segunda-feira, 29 de junho de 2009

O yogue e o fotógrafo


Ganges é o rio sagrado da India. Nascendo nos Himalaias, suas águas percorrem cidades, vales e campos. Sua história está ligada às antigas culturas da India, com seus deuses e mitos. Anos atrás, os tigres desciam da floresta para beber água no Ganges.

Antes da chegada dos ingleses, aquela região era povoada pelos sadhus. Sadhu em sânscrito significa pessoa boa, santa, inofensiva que dedica sua vida ao estudo dos vedas, a meditação, a repetição de mantras e ao desapego das coisas materiais. Peregrinam de cidade em cidade, vivendo o momento presente, sem guardar nada para o futuro. A tradição hindu respeita o renunciante, oferecendo-lhe apoio para subsistência. Os ingleses, também respeitando o tipo de vida dos sadhus legalizaram a permanência deles na região. Hoje, Rishikesh, (região onde passa o rio Ganges) está povoada de ashrams (comunidades espiritualistas), cada um procurando divulgar a sua própria mensagem. As pessoas costumam banhar-se no rio sagrado como purificação da alma e do corpo. “O rio é a imagem de nossa própria vida”, escrevi um dia em meu diário.

O rio Ganges corre por detrás do Dayananda Ashram em Rishkesh, numa região que antigamente era uma floresta. Do outro lado do rio pode-se ver a montanha coberta de florestas onde se escondem mosteiros e praias de areia duras cobertas de pedras.

O barulho das águas vai conduzindo a mente para um estado de quietude e paz. Um yogue vestido de branco permanece estático em estado de êxtase. Os yogues buscam esse estado de união com o universo todo através da meditação, dos rituais, da entrega e do auto conhecimento. Sentir a própria vida passando como um filme, oferece-la ao Deus onipotente e onipresente era a experiência que o Ganges nos oferecia.

Nas águas do Ganges as imagens se refletiam como num espelho; observei um sadhu concentrado em suas práticas; junto um fotógrafo, máquina a tiracolo registrava a paisagem através das lentes.

As lentes do fotografo descobriam texturas nas pedras, reflexos nas águas trazendo à tona sua vivência do momento. Seu objetivo era documentar o aqui e o agora. O sadhu buscava em silencio, um mergulho no seu mundo interno. Ele abandonara a família, deixara crescer os cabelos e usava roupas exóticas. No ocidente seria taxado de doido, mas na India os Sadhus são respeitados.

Naquele momento muitos sadhus estavam concentrados na cidade de Haridwar, morando debaixo de tendas, sobre a proteção do governo, ali celebrando o festival de Kumba Mela. O fotografo não perdia as cenas : “Olha aqueles patos em cima da pedra!” Patos amarelos, com a cabeça escondida debaixo das asas, também pareciam meditar. Enquanto isso, os esquilos subiam em uma árvore bem perto de nós. Eles não se assustam com o ser humano, pois sabem por instinto que naquele lugar não se matam animais.

Do outro lado do rio, pequenas choupanas em forma de iglus , pareciam escondidas no meio das árvores. Ali viveram os Beatles acompanhando seu guru Maharish Mahesh yogue. Naquele lugar suas composições de caráter internacional, uniram-se aos sons do oriente, numa síntese oriente- ocidente através da música. À partir da experiência na India, George Harrison realizou o concerto de Bangladesh e Paul MacCartney se tornou vegetariano. John Lennon conscientizou o mundo sobre os problemas da violência e da guerra.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

VISITA AO ASHRAM DE RAMANA MAHARISHI


O ashram de Ramana Maharshi, um dos maiores mestres da Índia, foi construído aos pés da montanha de Arunachala, deixando uma área central para as salas de meditação, o templo, as celebrações e os cânticos dos Vedas. As acomodações reservadas aos hóspedes são cabanas com dois quartos, banheiro e varanda. O refeitório fica junto da área central, e quando chegamos já era hora do jantar. Comemos assentados no chão de lajota, arroz muito apimentado servido em folhas costuradas em forma de prato. Usamos a mão direita para comer, segundo antigos costumes da Índia. Ali não existiam garfos nem colheres. Do lado de fora da sala de refeições, um grupo de macacos disputava os pedaços de chapati que sobravam dos pratos. Agarravam-se às grades das janelas e ficavam esperando que sobrasse alguma coisa para eles.
As construções na Índia dão muito valor ao espaço. Há sempre jardins com árvores ladeando os templos, as escolas ou os edifícios públicos.
Recuando para um pequeno muro de pedra podíamos ver o ashram com suas palmeiras, o lago onde os indianos vinham banhar-se e os pavões coloridos, tranquilamente sentados sobre os telhados. As vacas atravessavam as ruas em passos vagarosos, e os carros paravam para deixá-las passar. “Please horn” (por favor, buzine). A buzina também fazia parte do burburinho da Índia. Dentro do ashram, pés descalços, fizemos silêncio. Esse silêncio era necessário para entrarmos em nosso espaço interno.
Os swamis passavam espontaneamente os ensinamentos de Ramana para o visitante. Levaram-me à presença de um swami de 80 anos de idade. Sentei-me em frente a um homem de pele morena e cabelos brancos. Durante uma hora ele não disse uma só palavra, mas a sua Luz irradiava Paz e Sabedoria. O silêncio ensina mais do que as palavras. Os monges trapistas cristãos fazem voto de silêncio e as carmelitas também.
Lembrei-me da mensagem de uma carmelita francesa transmitida em seu pequeno livro intitulado “Os doze graus do Silêncio”:
“A vida interior poderia constituir nesta única palavra : Silêncio”. Essa mensagem me fez refletir sobre a Unidade existente entre os monges cristãos, mergulhados na contemplação e os yogues, recolhidos em meditação. Dentro de nós há uma energia, uma Luz que independe da forma externa. Quando nos ligamos a ela, ou nos perdemos nela, saímos fora do tempo e do espaço. Ela simplesmente existe. A Paz, a Beleza e o Amor, estão dentro e fora de nós.
Ramana estimulava o auto conhecimento e dava como mantra a ser repetido a indagação:

QUEM SOU EU?

Extraído do livro “Encontro com Mestres no Oriente” de Maria Helena Andrés, Editora Luz Azul, BH, 1993

Pinceladas

Um sucesso a apresentação da Orquestra Infantil de São Brás do Suaçuí no dia 12 de Junho na matriz da cidade.
A peça infantil, Bicho de Goiaba, de autoria de Ivana Andrés, ganhou montagem nova no Paraná.
Está acontecendo a exposição sobre os Salões de Arte Contemporânea de Belo Horizonte no Museu de Arte da Pampulha. Vale a pena conferir!

segunda-feira, 8 de junho de 2009

PEPEDRO NOS CAMINHOS DA ÍNDIA


Para ilustrar o livro “Pepedro nos caminhos da Índia”, viajei pela Índia durante quase um ano, em companhia de Maurício, Aparecida e do meu neto Joaquim Pedro, que para ali se deslocaram motivados por uma bolsa de estudos do Maurício no Indian Institute of Managemanet de Bangalore.
Durante esse tempo percebi ao vivo, por experiência própria as diferenças e semelhanças entre as duas culturas, separadas por muitos mares. Isso me possibilitou receber com muita alegria os textos do livro “Pepedro nos Caminhos da Índia”, escrito por minha nora Aparecida. Aquele roteiro me possibilitava transformar em imagens coloridas o que estava vivendo no momento. Comecei a desenhar nas praças, nos parques, nos templos, nos teatros, muitas vezes cercada por uma multidão de crianças curiosas que ambicionavam as minhas canetas hidrográficas. E muitas vezes as canetas ficavam com as crianças.
O livro do Pepedro foi um testemunho de vida de um novo mundo que que se abria para mim. Naquela época (década de 70), em que não existiam computadores nem comunicação via internet, a Índia era um lugar distante, as cartas levavam às vezes 2 meses para chegar ao seu destino.
Mas assim mesmo era necessário escrever. Aqui vão alguns textos da época, recolhidos de cartas para a família:

“Queridos filhos:

Estamos neste hotel há 3 dias e já muita coisa se modificou. Cheguei amedrontada em Delhi, ainda com um pouco das tensões dos últimos tempos, mas agora já estou bem melhor. Preferi ficar sozinha para escrever, pintar se tiver vontade, ler e meditar. Visitamos os pontos turísticos da cidade, o Grande Forte, o Zoológico, mas resolvi também me virar sozinha. Procurei um templo lindíssimo que já visitara da outra vez. Está situado num bairro só de templos, contendo em grande harmonia e comunicação o templo Budista, Hinduísta e Islâmico. Assisti no templo central , todo de mármore e espelhos paralelos um concerto espontâneo de Ragas Hindus. Um velhinho tocava um instrumento pequeno, um som de harmônio. Quatro rapazes sentados o acompanhavam na tabla. O som das cordas e o ritmo das tablas ecoava por todo o imenso salão de mármore. Fiquei parada muito tempo escutando (aliás estou agora treinando a arte de ouvir em silêncio). Aqui na Índia, apesar do passaporte, não me considero turista, mas observadora ou peregrina, como diz o “I Ching”. Enquanto uma turma de turistas passa rápido absorvendo por golpes de olhar o que vêm, eu resolvi parar e sentir cada coisa que me atrai. Diante de uma imagem de Shiva em meditação, parei tanto tempo que nem cheguei a perceber um monge me coroando de flores amarelas. “Welcome, madam” soou nos meus ouvidos de repente. Ele se levantou, pegou um pouco de cinza e colocou no meu terceiro olho. Voltei mais animada para casa. As cinzas de Shiva me deram coragem para sair sozinha, encontrar pessoas, confiar no desconhecido.”

Pinceladas

O livro “Pepedro nos caminhos da Índia, editado pela Civilização Brasileira e reeditado pela Editora C/Arte, está percorrendo o Brasil com lançamentos em Brasília, Belo Horizonte, Rio, São Paulo e Entre Rios de Minas.
O presidente do IMHA Euler Andrés e sua esposa Iara acabam de chegar de Buenos Aires onde foram trocar idéias culturais com o diretor do BID Daniel Oliveira.
Kátia Santana está com exposição de pinturas na galeria de arte, no prédio da biblioteca, da PUC Coração Eucarístico.
Fomos convidados para um experimento cênico audiovisual com Luiz Sartori do Vale, Sanna Vellava e André Mintz, no dia 10 de Junho às 20:30h no Vale do Sol.
Circuito Colecionador é o livro de Delcir e Regina Costa, a ser lançado no dia 10 de junho de 2009 no museu Inimá de Paula, rua da Bahia, 1201

segunda-feira, 1 de junho de 2009

TAJ MAHAL




Um guia à frente indicava o caminho, contando fatos históricos, mas eu preferia observar sozinha o trabalho do mármore. Parece incrível que mãos humanas tenham esculpido e vazado a pedra dura, até formá-la numa janela de renda! Enxerga-se por entre as frestas, a paisagem, lá fora, os jardins e lagos que circundam o prédio.

Estávamos no Taj Mahal, uma das maravilhas do mundo. O Taj Mahal é um grande mausoléu em mármore branco, construído pelo imperador Shah Jahan em homenagem à sua amada esposa Muntaz Mahal, falecida em 1630.

De repente um som estranho, cristalino encheu o recinto. Parecia o coro de muitas vozes, mas era a voz de um indiano magro, que entoava o canto sagrado dos hindus. A grande torre circular parecia captar o som e devolve-lo em forma de eco, e o mantra OM, subia em espiral como uma revoada de pássaros e trombetas tocando. Meus ouvidos continuaram escutando por muito tempo esse canto estranho e suas vibrações se expandiam através das janelas de mármore rendado. OM é a palavra sagrada dos yogues, e segundo acreditam, tem repercussão cósmica. Entoado dentro do Taj Mahal, ele ressoava com a força de uma orquestra misteriosa, cujos acordes se perdiam no infinito. A música, de todas as artes, é realmente a que mais emociona. Atinge imediatamente a alma, provocando adesão instantânea. Sua comunicação é rápida: sensibiliza e conduz à ação. Desperta no homem o sentimento de amor ou de violência, de serenidade ou agressividade, de pureza ou erotismo. Ela dá impulso e faz mover o mundo. A intensidade mística do OM, rompendo o silêncio do Taj Mahal, puseram-me imediatamente em contato com a espiritualidade dos yogues. Neste momento, percebo claramente o papel da arte como purificadora da humanidade que se massifica. A música é a forma de expressar a saudade que temos do absoluto. Ela nos eleva a um plano superior, além das coisas criadas, iluminando-nos com a pureza dos santos e a alegria das crianças. Devolve-nos o sentimento de Amor Universal, integrando-nos ao mundo e ao cosmos.

Pinceladas

A historiadora Marília Andrés Ribeiro, apresentará em Campinas um trabalho sobre a situação das Neo Vanguardas Brasileiras, em um colóquio sobre Modernidade que vai acontecer na UNICAMP, entre 3 e 5 de Junho.
O grupo UAKTI acaba de chegar de São Paulo, tendo se apresentado com o sucesso de sempre no SESC da Vila Mariana.
O escritor José Saramago tem um blog na internet para que seus artigos possam ser lidos à distância.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Encontro com Mestres no Oriente


Oriente - uma visão cósmica

Uma das características mais pronunciadas da civilização oriental é a busca de uma realidade Interior, de um plano espiritual de vida que reúne todas as coisas numa Totalidade.
O oriental procura através da religião, da filosofia ou da arte, a integração do homem à natureza e ao cosmos, buscando encontrar além do tempo e do espaço o valor intrínseco das coisas. Para isto serve-se de guias, mestres e filósofos. Alguns renunciam à vida familiar, recolhendo-se às comunidades espiritualistas ou ashrams. Outros aproximam-se da natureza, buscando no silêncio das florestas ou no interior de grutas afastadas a resposta para suas indagações. Há também aqueles que se aperfeiçoam como chefes de família, transmitindo aos filhos os ensinamentos dos mestres.
Buscam o encontro com o Ser Interno através da meditação e do auto-conhecimento. Essa realidade interna quando reconhecida liberta a mente das inquietações provocadas pela agitação do mundo. A tranqüilidade mental, visada por toda a filosofia do Oriente, não conduz à apatia, mas à serenidade do homem superior.



*

O homem realmente integrado é aquele que se liberta não somente do conforto material, mas também da ambição, egoísmo, inveja, ciúme e todos os impulsos negativos que encobrem a Realidade Interna. Para nós, ocidentais, acostumados ao progresso material, à concorrência e à competição, essa atitude nos parece estranha e profundamente apática. No entanto, ela nos desperta para outros aspectos da vida e nos mostra o caminho aberto a um progresso necessário ao equilíbrio do homem do século XXI: o progresso espiritual e a redescoberta da nossa origem Divina.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Homenagem à Maria Ângela Magalhães


Maria Ângela Magalhães foi uma grande amiga que tive a felicidade de conhecer em vida.

Éramos primas duas vezes e tínhamos grande afinidade não só na arte, como na maneira de pensar.

Na década de 60,experimentamos pela primeira vez uma parceria na arte,eu desenhava pequenos projetos em pastel e ela,com sua equipe,executava a tapeçaria.

Trabalhamos juntas durante muito tempo.Ângela tinha uma sensibilidade extraordinária para transportar para o bordado o que eu desenhava no papel.

As cores ganhavam formas, matizes, relevos, tudo isto realizado por bordadeiras eficientes,algumas tendo de se deslocar de Niterói até o Rio.

As três tapeçarias da Igreja de Nossa Senhora de Copacabana atravessaram a Baia de Guanabara várias vezes.

Ângela marcava os pontos, tingia as lãs, ensinava os matizes e nuances.

Trabalhar com Ângela foi para mim uma experiência rara. Além de sermos muito amigas tínhamos também uma comunicação através de sensibilidades semelhantes.

Ângela respondia positivamente ao que eu estava necessitando no momento exato. As tapeçarias de N.Senhora de Copacabana mobilizaram a minha primeira grande viagem à Índia.

Eu havia perdido o meu marido e buscava obter recursos através do meu trabalho para me ausentar do país. Foi quando recebi um telefonema de Ângela: “Helena, o cardeal não concordou com o fato de você doar gratuitamente o seu trabalho. O cheque destinado à você dá para pagar a sua viagem ao oriente...”

Agradeço ao cardeal, à Ângela e às bordadeiras esta oportunidade de realizar outros trabalhos do outro lado do mundo. Foi nesta viagem que desenhei o livro “Pepedro nos caminhos da Índia”.

domingo, 10 de maio de 2009

Maria Ângela Magalhães

As luas, os mastros, os mistérios,
as velas que pretendem voar!
E, no entanto, prendê-las à terra.
Amarrá-las ao concreto e limitado da lã.
O desenho não nasceu somente para ser tapête.
Houve que surpreendê-lo,
mostrando-lhes possibilidades
ocultas.
E, nisto a busca apaixonada
da verdade, de cada forma,
de cada côr,
de cada desejo.
Percorremos, meses a fio,
a larga estrada
que nos levou da ambição
do que nos propusemos,
ao que, realmente, conseguimos.
Dar ao desenho de Maria Helena Andrés,
outra face,
numa outra matéria.

Maria Ângela Magalhães (Texto para uma exposição de Tapeçaria, na Galeria Guignard, Belo Horizonte, década de 60).

terça-feira, 28 de abril de 2009

INAUGURAÇÃO DO ACERVO DE GUIGNARD

ESCOLA GUIGNARD MANGABEIRAS

ESCOLA DE BELAS ARTES NO PARQUE MUNICIPAL - BH (1944)




A escola de Belas Artes Guignard, situada no bairro Mangabeiras, aos pés da Serra do Curral, tomou no momento um visual majestoso: escadarias, salões, salas envidraçadas e um imenso pátio onde os jovens se encontram e trocam idéias.
Adequada à contemporaneidade, a escola continua a ser ponto de encontro de ações criativas.
Dia 14 de abril foi inaugurado o acervo de papéis antigos do mestre Guignard: cartas, documentos oficiais, rascunhos de aula, desenhos e fotos da época.
Este acervo afetivo – cultural está sendo colocado à mostra no grande Salão de Exposições da escola.
Alguns ex-alunos foram convidados a prestarem depoimentos. Éramos sete convidados, cada um representando a sua época, mas unidos pelo mesmo fio condutor que impulsionou o ensino de arte em Minas. Naquela ocasião (década de 40), a escola foi considerada pelo grande artista Portinari como a melhor escola do Brasil.
Foi emocionante a espontaneidade dos depoimentos. Quando um de nós terminava a sua fala, o outro dava continuidade, focalizando novos aspectos. Lembramos o passado cheio de lutas e quase sufocado pela falta de recursos econômicos (em 1965 a escola esteve a beira de ser fechada, mas os ex alunos imediatamente se prontificaram a trabalhar de graça até que a escola se estruturasse), todos tínhamos à frente como bandeira a chama de entusiasmo iniciada por Guignard.

Observou-se que cada aluno ali presente seguira o seu próprio caminho, sem se prender ao estilo do mestre. Isso veio testemunhar o respeito que Guignard tinha pela individualidade e expressão artística de seus alunos.
Testemunhamos a ênfase dada pelo mestre ao desenho como fundamento de todas as artes plásticas. Conquistava-se a disciplina no desenho de observação feito com lápis duro, e a liberdade nos croquis rápidos, que buscavam a essência do movimento e da forma.
Esses dois fatores contribuíram para o nosso desenvolvimento nos caminhos da arte.
Considero de grande importância esse encontro de gerações, pois é através do depoimento das gerações anteriores que se pode compreender o caminho percorrido e o seu resultado no presente.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Alexandre Andrés e Danilo Caymmi (presidente do juri)


O Despertar dos Sons

Alexandre, meu neto, é compositor e a música brota para ele como água de fonte, muito límpida, pura.
Assisti a um despertar de sons. O jovem músico faz vibrar o violão e de seus dedos vão surgindo os primeiros acordes.
O processo é semelhante ao do pintor que se encontra diante de uma tela vazia.
Para Alexandre, o violão realiza o encontro dos sons que vão surgindo espontâneos, sem interferência da mente, com a sua própria voz, cantando sem palavras, sem objetivos determinados ou títulos, apenas cantarolando.
O canto se une ao som do violão, e a nova música vai surgindo, como uma viagem por um mar desconhecido.
A fonte da criatividade é uma só, e para alcançá-la é importante se despojar dos conceitos. Deixar fluir em 1º lugar a emoção criadora, sem bloqueios, seguindo uma ordem interna, para depois direcioná-la para uma ordem externa – primeiro a intuição, depois o raciocínio.
A intuição vem do vazio, esse vazio é necessário, e também o silêncio em torno. Algumas vezes a intuição criadora surge no meio do barulho, da confusão, o que é necessário é o vazio interno, um despojamento do excesso de informações.
“Vó sempre começo da melodia, hoje comecei da harmonia”.
Deixei-o sozinho na sala e ele ficou, pela noite adentro, compondo uma nova música. A base já estava pronta, faltavam detalhes, colocação de outros instrumentos: flauta, piano, percussão...
O letrista é convocado para dar a palavra certa para cada nota.
Outros músicos são chamados, alguns jovens como Alexandre outros companheiros de Artur, seu pai.
A idéia inicial continua viva, mas se enriquece com novas idéias, cuja finalidade é ampliar o campo auditivo.
Dentro deste ambiente harmonioso onde a colaboração constituía um fator primordial, nasceu o CD que foi lançado em outubro de 2008 em Belo Horizonte.
O título do CD, “Águaluz”, é poético e trás a energia positiva de sua relação com planos superiores.
Música brasileira, nascida da Terra, mas sempre mantendo o seu caráter universal e transcendente.
É música para se escutar e sentir seus benefícios no próprio corpo.
Música que ultrapassa as fronteiras do conhecido, para mergulhar num universo que só pode ser atingido quando nos despojamos das coisas supérfluas buscando nossa própria essência.
A carreira musical de Alexandre já se inicia com um extraordinário sucesso. Em 19 de abril passado, ele recebeu dois primeiros prêmios do BDMG-Instrumental, como melhor compositor e melhor arranjador. O concurso ocorreu no Teatro do Sesiminas onde o jovem e talentoso músico, de apenas 19 anos, apresentou suas composições de altíssima qualidade tendo sido aplaudido de pé pela platéia que lotava aquele teatro.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Domingo de Pascoa no Retiro


Um dos recantos mais bonitos do Condomínio Retiro das Pedras é o caminho que conduz à capela. Ali, costumo fazer minhas caminhadas. Enquanto ando, vou também percebendo a paisagem das montanhas se estendendo a perder de vista. As pedras parecem esculturas rebuscadas, buriladas pelos ventos. Existem há milênios e nos contam histórias de um passado longínquo, de índios gurreiros e animais silvestres. A Serra da Calçada está sendo considerada patrimônio da Unesco, com animais e plantas raras, algumas ainda não estudadas pelos pesquisadores. Nesse ambiente de paz e poesia sentimos profundamente a nossa unidade com a natureza. Ali foi realizada uma comemoração coletiva da comunidade no domingo de Páscoa. As cidades históricas de Minas têm a tradição de, durante os festejos da Semana Santa reunir a população para a realização de um trabalho coletivo de Artechão.

Aqui, no Retiro das Pedras, seguindo a tradição mineira, jovens, adultos e crianças participaram voluntariamente da criação de um grande tapete confeccionado com serragem colorida, por onde passaria o círio pascal. Todo o processo criativo foi acompanhado por música, unindo a energia dos sons às cores daquela "Artechão". Essa primeira iniciativa da nova gestão, foi impulsionada por um entusiasmo que vem trazer luz para este espaço abençoado. Entusiasmo significa "Deus dentro" e temos certeza de que foi conduzida por uma forte energia espiritual.






quarta-feira, 1 de abril de 2009

ateliê "retiro das pedras"



Procuro a forma mais simples dentro do gestual.

O Caminho




Comecei a estudar pintura muito cedo, ainda adolescente. Desenhava retratos e caricaturas de meus familiares, nas festas de aniversário. Uma irmã do Colégio Sacre Coeur de Marie chamou um dia meus pais e recomendou: “Esta menina precisa estudar pintura”. Entrei para o curso de Carlos Chambelland, no Rio, onde tive uma formação acadêmica, copiando modelos de gessos e modelos vivos. Em 1944, Quando Alberto da Veiga Guignard foi convidado pelo então prefeito Juscelino Kubitscheck para liderar a Escola do Parque Municipal em Belo Horizonte, fui uma das primeiras a me inscrever no curso.
Guignard significou para mim a abertura para o novo, o despertar da minha energia de criatividade. Precisava largar a iniciação acadêmica e partir em busca de maior liberdade dentro da arte. Encontrei-a no convívio com os colegas, no ambiente do Parque Municipal, na poesia da natureza. Guignard abria a percepção e a sensibilidade dos alunos mostrando anjos e guerreiros nos muros velhos, mandalas nas águas do lago, e as formas abstratas que se formavam nas nuvens. “Reparem os céus de Minas Gerais, são de um azul metálico, brilhante...” Assim íamos seguindo o mestre e nos desenvolvemos à luz do seu entusiasmo. Abrir a percepção, descobrir a peculiaridade de cada aluno era seu lema constante. Guignard tinha como assistente Edith Bhering, sua ex-aluna, vinda do Rio. Entre os colegas que participaram desta primeira turma, estavam artistas hoje conceituados na arte brasileira, tais como, Mário Silésio, Amílcar de Castro, Solange Botelho, Marília Gianetti, Mary Vieira, Holmes Neves, Chanina, Wilde Lacerda, Nelly Frade, Ione Fonseca e Célia Laborne (hoje conhecida como jornalista). Permaneci na Escola Guignard somente três anos. Em 1947, casei-me com o médico Dr. Luiz Andrés Ribeiro de Oliveira, e apesar de ter uma vida de dona de casa e mãe de seis filhos, nunca parei de me dedicar a arte. Enquanto meu marido estudava e fazia concursos, constituindo a sua carreira como médico, eu elaborava também a minha como artista plástica.