terça-feira, 6 de dezembro de 2016

EXPOSIÇÃO “DESENHOS”

O texto abaixo, mostrado na exposição de Paulo Laender, é uma introdução de minha autoria, ao catálogo da sua primeira exposição coletiva realizada também no Minas Tênis Clube na década de 1960.

“O desenho como base de toda e qualquer forma de arte é aquele que desperta a sensibilidade do artista para ver as formas da natureza e recriá-las.
Não será nunca um desenho rígido, acadêmico, mas uma disciplina necessária, uma educação da capacidade de observar e de sentir.
O desenho simples, linear, bem construído, visando uma compreensão maior da composição, constitui o primeiro passo para a formação do jovem artista.
 Hoje o desenho pode equilibrar-se perfeitamente com as outras artes, obedecendo em princípio às mesmas necessidades plásticas. Linhas e massas, texturas e nuances, expressam-se por si, falando sua própria linguagem. Desenhar bem não é necessariamente copiar bem. A densidade maior ou menos dos traços, as linhas que se cortam, a mão que se comprime nervosamente, para depois expandir-se de maneira mais leve, constituem a mensagem sensível da alma do artista, difundindo o seu pensamento mais profundo. O desenho traduz um estado de alma, e o traduz de modo mais direto do que as outras formas de arte, onde às vezes a necessidade técnica condensa e controla a emoção criadora.

Aqui estão três jovens desenhistas reunidos numa primeira exposição.

Paulo Laender, com um desenho equilibrado, meditado, procura o tema de barcos e figuras centralizando a composição. As formas surgem dentro de outras formas, num ritmo organizado e inventivo, revelando vida interior e grande capacidade de concentração no trabalho.

Antônio Eugênio Salles Coelho, usando também o mesmo material, valoriza a textura dos grandes espaços com uma infinidade de pequenos traços, que não chegam a determinar, mas apenas sugerir o mundo fantástico das formas orgânicas.

Luiz Lanza, utiliza-se da figura humana demonstrando grande segurança em seu traço rápido, que, muitas vezes é interrompido, para acentuar a expressão da forma através da linha inacabada.

Aí estão seus trabalhos e o esforço de muitos dias e noites dedicados à arte. Espero que eles sirvam de estímulo  a outros jovens e de incentivo ao Departamento Cultural e Artístico do Minas Tênis Clube que, de maneira tão simpática se prontificou a auxiliá-los.
Maria Helena Andrés.” (Apresentação do catálogo da exposição “Desenhos”)

*Fotos de arquivo


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segunda-feira, 28 de novembro de 2016


PAULO LAENDER, UMA TRAJETÓRIA


 Estou na Galeria de Arte do Minas Tênis Clube, percorrendo uma exposição de Paulo Laender. Ele mostra sua trajetória na arte, desde a sua primeira exposição no Minas Tênis Clube, a convite de Palhano Junior. Na ocasião ele mostrou desenhos de 1963. No catálogo desta mostra coletiva  estão : Paulo Frade Laender, Luiz Antonio Lanza e Antonio Eugênio de Salles Coelho. Para esses três artistas, a vida foi mostrando caminhos diferentes.

Paulo Laender viveu etapas diversas de sua arte, sempre conservando uma ligação de uma fase com a outra.

Talvez poderíamos dizer: crescimento orgânico, como uma árvore que vai conservando as características de sua espécie e vai crescendo, tomando formas variadas mas sempre ligadas umas com as outras, com uma coerência impressionante. Exemplo de Unidade na Diversidade. Isto porque na diversidade de materiais, gravuras em metal, desenhos, pinturas, esculturas, há sempre uma unidade que caracteriza o artista.

Paulo Laender foi meu aluno, e desde os desenhos dos primeiros barcos, já demonstrava a sua escolha pelas formas curvas. Há também uma característica que nos mostra a busca dessas formas curvas. Os barcos de 1963 nos mostram o jovem talento despertando para uma viagem ao desconhecido.  O barco simboliza viagem e Paulo Laender viajou, percorreu o mundo, mas agora em seu atelier de Nova Lima, continua a grande viagem pelos caminhos da arte. O perfeccionismo de suas obras é fascinante e a sensualidade de suas formas nos lembra os grandes mestres do barroco mineiro. Os portugueses trouxeram para nós o barroco e, em terras brasileiras, produziram suas melhores obras que até hoje estão nas igrejas de Ouro Preto, Tiradentes, São João Del Rey e Sabará.

Paulo retoma o barroco em seu espírito, transcendendo a forma e elevando-a a um plano de grande contemporaneidade.
Ele é um artista barroco e contemporâneo, está presente no seu tempo, corajosamente enfrentando as dificuldades que a arte nos impõe. Em suas esculturas, inspiradas em andanças pela Índia, admiramos a figura de Ganesh, aquele que abre os caminhos. Sem reproduzir a figura de Ganesh, ele nos mostra o seu espírito e a sua atitude resoluta e firme.

Voltando ao Brasil, encontramos o escultor trabalhando na forma de  barcos. Grandes troncos de árvores são esculpidos lembrando a forma dos nossos barcos indígenas e dos barqueiros do São Francisco.
Agora, o barco não é mais desenhado, mas esculpido na madeira laminada, colada e cavilhada, característica muito especial de seu estilo como escultor. Paulo desce às nossas origens, rebusca seus antepassados indígenas e os artistas e artesãos que construíram o patrimônio artístico de Minas Gerais.

Ser universal e ao mesmo tempo regional é a grande lição que este artista mineiro está dando para as gerações futuras.

Paulo Laender é um artista consciente, maduro. Não busca modismos nem influências externas, mas é dentro dele mesmo, em seu interior que ele vai buscar motivações para o seu trabalho.

Esta busca interior às vezes é também figurada em esculturas ou objetos, onde outras formas menores estão colocadas mostrando o mundo externo e o mundo interno que continua existindo em toda a natureza e na criação.

*Fotos de Eliana Andrés

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segunda-feira, 21 de novembro de 2016


ABSTRACIONISMO E ESPIRITUALIDADE III

Vários artistas ocidentais têm buscado expressar a instantaneidade do momento criador, captando alguns dos mais característicos símbolos orientais. Na intensidade emocional do gesto, aproximam-se da escrita chinesa e, procurando o depuramento da forma, muitas vezes trazem à luz formas semelhantes às mandalas tântricas. O Abstracionismo, portanto, seja em seu aspecto informal, seja em seu aspecto geométrico, constitui uma aproximação do Oriente com o Ocidente.

Essa busca de valorização do momento presente, da instantaneidade da criação, introduziu-se na arte do Ocidente por intermédio de Mathieu, na França, e da Action Painting , nos EUA. Mathieu declara na  Analogia da Não Figuração :

"A atividade do artista, paralela à do sábio e à do santo, comunica-se com todas as forças vivas do cosmos e aproxima-se do pensamento científico moderno, no qual os meios de apreensão do universo já não são fornecidos só pela razão e pelos sentidos."

Proclamando a necessidade do artista de realizar a síntese da arte e vida, Mathieu buscou conhecer o mundo fazendo  viagens e procurou o encontro consigo mesmo nas meditações. Seus quadros, realizados na maior velocidade para apreenderem o mais rápido possível a essência criadora, assemelham-se à caligrafia oriental.

Nos EUA, Jackson Pollock, Mark Tobey, Franz Kline, Theodorus Stamus, James Brooks, William de Kooning, Gottlieb e outros iniciaram o movimento da  Action Painting , que enfatizou intensamente a pintura gestual e o automatismo psíquico. O método de Pollock foi o de entrar no processo criador, submergindo na pintura como o calígrafo chinês, a fim de transmitir a energia  Ch’i. Seus quadros, de um intenso grafismo, assemelham-se à escrita do Extremo Oriente e o seu modo de pintar lembra o dos índios navajos, que vertiam areia colorida no solo, a fim de marcar seus talismãs.

Mark Tobey, influenciado pela filosofia  Zen, usou como suporte quadros menores e tintas que permitiam rápida secagem, para conseguir, no ato de pintar, a simultaneidade da ideia e da realização.

A arte abstrata possibilita uma comunicação direta com as forças mais profundas do ser humano. Neste encontro consigo mesmo, pode-se descobrir a fonte comum que dá origem a outras formas de arte, como a dança e a música.
Vivenciar o ritmo na arte é também descobrir o ritmo de nossa própria vida. (Caminhos da Arte, 3° Edição, Editora C/ARTE)

*Fotos da internet

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segunda-feira, 14 de novembro de 2016


ABSTRACIONISMO E ESPIRITUALIDADE II

É entre os adeptos do Abstracionismo que encontraremos os depoimentos mais importantes sobre a arte como transformadora do homem.

Testemunhos de artistas deixam transparecer a mesma ideia religiosa de encontro com a essência do Ser. Vejamos os depoimentos de Alfred Manessier, conhecido pintor e artesão abstrato:

“A criação artística supõe (...) duas condições. Primeiro, não dizer “eu quero”, porque a exteriorização dos estados interiores exige uma espécie de abandono de si mesmo; em seguida, muito amor: só ele permite “levar” o assunto até ao seu termo, até que ele se humanize a ponto de ganhar um valor geral.
A arte da não figuração parece-me ser a possibilidade atual pela qual o pintor melhor pode subir até à sua realidade e retomar consciência do que é essencial em si. É só a partir deste ponto reconquistado que ele poderá, depois, reencontrar o seu peso e revitalizar até a realidade exterior do mundo (...). Se o homem é uma hierarquia de valores, sua aparência exterior não é mais que um fantasma transparente, se estiver vazio de conteúdo espiritual.”

Este “abandono de si mesmo”, de que nos fala Manessier, é a receptividade diante do desconhecido e o caminho para a espontaneidade criadora, destituída de qualquer premeditação. A fim de exteriorizar puros estados interiores, torna-se absolutamente necessário o vazio de intenções. O ato de pintar, dentro desta atitude, é a tomada de consciência do essencial. O Abstracionismo, tanto no seu aspecto geométrico quanto no informal, partiu para a conscientização da síntese das artes germinadas no próprio processo criador.

Cores e sons, gestos e dança encontram-se dentro do ato criador.

Penso que há uma fonte comum entre o pintor e o bailarino, uma certa maneira de viver os ritmos. O pintor é como um bailarino que reduz a dança aos seus aspectos mais essenciais.

Para mim, o quadro não pode ser o resultado de uma ideia preconcebida. A parte de aventura é nele muito importante e, é, de resto, essa parte de aventura que é finalmente decisiva na criação. No começo há um ritmo que tende a desenvolver--se: é a percepção desse ritmo que é fundamental, e do seu desenvolvimento depende a qualidade viva da obra.

As artes plásticas vêm assimilando, desde meados do século XIX, o processo de síntese Oriente-Ocidente. A influência oriental manifestou-se com nitidez na arte de Gauguin e Van Gogh, nos arabescos do Art Nouveau  e, mais tarde, nos símbolos de Kandinsky, o primeiro artista abstrato. A filosofia Zen-budista, incentivando a espontaneidade, encontrou os artistas ocidentais preparados para recebê-la.

 O Abstracionismo Informal, que se espalhou pelo mundo a partir da segunda metade do século XX, despertou a espontaneidade e a instantaneidade na arte. Deu-se ênfase ao movimento e à rapidez. O artista, desligando-se de fatos históricos e narrativos, afastando-se de modelos e cenas de sua região, buscava um contato consigo mesmo. Esvaziando a mente de medidas e cálculos, deixava--se guiar pelo gesto imediato, podendo assim alcançar o estado denominado pelos zen-budistas  de  Satori. 
(Caminhos da Arte, 3° Edição, Editora C/ARTE)

*Fotos da internet

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quinta-feira, 10 de novembro de 2016


ALEXANDRE ANDRÉS, UM GIRO PELA ESPANHA, PORTUGAL E BRASIL

A praça Floriano Peixoto em BH, é um lugar privilegiado para a música. Estou assistindo a um som maravilhoso à convite de meu neto Alexandre Andrés. Desci do Retiro das Pedras, onde estava, fugindo da turbulência da cidade. Pretendia ali ficar sábado e domingo como de costume, mas o convite de Alexandre me conduziu. As redes sociais anunciavam este show, abertura do Trio Corrente, e a voz do Alexandre era, como sempre, um caminho para o sonho.

Alexandre acabou de chegar da Europa, onde participou com outro grupo musical, de várias apresentações na Espanha e Portugal.

Os músicos hoje em dia estão sempre viajando, distribuindo seus sons para países diferentes.

Recebi, via internet, as fotos do lugar onde ele, junto a Rafael Martini e Marcos Braccini, se apresentou. Tocaram por diversos palcos de cidades e vilarejos centenários, pelo coração da Catalunya.

A música não tem fronteiras, e os brasileiros na Espanha foram como os antigos trovadores, levando a sua mensagem de paz por onde passaram.

Em Portugal o grupo se apresentou em Lisboa, em um Centro Cultural, uma antiga fábrica de armamentos chamada ‘Fábrica Braço de Prata’ e também em um café importante de Alfama, chamado ‘Duetos da Sé’. Pelo caminho os músicos não só apresentaram seus trabalhos, mas fizeram muitos amigos. Nada melhor para unir os países, como as apresentações de arte.

O recado foi dado e, apesar do tempo muito curto, tenho certeza que a semente foi plantada.

A música é a arte do tempo e os sons desses jovens brasileiros ficarão perpetuados e difundidos por onde passarem.

Paro com as minhas reflexões para ver e ouvir os músicos que estão surgindo dentro de uma nuvem colorida.

Hoje em dia esses efeitos vão nos conduzindo a uma visão de sonho e poesia.
A flauta mágica de Alexandre nos leva para novos espaços.

Já não é nem Espanha nem Portugal, estou no Brasil, em Minas Gerais, sentada numa praça ouvindo meu neto tocar.
O grupo formado por Alexandre e seus parceiros, Gabriel Bruce, Bruno Vellozo e Davi Fonseca, é um convite à união e paz.

De repente Alexandre presta homenagem à Marco Antônio Guimarães e recorda outro grupo de músicos famosos. Escuto na praça o meu neto exclamar: “Viva o UAKTI!”

*Fotos de arquivo


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terça-feira, 1 de novembro de 2016


AUROVILLE

Recebi de Maurício Andrés Ribeiro o texto sobre Auroville, que dá continuidade às postagens anteriores
       
“A origem de Auroville remonta a 1955, quando surgiu a idéia de construir uma cidade internacional voltada para o novo homem da nova era.  Reconhecida em 1966 pela Assembléia Geral da Unesco como cidade dedicada ao entendimento entre os povos e à paz, Auroville foi inaugurada com a presença de cinco mil pessoas de todo o mundo. Criada em 1968, Auroville se situa nas proximidades da baía de Bengala, a 10 km de Pondicherry, em meio a amplas áreas verdes.
Na cerimônia de sua fundação, vários países enviaram, como ato simbólico, um pouco da terra de seu solo, que foi depositada em um monumento erguido no centro da cidade. Durante a cerimônia, o diretor-geral da Unesco, Dr. M.S. Adiseshiah, pronunciou as seguintes palavras:

Em nome da Unesco, em nome de todos vocês presentes e não presentes aqui, eu exalto Auroville, sua concepção e realização, como uma esperança para todos nós e particularmente para nossas crianças, para nossa juventude que está desiludida com o mundo que construímos para ela, e que encontrarão em Auroville um símbolo vivo, inspirando-se a viver a vida para a qual são chamados.

Nos anos 70, tiveram início os primeiros assentamentos. Desenvolveu-se um bem-sucedido projeto de reflorestamento, com um milhão de mudas, para conter a erosão que se agravava com as monções. Foram construídas casas com estruturas simples, adequadas tanto para o calor do verão, como para a estação chuvosa das monções. Foram implantados e experimentados sistemas de energia alternativa – energia solar e biogás.

A planta urbanística foi planejada por uma equipe internacional. Em forma de espiral, simboliza a evolução humana e prevê capacidade para abrigar 50 mil pessoas voltadas para a pesquisa e a experimentação, em educação permanente.

No centro da espiral está uma grande esfera de concreto, construída pelos próprios aurovillianos: o Matrimandir, templo considerado a alma, a “força coesiva de Auroville", "o símbolo vivo da aspiração de Auroville para o Divino".[1] No centro do Matrimandir, há uma câmara com doze paredes de mármore branco, utilizada para meditação. O detalhe arquitetônico mais importante fica no meio da câmara: um globo de cristal de 70 cm de diâmetro, feito pela Zeiss, na Alemanha.

Hoje, vivem e trabalham em Auroville pessoas de dezenas de países. Esse fluxo migratório suscitou inicialmente problemas de integração com a população que vivia no local e nas proximidades. A chegada de forasteiros com valores culturais diferentes transformou o contexto social. Entretanto, com o passar do tempo, a situação foi se harmonizando, e os habitantes das aldeias vizinhas passaram a se inserir no projeto de variadas formas: alguns começaram a trabalhar nos setores de reflorestamento, artesanato e na produção de alimentos; outros vieram estudar nas escolas e centros de treinamento.

Auroville contou com recursos do governo da Índia, doações de indivíduos e de organizações internacionais para sua fundação e manutenção.

A Carta de Auroville afirma que ela pertence à humanidade como um todo: uma cidade planetária para a criação e a propagação do entendimento e da paz. Outros trechos da Carta dizem: "Para viver em Auroville, deve-se desejar servir à consciência perfeita."; "Auroville será o lugar de uma educação sem fim, de progresso constante, e de uma juventude que nunca envelhece. Auroville quer ser a ponte entre o passado e o futuro. Incorporando todas as descobertas de fora e de dentro, Auroville florescerá audaciosamente em direção a realizações futuras."; "Auroville será o sítio de pesquisa material e espiritual, para a vivência concreta de uma unidade humana real.".Auroville é uma cidade-escola aberta. Propõe-se a ser um local de paz, harmonia e concórdia, com base na idéia de que a espécie humana não é o último passo da evolução. Auroville é, assim, uma "cidade experimental", "um laboratório da consciência, um lugar onde se tentam novas maneiras de os homens viverem em comunidade"[2]. Ela ajuda a preparar a humanidade para os passos seguintes de sua evolução, inspirada pelas ideias de Sri Aurobindo, o grande sábio indiano.”

(Maurício Andrés Ribeiro é autor de “Tesouros da Índia para a civilização sustentável”, Editora Rona e Santa Rosa Bureau Cultural, 2003.)

*Fotos da internet

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[1] Carta de Auroville. Cf. site www.auroville.org.
[2] Carta de Auroville. Cf. site www.auroville.org.







segunda-feira, 24 de outubro de 2016


ECOLOGIZAR AS HUMANIDADES II

Dando prosseguimento ao tema ecológico, transcrevo a segunda parte da palestra ministrada por Maurício Andrés Ribeiro.

“As marcas materiais do antropoceno, que os futuros arqueólogos e geólogos identificarão inscritas na matéria do planeta são traços de radiação atômica, resíduos de plástico, de alumínio e de concreto, bem como ossos de galinha. Todos eles são resíduos produzidos pelo homo lixius, a única espécie viva que produz lixo. Mas nossa espécie autodenominada homo  sapiens é também designada por diversos outras características: o homo ludens, que brinca e joga; o homo bellicus, que guerreia; o homo corruptus, que corrompe e é corrompido; o homo economicus, que se move por interesses de ganhos e acumulação; o homo stressatus, que se apressa e se estressa; o homo ecologicus, que procura se relacionar de modo harmônico com o ambiente; o homo noologicus, que se guia por sua consciência intuitiva e racional, entre outras designações.
Ecologizar as humanidades, no contexto da ecologia integral, implica em fecundar as ciências humanas com os conhecimentos dos vários campos em que se desdobram as ciências ecológicas, não apenas aqueles derivados de suas origens na biologia – a relação dos ambientes, com os bichos e plantas – mas também na ecologia social e nos campos relacionados com a ecologia interior – a ecologia profunda a ecologia do ser, a ecologia pessoal e transpessoal etc.

A ecologia, que se originou nas ciências biológicas, se desdobra em inúmeros campos que crescentemente estudam a presença humana, tais como a ecologia humana, a ecologia cultural, a ecologia social, a ecologia urbana, a ecologia industrial, bem como outros campos que estudam a consciência e os aspectos subjetivos e psicológicos: a ecologia do ser, a ecologia pessoal, a ecologia mental entre outros. Uma agenda atualizada sobre as humanidades precisa se apoiar em concepções do que seja o ser humano, o objeto e o sujeito do que elas cobrem. Isso implica em se aprofundar no autoconhecimento e no conhecimento sobre o universo interior (as inscapes definidas por Pierre Dansereau) e sobre as questões subjetivas.

A ecologia integral, pioneiramente estudada por Pierre Dansereau e adotada em 2015 como conceito central pelo papa Francisco em sua Encíclica Laudato Si, integra aspectos biológicos, sociais e a ecologia interior. Tal movimento integrador não se limita às fronteiras das disciplinas e encontra pontes entre elas, numa visão holística e menos fragmentada.

A Conferência na UFMG deu destaque ao tema do território. Nesse contexto lembrei que o meio ambiente pode ser abordado em múltiplas escalas espaciais, desde o interior do organismo de um indivíduo, que é em si mesmo um ecossistema complexo habitado por milhões de seres microscópicos, até a escala do ambiente local, regional, global e cósmico. A mandala desenhada por Pierre Dansereau torna visível essas várias escalas do território.
Ecologizar as humanidades é oportuno porque a ecologia adquiriu centralidade nas últimas décadas e tornou-se um tema de interesse para questões estruturantes da vida e da sociedade, tais como a segurança e a economia. Exemplificando, as mudanças climáticas trazem cada vez mais eventos críticos, secas, enchentes, furacões, que provocam prejuízos às atividades econômicas e que trazem novos riscos à vida e à segurança humana. Fenômenos tais como os dos refugiados ambientais se multiplicam e criam novas dinâmicas e tensões entre sociedades, países e indivíduos.

Para se refundar as ciências humanas é relevante ecologizá-las, trazer para dentro delas a perspectiva das relações ecológicas e da consciência ecológica, para que elas se tornem sintonizadas com o espírito necessário neste século XXI.
Ecologizar as ciências humanas ajudará que elas tragam sua contribuição nessa nova etapa da evolução no planeta, caracterizada pelo predomínio da consciência e não mais apenas da matéria e da vida.”
(Maurício Andrés Ribeiro)

*Fotos de arquivo

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terça-feira, 18 de outubro de 2016


ECOLOGIZAR AS HUMANIDADES I

Recebi de Maurício Andrés Ribeiro o texto abaixo:
                                                                   
“A UFMG promoveu em outubro uma Conferência internacional sul-americana sobre territorialidades e humanidades. Participaram acadêmicos e ativistas sociais, o que resultou numa boa combinação de perspectivas de abordagem dos temas. Quatro dias de palestras, mesas redondas, apresentação de trabalhos de estudantes preparam para uma conferência mundial que acontecerá na Bélgica em 2017 e que focalizará a relação das humanidades com o ambiente, a identidade cultural, fronteiras e migrações, patrimônio e a história.

As humanidades cobrem um campo amplo de áreas de conhecimento humano, desde as ciências humanas – história, educação, linguística, psicologia – até os campos das letras e artes, filosofias, estudos das tradições, teologia.
Na mesa redonda sobre Ecologia e meio ambiente, o historiador José Augusto Pádua focalizou os estudos de história ambiental no Brasil e Joceli Andreoli, do Movimento de Atingidos por Barragens, abordou o rompimento da barragem de rejeitos de mineração em Mariana e suas consequências.

Nessa mesa, propus Ecologizar as humanidades, o que significa aplicar os conhecimentos das ciências ecológicas e a sabedoria da consciência ecológica em todos e cada um dos campos das humanidades. Isso implica em não ignorar nossa base biológica e animal e as relações ecológicas harmônicas – comensalismo, simbiose etc - e desarmônicas – predação, parasitismo, escravagismo etc- que desenvolvemos com o ambiente e com os demais seres humanos, individual ou socialmente. Assim, por exemplo, o tema da corrupção é visto a partir da perspectiva do parasitismo e da predação; o tema do medo se enriquece a partir de perspectiva da ecologia interior. O tema da educação é visto como instrumento de expansão da consciência e de enriquecimento da noosfera, uma das esferas estudadas pela ecologia integral.  As migrações e fronteiras, bem como a hospitalidade, ou a falta dela podem ser abordadas ecologicamente. O estudo da história humana pode ser ecologizado ao inseri-la na história natural. O antropoceno é uma nova época na história natural, datada a partir dos testes nucleares em 1945 que se faz no ritmo rápido da evolução da consciência e não mais no ritmo lento da evolução biológica ou da evolução da matéria. No antropoceno a atividade de nossa espécie tem influído no rumo da evolução, provocado aceleração na dinâmica do planeta, mudanças do clima e extinções de biodiversidade. Essa época antropocena estaria inserida numa nova era na evolução, que outros propuseram ser a era eremozoica (E.O.Wilson); era ecozoica (Thomas Berry e Brian Swimme); era psicozóica (Daniel Bell), todas essas designações baseadas na vida animal (zoo). Propus que essa nova época antropocena está inserida numa nova era na evolução do planeta, a era noológica (a era da consciência) que sucede às eras da vida animal (cenozoica- mamíferos; mesozoica, dinossauro; paleozoica, organismos vivos primitivos antigos). De tal consciência derivam as ciências, tecnologias, inovações, conhecimentos culturais e espirituais.” (Maurício Andrés Ribeiro)

*Fotos de arquivo

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terça-feira, 11 de outubro de 2016


JARDINS DE MEDITAÇÃO E ARTE JAPONESA

Todo ser humano tem necessidade de reflexão, de se afastar do movimento das cidades, de contemplar a natureza, os céus, o bando de aves que passa, as folhas das árvores e as pedras. Essa reflexão é necessária para a sobrevivência do homem como ser total. Na cidade moderna ela é mutilada pelo intenso movimento.

O japonês preserva cuidadosamente seus recantos de meditação. Esses são templos, onde a natureza é o altar para o encontro com a eternidade. Na tranquilidade desses jardins a alma recebe como benção o mistério nascido da terra.

A pedra em seu silêncio nos conta histórias do passado.

Ela não se reproduz como a planta. Existe. Quando foi criada? Ninguém sabe. E neste sentido de eternidade a pedra é mística e tem significado profundo.

Em Kyoto, os jardins de pedras sem plantas, são despojados como a doutrina Zen. O Zen-Budismo foi a alma da arte japonesa. Essa escola de reflexão importada da China expandiu-se também pelo Japão e exerceu sua influência sobre arquitetos, urbanistas e artistas plásticos. Esses artistas pintavam em grandes rolos de 15 metros sobre papel ou seda. A identificação do homem com a natureza é expressa através desses segmentos lineares, onde forma e espaço se equilibram em ritmo sinuoso: rochedos e árvores retorcidas, montanhas em planos superpostos , pintura de sonho e poesia, deixando entreve r um pouco da Eternidade.

A filosofia Zen ordenou sugerir e não demonstrar. O homem desaparece dentro da paisagem. A natureza que o antecipou continua, em seu silêncio, a superá-lo. O homem vive, cresce e morre. A montanha resiste, afronta tempestades, ventanias e às vezes terremotos, mas só uma energia muito forte consegue derrubá-la. Talvez, por isso mesmo, suas pinturas emocionem tanto o homem receptivo á Realidade Espiritual. Foram feitas por monges budistas dedicados à meditação. Não procuram refletir cenas realistas, mas a Eternidade das coisas.

Enquanto o mundo ocidental preocupava-se com o homem, e o renascimento rendia-lhe verdadeiro culto como centro do universo, o Oriente silenciosamente engrandecia a natureza. As grandes  paisagens, em rolos enormes, dos museus de Kyoto ou Tóquio, são testemunhas de uma arte sempre renovadora. De sua influência sobre o Ocidente nasceu a pintura abstrata informal.

Depois da guerra houve maior troca de influências. O povo ocidental trouxe a máquina e o progresso e a tradição milenar desse país levou ao Ocidente um pouco de sua vida interior. A cultura é a soma daquilo que temos por herança com o que nos é incorporado pelo meio. E o meio, hoje, não é apenas a nossa região, mas o mundo todo. Pertencemos a ele como uma parcela viva e dinâmica. Seríamos, talvez, uma célula morta se nos recusássemos ao enriquecimento de fora. Ele é necessário desde que não fragmente aquilo que realmente somos.

O artista japonês não se despersonaliza quando assume o Ocidente, porque o espírito oriental é revelado através da sensibilidade, da inventividade e da intuição, que supera a razão. No museu de Tóquio, entre obras modernas, os rolos antigos não formam contraste. A sobriedade de seus elementos formais, o poder de sugerir mais do que raciocinar, conferem às gerações futuras o caminho da continuidade. (Trecho do livro de minha autoria “Encontro com mestres no oriente”)

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segunda-feira, 3 de outubro de 2016


ABSTRACIONISMO E ESPIRITUALIDADE I


Dando sequência aos nossos estudos sobre a arte não figurativa, originária da Vanguarda Russa, retomo um texto do meu livro “Os Caminhos da Arte”:

“Jean Cassou, crítico europeu, viu a pintura abstrata como a manifestação espontânea do sentimento religioso e considerou importantíssimo o papel da arte na segunda metade do século XX. Com grande agudeza de percepção, abrangeu o panorama da arte abstrata e sua função de modificar por completo o caminho traçado pelas demais tendências figurativas. A arte não figurativa, afastando-se da realidade exterior, levou o artista a mover-se em direção à sua própria essência, na qual encontrou também a ciência, a física, a matemática e a filosofia.

Que a arte, hoje, satisfaça às aspirações religiosas quando tantas camadas sociais, por motivos de razão, lassitude, repugnância, indiferença ou respeito humano se afastam das religiões estabelecidas, não há que espantar-nos, antes ver aí uma dessas astúcias, dessas táticas e combinações por meio das quais o gênio todo poderoso das grandes transformações do mundo trata a natureza humana.

Se para Pevsner e Gabo o ideal era a formação de uma nova sociedade, para Malevitch a verdadeira realidade da vida e da arte encontrava-se nessa busca do Supremo por meio da ausência de cores, da pureza e da sobriedade de formas. Sua arte buscava o vazio e a não objetividade. Branco sobre Branco, seu último quadro, enfatizava a absorção da forma na totalidade do Ser, que é impessoal e sem forma. O caminho proposto por Malevitch mostra-nos o fim da manifestação fenomenal e a entrada em outro plano, onde qualquer manifestação exterior significa descer ao mundo da multiplicidade. O branco é a fusão de todas as cores, sem fragmentações. Em Malevitch, a espiritualidade da Arte Abstrata encontra seu ponto máximo. Formas e cores desaparecem para dar lugar à claridade e à pureza suprema que é o  Branco sobre Branco.

A busca espiritual desses pintores russos nos remete às fontes orientais da filosofia perene das  Upanishads.
O conceito fundamental do Hinduísmo é que, por detrás da multiplicidade de formas do mundo imanente, existe uma Causa Primeira, imutável, inimaginável, sem atributos. Esta é  Brahman  e Atman  (correspondendo respectivamente à abordagem objetiva e subjetiva).

O Ser impessoal ou o Supremo, ao qual Malevitch se refere, corresponde a  Brahman, o Criador do universo, aquele que está presente neste nosso mundo, com sua multiplicidade de formas, e ao mesmo tempo o transcende.

Atman, da mesma natureza de Brahman, é a sua abordagem subjetiva, ou a Centelha Divina inerente a cada um de nós.” (Caminhos da Arte, 3° Edição, Editora C/ARTE)

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