Artista plástica, ex-aluna de Guignard. Maria Helena Andrés tem um currículo extenso como artista, escritora e educadora, com mais de 60 anos de produção e 7 livros publicados. Neste blog, colocará seus relatos de viagens, suas reflexões e vivências cotidianas.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
domingo, 20 de maio de 2012
EM BUSCA DO SER INTERNO
Uma das características mais
pronunciadas da civilização oriental é a busca de uma Realidade Interior, de um
plano espiritual de vida que reúne todas as coisas numa Totalidade.
O oriental procura através da
religião, da filosofia ou da arte, a integração do homem à natureza e ao
cosmos, buscando encontrar além do tempo e do espaço o valor intrínseco das
coisas. Para isto serve-se de guias, mestres e filósofos. Alguns renunciam à
vida familiar, recolhendo-se às comunidades espiritualistas ou ashrams. Outros
aproximam-se da natureza, buscando no silêncio das florestas ou no interior de
grutas afastadas a resposta para suas indagações. Há também aqueles que
aperfeiçoam-se como chefes de família, transmitindo aos filhos os ensinamentos
dos mestres.
Buscam o encontro com o Ser Interno
através da meditação e do auto conhecimento. Essa realidade interna quando
reconhecida liberta a mente das inquietações provocadas pela agitação do mundo.
A tranqüilidade mental visada por toda a filosofia do Oriente, não conduz à
apatia, mas à serenidade do homem superior.
O desenvolvimento interior é
o esquema de conduta, estimulado através dos séculos pelas diversas religiões
orientais, cujos fundamentos levam a uma visão cósmica da Verdade. A noção de
liberdade está na base desse desenvolvimento interior, dessa evolução para um
plano superior de existência, onde o espírito liberta-se das ligações
terrestres para se integrar à Essência Criadora de todas as coisas. O homem
realmente integrado é aquele que se liberta não somente do conforto material,
mas também da ambição, egoísmo, inveja, ciúme e todos os impulsos negativos que
encobrem a Realidade Interna, como uma nuvem escura encobrindo o sol. Para nós,
ocidentais, acostumados ao progresso material, à concorrência e à competição,
essa atitude nos parece estranha e profundamente apática. No entanto, ela nos
desperta para outros aspectos da vida e nos mostra o caminho aberto a um
progresso necessário ao equilíbrio do homem do século XXI: o progresso
espiritual e a descoberta da sua origem divina.
Há várias técnicas de
meditação, variando de acordo com as necessidades dos discípulos, mas todas
levam ao mesmo ponto: o estado de atenção necessário a uma plena consciência
das coisas. Todas insistem no não pensamento. Sentir, olhar e perceber o
presente sem interferências do passado ou do futuro. Os nossos sofrimentos vêm
de nós mesmos, dos nossos conflitos mentais e do acúmulo de imagens conflitivas
na mente. Quando aprendemos a olhar a mente de forma direta, quando a
esvaziamos por completo, percebemos um estado de Serenidade e Paz, que seria o
estado natural do ser humano.
O caminho do meio, pregado
por Buda há 2.500 anos, conduz a um estado de alegria sem excessos e à
Felicidade a que tem direito a pessoa durante o seu curto tempo de permanência
na terra. Mas, de um modo geral, esse tempo é gasto em várias atividades e
somente poucas pessoas se aproximam da beleza desses momentos como um privilégio
especial. Os ensinamentos dos lamas, quando se referem à observação dos
próprios pensamentos, assemelham-se às instruções de Krishnamurti. “Olhe dentro
de você mesmo, observe os movimentos de seu ego, suas reações à vida diária.”
Quando tomamos consciência de
que tudo está na nossa própria mente, quando compreendemos como surgem,
permanecem e acabam os nossos pensamentos, sentimos que eles são realmente os
geradores de todos os nossos altos e baixos. O momento presente é sempre belo e
cheio de luz. Somos nós que criamos a nossa própria dor.
*Fotos de Vânia Trindade e Marília
Andrés
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sexta-feira, 11 de maio de 2012
FLORESTAS
Maurício me enviou o texto abaixo, dando continuidade à postagem “Oásis
Terra.”
“Florestas e árvores são grandes aliadas de quem precisa de água, ou
seja, de todos nós. Ao regular o clima, absorver gás carbônico e ajudar na
infiltração da água no solo, as árvores e as florestas realizam processos
vitais e prestam valioso serviço. A
erosão nos solos e o escoamento superficial de água em áreas sem cobertura
vegetal é muitas vezes maior do que aquela que ocorre em áreas protegidas por
vegetação. Com o desmate, os rios são
assoreados e há perda de qualidade das águas, a redução dos lençóis
subterrâneos, a perda de solos.
Na ausência de florestas, necessita-se de mais obras estruturantes e há menor segurança hídrica. Assim, por
exemplo, quando o desmate e mau uso do solo prejudicam a qualidade da água, as
empresas de saneamento passam a gastar mais com produtos químicos no tratamento
de água, pois a vegetação filtra metais e matérias em suspensão na água,
reduzindo a necessidade de tratamento. Os mais penalizados por esses custos são
as populações mais pobres e vulneráveis. Preservar os serviços ambientais
prestados pelas arvores e florestas é, portanto, também uma questão de justiça
social e de equidade.
No Brasil, serviços de regulação do clima são prestados em escala macro
pela floresta Amazônica, sobre a qual chove a umidade vinda do oceano
Atlântico. As árvores bombeiam de volta à atmosfera uma parte dessa umidade,
que chove novamente sucessivas vezes em direção ao oeste. Ao encontrar a
barreira da cordilheira dos Andes, esse ar carregado de umidade, em verdadeiros
rios voadores, se dirige para o sul, umedecendo o centro-oeste e o sudeste
brasileiros. Não fosse essa umidade, o clima nessas regiões seria muito mais
seco e possivelmente haveria desertos. Sem a floresta amazônica, a agricultura
no Brasil central e do sudeste será seriamente prejudicada. Antonio Donato Nobre (No vídeo Tem um rio em cima de nós, no YouTube http://www.youtube.com/watch?v=HYcY5erxTYs&feature=player_embedded) nos ensina que a Amazônia pode ser vista como usina de serviços
ambientais que realiza gigantescas transferências de energia, ao
promover a evaporação de 20 bilhões de toneladas de água por dia, sendo um
poderoso motor do clima global. Caso esse volume de água tivesse que ser
evaporado por aquecimento, seriam necessárias 50 mil usinas do porte da
hidrelétrica de Itaipu.
Culturalmente,
a floresta é vista como algo sujo, a ser extirpado. As expressões da língua
revelam tal tipo de pensamento: limpar o mato, visto como sujeira; campo limpo
e campo sujo significam respectivamente uma área sem vegetação e uma na qual a
vegetação tenta se regenerar; quebrar o galho não é um ato negativo de destruição
da vegetação, mas uma forma de ajudar um amigo. Até mesmo os quintais urbanos
são cimentados, pois a vegetação
é vista como um estorvo que dá trabalho para limpar, que atrai bichos e
doenças. Nessa visão cultural, vegetação,
mato e floresta são sujeiras a serem removidas. Ainda não se valoriza
suficientemente o fato de que as florestas prestam serviços ecossistêmicos,
tanto em escala macro como em escala local.
Uma mudança de percepção cultural sobre a natureza, as águas e as
florestas é necessária para que o comportamento em relação ao ambiente passe a
ser mais amigável e menos agressivo. A valorização dos serviços ambientais
prestados pelas florestas e árvores, bem como a valorização da água como algo
essencial à vida, são atitudes positivas. Árvores e florestas são aliadas do ser humano na
gestão das águas do oásis Terra.
Maurício Andrés é autor de Ecologizar e de Tesouros da Índia WWW.ecologizar.com.br
*Fotos de Euler Andrés e Luciano Luppi
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sexta-feira, 27 de abril de 2012
OÁSIS TERRA
Maurício Andrés me enviou de Brasília textos sobre a água que virão
enriquecer este blog. Há muitos anos ele se dedica à defesa das águas do
planeta. Abaixo transcrevo o seu depoimento:
“Um oásis é um lugar em que há
água e vida no deserto e no qual as caravanas param para descansar e se
reabastecer antes de prosseguir viagem.
Na escala do sistema solar, a Terra é um lugar com solo fértil,
vegetação, vida animal e água. É um pequeno ponto no deserto dos espaços
siderais interplanetários. Na escala cósmica, a Terra é um oásis.
De onde vêm as águas que existem no oásis Terra?
Alguns astrônomos supõem que as águas se originaram no cinturão de
Kuiper, um
conjunto de cometas existente para além
da órbita de Netuno; outros especulam que ela
resultou do choque de corpos celestes gelados provenientes do cinturão
de asteróides situado entre as órbitas de Marte e de Júpiter. Tal como em outros processos de concepção, o
espermatozóide cósmico (um cometa ou asteróide) penetra no óvulo (a Terra) e a fecunda
com a água portadora das condições de gerar a vida. Além dessas hipóteses,
existe aquela de que a água tenha se formado a partir de elementos que existiam
na própria Terra desde sua origem.
Como a superfície do planeta é em sua maior parte coberta por água, ela
parece ser muita. Entretanto, na realidade seu volume é pequeno, comparado com o volume total da Terra, pois a
hidrosfera ocupa uma estreita faixa na superfície do planeta. A título de
comparação, se a Terra fosse do tamanho de uma bola de futebol, a água nela
existente teria o volume de uma bola de pingue-pongue. Diferentemente de Vênus,
onde ela é gasosa, e de Marte, onde está em estado sólido, na Terra a água é
encontrada em estado sólido, líquido e gasoso. Sendo muito sensível a variações
de temperatura, a água é o elemento por meio do qual a natureza responde
diretamente às mudanças no ciclo do carbono que provoca as mudanças
climáticas. Com o efeito estufa ela derrete, evapora. Intensificam-se e
tornam-se mais freqüentes eventos críticos tais como os que ocorreram no Brasil
em 2010: estiagens na Amazônia e cheias no nordeste, nas regiões metropolitanas
de São Paulo e do Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul. Tais eventos trazem
consigo prejuízos econômicos e sociais.
Do volume total no planeta, 97,6% da água
é salgada e apenas 2,4% é água doce. Várias regiões já sofrem de
estresse hídrico, em todos os continentes. Apesar do Brasil dispor de 12% de
toda a água doce do mundo, aqui também a relação entre demanda e
disponibilidade mostra problemas em áreas e bacias críticas, especialmente no
semi-árido nordestino, nas vizinhanças de regiões metropolitanas e em áreas
densamente povoadas e industrializadas ou onde exista grande demanda de água
para a irrigação na agricultura, como no Rio Grande do Sul.
Hidroconsciência e
hidroalienação
Na cultura brasileira, a consciência sobre a água ainda é pouco
desenvolvida e existe a ilusão de que ela constitui um recurso infindável. A
água é usada como depósito de lixo e resíduos. Lixões localizados à beira de
rios os levam para longe nas enchentes. O rio percebido como depósito de lixo
está presente na fala de uma mãe, no interior de Minas, ao deseducar a criança:
“Meu filho, não jogue o lixo no quintal, porque aí não é o rio!” A cultura
brasileira urbana dá as costas para a água, sendo usual encaixotar os córregos
urbanos e construir sobre eles vias de trânsito, retirando-os das vistas da
população. Até mesmo o Ipiranga celebrado no Hino Nacional, em cujas margens
plácidas D. Pedro I bradou o grito da independência brasileira, encontra-se
coberto por uma via pavimentada.
No Brasil, há grande hidroalienação, pois a população urbana cada vez
conhece menos sobre o ciclo integral da água, de onde ela vem, quando chega na
torneira, e para onde vai depois de escoar pelo ralo. O cidadão urbano pobre
vivencia fragmentos isolados do ciclo da água, do caminhão-pipa para o balde, e
no trajeto do esgoto que escorre a céu aberto nas favelas; o cidadão de classe
média vivencia o percurso da água da torneira ao ralo ou quando se vê preso num
engarrafamento de trânsito em vias urbanas alagadas.
Resulta dessa hidroalienação e da falta de investimentos que dela deriva,
que a principal fonte de poluição de águas é o despejo de esgoto in natura nos rios.
Maurício Andrés é autor de Ecologizar e de Tesouros da Índia WWW.ecologizar.com.br
*Fotos da internet
terça-feira, 10 de abril de 2012
ARTE COMO IDÉIA CRIADORA
Todo ser humano possui um artista interior. Tudo na vida tem um sentido eterno, que ultrapassa o domínio da matéria.
Cada um de nós guarda dentro do seu subconsciente as noções de Beleza, Verdade e Bondade. Esse mundo das idéias é muito mais real e verdadeiro que o outro, modelado pela matéria. Mas é invisível para os que não procuram e sentem apenas o seu aspecto exterior, sem atingir sua realidade mais profunda.
A arte, brotando desse universo interior, procura em linguagem específica a comunicação com os homens. Ela revela ao que a contempla algo do que tem escondido em si mesmo no mistério de seu ser interno.
Jacques Maritain diz que o mais insignificante transeunte não tem, no céu de sua alma, menos estrelas que um artista. O sentimento de Beleza é atributo do homem, pertence a todos. Mas, muitas vezes, é velado aos olhos da maioria. Cabe ao artista despertar esse sentimento em seus semelhantes, tornando-o visível e consciente na obra de arte.
A fonte de onde provém toda manifestação artística é a profundidade mesma da alma do artista. Antes de qualquer representação material, ela já existe, como sentimento informe, puro, ainda não delineado, mas que se traduz por uma imperiosa e inadiável exigência da alma, uma ânsia sem fim em busca de expressão. Arte é, pois, antes de tudo, transbordamento de vida interior. É uma vocação, um chamado.
A idéia criadora é uma iluminação intuitiva e repentina. É uma decisiva emoção que a principio se delineia, depois se aclara mais, e tende a vir à luz. Movido por ela, o artista descobre o que sempre o inquietava e que se achava adormecido em sua alma.
A criação artística divide-se em dois momentos distintos: a concepção da obra de arte, que é a idéia criadora propriamente dita, e a sua realização. Estabelece-se então um dialogo entre o artista e a obra criada.
A idéia criadora pode surgir inesperadamente, ou durante o curso de uma longa pesquisa. Mas, de uma ou de outra maneira, constitui sempre uma surpresa para o artista; e é, justamente, nesse caráter de surpresa, que se encontra toda a alegria da criação.
A arte não é apenas talento. É talento ou potencial somado à vocação, a um desejo imperioso de progresso. Esse progresso só poderá ser feito através do trabalho.
Ser artista não significa calcular friamente. Não significa reunir tratados de teoria e tratados de matemática para, da ciência, passar à arte, mas, sim, deixar que a experiência transborde, depois de amadurecida, deixar que a sua própria vida, mais profunda, o seu universo desconhecido, aflorem à luz do mundo como que por encanto. Essa linguagem criativa nasce de raízes profundas, de experiências passadas e sofridas, e não se submete a qualquer ordem vinda de fora, seja de escola, religião ou doutrina política.
Diz Lucio Costa que “Toda arte plástica verdadeira terá sempre de ser, antes de tudo, arte pela arte, pois o que a haverá de distinguir das outras manifestações culturais é o impulso desinteressado e invencível no sentido de uma determinada forma plástica de expressão”.
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sexta-feira, 30 de março de 2012
NEMER E ANNIE, UM CASAL DE ARTISTAS
A exposição “DUO” do casal de artistas José Alberto Nemer e Annie Rottenstein, que estará aberta ao público até o dia 15 de abril, oferece ao visitante momentos de reflexão. Este casal de artistas, ele nascido em Minas e ela na França, se completa também dentro da arte, na magia de uma mostra que nos fala direto ao coração.
“Nestas aquarelas eu busco entender a natureza”, nos disse ele em seu depoimento. Citando Albert Einstein: “O que eu vejo na Natureza é uma magnífica estrutura que só compreendemos com muita imperfeição, mas que pode satisfazer uma pessoa com sentimento de humildade”
Em seguida, Nemer continua:
“Agradeço ao céu daquela noite
Em que a lua conversava com a nuvem
O sólido e o etéreo
O construído e o aleatório
O concreto e o fluido
A geometria e a abstração
A luz e a sombra
A opacidade e a transparência.
Eu não teria feito uma pintura à altura
Ainda assim, foi uma lição de sincronicidade
Uma confirmação de que
Nestas aquarelas
Busco entender a natureza”
Realmente a fluidez e a transparência das aquarelas, realizadas corajosamente nos grandes espaços sem perder a sensibilidade, nos permite contemplar os céus na obra do artista. Suas palavras completam o que sentimos diante desses painéis.
Em Annie, a “Criação do mundo” nos faz refletir sobre a unidade existente nos diversos povos do planeta: da antiga sabedoria da Índia até os nossos índios brasileiros mergulhados nas florestas, existe uma unidade que só é permitida perceber por aqueles que buscam além da mecanicidade repetitiva dos grandes centros. As mãos de Annie tecem formas e tiram esculturas do cipó para reconstruí-los no silêncio das invenções. Sua exposição deve ser vista de forma silenciosa fora do tumulto das inaugurações. No seu depoimento sobre a criação do mundo, extraído dos Upanishads, Annie revela uma profunda busca espiritual.
“O nascimento do mundo”
“Desde sempre o Uno reinando sobre o Caos Primordial, abismo repleto do Todo em fusão, rodopiando como cachoeira circular em suspensão. Seu caudal de materiais vaporosos e incandescentes revolve forças latentes, elementos em simbiose, à espera da expansão.
Chegado o tempo de distinguir as infinitas gotas da Criação, O Uno dirige seu sopro numa longa expiração. No meio do abismo, uma condensação de vapor se eleva e forma um lago. O sopro penetra sua superfície. O espelho d’água tremula com essa união. O Invisível se torna então visível ao fazer emergir da água o Primeiro Dragão, espírito ardente dotado de luz própria, de visão, do Todo. Olha faminto ao seu redor. Busca com olhar fugaz e vê na água seu próprio reflexo. Inesperado encontro com seu par? Crava seus olhos nos olhos do “outro” tomado pelo desejo de conhece-lo. Atraído, mergulha no escuro da água. Engolindo a si mesmo, se fecunda. Eis o ouroboros com seu poder de dar à luz. Voraz, acasala-se sem cessar. Prenhe de sua própria essência, elementar e plena, multiplica-se. Forma após forma nascem todas as formas, frutos da vontade do Uno, são impregnadas do dom divino: conter o germe que acorda a vida, procriar e conhecer a morte.
Assim a diversidade se propaga e povoa todos os cantos de um mundo que nasce junto, momento a momento.
A cada união, uma transformação. A cada transformação, um elo de continuidade. Com a continuidade, o tempo. Com o tempo o começo e o fim. E o eterno retorno.”
(Extraído dos Upanishads, Vedas).
*Fotos de Rafael Motta
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quinta-feira, 22 de março de 2012
JOANA & MARITO E AS SINAPSES DA DANÇA
Joana Ribeiro e Marito Olsson-Forsberg se encontraram em 2005 em Paris. Ela , mineira, nascida na Bélgica e ele na Suécia, foram se esbarrar no Departamento de Dança, da Universidade de Paris-8, na França, onde desenvolviam, respectivamente, pesquisas sobre o coreógrafo Klauss Vianna (1928-1992) e o tango argentino. Da sala de aula para as salas de ensaio foi um pulo, e o primeiro trabalho criado foi o duo de dança Sinapse, apresentado no 3º Festival de Inverno de Entre Rios de Minas, em 2009.
Sinapse surgiu do desejo de levar a dança contemporânea para as ruas, viabilizando sua apresentação para um público eclético. Com base na manipulação de objetos, na mímica e nas danças populares, representa os três tempos de uma relação amorosa: o encontro, a maturidade e a transcendência. A trilha sonora é composta por músicas de Rossini, Naná Vasconcelos, Machito e Fá do Tuiuti. Mais do que uma representação típica da cultura brasileira, Sinapse procura retratar um tipo ingênuo e uma mulher cosmopolita, arquétipos reconhecidos tanto no Brasil, quanto no estrangeiro, facilitando a recepção desta dança, em países como Suécia, França e Cuba.
O segundo projeto que Joana & Marito vem desenvolvendo desde 2005 é o Cabaré Satie – uma montagem para o público infanto-juvenil inspirada nas peças do compositor Erik Satie (1866-1925). O clima remete aos cabarés parisienses, como o Chat Noir (Gato Negro) em que Satie costumava tocar piano. Através de esquetes, armadas como quadros-mecânicos de uma caixinha musical, o espetáculo compõe um delicado recital dançante, sempre com a participação de um pianista convidado. Cabaré Satie já foi apresentado em Paris, na Suécia e no Rio de Janeiro.
O projeto que desenvolvem no momento é CANGAS, um jogo coreográfico inspirado nas cangas que colorem as praias cariocas. É um trabalho que utiliza 60 cangas com diversas estampas através de procedimentos de performance. Três ações básicas servem de mote para a dança: a imagem estampada, a canga como objeto de vestir e a relação do tecido com o ar. Dispostas no chão, como cartas de um baralho, num dispositivo similar àquele utilizado pelos vendedores ambulantes nas praias cariocas, as cangas formam um grande tapete, como um mosaico de estímulos para a dança a ser criada. O projeto CANGAS já foi levado para a UNIRIO, onde Joana leciona no curso de teatro; e na Suécia, onde foi encenado pelos bailarinos da cooperativa Rörelsen (http://www.rorelsen.com/), fundada por Marito. Ah, a palavra sueca rörelsen significa “movimento” em português.
Casados desde 2008, Joana & Marito lecionam dança e análise do movimento na Escola e Faculdade Angel Vianna e na Escola de Teatro da UNIRIO (RJ/Brasil), na Universidade de Paris-8 (França) e em Malmö (Suécia), além de atuarem no teatro como preparadores corporais. Buscam, nesse sentido, desenvolver suas trajetórias em três vertentes: a criação artística, o ensino e a pesquisa, buscando produzir novas sinapses (conexão entre dois neurônios que propaga impulsos nervosos) em dança.
*Fotos de Marito Olsson-Forsberg, Markus Kinnunen e Imre Szbrik
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quarta-feira, 21 de março de 2012
sábado, 10 de março de 2012
IMHA, ARTE ESTENDIDA À VIDA
Há 7 anos atrás foi inaugurado o IMHA (Instituto Maria Helena Andrés) na cidade de Entre Rios de Minas, situada no Campo das Vertentes, nome significativo para a dinamização artística que se desenvolveu por toda a região. Ali se realizaram Festivais de Inverno, sob a direção de Luciano Luppi e Ivana Andrés, trazendo para Entre Rios tudo o que de melhor acontecia em Belo Horizonte , não só professores de artes plásticas, como de música, teatro, capoeira, dança, maracatu, etc. A cidade se movimentou e aceitou as informações artísticas com receptividade extraordinária. Arte estendida à vida se espalhou pela comunidade. Foi criado um Ponto de Cultura, com o projeto Música para Todos, bem como A ECOPAZ, uma ONG ligada à Ecologia. Foram feitas pesquisas sobre a história da região e incentivos ao artesanato e à Arte na Educação.
“Entre Rios mudou”, nos disse o Tuca, talentoso músico da região. “Podemos situar um “antes” e um “depois” da criação do Instituto”.
Agora estamos comemorando a gestão da Teresa Andrés, nossa jovem presidente. Lembro-me do Euler, pai de Teresa, que deu o primeiro toque há 7 anos atrás, acompanhado do vice presidente Saulo Resende.. O início foi cheio de esperança no futuro. Veio Antônio Eugênio de BH, que nos trouxe a sua experiência de administrador de empresas, e, agora a jovem Teresa, com seu entusiasmo, vai contando para nós o que fez neste ano para a comunidade. Durante o ano de 2011, vários projetos aconteceram na cidade de Entre Rios, entre eles o projeto “Resgate com Arte” coordenado por Maria Aldina Resende e o projeto realizado em Jeceaba sob a coordenação de Sarahy Fernandes. Em Entre Rios o Ponto de Cultura ofereceu o primeiro curso de Design Multimídia.
Durante o evento pudemos admirar desenhos de crianças pendurados como bandeirolas nos cordões e o artesanato do cotidiano das donas de casa com desenhos da minha fase figurativa de boizinhos.
No palco improvisado do bar Vila Lobo, foram projetados 3 vídeos dos alunos do Ponto de Cultura, curta metragens resgatando 3 pessoas que foram importantes para a comunidade da música entreriana: Tião, Divino e Osmar, 3 jovens idosos que foram relatando suas lutas para dar continuidade aos seus sonhos. Um dos vídeos nos levou à oficina do Tião e à sua história de amor pela música e pelo violão. Cenário pobre, despojado, mas cheio de dedicação à arte. O outro vídeo percorre o universo de Divino, sanfoneiro, cantando música sertaneja. O último vídeo conta a história de Osmar , seresteiro que fez da própria família um grupo de cantores, desde os filhos até os netos. Os vídeos poderão, no futuro, ser mostrados em Festivais de Tiradentes e São João Del Rey. Os diversos grupos me prestaram homenagem como incentivadora das artes. Fui chamada a falar e ressaltei o fato de que o Instituto foi bem conduzido desde o início nas suas diversas gestões e agora, entregue ao “poder jovem”, continuará apontando para o futuro com a chama do entusiasmo. Entusiasmo significa “Deus dentro” e tenho certeza Ele guiará também nossos passos no futuro
No palco do Bar Vila Lobo, os músicos da região demonstraram que o Campo das Vertentes é fértil em musicalidade. Surpreendeu-nos o show que ali foi improvisado, todos sob a orientação do Tuca. Surpreendeu-nos uma família inteira de músicos, desde as crianças até os idosos cantando canções autorais. A alegria que eles conseguiram distribuir foi incontestável. Existe uma força interior que une as pessoas através da arte: cantores, pesquisadores, seresteiros, pagodeiros, todos movidos por uma só energia. Parabéns Teresa e a todos que contribuíram para este evento, vocês nos trouxeram momentos de grande alegria, evidente nos olhos das crianças e no sorriso dos idosos. Todos formamos um círculo harmonioso que vai se propagando e continuará com a chama do entusiasmo, levando a arte para todos os recantos desta região privilegiada de Minas Gerais.
*Fotos de Alejandro Restrepo e Janaína Ribeiro
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quinta-feira, 1 de março de 2012
GUIGNARD O MESTRE IV
A influência de Guignard sobre seus alunos não pode ser medida pela melhor maneira de copiar o mestre em suas telas, mas na maneira de segui-lo em seu entusiasmo pela arte, seu amor pela natureza e pelas crianças, seu lirismo perante a vida, seu desprendimento pelo dinheiro, seu estímulo à pesquisa e à iniciativa individual. Juntamente com o aprendizado técnico, Guignard procurava formar no aluno toda uma filosofia de vida.
Sua disciplina não se fundamentava em conceitos teóricos, mas na experiência. Guignard era curioso, gostava de observar cenas de rua e registrá-las em pequenos croquis. Escondia-se atrás das árvores para não ser visto. Um dia, encontrei-o numa avenida central de Belo Horizonte, captando as cenas dolorosas de um enterro. Tentava passar despercebido, mas as crianças, sentadas no meio-fio repetiam em coro:
- Ei, Guignard!
Guignard tentava impedir a imprudência das crianças, mas elas continuavam a importunar o mestre, gritando mais alto ainda:
- Olha o Guignard desenhando!
Os pequenos croquis que fazia nas ruas, serviam de motivação para futuros quadros. Recomendava registrar os acontecimentos do cotidiano, captar o momento presente em sua intensidade emocional, para depois recriá-los no papel ou na tela:
- "Façam croquis do natural, estejam atentos ao movimento das ruas, aos mercados, às feiras, às festas de S. João, aos casamentos, aos enterros... O croquis é necessário, ele é a base de tudo!"
Guignard detestava o academismo gerador de formas estereotipadas. O importante era o nascimento do novo. O que realmente pertencia à essência do aluno. Disciplina e liberdade se conjugavam para a formação dos alunos, não somente no nível estético, mas também no plano do desenvolvimento humano.
Guignard sempre foi conhecido por seu desprendimento e generosidade. Conta-se que em uma ocasião admirava um de seus quadros, a imagem de um Cristo, numa Galeria do Rio de Janeiro. A jovem atendente, não o reconhecendo, comentou com ele sobre o grande artista, autor daquela obra. Guignard se identificou e lhe disse que estava admirando a moldura que haviam colocado no quadro. No final da conversa ela lhe perguntou a quem havia vendido aquele quadro. Ele então lhe contou que havia dado o quadro de presente para uma estudante de Ouro Preto.
Foram alunos de Guignard, em Minas Gerais , entre outros, os seguintes artistas plásticos: Aparecida Carvalho Barbosa, Bax, Chanina Sznbejn, Heitor Coutinho, Amilcar de Castro, Holmes Neves, Laetitia Renault, Álvaro Apocalypse, Jarbas Juarez, Wilde Lacerda, Aneto, Vilma Rabelo, Ione Fonseca, Santa, Sara Ávila, Leda Gontijo, Haroldo Matos, Wilma Martins, Maria Helena Andrés, Lizete Meinberg, Eduardo de Paula, Ruth Michel Perrela, Yara Tupinambá, Solange Botelho, Jeferson Lodi, Amarylles Coelho Teixeira, Marília Giannetti Torres, Mário Silésio, Estevão José de Souza, Mary Vieira, Gavino Mudado Filho, Nina Xavier, Melo Alvarenga, Augusto Degois, Washington Filho e Célia Laborne Tavares.
Postagens antigas sobre Guignard:
“Inauguração do acervo de Guignard” – 28/04/2009
“Nossa Senhora e o Anjo, tema de Guignard” – 02/11/2009
“Escola Guignard, alunos professores” – 02/12/2010
*Fotos da internet
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