terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

INCONFIDÊNCIA ECOLÓGICA

Por ocasião da inauguração do “Caminho das artes” no Jardim Canadá, compareceram artistas e autoridades. Vieram dois ônibus de Belo Horizonte e muita gente entusiasmada com a iniciativa. Percorremos várias escolas de arte. Em cada lugar, o povo se aglomerava para ver o que estava acontecendo e as professoras explicavam para os visitantes os trabalhos ali realizados.
Como convidada especial, eu teria de me levantar e contar o histórico da minha chegada ao Retiro das Pedras, há 35 anos atrás, quando o Jardim Canadá era um povoado de barracos desabitados. O bairro cresceu, abriram-se restaurantes e casas de festas e agora sob a aprovação dos políticos, um circuito de artes promete se estender até Inhotim, passando por residências de artistas, galerias de arte, escolas de dança, artesanato e circo.
Em cada escola, fizemos uma parada e um discurso. Na escola de circo Armatrux, houve um discurso do secretário de cultura. “Nós, políticos, temos o cuidado de escutar os artistas. Nossa missão é escutar e executar as boas idéias que os artistas nos trazem.”
Eu estava distraída, vendo dois malabaristas andando numa corda; só consegui escutar o final do discurso, mas, assim mesmo, ganhei um microfone para responder e tive de responder no susto, numa espécie de jogral improvisado.
“Realmente”, respondi, “você tem razão. Esta região foi palco no passado da Inconfidência Mineira e teve a sua ação política cercada de artistas, poetas, escultores, arquitetos.”
“A minha sugestão é de fazermos uma nova inconfidência, desta vez uma Inconfidência ecológica. Os artistas poderiam se unir para defesa da natureza, defesa dos rios, das matas, das espécies nativas.”
A natureza está-se esgotando e no futuro nossos netos e bisnetos não terão água para beber. Cabe aos artistas sugerir, promover instalações, musicas, poesias. Há 30 anos o artista Manfredo de Souzaneto lançou um adesivo “Olhe bem as montanhas”; Carlos Drummond de Andrade escreveu o poema “Triste Horizonte”. Foram advertências incisivas, justamente porque nasceram no coração de artistas.

* Fotos: Euler Andrés e Maurício Andrés



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

ARTE CONSTRUTIVA NO BRASIL

A exposição sobre Arte Abstrata nas coleções do MAM e de Gilberto Chateaubriand – (Ordem x Liberdade), inaugurada no final de 2003 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro propunha uma retomada histórica do abstracionismo no Brasil, com ênfase nos anos 50.

Aproveitando uma viagem de férias no Rio, fiz um roteiro cultural com meus netos, todos interessados em arte: “- Vó, você deve estar do lado da liberdade, não é?”– “Não sei, posso estar nos dois, já que andei por vários caminhos. ” Naquela exposição, eu estava do lado que correspondia à ordem, disciplina. Foi com emoção que pude rever os artistas da década de 50 que participavam das Bienais de São Paulo. Lá estavam, ao meu lado, vizinhos do mesmo biombo, os companheiros de artes da época, muitos já falecidos: Milton Dacosta, Maria Leontina, Mário Silésio, Alfredo Volpi, Amílcar de Castro, Cícero Dias, Edith Bhering, Fayga Ostrower, Iberê Camargo, Lygia Clark, Manabu Mabe, Tomás Santa Rosa. Senti-me a própria sobrevivente, percorrendo a mostra.

O Concretismo na década de 50, nos propunha disciplina, concentração, limpeza de cores, uma arte mental, intimista, sem impulsos emocionais. Cultivava-se a virtude da paciência. Os quadros levavam meses para serem feitos e o instrumento usado na época para se conseguir uma linha perfeita era uma espécie de caneta ou bisturi, chamado tira-linhas, instrumento gráfico em desuso hoje em dia na era do computador. Com as linhas paralelas eu fazia postes de luz e partituras musicais. Gostava de ficar horas pintando, porque me fazia bem à alma.

Passar pelo concretismo foi para mim uma lição de vida. O fazer artístico significava crescimento. A integração de varias áreas das artes, necessária a uma revisão de valores, era um dos pontos mais importantes do movimento concretista que surgiu a partir da primeira Bienal de São Paulo. Poetas, músicos e pintores se uniam dentro do mesmo ideal estético dando prioridade à pureza da forma. O grande incentivador do concretismo foi o crítico de arte Mário Pedrosa, que visitava os artistas em seus ateliês e muitas vezes chegava até Minas Gerais para acompanhar o trabalho dos artistas mineiros que buscavam uma arte pura, desligada dos padrões figurativos. Os júris de seleção das primeiras Bienais, que às vezes eliminavam 90% dos trabalhos apresentados, eram o grande teste a ser enfrentado. Naquele tempo não existiam curadores de arte e os artistas se dispunham a passar por essa experiência.

A aprovação na Bienal era a minha chance de descer das montanhas e viajar para São Paulo, encontrar os amigos companheiros de jornada, participar dos eventos internacionais e estudar o pensamento dos grandes artistas abstratos europeus. Trocava idéias com os paulistas Maria Leontina, Milton Dacosta, Arcângelo Ianelli e Volpi. Todos tínhamos vindo de antecedentes figurativos e isto transparecia em nossos trabalhos. Não havia a preocupação matemática dos concretistas suíços, seguíamos o comando da sensibilidade e da intuição. Naquela ocasião as idéias espiritualistas de Kandinsky começaram a me acenar como uma estrela luminosa. Os grandes pintores abstratos europeus, principalmente os da vanguarda russa, não se limitavam aos aspectos formais; tinham uma busca interior, um contato direto com níveis mais profundos de consciência.

O rompimento com a figura e o tema indicaram também direções novas para a escultura brasileira. A exposição do artista suíço Max Bill no Museu de Arte de São Paulo em 1950, impulsionou a nova geração de escultores ao questionamento dos moldes tradicionais da escultura figurativa, para abraçar a forma tridimensional pura. Do grupo de Minas, três artistas escultores aderiram ao movimento: Amílcar de Castro, Franz Weissmann e Mary Vieira. Mais tarde, Mary deixou o Brasil para se radicar na Suíça, onde se tornou uma aluna e seguidora de Max Bill vindo a ser uma artista de renome internacional.

Repensar o concretismo é também repensar os caminhos por onde passamos. Aqui em Minas Gerais a nossa visão da arte vinha dos antecedentes líricos de Guignard. Um pequeno grupo se reunia no ateliê de Marília Gianetti, projetado pelo arquiteto Sylvio de Vasconcellos. Marília Gianetti, Mário Silésio, Nely Frade e eu formávamos o grupo de pintores que na década de 50 encontraram o seu próprio caminho dentro da arte não figurativa.

A mesma preocupação do simples estava em todos nós. Revendo os quadros da exposição do Museu de Arte Moderna no Rio cheguei à conclusão de que houve em todos um ponto de mutação comum: a necessidade de eliminar o supérfluo, reduzir o impulso emocional e buscar a essência, na arte e na vida.

Naquela exposição, foi-me possível constatar um fato: Todos nós mudamos depois de algum tempo, alguns radicalmente, outros sem grandes saltos. O caminho da liberdade foi uma conseqüência do exercício da disciplina. Ali no museu, frente a frente estavam os opostos complementares de tudo que existe na natureza e na criação.

A exposição MHAndres -Linha e Gesto, organizada por Roberto e Marilia Andrés, agora no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, significa também disciplina e liberdade, duas vertentes constantes em meu itinerário artístico. Percorrendo a exposição pode-se ver como estes dois impulsos estão ali presentes, buscando sempre no passado uma linguagem renovada. A acessoria e entusiasmo do grupo de jovens colaboradores do evento possibilita a renovação do diálogo entre os curadores, artistas e o público.



*IMAGENS:
1) Maria Helena Andrés – Fantasia de ritmos,1958
2) Mário Silésio – Ritimo,1957
3) Marília Gianetti Torres – Composição n° 2, 1956
4) Amílcar de Castro – Sem título, 1963
5) Franz Weissman – Escultura
6) Mary Vieira – Escultura,Parque do Ibirapuera, SP




sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

LIVRO OBJETO

A Editora C/Arte, sempre à frente das iniciativas de vanguarda, inaugurou em novembro uma galeria de arte, com uma bela exposição de livros intitulada “Livrobjeto”.

Ali os livros tomaram formas diversificadas dependendo da criatividade de cada artista. Os visitantes podem não somente contemplar os objetos, como também tocá-los com uma luva. O Livro –objeto, ou livro do artista, contém mensagens, frases, textos, desenhos, memórias.
Deixa de ser um relato pessoal, para se transformar em pensamento poético, como o livro feito em lona de Marcos Coelho Benjamim ou os dizeres caligráficos de Maria do Carmo Freitas. Percorrendo a mostra encontramos a busca do vazio de Isaura Pena e as miniaturas de livros que não sei de Waltércio Caldas. Logo na entrada, o livro de Jorge dos Anjos, com as impressões gravadas em ferro quente sobre feltro, pode ser visto e manipulado. Ao fundo, Cláudia Renault reflete a transparência do vidro na madeira e Paulo Bruscky realiza suas experiências com peças de um computador. Arlindo Daibert é lembrado como pioneiro dessa arte, resgatando os castelos de Santa Teresa de Ávila. Daniel Escobar faz uma releitura dos guias de Belo Horizonte e Hilai Sami Hilal trabalha o livro em cobre, como as rendeiras do nordeste.

Destacamos a apresentação de Vera Casa Nova, introduzindo o público à exposição.

“Livro=objeto ; objeto=livro

O óbvio se instala diante do que olhamos. Um livro sob a forma de códice: díptico, tríptico, políptico; outras formas, cuja dobradura, pela dobradiça, vem a ser um desdobramento . Uma tautologia que não se reduz à repetição da forma.Volume de registro de artistas com sua dynamis particular. Tabuinha de inscrição transformada em escultura. Objeto semiótico. Transparência de signos da vida do artista, com suas faltas, desejos e afetos. Poemas que se dão a ver. Diagramas possíveis. A página consútil em relevo, com suas narrativas infinitas, da literatura ao cinema, à fotografia, à pintura, à gravura, à escultura.

Marcas, impressões do gesto, da palavra escrita no corpo da matéria escolhida, experiências do dentro e do fora. Invenção dos restos, dos dejetos, dos fragmentos .

Livro-jogo: jogo de forças, de efeitos, livro do acaso. Diferença que se realiza na história”.

A exposição é uma experiência muito boa. Mostra caminhos diversos com técnicas variadas trazendo à tona um caráter intimista e poético, uma revelação da alma de cada artista ali presente.


*Imagens:
1 - Jorge dos Anjos, Sem Título, madeira, ferro e presilhas, 2009.
2 - Hilal Sami Hilal, Caderno da Série Seu Sami, cobre/corrosão, papel feito a mão, 2007/2009
3 - Marcos Benjamim, Sem Titulo, grafismo sobre lona, 2008
4 - Isaura Pena, Sem Titulo, nanquim sobre papel, 2007/2009
5 - Paulo Bruscky, Intersigne VIII, técnica mista, 1993
6 - Arlindo Daibert, As Sete Moradas, fragmentos de livro sobre papelão, 1992




terça-feira, 15 de dezembro de 2009


MARIA HELENA ANDRÉS / LINHA / GESTO

Maria Helena Andrés vem há mais de sessenta anos surpreendendo aqueles que dela esperam estilo fixo e coerência formal. Sua trajetória, marcada por saltos e rupturas criativas, pode ser vista como um exercício permanente de desprendimento das forças de continuidade ligadas aos mestres, à crítica, ao público e ao mercado.
Com ela aprende-se que as rupturas não recomeçam do zero. São antes momentos em que o artista toma as rédeas da direção em que vai seu trabalho. Significam liberdade em relação aos outros e a si mesmo, mas não pressupõem abandono do já feito.
O esforço curatorial esteve em realçar os elementos que perpassam e estruturam as diversas fases do trabalho de Maria Helena Andrés. A linha, que busca ordenar as coisas, construir razões gráficas, demandando da artista a disciplina da matemática, da música, da arquitetura. (Quem se debruça sobre uma de suas pinturas concretistas pode encontrar equações geométricas, fantasias de ritmos ou cidades iluminadas). E o gesto da ação espontânea, da liberdade corporal, do esvaziamento da mente que abre portas para o inconsciente.
Buscamos desenhos há muito guardados, retomamos a passagem de Maria Helena pelo concretismo e expressionismo informal e chegamos até as esculturas atuais, que revelam as duas vertentes predominantes em sua obra: a construtiva, relacionada com a linha, e a expressionista, ligada ao gesto. Esse partido curatorial configurou a exposição em três núcleos principais: o concretista, primado da geometria na década de 1950; o primeiro gestual, que traz a chegada da artista na action painting na década de 1960; e o contemporâneo, onde essas duas vertentes se desdobram em pinturas, desenhos e esculturas.
Por razões diferentes, os três núcleos apresentam obras inéditas ao público brasileiro. Se, naturalmente, muito da sua produção recente está sendo exposta pela primeira vez, o mesmo acontece com vários desenhos da década de 1950, que, em pequeno formato, ficaram cuidadosamente guardados no acervo da artista, e com os grandes desenhos da fase de guerra, que, embora exibidos nos anos 1960 em museus nos Estados Unidos, na França e na Itália, têm agora sua primeira exibição no Brasil.
Quem conhece a obra de Maria Helena pode estranhar aqui a prevalência do preto e branco sobre a cor e do desenho sobre a pintura. Mas em um trabalho em que a cor é elemento tão marcante, a exploração do desenho parece revelar sua estrutura. Em Maria Helena a cor nunca esteve completamente solta, mas engajada nos traços, seja nas embarcações, nos astronautas ou nas madonas.
Pensando a transição da linha concretista para o gestual, Maria Helena disse certa vez que, ao jogar as cidades iuminadas no mar, elas viraram barcos – não por acaso à época da sua primeira viagem para o exterior, em 1961. Tal dissolução se fez pelas tintas: a pintura a óleo concretista enfatizava a precisão, a ausência de erro, sendo desestruturada primeiro pelo pastel, em desenhos de linhas mais sinuosas, para então chegar à transparência e espontaneidade do nanquin e do acrílico.
Ao quebrar as linhas geométricas, Maria Helena se abriu para a ação corporal, e passou a atuar constantemente na ponte entre intuição e razão, corpo e mente. Em todas as suas obras pode-se encontrar essa dualidade, como um pendular contínuo entre a vontade de liberdade e a de construir amarras. Seus voos, por mais altos que fossem, na vida e na arte, sempre tiveram um ponto estável para onde regressar.
O visitante da exposição é convidado a adentrar nesses voos, procurar seus movimentos mais fascinantes e seus portos mais seguros. Quem sabe não encontrará na linha mais reta o gesto impreciso da mão da artista, e na mancha mais borrada um pensamento aguçado e rigoroso?

A linha
A linha aparece nos desenhos figurativos da década de 1950, que representavam cenas do cotidiano e da vida rural – os boizinhos, as lavadeiras, as colheitas, as crianças brincando – e cenas da via sacra. A busca da essência da linha, da forma e da cor conduziu às pinturas concretistas das Cidades iluminadas, estruturadas através de linhas horizontais e verticais. “Na pintura concretista eu preparava a tela de uma cor única, tirava com tiralinha linhas paralelas que configuravam os postes de luz das Cidades iluminadas.”
O gesto
A partir da década de 1960 surge o gesto, feito com a quina do carvão sobre o papel camurça, revelando a transparência do claro e escuro. Nessa fase gestual o desenho se estrutura na forma dos barcos, levando à libertação da rigidez concretista e ao encontro do expressionismo informal. A série de barcos conduz à série de guerra, realizada em nanquim sobre o papel, denunciando a violência e a morte que acontecia nos porões da ditadura brasileira e nas intervenções imperialistas nos países do Terceiro Mundo. O trabalho Radioactive Ship marca essa fusão de séries, dos barcos com a guerra e também a fusão de técnicas: o desenho, a pintura e a colagem.
A releitura
A partir do ano 2000 MHA faz uma releitura de sua trajetória e o gestual, que surgiu primeiro nos desenhos, se expande nas pinturas em preto e branco, realizadas em acrílica sobre tela. “A acrílica possibilita trabalhar a transparência em amplas telas, usando vassouras de esponja. A esponja, a vassoura, que encontro no cotidiano, são incluídas no meu trabalho.”
O processo de releitura conduz a artista a experimentar a escultura como um outro meio de expressão. Os desenhos concretistas, que surgiram dos boizinhos da fazenda, foram projetados por Elena Andrés Valle executados em aço por Allen Roscoe, resultando nas esculturas construtivas. Recentemente, ela investiga uma forma mais livre para construir esculturas e encontra o papel encorpado para fazer “os enrolados”. Estes se tornaram maquetes para as esculturas orgânicas executadas em aço por Giovanni Fantauzzi.
O trabalho criativo de MHA continua em processo de investigação constante, acompanhando sua necessidade interior de se expressar através de diferentes meios e de estar em sintonia com as mudanças de seu tempo.
Roberto Andrés Rolim
Marília Andrés Ribeiro
Curadores

*Fotos:
Esculturas: Euler Andrés e Maria Helena Andrés
Desenhos : Arquivo Maria Helena Andrés
Pintura Concretista: Juninho Motta
Desenho da série de Guerra: Roberto Andrés

*Link para o site: www.imha.org.br/linhaegesto

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

KÁTIA SANTANA

Conheci Kátia Santana, durante o 3° Festival de Inverno de Entre Rios de Minas, realizando uma performance de pintura diante de um público curioso e admirado. Ali, diante dos olhares atentos, Kátia, ignorando o burburinho ao redor, dialogava diretamente com a tela e as tintas. Para ela, só existia esse diálogo, em seus níveis mais profundos de consciência, onde as mãos faziam uma ponte direta entre as emoções e a mente. Não havia um caráter premeditado, mas sim uma ênfase no aqui e no agora, em uma pintura espontânea e gestual, com cores que surgiam da jovem artista como os sons que saem dos dedos de um músico. Para mim, a música tem uma grande relação com a pintura, onde as cores significam notas musicais.

Naquele dia, sentada em sua cadeira de rodas, Kátia irradiava luz. Estava feliz, pintando, e, depois do quadro pronto, também se alegrava com a receptividade do público e com uma comunicação que superava palavras.

Kátia é portadora de paralisia cerebral desde o nascimento e a possibilidade de expressar seu mundo interior através da arte a vem conduzindo a um despertar de consciência cada vez mais intenso. Apesar de ter dificuldades com a fala, Kátia escuta bem e se comunica através do computador, tendo, inclusive, começado a escrever um livro sobre sua própria vida.

A arte de Kátia é um colorido que se desdobra como jardins de flores variadas, sem a preocupação em delinear uma forma, mas que se conduz e se expressa de maneira abstrata, em uma linguagem muito própria. Dentro da trajetória da arte moderna, sua arte lembra grandes mestres franceses que usavam cores puras e justapostas, deixando-as vibrar e respirar.

Kátia é aluna de Ivana Andrés, psicóloga e artista, desde 2002, e seu aprendizado ocorreu rapidamente, sem bloqueios. Atualmente, ela pode ser considerada uma artista com um alto QS – Quociente de Superação –, um dos índices de inteligência mais reconhecidos nos dias de hoje.

* Fotos de Leandro Luppi



PINCELADA

Taís Helt, artista plástica e gravadora de Belo Horizonte está expondo no Museu de Artes e Ofícios. A exposição é interativa e possibilita ao expectador realizar trabalhos em gravura.

domingo, 22 de novembro de 2009

DIÁLOGO ÁFRICA BRASIL

Há países de que só podemos captar a impressão momentânea, o que nos sugere o impacto do primeiro encontro. Do alto do Boeing 707 da Air France, sentimos o sol e a terra em baixo. O deserto a se perder de vista. Parece-nos ver fotografias da lua, com seus desenhos e crateras. A civilização aproxima homens e terras. Um jato super cheio sobrevoa o deserto. A conquista do espaço, neste movimentado século XX, é o sinal do domínio do homem sobre a natureza. Em baixo, continua desfilando o panorama da areia quente, ensolarada, sem vegetação, sem casas, sem animais; somente a secura e a monótona repetição do mesmo tom rosa alaranjado, tão diferente de nossa floresta amazônica, onde o verde se perde de vista, como um tapete.

A África é o próprio sol vermelho laranja. E o colorido quente do sol do deserto está repetido nas cores das mantas africanas, dos puffs de couro, das jóias populares. Um grande mural visto no restaurante do aeroporto de Dakar, sugere todo este clima que é também o calor temperamental do negro africano. O mural é imenso, tem formas redondas, sensuais. Há um relacionamento interior, a pulsação do mesmo sangue, nas linhas e cores que movimentam o painel e no balanceio erótico das danças negras. Cada país reflete em sua arte, por mais internacionalizada que seja, um espírito ligado à terra, ao sangue, às condições de vida do povo. É o regional que se liga ao universal, através de cores características, de ritmos diferenciados. Não se poderia, sem ferir a autenticidade, fazer arte pura, fria, intelectual, nesta África quente que eu vi apenas de relance, mas que me foi possível sentir na monumentalidade, no dinamismo, no ritmo do tambor e da dança, deste imenso mural do aeroporto de Dakar.

Em Zimbabué, que significa “Casa de Pedra”, existe o Museu Monte Palace que abriga a coleção Berardo de Arte com artistas africanos conhecidos internacionalmente. À frente do museu o visitante pode caminhar em um jardim oriental com vegetação exuberante, cercada de fontes, quiosques japoneses com as tradicionais pontes de madeira. Esculturas de pedra com temas africanos surgem no meio do verde, trazendo o passado ao presente.

A influência africana trazida às Américas através da escravidão, misturou-se à raça branca, e despertou vitoriosa nos Estados Unidos, no ritmo que veio do jazz à música trepidante de nossos dias, e, no Brasil, no espetáculo plástico das capoeiras da Bahia, no calor do samba brasileiro e nas comemorações do Maracatu, de grande beleza plástica. Contemplando o mural, lembro-me dos camdomblés, das histórias de Yemanjá e das cores festivas dos berimbaus.

A arte africana atravessou os mares e veio se expandir no Brasil, sendo os seus expoentes mais conhecidos os artistas plásticos Rubem Valentim, Emanoel Araújo, Mestre Didi, Maurino Araújo e Jorge dos Anjos.


Imagens:

1) Sala de exposição de Arte Contemporânea do Museu Monte Palace, Zimbabué
www.montepalace.com- acesso em 22/11/2009
2) Pintura Africana. Jou de Fête. www.saber.cultural.com.br. acesso em 22/11/2009
3) Rubem Valentim. Serigrafia, 1993. www.mauc.ufc.br acesso em 22/11/2009
4) Jorge dos Anjos. Portal da Memória. Recorte em aço, Pampulha, Belo Horizonte, 2006. Foto: Marília Andrés


PINCELADA

O carnaval 2010 já foi lançado na Orla de Copacabana com a passagem de um trio elétrico animado por um grupo de terceira idade. Musicas carnavalescas e muita alegria se misturavam com os sons vindos do mar.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

DESENHANDO A ÍNDIA

Estou desenhando na Grande Praça de Bangalore. Em toda a Índia as praças são enormes. Este palácio é o parlamento da cidade, com escadarias e varandas monumentais. O caráter monumental das construções, das praças e da arquitetura de modo geral, é um ponto de extraordinária surpresa para quem chega de fora, acostumado ao crescimento vertical das cidades, visando a especulação imobiliária. Aqui o governo impede de todos os modos essa especulação. Quem compra um lote tem de construir e não pode vender o imóvel por 10 anos. São medidas severas que impedem o drama da aglomeração nos espaços centrais das grandes cidades como acontece no Ocidente. Todo o crescimento das cidades na Índia é feito em sentido horizontal.
Enquanto desenho, pobres se acercam com as mãos estendidas pedindo dinheiro. Mesmo que tenhamos por eles, sentimentos de amor e compaixão, o fato de dar esmolas nas ruas não resolve nada, só aumenta o número de mendigos. As crianças dão pena- são lindas, de uma ternura sem fim.Quando vêm alguém com ares de estrangeiro, se aproximam: “Mam...”e estendem as mãozinhas. E há também as velhas que se acercam estendendo os braços encarquilhados: “Mam...”
Agora estou em frente a um templo de Shiva, com meu caderno de desenho, cercada pelos pobres. Eles olham curiosos, empurram-se para ver. A velhinha me defende em linguagem local xingando as crianças. Imagino o que ela deve estar dizendo: “Deixa a dona desenhar.” A dona, apesar de aflita, continua a desenhar. Não pode espalhar rúpias pela multidão porque senão poderia criar problemas com outros pobres. Mas, sabendo que ninguém vai ganhar, eles se conformam em olhar o papel com curiosidade. E assim vou desenhando o povo deste país, os quiosques, os palácios, praças, templos...




PINCELADA

No dia 13 de novembro, o Instituto Pensarte, em São Paulo, abre a temporada da exposição itinerante "Arte Superando Barreiras", assinada pela artista mineira Kátia Santana. O projeto contempla não somente a artista plástica Kátia Santana, mas também o músico Evaldo Leoni, portador de deficiência visual. Depois de São Paulo, as telas viajam para Minas Gerais, para a Galeria do Estado de Minas, de 1 a 7 de dezembro.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

NOSSA SENHORA E O ANJO, TEMA DE GUIGNARD

Nas ruas de Florença , rememoramos os passos de Guignard ainda jovem, estudante de arte . Florença nos faz lembrar Ouro Preto, com suas ruelas escondidas, onde se sente a arte ressurgindo de um passado histórico. Em Florença viveram Miguel Ângelo, Leonardo, Botticelli, perpetuados nas praças, nas igrejas e museus da cidade. Filas enormes de turistas desfilam diante das obras de arte e pode-se ver a primeira criação de Leonardo, um anjinho pintado na tela “Batismo de Cristo” de seu mestre, Andrea de Verocchio. O gênio de Leonardo foi revelado a partir daquele anjo onde o discípulo superou o mestre em qualidade e beleza.
Guignard, estudando em Florença deve ter aprendido com as obras dos mestres renascentistas e pré- renascentistas. Guignard colocava nas paredes da escola de belas Artes reproduções de Botticelli, Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci , Dürer e outros.
“Olha como eles sabiam desenhar! Nunca começavam a pintura sem uma cuidadosa dedicação ao desenho. O desenho é a base para se chegar à pintura.” E muitas vezes esses desenhos rabiscados espontaneamente, hoje não são considerados apenas estudos, mas nos ensinam como nasce a criatividade. O importante não era reproduzir o modelo de forma acadêmica ( Guignard detestava o academismo) , mas transmutá-lo de acordo com o temperamento de cada um.
Assim, caminhando através da admiração de Guignard, também aprendíamos a amar os artistas que hoje constituem o grande acervo cultural da humanidade. Os temas escolhidos por esses artistas também eram passados nas aulas de desenho e pintura. No início do curso Guignard nos dava um tema para ser ilustrado : “Nossa Senhora e o Anjo...”. Muitas vezes indaguei o porque deste tema bíblico. A resposta está na Galeria Uffizi, interpretada por Leonardo, Rafael, Filippo de Lippi , Botticelli e outros. Mergulhando no tempo, vejo Guignard se inspirando naquele tema bíblico cheio de poesia, para transmitir mais tarde aos alunos a intensidade mística de suas experiências.
A arte, transcendendo as limitações da época, nos conduz ao mergulho no inconsciente coletivo, além do tempo e do espaço. Dante e Botticelli percorreram os caminhos da alma até a redenção final glorificada. Olhando com os olhos de Guignard ainda estudante, sentimos o quanto a poesia e transcendência de um sentimento religioso influenciou o artista que mais tarde revelaria o céu a seus alunos, num país distante e numa região cheia de poesia e de religiosidade que é a região de Minas Gerais. Guignard nos revelou a tradição cristã sem impor dogmas ou regras de conduta. Tendo como base os artistas florentinos ele nos transmitiu a grande lição que aprendeu na Europa.

Quadros:
1) “Anunciação” - Leonardo da Vinci
2) “Anunciação” - Sandro Boticelli
3) “Anunciação” - Lorenzo de Credi
4) “Anunciação” – Fra Felipo Lippi
5) “Batismo de Cristo” – Andréa del Verrocchio
6) “Batismo de Cristo” – Detalhe dos anjos- Anjo da esquerda é de Leonardo da Vinci com 13 anos de idade.




PINCELADAS

Aconteceu em Ouro Preto, o fórum das letras, considerado um dos mais importantes acontecimentos literários do Brasil, coordenado por Guiomar da Grammond, professora da UFOP. Ali compareceram, entre outros, Frei beto, Arnaldo Antunes, Paulinho Moska e Guilherme Mansur.

Lembramos com saudade do nosso companheiro de arte Fernando Fiúza, sempre atuante no meio cultural.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

VISITA A INHOTIM

Um carrinho aberto conduzia as pessoas para uma visita ao parque de Inhotim. Os jardins planejados inicialmente por Roberto Burle Marx iam mostrando a beleza e exuberância da flora brasileira. Sentada no banco de frente do carro observava os patos nadando no lago e formando círculos nas águas.
A arte contemporânea de Inhotim não está fechada no ambiente frio de um museu tradicional. Ela pertence a todo o espaço ajardinado, surpreendendo o visitante com o inesperado.
Cheguei sozinha e me deram como guia uma mocinha que me acompanhou a pé até a instalação de Rivane Neuenschwander. Pelo caminho me ofereceu algumas jabuticabas apanhadas na hora. Esta recepção descontraída logo me pôs à vontade para percorrer as alamedas do parque.
Rivane instalou sua proposta numa pequena casa de fazenda de 1874, a mais antiga construção remanescente da propriedade rural que deu origem a Inhotim. A casa foi restaurada para ser palco de uma instalação bastante original: pequenas bolas de isopor moviam-se aleatoriamente sobre um forro transparente, ativadas por circuladores de ar, formando nuvens no céu.
Lembrei-me de Guignard que nos mandava observar os movimentos das nuvens no céu.
Na instalação de Valeska Soares a música e a dança criavam um espaço de sonho. As figuras apareciam e desapareciam em um ritmo poético. Nessa dança virtual o visitante fazia parte do evento, ele se via nos espelhos e percorria a pista do cassino ali projetada como palco. Sentia-se jovem e dançarino, recuando no tempo em que as moças dançavam nas boates com as saias rodadas e os rapazes de terno branco. Ouvia-se uma música dos anos dourados, que ali foram relembrados, revividos e perpetuados. Valeska nos conduzia ao passado e nos fazia retornar ao presente num ciclo de grande beleza e poesia. A instalação de Valeska foi projetada para o Museu de Arte da Pampulha, mas ganhou em Inhotim um espaço maior, participante e envolvente.
O carro já nos esperava para uma nova viagem. Penetramos em uma trilha dentro da Mata Atlântica, podendo respirar o cheio da vegetação, o zumbido dos insetos e observar o entrelaçado do cipó abraçando as árvores. O percurso dentro da mata já nos permitia entrar em comunhão com a natureza.
Ali, foi construído um galpão onde ouvimos a música instrumental conjugada com vozes femininas e masculinas. Sentamos para apreciar a estranha música intitulada “Revoada de corvos”, e por alguns momentos ali ficamos, dentro daquela atmosfera mágica onde os sons da natureza formavam uma orquestra. Os dois artistas Janet Cardiff e George Bures Miller tem uma presença muito forte em Inhotim e sensibilizam o visitante para um vôo espacial com esta revoada de pássaros. O despertar sensorial nos fez sentir melhor a Mata na viagem de volta.
Finalmente, Chris Burden com suas esculturas de barras de ferro, construídas no sistema de improvisação, proporcionavam um impacto para o visitante. Ali, ele podia penetrar na instalação, tocar com as mãos o ferro, sentir sua aspereza. As barras foram jogadas ao acaso, através de guindastes, sem projetos premeditados, e foram fixadas no chão de cimento fresco, formando uma floresta de ferro. O processo de criação dessas esculturas nos fazia lembrar os pintores da Action Painting.
Inhotim é uma jóia da arte contemporânea. Parabéns a Bernardo Paz por essa iniciativa de abrir ao público seus jardins e seu acervo. A arte contemporânea precisa de espaço, e ali, no meio de plantas e árvores frondosas, ela está recebendo generosamente o aconchego necessário para sua realização.

*Fotos de Maria Helena Andrés e Marília Andrés Ribeiro

sexta-feira, 23 de outubro de 2009