
Na sociedade capitalista em que vivemos tudo vira mercadoria.
Esta visão imediatista e consumista muitas vezes constitui um embaraço para pesquisas históricas que poderiam ser feitas em torno daquele artista.
Esquece-se que uma obra de arte autêntica nascida de um contato direto com o ser interno do artista merece ser divulgada, conhecida e estudada.
O valor de um trabalho artístico, suas qualidades expressivas, não se limita a números e cifrões, mas atinge um espaço que lhe assegura realmente a permanência no tempo e sua equiparação com as demais artes.
Este espaço, fora do circuito mercadológico, os artistas conseguiram alcançar em vida e é justo que eles possam servir de exemplo para outros.
*Fotos da internet
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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
GUIGNARD, O MESTRE II
A personalidade de Guignard como mestre delineia-se com maior nitidez mediante o confronto de seu método revolucionário de ensino, baseado no apoio à iniciativa pessoal, com o ensino nas escolas de arte de orientação acadêmica. As escolas acadêmicas prevaleciam nos grandes centros brasileiros quando Guignard chegou a Minas. Aos conhecimentos adquiridos na Europa, ele aliava seu grande poder intuitivo para desvendar o caminho ainda obscuro do ensino moderno, no qual técnica e capacidade criadora se desenvolvem de maneira conjugada, o lápis não reproduz a fria documentação de um objeto, mas transmite toda a força emocional de um momento de criação.
Nessa orientação artística, o aluno não visa apenas o recebimento de um simples diploma ao final de um currículo, mas a vivência de uma formação estética que não termina no período de aprendizagem, mas prolonga-se por toda a vida. De acordo com essa visão, a arte constitui uma riqueza insubstituível, porque se apóia numa estrutura viva e espiritual e não apenas no interesse imediato. Procura a integração do homem ao universo, através do desenvolvimento de suas aptidões individuais.
Mais do que ninguém, Guignard conseguia vislumbrar a coisa nova, a individualidade que se revela na variedade de temperamentos humanos, agora estudados com grande interesse à luz da psicologia moderna. Observações feitas à margem de um catálogo, referindo-se às tendências de cada aluno em particular, revelam esse senso profundo para descobrir vocações e conhecer temperamentos. Uma concepção ampla da realidade humana o levava a valorizar tanto o aluno que desenhava realisticamente um retrato a lápis duro, quanto aquele que se afastava por completo do modelo, para imprimir na tela imagens subjetivas. Ao se dirigir ao aluno, seus olhos enxergavam através da insegurança, conseguiam vislumbrar o traço feliz, a mancha de cor e todas as possibilidades que se escondem atrás de um tímido desenho.
Guignard era simples e possuía humildade daqueles que são realmente grandes. Não via no aluno um futuro concorrente, mas um companheiro de arte que despertava diante de seus olhos. Muitas vezes, ao criticar um trabalho, seu entusiasmo chegava a ser comovente: "Você desenha melhor do que eu”, escutei-o dizer a um colega, "mas deixa estar que ainda chegarei lá". Ao corrigir o trabalho de um aluno ele muitas vezes se entusiasmava e o assinava.
Em 1947, Guignard me presenteou com um quadro, representando um caminho no Parque Municipal de Belo Horizonte. Esse quadro sugeriu o título para o meu livro Os caminhos da arte. Mais tarde, depois de sua morte, descobri debaixo de um de meus desenhos uma pequena aquarela de Guignard representando os céus de Minas. Foi exatamente na época em que iniciei a minha fase de naves espaciais.
Trabalhando junto com seus alunos, Guignard reviveu de maneira quase única o antigo mestre, figura desaparecida nos tempos modernos. Atualmente, o ensino se distribui em diversas cátedras, com horários marcados e contato reduzido do professor com os alunos. Anteriormente às academias de Belas Artes, o mestre - fosse ele filósofo ou artesão - trabalhava lado a lado com seus aprendizes e a eles se misturava, sem preocupação de superioridade, desejando apenas transmitir experiências. Assim foi Guignard, o mestre moderno, que ensinava uma arte de vanguarda, não ditava leis, mas fazia o aluno descobrir o equilíbrio e a proporção no próprio trabalho, sem demonstrações dogmáticas.
Mestre autêntico, não julgava segundo suas inclinações e preferências, mas desinteressadamente, compreendia o aluno e o conduzia. Ele não trazia valores fixos a decretar - despertava valores novos no contato de sua presença, de seu estímulo.
Fotos de arquivo e da internet
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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
domingo, 5 de fevereiro de 2012
GUIGNARD, O MESTRE I
Quando Alberto da Veiga Guignard chegou a Minas Gerais, em fins de 1943, a convite do então prefeito Juscelino Kubitschek, trouxe consigo uma bagagem artística já consolidada pela crítica. Desde essa época, era respeitado como grande artista e reconhecido internacionalmente. Na década de 40 passou três anos em Itatiaia, estado do Rio, e foi ali que recebeu a notícia de que sua Noite de São João acabara de ser adquirida pelo Museu de Arte Moderna de New York.
Guignard sempre se deu bem nas montanhas. Em carta a Portinari, dizia: "Sabes que sou montanhês e por isso, forte de saúde". Deslocando-se para Belo Horizonte, descobriu a luminosidade dos céus de Minas. As montanhas lhe ofereciam cenário para paisagens líricas, transparentes, igrejas surgindo da bruma, balões coloridos subindo aos céus.
Naquela época, a arte em Minas Gerais ainda estava ligada a um academismo formal. A presença de Guignard em Belo Horizonte trouxe uma completa renovação para o meio artístico. Juscelino Kubitschek abria novas direções para a arquitetura, criando o conjunto da Pampulha, convidando o maestro Bosmans para dirigir a orquestra sinfônica e Guignard para tomar sob sua direção a Escola de Belas Artes.
Um grupo de jovens se reuniu em torno desse artista vindo do Rio de Janeiro, amigo de Portinari, Di Cavalcanti e Santa Rosa. O Parque Municipal servia de inspiração para o mestre e seus discípulos. Exuberante, cheio de entusiasmo, conduzia seus alunos a longas caminhadas pelas alamedas do parque. Antes de começar o desenho, eles teriam de aprender a ver, a sentir a natureza em seu silêncio. A atenção consciente no agora, a observação da realidade exterior com a interioridade de cada um, possibilitava o despertar da liberdade criadora.
A carreira de Guignard como mestre teve início na Fundação Osório, no Rio de Janeiro. Desde essa época, ele estimulava o crescimento interno do aluno.
Guignard não perdeu a inocência das crianças. Durante toda sua vida manteve a espontaneidade criadora e pintou naturalmente, como cantam os pássaros. A espontaneidade, a alegria, o entusiasmo pela vida, o prazer de descobrir cores novas nos céus e nas montanhas, nos reflexos das águas, nos cortes das árvores, nas manchas dos muros velhos, eram qualidades inerentes à sua personalidade.
Guignard estendia esse entusiasmo aos seus alunos. A natureza era seu ponto de referência. "Olhe, o colorido dos céus de Minas Gerais tem um brilho diferente, repare as árvores, as folhagens, as raízes...".
Sua disciplina não se fundamentava em conceitos teóricos, mas na experiência: era observação, concentração e integração total da pessoa com a paisagem. O aluno, desprovido de recursos fáceis, submetido ao lápis duro, sem borracha, acabava afinando-se com a beleza de um olho humano e tinha uma semana para terminar o desenho de um rosto. O prazer não estava em terminar rápido, mas na própria concentração exigida pelo trabalho, no próprio ato de fazer, paciente e silencioso, no uso das mãos, no artesanato metódico e limpo. O desenvolvimento da percepção era também um dos caminhos para o auto-conhecimento e a auto-expressão. Criatividade e disciplina, liberdade e concentração, espontaneidade e reflexão fundiam-se dentro do mesmo estímulo.
*Fotos da internet
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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
PROJETO AYA
Arte / Yoga / Ambiente
O Projeto Aya – Arte / Yoga / Ambiente, de autoria de Eliana Andrés, teve sua origem na década de 70, quando Eliana ainda adolescente administrava aulas de arte numa escolinha para crianças, localizada na garagem da nossa casa em Belo Horizonte.
A semente foi plantada ali, e o chamado para arte na educação também começou com a alegria das crianças manifestada em desenhos, pinturas e objetos. Também na década de 70, Eliana frequentou vários Festivais de Inverno em Ouro Preto. Inscreveu-se na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, sob a direção de Rubens Gerchman.
A administração de Gerchman buscava antes de tudo valorizar o ser humano e despertar o seu potencial criativo. Os alunos freqüentavam várias oficinas que, aparentemente diversificadas, se integravam numa síntese harmoniosa.
A integração do yoga no processo de arte começou também na década de 70, quando deixou o Brasil e seguiu para a Índia, onde encontrou novamente a família. Maurício, seu irmão mais velho, ali estava realizando um trabalho no Indian Institute of Management, em Bangalore, sul da Índia. Integrando-se ao grupo familiar, Eliana colaborou nas pesquisas e na parte gráfica do livro infanto juvenil de autoria de Aparecida Andrés, intitulado: Pepedro nos Caminhos da Índia.
Em Chennai, ela freqüentou cursos de yoga e também colaborou espontâneamente dando aulas de arte e yoga para crianças carentes, em Adyar.
As crianças na Índia são muito ligadas à natureza e as aulas,em várias ocasiões, são dadas à sombra de árvores frondosas.Isto talvez tenha sido o toque de consciência para integrar a experiência ecológica às aulas de arte-yoga desenvolvidas por ela também,nas décadas de 80 e 90,no Brasil. As idéias do grande educador brasileiro Paulo Freire também a estimularam neste caminho: “Freire entendia a ecologia como parte de qualquer ação educadora efetivamente crítica e libertadora”.
No Brasil a Oficina Arte / Yoga / Ecologia, no 1° Festival de Inverno de Entre Rios de Minas, promovido pelo IMHA (Instituto Maria Helena Andrés), em 2006, foi o início de um trabalho que depois se aperfeiçoou no Multirão Cultural, realizado também naquela cidade, em 2009.
Em 2011 o Projeto Aya foi integrado às atividades da Ong Ecoppaz com sede no Campo das Vertentes em MG. As oficinas foram realizadas em Congonhas, com atividades inclusive na Basílica, onde estão os profetas do Aleijadinho. Em cada cidade o projeto incorpora novas idéias de acordo com as necessidades locais.
Acrescento aqui o depoimento de Eliana sobre seu trabalho:
“O Projeto Aya tem como objetivo unir numa mesma oficina áreas diferentes de conhecimento: a arte, a prática de yoga e o meio ambiente.
Os alunos despertam para a importância do equilíbrio corpo/mente, com a diversificação de atividades que se complementam e que desenvolvem a sensibilidade, a criatividade e a reflexão.
Um ser humano com capacidade de integrar no seu dia-a-dia uma melhor qualidade de vida, será um ser mais equilibrado. Isto terá um reflexo positivo nas suas relações familiares, na educação dos filhos, no seu desempenho profissional, enfim, na sua vida como um todo.”
Uma vez por ano, a equipe do projeto se encontra numa cidade do interior de MG, para realizar junto a grupos de crianças e jovens um trabalho voluntário. O Projeto Aya poderá ser realizado também em outros municípios, onde houver receptividade e ressonância com sua proposta educacional.
Fotos de Heder Godinho, Julio Margarida, Maria Aldina Resende e Eliana Andrés
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
sábado, 7 de janeiro de 2012
MORTE E VIDA SEVERINA
No dia 28 de setembro de 2011, estreou no Teatro da Cidade em BH, a peça “Morte e Vida Severina”, montada por Pedro Paulo Cava. Ontem iniciou nova temporada na Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, devendo ser apresentada de quarta a domingo até 4 de março.
A peça é forte e traz em toda a sua intensidade a vida do retirante nordestino e as injustiças de um país cheio de contrastes. Nele a condição humana é tão extrema a ponto de reservar a cada pessoa apenas um retângulo de terra, sua própria sepultura, “a parte que te cabe neste latifúndio”. Chico Buarque e João Cabral de Melo Neto se completam neste musical dramático. A série “Retirantes” de Portinari, projetada numa cortina de elástico no fundo do palco permite aos atores “entrar ou sair do quadro” como se eles fossem os próprios retirantes. A platéia também se sente profundamente sensibilizada pelo drama dos retirantes, que é também o drama de nosso planeta, com suas injustiças sociais. Este recurso de reunir a poesia de João Cabral com a música de Chico Buarque e as telas de Portinari é uma síntese das artes postas em ação, para maior impacto da platéia.
Pedro Paulo Cava escreveu um texto para o catálogo e transcrevo aqui uma parte de seu depoimento:
“O teatro é a angústia dos homens em forma de poesia e movimento. Ofício complicado, intrincado, repleto de armadilhas nas palavras dos autores, na boca dos atores, nos corpos que suam sobre os palcos do mundo. Beleza e magia que encanta e emociona porque é vivo, pulsante, indignado e precisa de cúmplices e testemunhas para que morte e vida, vida e morte aconteçam todas as noites.
O teatro é a perplexidade diante da condição humana. Ninguém o escolhe como forma de expressão e fica impune. Loucura e lucidez que conduz poemas como o de João Cabral a ganhar músicas de Chico Buarque e se transformar num canto à vida diante da presença constante da morte. A eles adicionei um Portinari que deu cores ao sofrimento dos brasileiros mais desprovidos de vida e cidadania. Três gênios que se completam.
Espetáculo que costurei lentamente, buscando nas entrelinhas e nas formas da encenação, uma resposta qualquer para a “severinidade” que vivemos. E mais uma vez encontrei ar, poesia, paixão, alegria e música no ato de criar. Reafirmei a minha convicção de que é essencial se emocionar diante do espetáculo que a vida descortina à nossa frente, porque os sentimentos são os motores vitais dos nossos corpos frágeis que caminham apressados em direção ao fim. São elas, as emoções, que nos mantém vivos e alertas neste trajeto, sempre adiando o encontro fatal.
O que desejo? Apenas que espectadores se juntem aos atores nesta noite e em todas as outras, desfrutando a poesia da vida, mesmo que seja esta, franzina, apaixonante, comprada a retalhos todos os dias.” (texto extraído do catálogo do espetáculo)
Na estréia de “Morte e Vida Severina” em 28 de setembro de 2011, na Pequena Galeria do Teatro da Cidade, tive a surpresa de ver Ferreira Gullar expondo serigrafias dos Anos 50, de ótima qualidade, que revelam a sua face de artista plástico, além de poeta e crítico de arte.
O espetáculo recebeu a premiação de “Melhor Cenário” no Prêmio SESC SATED pelo excelente trabalho de Paulo Viana, além de ter recebido indicações para outros prêmios.
No elenco: Tiago Colombini, Luiz Gomide, Adilson Maghá, Evaldo Nogueira, Luciene Lemos, Diorcélio Antônio, Priscila Cler, Gustavo Marquezini, Meibe Rodrigues, Adriano Alves, Fabiane Aguiar, Jefferson de Medeiros, Júlia Borges, Maria Tereza Gandra e Ivana Andrés.
(Para maiores informações sobre os espetáculos, exposições e demais ações culturais nesses 20 anos do Teatro da Cidade, ver o site www.teatrodacidade.com.br)
*Fotos de Guto Muniz
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
APRENDIZAGEM PARA A SAÚDE
Convidamos Maurício Andrés http://www.ecologizar.com.br/ para apresentar seu trabalho de aprendizagem para a saúde, que se adapta perfeitamente a este blog:
“Em muitos países, a pirâmide demográfica está atualmente se modificando e há uma crescente população idosa que demanda serviços de saúde com custos cada vez maiores.
A carga sobre a população economicamente ativa, para sustentar os custos dos sistemas de saúde, de previdência social e de aposentadorias tende a crescer, e a provocar o colapso dos orçamentos públicos.
Crianças e jovens de hoje que tenham acesso a práticas de educação para a saúde física e mental adequadas nos campos da alimentação, da respiração, da higiene e das posturas corporais, daqui há 50 anos serão adultos e idosos que poderão onerar de modo menos pesado os serviços públicos de saúde, pois terão incorporado hábitos saudáveis ao longo de sua história de vida.
Atualmente, muitas práticas de reeducação se disseminam: a reeducação alimentar, para que a dieta deixe de ser apenas um hábito herdado e reproduzido de geração em geração para se tornar um hábito cotidiano consciente de seus impactos; a reeducação postural global (RPG), que relembra o indivíduo da importância de postar-se corporalmente de modo harmonioso, que não cause ou agrave deformações que danificam a coluna e outras partes do sistema ósseo; a respiração consciente, que também trata esse hábito vital como uma questão cultural, passível de ser aprendida e exercida de modo consciente.
Interessante observar que, nesses três casos, o ioga milenar atuou, demonstrando que havia na antiga civilização védica indiana a consciência sobre a importância desses cuidados com o corpo, que repercutem também na mente e nas emoções. Assim, por exemplo, a respiração consciente pode levar à harmonização física e a um estado de consciência relaxado, sem tensões e estresses.
Além desses, outros cuidados de reeducação são importantes, como por exemplo a educação para a saúde bucal, que preserva a dentição e evita focos de infecções.
Todas essas práticas levam a uma melhor manutenção da saúde física, com resultados benéficos ao indivíduo quando se torna adulto ou idoso, momento em que se manifestam muitos dos problemas de manutenção corporal, muitas dores e o organismo dá sinais de que está para vencer o seu prazo de validade.
A educação para a saúde física dos alunos em escolas desde a creche e a educação infantil, pode ser uma iniciativa valiosa, juntamente com a educação para a saúde mental e emocional, de modo a manter a integridade e a harmonia corporal, com saúde, beleza e simetria. Nas escolas, práticas esportivas e artísticas tais como a música e a dança - que atua sobre o corpo, a respiração e os movimentos - são meios para se difundir a consciência do corpo e para se atuar preventivamente no sentido da manutenção da integridade e da harmonia corporal. A educação escolar precisa colocar ênfase em motivações, no controle emocional, na disciplina, nas capacidades de interação social, no intangível, no imensurável, no imaterial e não apenas naquilo que pode ser medido por meio de testes objetivos e padronizados.
Tal aprendizado pode fazer-se , ainda e principalmente, por meio da comunicação, por meio da cultura, na família e na socialização de crianças. Na atual sociedade midiática, a imprensa é um dos meios de comunicação pelos quais se aprende. Do mesmo modo como o merchandising inserido sutil ou ostensivamente nas novelas, em filmes e no entretenimento é feito com fins comerciais, ele pode incluir mensagens que transmitam conhecimentos de educação para a saúde e induzam exercícios e práticas saudáveis para o corpo. Nesse processo, é crucial a consciência de artistas, novelistas, formadores de opinião, que influenciam modos de vida e valores.
Ações preventivas de incorporação de tais conhecimentos em todas as formas de transmissão cultural e educacional são a base para construir sistemas de saúde e de previdência sustentáveis, num mundo cuja idade média tem-se alongado, com maior proporção de idosos na população.”
*Fotos de Luiz Cruz, Julio Margarida e da internet
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domingo, 25 de dezembro de 2011
WILSON FIGUEIREDO, O POETA
Revivendo o movimento moderno que se instalou em Minas na década de 40 com a criação da Escola de Belas Artes dirigida por Guignard, vejo a turma de jovens poetas e escritores se reunindo em baixo das árvores do parque.
Vinham da faculdade de Filosofia situada ali perto, no Instituto de Educação para assistir palestras e debates que aconteciam na Escola, sob o prestígio de Guignard. Todo um potencial de idéias novas se formava em torno do mestre. Ali no parque Municipal de BH, uma síntese das artes acontecia.
Wilson Figueiredo era um dos integrantes da turma que se reunia no parque, juntamente com Otto Lara Resende, Hélio Peregrino, Edmur Fonseca, Paulo Mendes Campos, Sábato Magaldi, etc. Wilson Figueiredo, o Figueiró, criou junto com Edmur Fonseca a revista Edifício, uma revista de vanguarda. Ali seus livros de poesia, “Mecânica do Azul” e “Poemas Narrativos”, foram editados.
Seguíamos o nosso caminho nas artes plásticas, sob o incentivo daqueles que também escreviam poemas e crônicas.
Figueiró, que naquela época tinha apenas 20 anos, fez parte do grupo de jovens que recebeu em 1944, Mário de Andrade na provinciana Belo Horizonte. O consagrado poeta paulista gostou do jovem e escreveu para ele cartas encorajando-o a continuar a linha poética.
Wilson Figueiredo guardou suas poesias que só foram publicadas na época, mas merecem ser conhecidas. Algumas vezes costumo cobrar do meu cunhado, W. Figueiredo, casado com minha irmã Lourdes:
“Wilson, por que você não publica seus versos, você é um poeta.”
Lembro-me de ter lido algumas vezes o livro “Mecânica do Azul” e aqui transcrevo alguns trechos:
“Só hoje me lembro da bola de gude
Mas com alguns anos de vida
Entre esse tempo e onde
Eu desejaria estar
Ah! Se eu pudesse ver a bola
Com a trajetória libertada
Da geometria e da física
E ignorar que feliz no jogo
É o infeliz nos amores.”
..............................................
“Meu primeiro velocípede
Começa a dar voltas
Em torno do meu silêncio
Com a campainha gritando
Estrelas”
.............................................
“Havia no quarto da pensão
Cavalos ao luar pregados no teto
Numa geografia que me viajava
Os cavalos puxavam a virgem
Na paisagem de gesso
Sempre intocada
Por sobre o sonho e as águas.”
..................................................
O tempo é a minha ferrugem
Que espraia
Atropela o silêncio
Gasta a chave, a mala
Os cartões imorais do dormitório
Os pregos na parede
E mesmo alguns retratos.”
Naquela época eu lia “Cartas a um jovem poeta” de Rainer Maria Rilke e sob o seu incentivo continuei minha vida de artista.
Cada vez mais venho compreendendo a integração das artes e o quanto de benefício que elas nos proporcionam.
Mais tarde, já casado, Wilson transferiu residência para o Rio de Janeiro, que naquela época era considerada a corte brasileira, lugar onde os intelectuais e artistas poderiam se projetar com mais facilidade. Ali ele se tornou um jornalista da linha de frente, destruindo idéias arraigadas e incentivando a construção do novo. Assim foi no Jornal do Brasil e está sendo no F.S.B Comunicações, onde ele se torna, aos 87 anos “um mentor dos novos da empresa”.
Nelson Rodrigues destacava em Wilson a veia poética, que se desdobrou ao longo de toda a sua carreira. “Não se faz jornalismo sem poesia”, dizia Nelson Rodrigues.
Mário de Andrade, ao ler os versos do jovem Wilson de 20 anos, comentou: “Como eu sorria feliz lendo os versos dele”.
Em carta dirigida ao Wilson, Mário de Andrade continua: “Você tem a poesia dentro de si e tem o que dizer.” E continua: “Você é um poeta e sua poesia não é original por ser uma fragancia de mocidade só, é sua.”
Esta poética, Wilson trouxe da juventude até os dias de hoje. Escreve textos e dedicatórias deixando vir à tona a sua alma de poeta. Transcrevo aqui a dedicatória que recebi no livro “E a vida continua” recém lançado no Rio de Janeiro.
“À Helena
A irmã que conversa com o silêncio e acena às nuvens que passam rentes à sua casa, nosso agradecimento por sua assinatura artística numa página deste livro que nos reúne como prêmio da vida.
Lourdes e Wilson.”
Este prêmio da vida a que eles se referem são seus 4 filhos Pedro, Vanessa, Rodrigo e Andréia que serviram de modelo para um quadro de minha autoria.
*Fotos de Pepe Schettino, André Macera e do acervo FSB
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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
sábado, 3 de dezembro de 2011
JOSEPH BEUYS
Continuando a minha pesquisa sobre Joseph Beuys, vou relatar um pouco de sua vida, a partir da transcrição de uma entrevista dada a Franz Hak em 1979.
“Em 1941, Beuys com 20 anos, toma conhecimento da obra de Rudolf Steiner, tendo freqüentado os grupos de antropósofosem Dusseldorf. Por essa altura retém a idéia da "unidade na multiplicidade", dos quatro níveis do homem: corpo físico, corpo etérico, corpo astral e o "Eu". A relação que estabelece com a natureza vai marcar a influência da antroposofia de Steiner.
A guerra representou, certamente, na sua vida um elemento central.
No Inverno de 1943, como telegrafista num bombardeiro de combate, teve um acidente. O avião depois de atingido pelos canhões antiaéreos de uma base russa, despenha-se na Crimeia durante uma tempestade de neve. Beuys é o único sobrevivente. Está gravemente ferido. Uma fratura craniana, costelas, pernas e braços partidos.
Quando está à beira de morrer, um grupo de tártaros nômades, que transitavam por esse lugar, acolhem-no. Cobrem-no primeiro de gordura e aconchegam-no depois com panos de flanela. E, num ambiente mágico, os "chamanes" da pequena tribo de nômades curam-no milagrosamente. Beuys vivencia essa presença "chamânica" como algo de exemplar e significativo para a sua vida e obra. Daí a importância constante da gordura e do feltro, materiais com os quais os "chamanes" o envolveram para o curarem das queimaduras e traumatismos sofridos com o acidente. Daí a constante atitude de profundo respeito pela natureza e pela espiritualidade cósmica.
A relação com a tribo nômade quase o leva a optar por ficar para sempre nesse grupo de tártaros. Porém, para Beuys, a ligação à natureza não é chamânica. É uma espiritualização do futuro, como na antroposofia que subjaz à sua formação. A pesquisa espiritual de Beuys não procura no passado. Integra o passado espiritual num projeto de futuro. Uma espiritualidade consciente e não atávica; não adquirida, mas construída... Ultrapassar o irracional e o racional, através de uma procura em que o "oculto" se torna "manifesto".
A artisticidade de Beuys é o quotidiano, acessível a toda a gente, processo contínuo, obra aberta para todos os imaginários que na participação, no debate e na ação solidária vão criando mudança de vida.”
*Fotos da internet
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“Em 1941, Beuys com 20 anos, toma conhecimento da obra de Rudolf Steiner, tendo freqüentado os grupos de antropósofos
A guerra representou, certamente, na sua vida um elemento central.
No Inverno de 1943, como telegrafista num bombardeiro de combate, teve um acidente. O avião depois de atingido pelos canhões antiaéreos de uma base russa, despenha-se na Crimeia durante uma tempestade de neve. Beuys é o único sobrevivente. Está gravemente ferido. Uma fratura craniana, costelas, pernas e braços partidos.
Quando está à beira de morrer, um grupo de tártaros nômades, que transitavam por esse lugar, acolhem-no. Cobrem-no primeiro de gordura e aconchegam-no depois com panos de flanela. E, num ambiente mágico, os "chamanes" da pequena tribo de nômades curam-no milagrosamente. Beuys vivencia essa presença "chamânica" como algo de exemplar e significativo para a sua vida e obra. Daí a importância constante da gordura e do feltro, materiais com os quais os "chamanes" o envolveram para o curarem das queimaduras e traumatismos sofridos com o acidente. Daí a constante atitude de profundo respeito pela natureza e pela espiritualidade cósmica.
A relação com a tribo nômade quase o leva a optar por ficar para sempre nesse grupo de tártaros. Porém, para Beuys, a ligação à natureza não é chamânica. É uma espiritualização do futuro, como na antroposofia que subjaz à sua formação. A pesquisa espiritual de Beuys não procura no passado. Integra o passado espiritual num projeto de futuro. Uma espiritualidade consciente e não atávica; não adquirida, mas construída... Ultrapassar o irracional e o racional, através de uma procura em que o "oculto" se torna "manifesto".
A artisticidade de Beuys é o quotidiano, acessível a toda a gente, processo contínuo, obra aberta para todos os imaginários que na participação, no debate e na ação solidária vão criando mudança de vida.”
*Fotos da internet
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terça-feira, 22 de novembro de 2011
ARTE E EDUCAÇÃO E O PENSAMENTO DE JOSEPH BEUYS
No despertar do século XXI, a proposta da arte como desenvolvimento humano torna-se prioritária. Refletindo o acelerado das manifestações artísticas que se desenvolveram no tumultuado século XX, podemos fazer uma reflexão de como esse processo planetário surgiu e também como se encadeou em seqüência até o século XXI.
Jean Cassou, o famoso crítico de arte europeu, previu uma mudança total nos valores estéticos a partir da segunda metade do século XX. Menos estética, mais ética, foi o lema da xxx Bienal de Veneza.
Inconscientemente, impulsionados por uma necessidade planetária de evolução e abertura de consciência, a energia da criatividade foi conduzindo artistas e professores de arte a dedicar sua atenção ao despertar do mundo interno da criança e do adulto, através de todas as formas de expressão artística – dança, musica, artes plásticas etc: “Arte não se ensina, desperta-se, orienta-se”. Cada instante criador corresponde à intensidade de um momento de vida. Ele é o esquecimento do passado com todo o acumulo de conhecimentos e o despertar do presente em plenitude e riqueza? O ato de criação é um ato de presença. Criar é viver no presente. Neste aqui e agora, estão contidas nossas vivencias individuais, enriquecidas das vivencias do mundo a que pertencemos. Esse mundo está conosco, não podemos nos separar dele. O momento criador, quando vivido intensamente, é um retorno à Unidade Inicial. É, portanto, um momento de intensa alegria. Por meio da intuição, as idéias se harmonizam. A intuição é a claridade que vem de dentro de nós mesmos e não buscada fora, em ensinamentos. Desperta num momento inesperado, quando se transcende o pensamento lógico.
O pensamento divide, separa, organiza. Ele é necessário para a organização final das idéias que surgem espontaneamente. O pensamento está ligado ao passado e por isso não pode iluminar os caminhos do futuro.
Criar não é repetir o que se fez, mas acrescentar algo novo, transmutar condicionamentos enraizados, propor idéias. A presença do mestre incentiva a criação.
O mestre autêntico não é aquele que julga segundo suas inclinações e preferências, mas é aquele que, de maneira desinteressada, compreende e conduz o aluno. Ele não traz valores fixos a decretar: desperta valores novos ao contato de sua presença, de seu estímulo.
Segundo essa orientação artística, o aluno não visa apenas ao recebimento de um simples diploma ao final de um currículo, e sim à vivência de uma formação estética que não termina no período de aprendizagem, mas que se prolonga por toda a vida.
Joseph Beuys, cuja obra foi exposta na Galeria do Instituto Tomie Otake Beuys nos legou o conteúdo fundamental da sua mensagem artística:
-"Cada homem é um artista - a estética é o ser humano";
- "Deve haver uma relação entre o criador e o que usufrui -viver é criar com
e para a humanidade".
-"Conceito ampliado de arte -arte é a vida".
-"Deus e o mundo são arte -arte é ciência e ciência é arte".
-"O uno é o múltiplo e o múltiplo é o uno."
Nestes simples aforismos, explicita-se a sua filosofia de arte e de vida.
Por isso Beuys considera que "a criatividade não é monopólio das artes. (...) Quando eu digo que toda a gente é artista eu quero dizer que cada um pode concentrar a sua vida nessa perspectiva: pode cultivar a artisticidade tanto na pintura como na música, na técnica, na cura de doenças, na economia ou em qualquer outro domínio... A nossa idéia cultural é muitas vezes redutora. O dilema dos museus e das instituições culturais é que limitam o campo da arte, isolando-a numa torre de marfim . O nosso conceito de arte deve ser universal, terá que ter uma natureza interdisciplinar com um conceito novo de arte e ciência" (1979 - entrevista com Franz Hak).
*Fotos da internet
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