terça-feira, 15 de março de 2016

segunda-feira, 7 de março de 2016


A ARTE COMO UM CAMINHO III

A revolta dos artistas modernos iniciada na França em fins do século XIX foi a tomada de consciência da crise de autenticidade na arte. A arte moderna, com todos os seus ismos e correntes estéticas, trouxe em sua essência o não conformismo.

A história da arte moderna é a história da libertação da criatividade, escondida e bloqueada pelas convenções.

De modo geral, podemos sentir, nas correntes artísticas que se estenderam pelo mundo desde o século XIX, uma inquietação constante, que trouxe em seu contexto a desmassificação e a abertura espiritual. Se algumas correntes artísticas denunciaram a sociedade e a violência, outras propuseram a busca interior, revolvendo as camadas do inconsciente. 
O Expressionismo, dando livre curso às emoções, desligou-se completamente do sentido de beleza tradicional, para fazer pulsar de forma direta o mundo subterrâneo de emoções e sentimentos. A pintura torturada de Van Gogh, as deformações de Soutine e Kirchner dão ênfase ao sentimento do artista. O Dadaísmo foi um movimento de contestação e quebra de condicionamentos, que propunha uma atitude de questionamento da sociedade, das guerras, da razão e do próprio conceito de arte. Enfatizou pela primeira vez a ideia de antiarte, isto é, a negação da estética tradicional imposta por uma elite intelectual. 
O ready-made, criado por Marcel Duchamp, tornou-se o símbolo da antiarte. Duchamp, ao explorar as contradições da arte tradicional, procurou dar um sentido simbólico aos objetos do uso cotidiano, até então desprovidos de qualquer conotação estética. O Surrealismo, influenciado pela psicanálise, investigou os sonhos e procurou interpretar e explorar os símbolos do inconsciente. Paul Klee, um dos pioneiros dessa corrente artística, inspirou-se na arte das crianças e dos loucos. Seus quadros trazem à tona a realidade do imaginário, do fantástico. O Abstracionismo intensificou o encontro do Oriente com o Ocidente. Um encontro de inspiração e de atitude diante da vida. 

Já em 1912, Wassili Kandinsky, nascido na Sibéria, criou o primeiro quadro abstrato, completamente desligado da realidade visível. Em seu livro  De lo Espiritual en el Arte, Kandinsky propõe aos artistas ultrapassar conceitos e fórmulas para alcançar, por meio da arte, a realidade espiritual do homem. A pintura de Kandinsky desprendeu-se por completo da terra como ponto de referência. Projetou-se no cosmo. 
O Suprematismo depurou a forma, elevando-a a um plano superior de contemplação estética. As esculturas de Brancusi e as telas de Mondrian comovem pela simplicidade e espiritualidade. Por meio do despojamento  dos elementos perceptíveis, os artistas não figurativos buscaram o significado do eterno. Malevitch tentou atingir a Realidade Suprema, a essência da forma. Seu último quadro,  Branco sobre Branco, é um despojamento completo do supérfluo. . (Trecho do livro “Os Caminhos da Arte”, editora C/ARTE, 2015)

*Fotos da internet

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terça-feira, 1 de março de 2016


A ARTE COMO CAMINHO II

Acompanhando a evolução da arte ao longo da história, podemos ver a importância da espiritualidade estimulando a criação artística, desde as mais remotas civilizações.
A arte em sua origem foi magia, um auxílio mágico à dominação de um mundo inexplorado. A religião, a ciência e a arte eram combinadas, fundidas em uma forma primitiva de magia, na qual existiam em estado latente, em germe. Esse papel mágico da arte foi progressivamente cedendo lugar ao papel de clarificação das relações sociais, de iluminação dos homens em sociedades que se tornavam opacas, ao papel de ajudar o homem a reconhecer e transformar a realidade social.

 A arte vem se manifestando desde épocas primitivas como porta-voz da sociedade e linguagem transformadora do meio ambiente. Por meio de símbolos os homens se comunicaram, inventaram a escrita, transmitiram sentimentos. Testemunharam sua indagação diante do universo. Criaram objetos de culto, edificaram templos, esculpiram santos. Havia a necessidade de comunicar sentimentos de fé e de esperança num mundo melhor. Modelando a argila ou esculpindo a pedra, escolhendo cores e formas, o artista se enriquecia interiormente.

Procurando a ordem, o ritmo e a harmonia, ele se harmonizava também consigo mesmo, com a natureza e a sociedade, integrando-se ao seu meio.
Na antiga China, o artista só começava a pintar depois que se espiritualizava através de longos anos de meditação. Somente assim, poderia refletir em sua obra as realidades eternas. De acordo com a sabedoria egípcia, os quatro ângulos da pirâmide de Quéops simbolizam as quatro principais vias de aperfeiçoamento humano: arte, ciência, religião e filosofia. A arte, portanto, nas antigas civilizações, era um caminho espiritual, uma via de aperfeiçoamento.

Com o advento do Cristianismo no Ocidente, a arte apareceu como companheira inseparável do espírito cristão, desde as primeiras manifestações de arte pobre nas catacumbas até o apogeu da Idade Média e da Renascença.
Associou-se ao espírito do Barroco, penetrou na arte popular, enriquecendo e testemunhando o sentimento religioso de cada época.

Quando a arte se desligou dos valores espirituais para ser considerada elemento decorativo, quando se tornou um objeto de consumo da alta burguesia, houve uma quebra na unidade homem-artista. Já não havia a totalidade do homem refletida em sua obra, motivada por um sentimento espiritual. O artista, dissociando a ação do sentimento, conformava-se em reproduzir fórmulas clássicas ou renascentistas, embora elas já não representassem as aspirações de seu tempo. Criaram-se as academias de Belas Artes.

Contra esse tipo de arte, cuja finalidade era decorar salões, revoltaram-se os primeiros pintores modernos. Courbet, recusando a Cruz da Legião de Honra que lhe fora conferida, declara guerra à arte oficial acadêmica. Inspira-se, com vigoroso naturalismo, nos camponeses e trabalhadores. Recusa-se a aceitar moldes impostos, temas repetidos. O exemplo de Courbet motivou os impressionistas.

 Estes queriam trabalhar com autenticidade, protestando contra as imposições estéticas do Academismo. Voltaram-se para a natureza, trabalhando em plena luz solar. Buscavam captar o instantâneo. Não se preocupavam em criar quadros agradáveis à vista, mas obras sinceras. Libertaram cor, forma, composição e espaço tradicionais, procurando comunicar vivências momentâneas da realidade exterior. (trecho do livro “Os Caminhos da Arte”, editora C/ARTE, 2015)

*Fotos da internet

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016


A ARTE COMO UM CAMINHO I

Desde os tempos primitivos até os dias de hoje, a arte tem contribuído para o trabalho de conscientização, acelerado nos tempos modernos, quando o homem cada vez mais procura se assumir e se conhecer para atuar consciente e livremente no mundo.

A arte do passado, guardada em museus ou preservada nos monumentos públicos, mostra-nos a história do mundo em suas buscas e inquietações. A luta do homem para sobreviver, transformar-se e evoluir é revelada em suas obras de arte.
Observamos nos museus a força e a agressividade dos cavaleiros da Idade Média, escondidos por detrás das armaduras de ferro, e também a ternura das madonas medievais esculpidas por  artistas anônimos.

Ação e contemplação, agressividade, lirismo, guerra e paz, violência e compaixão nos são revelados em cada objeto de arte. Há contrastes e semelhanças entre os diversos períodos da história. A semiobscuridade das catacumbas revela-nos a grandeza espiritual dos primeiros cristãos, seu desapego e coragem para enfrentar o martírio. A propagação do Cristianismo no Ocidente está gravada nos muros de pedras das catacumbas, nas inscrições dos mártires, nos campanários de Assis, na monumentalidade das catedrais góticas. A arte cristã percorreu períodos históricos, atravessou os mares e nos trouxe o Barroco como legado artístico.

Recordamos Sócrates e Platão, na brancura do mármore grego, revivemos a civilização dos mitos e deuses, do culto ao homem em seus aspectos físico e intelectual. Acompanhamos a influência da Grécia sobre o Ocidente, percorrendo o caminho do pensamento, da filosofia e da arte, para alcançar a época moderna, transfigurada e recriada nos desenhos e gravuras de Picasso.

À luz de novas ideias, o antigo transforma-se no moderno. Oriente e Ocidente encontram-se e interpenetram-se. Culturas diversas se unificam. Contemplando a serenidade do Buda, encontramos outra forma de espiritualidade, baseada no silêncio e no encontro do homem consigo mesmo. A mesma atitude contemplativa estende-se pelos jardins e parques, percorre os interiores despojados e reflete-se na transparência da pintura do Extremo Oriente.

A arte, em toda a sua história, revelou o homem como um ser voltado para as coisas do eterno. Antigamente, a arte ligava-se à religião ou à magia. O artista empenhava-se na realização de uma forma que se destinaria ao culto, motivado por uma realidade espiritual. Movia-lhe o impulso desinteressado, o desejo de superar o cotidiano. Sua necessidade criadora era dirigida para a conquista das forças da natureza ou para a tentativa de desvendar o mistério da vida. De olhos voltados para as estrelas, indagava. Sua arte revestia-se de um caráter místico, concentrado no sentimento universal e eterno.

A identificação do artista ou artesão com esse sentimento universal pro-duziu, desde épocas remotas, obras de arte que permanecem no tempo, com a vitalidade do momento criador. Sentimos essa energia espiritual na arte dos povos primitivos, nas esculturas egípcias, na arte pré-colombiana, na arte cristã e na oriental. O gesto do artesão anônimo esculpindo a pedra ou trabalhando a madeira era cheio de temor e respeito diante do invisível. Sintonizando o movimento da mão com o movimento da alma, o artista ou artesão integrava-se ao universo, associando a criatividade ao impulso místico. Sua arte expressava o individual e a profundidade do sentimento universal. (recorte do livro “os Caminhos da Arte”, editora C/Arte, 3° Edição, 2015)

*Fotos da internet

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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016


O TEATRO DA VIDA

Luciano Luppi, ator, diretor e professor de teatro, escreveu o texto abaixo como um artigo para o jornal Hoje em Dia. Para o nosso público interessado em arte, é bom ver o pensamento de um diretor de teatro, com experiência de muitos anos nos palcos, falar sobre o Teatro da Vida.

“ Em teatro, o ato de representar, em síntese, significa compreender, assimilar e vivenciar o comportamento de um personagem. Os atores, portanto, representam os valores e crenças de um personagem. Entretanto, no palco da vida, re-a-presentamos os nossos próprios valores e crenças. Representar, portanto, os papéis que a vida nos confiou, significa reapresentar-se: ou seja, mostrar aos outros aquilo que somos através de um jogo de símbolos, imagens, metáforas. E precisamos do teatro encenado no palco para criar identificações com o que vivemos no palco da nossa vida. Podemos compreender melhor este jogo quando somos expectadores e estamos numa casa de espetáculos, e aí condoemo-nos com as atitudes de um determinado personagem, choramos com os descaminhos daquele outro, gargalhamos com as peripécias de outro mais. Enfim: identificamo-nos. E o ator é aquele que, no palco, faz aquilo que muitas vezes gostaríamos de fazer na vida, mas não temos condição ou coragem. E aplaudiremos o bom ator porque representou com muita competência e emoção aquilo que temos dificuldade de fazer. Aplaudiremos, também, porque precisamos sinalizar que aquilo é teatro, que o ator é um artista, e que um artista é uma máscara que tem a função de vestir e exibir muitas máscaras. Normalmente, não conhecemos o ser humano que assume o papel de artista. E quanto melhor o artista, melhor que permaneça nessa referência, pois sempre teremos uma máscara a nos servir com identificações adequadas e eficazes, e assim, evitaremos decepções. Contudo, só conseguiremos ser felizes com os nossos papéis na vida, quando estivermos relaxados e conscientes do teatro do qual fazemos parte e conseguirmos impor as mudanças necessárias para desenvolvê-los melhor. Com a clareza de que somos obrigados a assumir muitas atribuições sociais, temos que procurar representá-las da melhor forma possível. Entretanto, em alguns casos, deixamos a atuação enrijecer e o que era uma atribuição se transforma em algo rígido, ou seja, fica como que colado no nosso rosto – é a máscara. E precisamos de recursos para evitar que isso ocorra. A arte do teatro pode nos auxiliar neste projeto. Tendo consciência do que estamos exibindo ao mundo, com a mente aberta, o corpo relaxado, as emoções fluindo livremente, deixaremos de lado o medo e o sentimento de culpa, e poderemos expandir essa brincadeira gostosa, verdadeira e humana. E descobriremos mais: a vida nos impulsiona a transformar o “jogo de esconder” no “jogo de encontrar”. Significa encontrar, cada vez mais, a natureza essencial do ser humano que está por trás das representações, e, assim, desenvolver o sentido da existência, para transformar o sonho de crescer num espetáculo de vida.” (Artigo para coluna semanal no caderno Almanaque, do jornal Hoje em Dia)

*Fotos de Ivana Andrés e da internet


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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016


REFLEXÕES ARTE E TRANSFORMAÇÃO DO SER HUMANO

Vivemos numa época de inquietação resultado do esgotamento de conquistas materiais. O século XX acelerou de forma violenta o desenvolvimento tecnológico sem um equivalente no plano espiritual. Procura-se agora no século XXI, por todos os meios o equilíbrio do homem e seu ajustamento à vida. A psicologia em seu processo de busca, encontrou na criatividade uma das formas de liberação. Arte e psicologia estão unidas no dinamismo do século, procurando despertar e desenvolver a energia criadora do homem. Descobriu-se que a libertação desta energia promove completa modificação no comportamento humano.
 Através da arte os símbolos do inconsciente afloram, mostrando as raízes das angústias, bloqueios e emoções. Desfazem-se as máscaras, conscientizam-se fugas e a realidade aparece em sua autenticidade, sem reservas. Segundo Jung, “um símbolo não traz explicações, impulsiona para além de si mesmo na direção de um sentido ainda distante, inapreensível, obscuramente pressentido e que nenhuma palavra de língua falada poderia exprimir de maneira satisfatória”.
As pesquisas de Jung no interior do ser humano estendem-se a direções muito vastas e abrangentes, deixando as artes plásticas campo aberto para uma investigação cada vez mais consciente.
É o próprio homem em sua evolução cósmica que se revela em todos os seus movimentos e transformações. Seu comportamento, gestos e palavras são manifestações exteriores de uma realidade mais profunda que Jung buscou conscientizar. A arte foi usada por ele como instrumento desta conscientização, tornando-se porta aberta para a conquista do “self” ou arquétipo da divindade. Cada momento criador é um vislumbre desta luz interna que todo ser humano possui, obscurecida e bloqueada pelos condicionamentos e a multiplicidade de solicitações do mundo exterior.
Através do contato direto com esta fonte interna, o ser humano recupera passo a passo a unidade perdida.
Esta visão direta, intuitiva do universo é responsável também pela transformação que se processa no ser humano, ajudando-o a conscientizar seu relacionamento com o mundo. Compreendendo as relações humanas como um todo, também a vida se torna uma arte. A vivência da unidade, a captação dos símbolos do inconsciente, a busca do equilíbrio estendem-se além do objeto criado, modificando e transformando também o próprio artista.
Compreendendo isto, podemos dizer que a arte é realmente uma via de aperfeiçoamento humano, e a consciência desta integração é necessária para a nossa própria harmonização como seres humanos.

Fotos da internet

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016


PIETÁ CAETÉ

Este texto do Maurício me fez contemplar o céu:

‘No passado, essas pedras foram fundo de mares interiores, conviveram com animais pré-históricos, seus sulcos e ranhuras testemunham eras geológicas e mais de um bilhão e oitocentos milhões de anos. Do alto do lendário Itaberabaçú, a montanha que brilha, via-se a destruição ao longe das matas do rio Doce - Watu para as tribos caeté, botocudo, krenak, aimoré, que ali viveram e que conheceram a impiedade dos brancos. 
Vieram os caçadores de esmeraldas e de índios, as minas de ouro de Cuiabá e Descoberto, madeireiros. Bracarena ergueu a igreja em 1776, os romeiros subiam ao cume da Serra para o jubileu. A névoa encharca as pedras e gotas d’água pingam nos milagres, aos quais se atribuem poderes de cura.

A serra da Piedade é um monumento na paisagem, de onde se contempla o Caraça, Cauê, Itabira, o Espinhaço, a Serra do Curral. Hoje, é lugar de respirar ar.
São 1746 metros de altitude e 360 graus de visão, nesse grande mirante dos céus de Minas, de onde antenas controlam o tráfego aéreo e as telecomunicações. Do observatório astronômico, vê-se a estreita faixa de fogo no horizonte, que separa as luzes da metrópole e o brilho das estrelas e planetas.

Há uma nave branca pousada na rocha mirando Caeté. O santuário no cume da serra abriga a imagem da piedade, mãe e filho, azulejos registram o céu, anjos, mandalas.
Frei Rosário constrói com livros uma biblioteca mística e ecumênica, em sânscrito, latim, grego e em línguas correntes, onde se depositam conhecimentos de antigas tradições.

No futuro, a montanha sagrada da Piedade, Arunachala franciscana, abrigará um centro internacional de cultura cósmica. Ajudará seus visitantes a mergulharem no conhecimento ancestral e a estudarem a ecologia dos céus, ressacralizando a natureza em seu entorno.” (Pietá Caeté,
Maurício Andrés Ribeiro)

*Fotos da internet

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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016


PAINEL EM AZULEJO NA ERMIDA DE NOSSA SENHORA DA PIEDADE EM CAETÉ II

Na Capela do Santíssimo Sacramento ou de São José, na Ermida da Serra da Piedade, procurei seguir o estilo barroco da ermida, para dar continuidade ao todo do Santuário de Nossa Senhora da Piedade, a padroeira de Minas Gerais. Lembro-me de Frei Rosário dizendo: “ Você foi escolhida para realizar esses painéis por ser uma artista espiritualista.”
A figura de São José é representada em pé, como guardião do sacrário. Procurei representar São José como aquele que foi designado para cuidar de Jesus e de Maria, segurando com a mão direita um bastão. Na parte de baixo, como num filme, procurei sugerir passagens da Bíblia.
A capela de São José foi escolhida para as orações e quando ali chegamos freiras e fiéis estavam rezando o terço. Há bancos na frente, que imaginei serem reservados ao clero. Diariamente as pessoas rezam ali, diante do Santíssimo.

Quando saímos do templo e nos dirigimos ao carro as freiras nos cercaram: “Você é Maria Helena, que bom conhecê-la, você recebe diariamente nossas orações.” Para mim foi importante ouvir isso. A alegria que elas tiveram ao me encontrar naquela manhã chuvosa valeu como um prêmio. Fiquei pensando no quanto a nossa arte vai se espalhando pelo mundo a fora e nas pessoas que atingimos. A arte cristã, destinada ao culto, é a forma de unir as pessoas, de trazer harmonia e paz para esse mundo tão conturbado.

Saímos de lá com a certeza de que a Nossa Senhora da Piedade, colocada na nave central e criada pelo grande artista mineiro, Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, é o símbolo da nossa Minas Gerais hoje tão devastada.

A Mãe ali está, carregando Jesus em seu colo, protegendo o povo de Minas, os peregrinos que chegam e elevando as vibrações para o alto. Está ali para dar momentos de paz para os mineiros e para todos os brasileiros.

O Santuário de Nossa Senhora da Piedade é um lugar que merece ser visitado não só por sua beleza natural, no alto das montanhas, como também pela vibração de amor e compaixão por esse povo que aqui vive e que através de gerações chega até a ermida e silenciosamente recebe a energia da Protetora.

*Fotos de Maurício Andrés

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sábado, 16 de janeiro de 2016


ESCOLA GUIGNARD, 70 ANOS DE HISTÓRIA

Éramos 40 alunos, jovens cheios de vida, pertencíamos à primeira geração de artistas que estudou com Guignard em Minas: Amílcar de Castro, Mário Silésio, Marilia Giannetti, Mary Vieira, Nelly Frade, Gavino Mudado, Leda Selmi Dei Gontijo, Heitor Coutinho, Arlinda Corrêa Lima, Farnese Andrade, Letitia Renault, Jeferson Lodi, Petrônio Bax, Vicente Abreu, Wilde Lacerda e Célia Laborne Tavares, entre outros. Fomos direcionados por um mestre que viera do Rio para nos conduzir. Guignard viera cheio de ideias novas, trazendo panoramas abertos para o aprendizado de arte em Minas. Deixara o Rio de Janeiro, onde já era considerado um dos maiores professores de arte do Brasil e também um dos maiores artistas brasileiros.
Viera da Europa lecionar no Rio, na Fundação Osório e participou do grupo A Nova Flor de Abacate, onde foi mestre de grandes artistas, tais como Iberê Camargo, Geze Heller, Alcides da Rocha Miranda, Vera Mindlin, Elysa Byington e Werner Amacher. Era amigo de Cândido Portinari, Roberto Burle Marx e também foi considerado por escritores e poetas. Cecília Meireles lhe dedicava versos, o grupo de intelectuais de São Paulo veio a Belo Horizonte para participar com Guignard e os artistas modernos da inauguração da Semana de Arte Moderna em Belo Horizonte, realizada em 1944. Guignard era um revolucionário, lutava contra o academismo vigente na época. Achava que o academismo amarrava os artistas.

Seu método de ensino, baseado no despertar pessoal de cada aluno, assemelhava-se aos ensinamentos de Johannes Itten na Bauhaus de Weimar, na Alemanha.
Despertar em primeiro lugar a sensibilidade, o olhar atento para a natureza, as árvores, os céus, as nuvens, os desenhos que se formam nas paredes velhas, nas pedras, no corte das árvores, nas sombras do chão. Ver os círculos que se formam nas águas quando ali atiramos uma pedra. Observar o olho humano, mandala cheia de vida e de mistérios.

O parque era sempre cheio de motivações para o nosso imaginário de jovens artistas. Passávamos horas debaixo daquelas árvores, sentadas em banquinhos, desenhando com lápis duro, 6H. O desenho nos dava a possibilidade de praticar o exercício da concentração, uma meditação espontânea, sem intenção de ser meditação.
Paralelamente ao desenho de observação, ensinado debaixo das árvores, Guignard nos orientava também, dentro do ateliê. Fazíamos retratos e figuras do natural, como nas academias de Belas Artes.

Muitas vezes acompanhávamos Guignard a Ouro Preto, para desenharmos aquela cidade histórica, e também ao Rio de Janeiro para expormos nossos trabalhos.

Na década de 60 eu era professora da Escola Guignard e ali ocupava a cadeira de desenho de criação. A Escola estava situada no parque municipal de Belo Horizonte, nos porões do Palácio das Artes. Ali Guignard e Franz Weissmann  lecionaram; mais tarde seus alunos os substituíram. A Escola era pobre, sem recursos, mas rica em talentos. Vários artistas saíram dali e seguiram mais tarde seu próprio caminho.

Na década de 60 assumi a direção da Escola num período de crise financeira. Procurei vários ex-alunos e todos se prontificaram a dar aulas voluntariamente, sem nenhuma remuneração, até que a crise passasse.
Tomamos a decisão de procurar apoio no governo de Minas. Acenamos para os poderes públicos em busca de ajuda e convidamos o Dr. José Guimarães Alves para dirigir a Escola e ligá-la à Imprensa Oficial. Lembro-me das reuniões improvisadas debaixo das árvores. Foi uma época tumultuada, cheia de imprevistos, mas também coroada de êxito. A solidariedade e o idealismo prevaleceram sobre a iminente derrota. Era necessário oficializar a Escola. Afim de legalizar o pagamento dos professores o novo diretor organizou um concurso público de Notório Saber. Todos fomos concursados e, de acordo com a lei, passamos a pertencer ao quadro de funcionários da Imprensa Oficial. 

Na década de 70 pedi demissão da Escola Guignard para me dedicar às minhas pesquisas na Índia e preferi me aposentar pelo INSS.
Agora a Escola Guignard enfrenta um novo desafio, com a demissão de professores, muitos deles com mais de 20 anos de experiência, e que procuram seguir a filosofia do Mestre Guignard. Se a forma de seleção de professores proposta hoje por órgãos governamentais fosse implantada no início da criação da Escola, o Mestre Guignard seria o primeiro a ser demitido. O notório saber do Guignard seria ignorado para seguir uma legislação burocrática.

Reescrevo aqui três citações para reflexão:
“Não se ensina ninguém a ser artista ditando-lhe conceitos teóricos, como não se ensina ninguém a ser poeta ditando-lhe regras gramaticais”. (Maria Helena Andrés, citação do livro Vivência e Arte, editora Agir, 1966)
 “Não se exige de uma artista plástico o talento de redigir com clareza o que ocorre em seu mundo interior de vivência estética. Às vezes, entretanto, acontece esta maravilhosa casualidade, este dualismo, do pintor ser também escritor. Então eles nos legam textos que se tornam preciosos porque iluminam direções e espaços, motivos e razões, anseios e reflexões que não são os nossos” (Clarival do Prado Valadares, apresentação do catálogo Maria Helena Andrés, referente à exposição da artista na Galeria Goeldi, Rio de Janeiro, set. 1965 )
“Para ser artista não é necessário ser doutor”, dizia Amílcar de Castro a seus alunos.

A Escola Guignard sempre foi uma Escola pautada pela liberdade de criação, uma experiência bem sucedida durante 70 anos. Se ela quase fechou suas portas por falta de recursos financeiros, hoje corre o risco de se distanciar da verdadeira proposta de Guignard.

Espero que, a partir de agora, possam surgir novos parâmetros para a avaliação de professores do ensino de arte, pautados pelo fazer artístico e pela experiência em ateliês.

*Fotos da internet


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terça-feira, 12 de janeiro de 2016