Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
segunda-feira, 16 de outubro de 2017
terça-feira, 10 de outubro de 2017
EMOÇÃO E TÉCNICA II
O
ensino das artes plásticas é individual, seguindo as possibilidades de cada
artista em particular. O aluno, quando realmente tem talento, sempre acha os
seus meios de expressão, e, às vezes, surpreende o mestre com suas descobertas.
Apenas orientado no momento preciso,
ele poderá progredir de um modo mais autêntico do que recebendo, cegamente, as
ordens exteriores.
A vivência artística se enriquece muito
mais com a própria experiência e as próprias descobertas, do que com a preocupação
exagerada de consultar os tratados de técnica e de matemática, à procura da
maneira exata e correta de se fazer pintura.
A pintura é fruto de trabalho, de
sofrimento e de abnegação. Neste clima de pesquisa, a emoção não surge
desordenada e inconsciente, como na criança.
Ela é corrigida e aperfeiçoada pela
técnica, e ordenada pela experiência do artista, no sentido de um progresso
sereno e ininterrupto.
A experiência, naturalmente, controla a
emoção e o artista já amadurecido conseguirá a fusão da disciplina com a
liberdade, que é o clima essencial para a criação ao mesmo tempo espontânea e
consciente.
Ele deve saber ser fiel a si próprio,
respondendo ao seu impulso interior com a máxima sinceridade, sem deixar que
nisto intervenha nenhum interesse externo.
Suas emoções não podem ser antecipadamente programadas num
itinerário. Delineia-se este com o tempo, olhando para trás, depois de trilhado
o caminho. Nunca premeditado intelectualmente. A evolução normal de um artista
não significa uma ruptura com o passado, mas sua continuidade. Às vezes, mais
tarde, uma das fases anteriores é revivida, para se enriquecer de soluções
novas. Fiel ao impulso nascido espontaneamente, dentro de sua alma, o artista
se volta com entusiasmo para o trabalho, renovando técnicas, renovando formas,
porém fazendo viver dentro delas o seu espírito, o seu modo pessoal de sentir
as coisas. (Trecho do meu livro “Vivência e Arte”, editora Agir, 1967)
Atualmente, 50 anos
depois da publicação deste texto, estou fazendo uma releitura da minha fase
construtivista. Meus desenhos de via sacra da década de 50, com a utilização do
computador, se transformaram em esculturas.
*Fotos
de arquivo
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terça-feira, 3 de outubro de 2017
EMOÇÃO E TÉCNICA
A técnica deve ser posta no seu devido lugar, como uma
subordinada da emoção criadora. Ela é importante, na medida em que orienta o
artista no sentido de um aperfeiçoamento cada vez maior de seus meios de
expressão. Auxilia-o a ser mais preciso e exato na realização de sua obra,
orientando-o com os conhecimentos recebidos através de experiências alheias. É
como que a gramática da pintura. A gramática corrige e aperfeiçoa a frase que
foi concebida de uma ideia. As teorias também, em se tratando de artes
plásticas, têm o mesmo papel. Vêm corrigir a ideia criadora do artista, às
vezes imprecisa e confusa, dando-lhe uma forma clara e harmoniosa.
Braque dizia: "Eu amo a regra que corrige a
emoção".
Mas não se dispensa a emoção em favor da regra. Não se
ensina alguém a ser artista ditando-lhe processos teóricos, assim como não se
ensina alguém a ser poeta, ditando-lhe regras gramaticais.
É preciso ser visionário e disciplinado ao mesmo tempo,
buscar a fonte da arte no espiritual e
depois trazê-la à realidade, com o auxílio dos conhecimentos recebidos.
Embora as teorias tenham o seu papel no desenvolvimento do
artista, pode-se, no entanto, ser bom pintor sem essa preocupação, pode-se ser
apenas um artista intuitivo e ingênuo, progredindo à custa da própria
experiência. Pode-se criar, como cantam os pássaros, sem regras e preceitos
vindos de fora, apenas levado pela alegria de fazer surgir no mundo novas
formas. Depende da cultura, das tendências e do meio em que o artista vive. Se
ele for realmente artista, sua intuição o levará a um progresso espontâneo,
baseado na experiência própria, sem o conhecimento das experiências alheias.
Existindo a emoção criadora, existe arte. O que se não pode é pré-fabricar um
artista. É ditar leis e teorias, esperando que destas leis nasça uma obra de
arte. (Trecho do meu livro “Vivência e Arte”, editora Agir, 1967)
*Fotos da internet
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segunda-feira, 18 de setembro de 2017
QUEM TEM MEDO DE TEREZINHA SOARES?
Conheci Terezinha Soares durante um workshop em BH
na década de 60 e desde então percebi o seu grande interesse pelas artes.
Terezinha matriculou-se na Escola Guignard onde era considerada pelos
professores como uma aluna muito criativa. Mais tarde, na década de 70 viajamos
juntas para uma exposição em Washington DC, desta vez como companheira das
artes.
Agora, depois de tantos anos, revejo Terezinha
novamente voltando a atuar no circuito artístico da cidade e lançando um livro
de crônicas.
Transcrevo abaixo um texto que escrevi sobre ela, e
seu catálogo intitulado “Quem tem medo de Terezinha Soares?
Terezinha está de
Volta
Seja benvinda
Aconteceu em
São Paulo
No MASP
Expor no MASP
Não é para
Qualquer um.
E nossa mineira
De Araxá
Líder feminista
Dos anos 60
Pioneira
Da revolução
Feminista
Do confronto
Corajoso
Com a
Tradicional
Família.
Terezinha
Das performances
Das caixas
De fazer amor
Das atitudes
Corajosas
Sem temor
Foi agora
Agraciada
Com grande
Mostra no
MASP
De São Paulo.
“Quem tem medo
De Terezinha Soares?”
Pode ser que
Antigamente
Alguém teve
Medo
De quebrar
As estruturas
De perder
A proteção
De seus parceiros
Amarrados
ao passado
Tradicional.
Terezinha
Está de volta
E voltou
Para ficar.
Sua mensagem
Está viva
E não será
Esquecida.
Como mestra
Eu nunca
Esqueço
Os alunos
Talentosos
E vou lembrando
De fatos
De sua forte
Presença
No meio
Artístico
Da década
De 60.
Não precisou
De estender
Sua arte
Por muito
Tempo.
Sua mensagem
Foi feita e
Até hoje
Permanece
Como estrela
Que não
Para
De brilhar.
“Quem tem medo
De Terezinha Soares?”
É o título de
Seu livro
Editado
Em São Paulo.
Se houve medo
Já passou.
Seu recado
Já foi dado.
Agora é
Colher os louros
Desta homenagem
E viver o presente
Que inclui o
Passado e o
Futuro.
Pode chegar
Terezinha
E será bem
Recebida.
Sua arte é
Vigorosa
Corajosa.
Vai ficar
Em sua terra
Que é também
De Adélia Prado
E Carlos Drummond
E Guimarães Rosa
Pioneiros
De muitas ideias.
Minas lança
Ideias novas
E São Paulo
As divulga.
*Fotos da internet
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segunda-feira, 4 de setembro de 2017
UNIPAZ, 30 ANOS
Paramos o carro nos arredores de Brasília. Manhã de
sol, vento fresco. Numa pequena tenda organizada dentro de um container azul,
serviram água de coco. À frente um painel anunciava “UNIPAZ”. A granja do Ipê
foi cedida em 1987 ao professor e psicólogo Pierre Weil para realizar o seu
trabalho holístico e estendê-lo a todos os que já estavam preparados. Pierre
foi presidente do Retiro das Pedras, tentou iniciar o seu trabalho ali, no alto
das montanhas de Minas, mas a vida o conduziu para o planalto central.
Agora, estou em frente ao meu painel pintado para o
salão principal da Universidade. Lembro-me de quando foi pintado, no meu
atelier da fazenda, em cima de uma lona.
Levei tempo realizando este trabalho, que viajou
para Brasília enrolado numa vara de bambu.
Eu fazia muito disso. Transportava quadros enormes
para São Paulo, Rio e Brasília, enrolados no bambu. Agora vou me lembrando do
tempo em que viajava para Brasília a fim de participar de workshops e dinâmicas
de grupo.
As aulas holísticas eram dadas anexadas sempre às
atividades artísticas, um trabalho de arte coletiva que eu introduzira como
forma de integração de todas as energias. Foi a melhor forma de integrar essas
energias num todo harmonioso e ao mesmo tempo prazeroso. Criar uma obra
coletiva, sem um autor individual, sem comando, apenas dando incentivo e
permitindo que a criação surgisse por si própria. Muitas vezes eu ficava
exausta porque assimilava aquele conjunto de energias, mas o resultado final
era ótimo, valorizando-se mais o processo do que o resultado.
Os baluartes da paz nos chegam quando nos empenhamos
num trabalho de arte. Eles nos chegam silenciosos, dentro de cada um de nós.
Leio o texto da Unesco, colocado em frente ao prédio da Unipaz:
“Uma vez que as guerras nascem no espírito dos
homens, é no espírito dos homens que devem ser erguidos os baluartes da paz.”
A pedido de Pierre, submeti-me a um concurso para
dar aulas em Brasília, na Universidade da Paz. Entrei com o meu currículo e
usei o meu livro, “Os caminhos da Arte”, como roteiro da minha atuação na Universidade.
Lembro-me de todas as sequencias desse concurso.
Agora estou mais uma vez em Brasília, revendo o
passado.
Passamos pela cachoeira para tirar fotos. A
cachoeira fica perto de uma construção de madeira com uma varanda. Ali ministramos
vários workshops e assistimos muitas aulas.
O que aprendemos começa a fazer parte de nós mesmos.
Somos todos Um, não existe separatividade entre as pessoas. Energetica e
espiritualmente estamos ligados a tudo que existe, à água que cai em cascata
muito branca, às árvores, às plantas, à vegetação do cerrado, às montanhas, aos
mares, ao vento, às nuvens. Somos todos partes de um Todo.
Pierre tentou chegar à Unidade, reunindo psicologia,
ecologia, religião, filosofia. Teve o mesmo insight holístico que eu tive
também no Retiro das Pedras.
Ele morava na rua de baixo, mas recebeu também, na
mesma ocasião, a mesma inspiração. Era preciso divulgar a integração que existe
entre os seres humanos, a natureza, o universo. O meu modo de distribuir essas
ideias foi um pouco através da palavra, mas principalmente através da forma, da
cor e do incentivo à criação.
As artes plásticas ajudam também e Deus nos
favoreceu com este canal de difusão da Paz.
José Aparecido soube compreender a visão de Pierre e
aqui estamos na Granja do Ipê, frente à cachoeira, lembrando o passado e
refletindo sobre o futuro.
Meu livro “Os caminhos da Arte” revela esta visão
holística, este insight recebido numa madrugada em minha casa do Retiro das Pedras.
Agora me lembro: debaixo dessas árvores, sentada também
num tronco de árvore, cantamos o Gayatri mantra, lembrando o workshop realizado
no pátio em frente. Tingimos serragem com as cores básicas na véspera do
evento.
No dia, 150 pessoas se reuniram no pátio. Seria
vivenciada a dança de Shiva, o deus dançarino que criou o universo. Dividimos o
grupo, distribuímos bolinhas de gude para representar as estrelas. Eram 500
bolinhas que foram divididas para os 150 participantes. Cada um segurava suas
bolinhas e, ao comando de Shiva e ao toque de um tambor, elas eram jogadas no
chão.
Uma pessoa riscava com giz o trajeto das bolinhas e
os espaços eram preenchidos com serragem colorida. Ao final, uma grande Mandala
foi criada, com dança e muita reverência. Usamos como trilha sonora a música I
Ching, do grupo UAKTI.
Dançamos em torno da Mandala, e, sem nenhum comando,
surgiu uma dança indígena improvisada, utilizando flechas retiradas do bambuzal
em frente.
Sentir a Unidade através da arte é uma experiência
fundamental.
Essas lembranças nos remetem ao passado, mas também
se situam no agora, no presente.
A cachoeira continua fluindo, em cascatas, sempre
seguindo o seu curso. Vai levando o passado e levará também o presente. Debaixo
do bambuzal posso escrever melhor e perceber que um outro workshop holístico
está sendo realizado dentro da cabana. Estamos esperando a Lydia, que já nos
acenou da janela da cabana e nos fez sinal de espera. Pierre Weil já se foi
para outro plano, ficou o Crema. Hoje há sempre gente trabalhando aqui, na
educação, na psicologia, na espiritualidade, na arte.
A Unipaz foi uma conquista, que ela continue a dar
seus frutos.
Aqui, neste lugar, sentimos florescer a paz.
*Fotos de Maurício Andrés
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terça-feira, 29 de agosto de 2017
CAMILLE CLAUDEL
Hoje vou falar
Da grande surpresa
Que todos
Tivemos
Ao ver a Ivana
No palco
Representando
Camille Claudel.
Realmente é
Surpreendente
Ver uma peça
Tão dramática
Representada
Por Ivana.
Ela consegue
Transmitir
Para a plateia
A alma e
O sofrimento
De uma artista
Plástica
Que sofre a
Rejeição e
O abandono
Das pessoas
Que ela mais
Ama.
Camille Claudel
Foi grande
Na arte
E grande no
Sofrimento.
Suas cartas
Seus diários
Denunciaram
O sentimento
De ser
Injustiçada
E rejeitada
Afetivamente
E profissionalmente.
Camille Claudel
Viveu em Paris
Seu nome surgiu
Do impacto
De suas esculturas
Que ficaram famosas
Depois de sua morte.
Aconteceram mostras
E o mundo inteiro
Conheceu a
Grandeza
De sua arte
Mas a artista
Incompreendida
E rejeitada
Terminou seus dias
Num manicômio.
As cenas do teatro
Comovem o espectador
Porque são
Extremamente verdadeiras.
Ivana Andrés
Dirigida por
Luciano Luppi
Apresentou um espetáculo
De grande autenticidade.
Dramático
E sensível
Ele comove
O espectador
Interpretando
Uma realidade
Mais profunda
Escondida nos
Labirintos
Do ser humano.
Teatro é vida
E a vida ali está
Para denunciar
E promover mudanças.
Ivana neste espetáculo
Mostra o seu potencial
Dentro das diversas
Formas de arte
Desenhista, cantora
Cenógrafa
Dramaturga
E agora intérprete.
Esta forma multimídia
De fazer arte
É uma característica
Do século XXI.
*Fotos de Carolina Lobo
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segunda-feira, 21 de agosto de 2017
KING, O ENTALHADOR
Cada instante criador corresponde à intensidade de
um momento de vida. Ele é o esquecimento do passado com todo o acúmulo de
conhecimentos e o despertar do presente em plenitude e riqueza.
O ato de
criação é um ato de presença. Criar é viver no presente. Neste aqui e agora,
estão contidas nossas vivências individuais, enriquecidas das vivências do
mundo a que pertencemos.
Esse mundo está conosco, não podemos nos separar dele.
O momento criador, quando vivido intensamente, é um retorno à Unidade Inicial.
É, portanto, um momento de intensa alegria. Por meio da intuição, as ideias se
harmonizam.
A intuição é a claridade que vem de dentro de nós mesmos e não
buscada fora, em ensinamentos. Desperta num momento inesperado, quando se
transcende o pensamento lógico.
O encontro intuitivo do artista com a
totalidade é traduzido de forma admirável nos versos de Chuang Tzu, o poeta do
Taoísmo:
O entalhador de madeira
Khing, o mestre entalhador, fez uma armação
Para os sinos,
De maneira preciosa. Quando terminou,
Todos que
aquilo viram ficaram surpresos.
Disseram
Que devia ser obra de espíritos.
O príncipe de Lu disse ao mestre entalhador:
“Qual é o seu segredo?”
Khing respondeu: “Sou apenas operário:
Não tenho segredos. Há só isso:
Quando comecei a pensar no trabalho que me
Ordenaste,
Em ninharias, que não vinham ao caso.
Jejuei, a fim de pôr
Meu coração em repouso.
Depois de jejuar três dias,
Esqueci-me do lucro e do sucesso.
Depois de cinco dias,
Esqueci-me do louvor e das críticas.
Depois de sete,
Esqueci-me do meu corpo
Com todos os seus membros.
Nessa época, todo o pensamento de Vossa Alteza
E da corte se esvanecera,
Tudo aquilo que me distraía do trabalho
Desaparecera.
Eu me recolhera ao único pensamento
Da armação do sino.
Depois, fui à floresta
Ver as árvores em sua própria condição natural.
Quando a árvore certa apareceu a meus olhos,
A armação do sino também apareceu, nitidamente,
Sem qualquer dúvida.
Tudo o que tinha a fazer era esticar a mão
E começar.
Se eu não houvesse encontrado esta determinada
Árvore,
Não haveria
Qualquer armação para o sino.”
“O que aconteceu?”
“Meu próprio pensamento unificado
Encontrou o potencial escondido na madeira;
Deste encontro ao vivo surgiu a obra
Que você atribui aos espíritos.”
Esse poema de Chuang Tzu descreve a preparação do
artista para o trabalho. É preciso um longo e cuidadoso preparo, mas também
esvaziamento da mente. (trecho do meu livro “Os caminhos da Arte”, Editora
C/Arte, 2015)
*Fotos da internet
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segunda-feira, 14 de agosto de 2017
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