sexta-feira, 27 de abril de 2012

terça-feira, 10 de abril de 2012

ARTE COMO IDÉIA CRIADORA

Todo ser humano possui um artista interior. Tudo na vida tem um sentido eterno, que ultrapassa o domínio da matéria.
Cada um de nós guarda dentro do seu subconsciente as noções de Beleza, Verdade e Bondade. Esse mundo das idéias é muito mais real e verdadeiro que o outro, modelado pela matéria. Mas é invisível para os que não procuram e sentem apenas o seu aspecto exterior, sem atingir sua realidade mais profunda.
A arte, brotando desse universo interior, procura em linguagem específica a comunicação com os homens. Ela revela ao que a contempla algo do que tem escondido em si mesmo no mistério de seu ser interno.
Jacques Maritain diz que o mais insignificante transeunte não tem, no céu de sua alma, menos estrelas que um artista. O sentimento de Beleza é atributo do homem, pertence a todos. Mas, muitas vezes, é velado aos olhos da maioria. Cabe ao artista despertar esse sentimento em seus semelhantes, tornando-o visível e consciente na obra de arte.
 A fonte de onde provém toda manifestação artística é a profundidade mesma da alma do artista. Antes de qualquer representação material, ela já existe, como sentimento informe, puro, ainda não delineado, mas que se traduz por uma imperiosa e inadiável exigência da alma, uma ânsia sem fim em busca de expressão. Arte é, pois, antes de tudo, transbordamento de vida interior. É uma vocação, um chamado.
A idéia criadora é uma iluminação intuitiva e repentina. É uma decisiva emoção que a principio se delineia, depois se aclara mais, e tende a vir à luz.  Movido por ela, o artista descobre o que sempre o inquietava e que se achava adormecido em sua alma.
A criação artística divide-se em dois momentos distintos: a concepção da obra de arte, que é a idéia criadora propriamente dita, e a sua realização. Estabelece-se então um dialogo entre o artista e a obra criada.
A idéia criadora pode surgir inesperadamente, ou durante o curso de uma longa pesquisa. Mas, de uma ou de outra maneira, constitui sempre uma surpresa para o artista; e é, justamente, nesse caráter de surpresa, que se encontra toda a alegria da criação.
A arte não é apenas talento. É talento ou potencial somado à vocação, a um desejo imperioso de progresso. Esse progresso só poderá ser feito através do trabalho.
Ser artista não significa calcular friamente. Não significa reunir tratados de teoria e tratados de matemática para, da ciência, passar à arte, mas, sim, deixar que a experiência transborde, depois de amadurecida, deixar que a sua própria vida, mais profunda, o seu universo desconhecido, aflorem à luz do mundo como que por encanto. Essa linguagem criativa nasce de raízes profundas, de experiências passadas e sofridas, e não se submete a qualquer ordem vinda de fora, seja de escola, religião ou doutrina política.
Diz Lucio Costa que “Toda arte plástica verdadeira terá sempre de ser, antes de tudo, arte pela arte, pois o que a haverá de distinguir das outras manifestações culturais é o impulso desinteressado e invencível no sentido de uma determinada forma plástica de expressão”.

*Fotos de arquivo

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sexta-feira, 30 de março de 2012

NEMER E ANNIE, UM CASAL DE ARTISTAS

A exposição “DUO” do casal de artistas José Alberto Nemer e Annie Rottenstein, que estará aberta ao público até o dia 15 de abril, oferece ao visitante momentos de reflexão. Este casal de artistas, ele nascido em Minas e ela na França, se completa também dentro da arte, na magia de uma mostra que nos fala direto ao coração.
“Nestas aquarelas eu busco entender a natureza”, nos disse ele em seu depoimento. Citando Albert Einstein: “O que eu vejo na Natureza é uma magnífica estrutura que só compreendemos com muita imperfeição, mas que pode satisfazer uma pessoa com sentimento de humildade”

Em seguida, Nemer continua:
“Agradeço ao céu daquela noite
Em que a lua conversava com a nuvem
O sólido e o etéreo
O construído e o aleatório
O concreto e o fluido
A geometria e a abstração
A luz e a sombra
A opacidade e a transparência.
Eu não teria feito uma pintura à altura
Ainda assim, foi uma lição de sincronicidade
Uma confirmação de que
Nestas aquarelas
Busco entender a natureza”

Realmente a fluidez e a transparência das aquarelas, realizadas corajosamente nos grandes espaços sem perder a sensibilidade, nos permite contemplar os céus na obra do artista. Suas palavras completam o que sentimos diante desses painéis.

Em Annie, a “Criação do mundo” nos faz refletir sobre a unidade existente nos diversos povos do planeta: da antiga sabedoria da Índia até os nossos índios brasileiros mergulhados nas florestas, existe uma unidade que só é permitida perceber por aqueles que buscam além da mecanicidade repetitiva dos grandes centros. As mãos de Annie tecem formas e tiram esculturas do cipó para reconstruí-los no silêncio das invenções. Sua exposição deve ser vista de forma silenciosa fora do tumulto das inaugurações. No seu depoimento sobre a criação do mundo, extraído dos Upanishads, Annie revela uma profunda busca espiritual.

 “O nascimento do mundo”
“Desde sempre o Uno reinando sobre o Caos Primordial, abismo repleto do Todo em fusão, rodopiando como cachoeira circular em suspensão. Seu caudal de materiais vaporosos e incandescentes revolve forças latentes, elementos em simbiose, à espera da expansão.
Chegado o tempo de distinguir as infinitas gotas da Criação, O Uno dirige seu sopro numa longa expiração. No meio do abismo, uma condensação de vapor se eleva e forma um lago. O sopro penetra sua superfície. O espelho d’água tremula com essa união. O Invisível se torna então visível ao fazer emergir da água o Primeiro Dragão, espírito ardente dotado de luz própria, de visão, do Todo. Olha faminto ao seu redor. Busca com olhar fugaz e vê na água seu próprio reflexo. Inesperado encontro com seu par? Crava seus olhos nos olhos do “outro” tomado pelo desejo de conhece-lo. Atraído, mergulha no escuro da água. Engolindo a si mesmo, se fecunda. Eis o ouroboros com seu poder de dar à luz. Voraz, acasala-se sem cessar. Prenhe de sua própria essência, elementar e plena, multiplica-se. Forma após forma nascem todas as formas, frutos da vontade do Uno, são impregnadas do dom divino: conter o germe que acorda a vida, procriar e conhecer a morte.
Assim a diversidade se propaga e povoa todos os cantos de um mundo que nasce junto, momento a momento.
A cada união, uma transformação. A cada transformação, um elo de continuidade. Com a continuidade, o tempo. Com o tempo o começo e o fim. E o eterno retorno.”
(Extraído dos Upanishads, Vedas).
*Fotos de Rafael Motta
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quinta-feira, 22 de março de 2012

JOANA & MARITO E AS SINAPSES DA DANÇA

       Joana Ribeiro e Marito Olsson-Forsberg se encontraram em 2005 em Paris. Ela, mineira, nascida na Bélgica e ele na Suécia, foram se esbarrar no Departamento de Dança, da Universidade de Paris-8, na França, onde desenvolviam, respectivamente, pesquisas sobre o coreógrafo Klauss Vianna (1928-1992) e o tango argentino. Da sala de aula para as salas de ensaio foi um pulo, e o primeiro trabalho criado foi o duo de dança Sinapse, apresentado no 3º Festival de Inverno de Entre Rios de Minas, em 2009.
         Sinapse surgiu do desejo de levar a dança contemporânea para as ruas, viabilizando sua apresentação para um público eclético. Com base na manipulação de objetos, na mímica e nas danças populares, representa os três tempos de uma relação amorosa: o encontro, a maturidade e a transcendência. A trilha sonora é composta por músicas de Rossini, Naná Vasconcelos, Machito e Fá do Tuiuti. Mais do que uma representação típica da cultura brasileira, Sinapse procura retratar um tipo ingênuo e uma mulher cosmopolita, arquétipos reconhecidos tanto no Brasil, quanto no estrangeiro, facilitando a recepção desta dança, em países como Suécia, França e Cuba.
         O segundo projeto que Joana & Marito vem desenvolvendo desde 2005 é o Cabaré Satie – uma montagem para o público infanto-juvenil inspirada nas peças do compositor Erik Satie (1866-1925). O clima remete aos cabarés parisienses, como o Chat Noir (Gato Negro) em que Satie costumava tocar piano. Através de esquetes, armadas como quadros-mecânicos de uma caixinha musical, o espetáculo compõe um delicado recital dançante, sempre com a participação de um pianista convidado. Cabaré Satie já foi apresentado em Paris, na Suécia e no Rio de Janeiro.
         O projeto que desenvolvem no momento é CANGAS, um jogo coreográfico inspirado nas cangas que colorem as praias cariocas. É um trabalho que utiliza 60 cangas com diversas estampas através de procedimentos de performance. Três ações básicas servem de mote para a dança: a imagem estampada, a canga como objeto de vestir e a relação do tecido com o ar. Dispostas no chão, como cartas de um baralho, num dispositivo similar àquele utilizado pelos vendedores ambulantes nas praias cariocas, as cangas formam um grande tapete, como um mosaico de estímulos para a dança a ser criada. O projeto CANGAS já foi levado para a UNIRIO, onde Joana leciona no curso de teatro; e na Suécia, onde foi encenado pelos bailarinos da cooperativa Rörelsen (http://www.rorelsen.com/), fundada por Marito. Ah, a palavra sueca rörelsen significa “movimento” em português.
         Casados desde 2008, Joana & Marito lecionam dança e análise do movimento na Escola e Faculdade Angel Vianna e na Escola de Teatro da UNIRIO (RJ/Brasil), na Universidade de Paris-8 (França) e em Malmö (Suécia), além de atuarem no teatro como preparadores corporais. Buscam, nesse sentido, desenvolver suas trajetórias em três vertentes: a criação artística, o ensino e a pesquisa, buscando produzir novas sinapses (conexão entre dois neurônios que propaga impulsos nervosos) em dança.

*Fotos de Marito Olsson-Forsberg, Markus Kinnunen e Imre Szbrik

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quarta-feira, 21 de março de 2012

sábado, 10 de março de 2012

IMHA, ARTE ESTENDIDA À VIDA

Há 7 anos atrás foi inaugurado o IMHA (Instituto Maria Helena Andrés) na cidade de Entre Rios de Minas, situada no Campo das Vertentes, nome significativo para a dinamização artística que se desenvolveu por toda a região. Ali se realizaram Festivais de Inverno, sob a direção de Luciano Luppi e Ivana Andrés, trazendo para Entre Rios tudo o que de melhor acontecia em Belo Horizonte, não só professores de artes plásticas, como de música, teatro, capoeira, dança, maracatu, etc. A cidade se movimentou e aceitou as informações artísticas com receptividade extraordinária. Arte estendida à vida se espalhou pela comunidade. Foi criado um Ponto de Cultura, com o projeto Música para Todos, bem como A ECOPAZ, uma ONG ligada à Ecologia. Foram feitas pesquisas sobre a história da região e incentivos ao artesanato e à Arte na Educação.
“Entre Rios mudou”, nos disse o Tuca, talentoso músico da região. “Podemos situar um “antes” e um “depois” da criação do Instituto”.
Agora estamos comemorando a gestão da Teresa Andrés, nossa jovem presidente. Lembro-me do Euler, pai de Teresa, que deu o primeiro toque há 7 anos atrás, acompanhado do vice presidente Saulo Resende.. O início foi cheio de esperança no futuro. Veio Antônio Eugênio de BH, que nos trouxe a sua experiência de administrador de empresas, e, agora a jovem Teresa, com seu entusiasmo, vai contando para nós o que fez neste ano para a comunidade. Durante o ano de 2011, vários projetos aconteceram na cidade de Entre Rios, entre eles o projeto “Resgate com Arte” coordenado por Maria Aldina Resende e o projeto realizado em Jeceaba sob a coordenação de Sarahy Fernandes. Em Entre Rios o Ponto de Cultura ofereceu o primeiro curso de Design Multimídia.

Durante o evento pudemos admirar desenhos de crianças pendurados como bandeirolas nos cordões e o artesanato do cotidiano das donas de casa com desenhos da minha fase figurativa de boizinhos.

No palco improvisado do bar Vila Lobo, foram projetados 3 vídeos dos alunos do Ponto de Cultura, curta metragens resgatando 3 pessoas que foram importantes para a comunidade da música entreriana: Tião, Divino e Osmar, 3 jovens idosos que foram relatando suas lutas para dar continuidade aos seus sonhos. Um dos vídeos nos levou à oficina do Tião e à sua história de amor pela música e pelo violão. Cenário pobre, despojado, mas cheio de dedicação à arte. O outro vídeo percorre o universo de  Divino, sanfoneiro, cantando música sertaneja. O último vídeo conta a história de Osmar , seresteiro que fez da própria família um grupo de cantores, desde os filhos até os netos. Os vídeos poderão, no futuro, ser mostrados em Festivais de Tiradentes e São João Del Rey. Os diversos grupos me prestaram homenagem como incentivadora das artes. Fui chamada a falar e ressaltei o fato de que o Instituto foi bem conduzido desde o início nas suas diversas gestões e agora, entregue ao “poder jovem”, continuará apontando para o futuro com a chama do entusiasmo.  Entusiasmo significa “Deus dentro” e tenho certeza Ele guiará também nossos passos no futuro

No palco do Bar Vila Lobo, os músicos da região demonstraram que o Campo das Vertentes é fértil em musicalidade. Surpreendeu-nos o show que ali foi improvisado, todos sob a orientação do Tuca. Surpreendeu-nos uma família inteira de músicos, desde as crianças até os idosos cantando canções autorais. A alegria que eles conseguiram distribuir foi incontestável. Existe uma força interior que une as pessoas através da arte: cantores, pesquisadores, seresteiros, pagodeiros, todos movidos por uma só energia. Parabéns Teresa e a todos que contribuíram para este evento, vocês nos trouxeram momentos de grande alegria, evidente nos olhos das crianças e no sorriso dos idosos. Todos formamos um círculo harmonioso que vai se propagando e continuará com a chama do entusiasmo, levando a arte para todos os recantos desta região privilegiada de Minas Gerais.

*Fotos de Alejandro Restrepo e Janaína Ribeiro

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quinta-feira, 1 de março de 2012

GUIGNARD O MESTRE IV

A influência de Guignard sobre seus alunos não pode ser medida pela melhor maneira de copiar o mestre em suas telas, mas na maneira de segui-lo em seu entusiasmo pela arte, seu amor pela natureza e pelas crianças, seu lirismo perante a vida, seu desprendimento pelo dinheiro, seu estímulo à pesquisa e à iniciativa individual. Juntamente com o aprendizado técnico, Guignard procurava formar no aluno toda uma filosofia de vida.
Sua disciplina não se fundamentava em conceitos teóricos, mas na experiência. Guignard era curioso, gostava de observar cenas de rua e registrá-las em pequenos croquis. Escondia-se atrás das árvores para não ser visto. Um dia, encontrei-o numa avenida central de Belo Horizonte, captando as cenas dolorosas de um enterro. Tentava passar despercebido, mas as crianças, sentadas no meio-fio repetiam em coro:
- Ei, Guignard!
Guignard tentava impedir a imprudência das crianças, mas elas continuavam a importunar o mestre, gritando mais alto ainda:
- Olha o Guignard desenhando!
Os pequenos croquis que fazia nas ruas, serviam de motivação para futuros quadros. Recomendava registrar os acontecimentos do cotidiano, captar o momento presente em sua intensidade emocional, para depois recriá-los no papel ou na tela:
- "Façam croquis do natural, estejam atentos ao movimento das ruas, aos mercados, às feiras, às festas de S. João, aos casamentos, aos enterros... O croquis é necessário, ele é a base de tudo!"
Guignard detestava o academismo gerador de formas estereotipadas. O importante era o nascimento do novo. O que realmente pertencia à essência do aluno. Disciplina e liberdade se conjugavam para a formação dos alunos, não somente no nível estético, mas também no plano do desenvolvimento humano.

Guignard sempre foi conhecido por seu desprendimento e generosidade. Conta-se que em uma ocasião admirava um de seus quadros, a imagem de um Cristo, numa Galeria do Rio de Janeiro. A jovem atendente, não o reconhecendo, comentou com ele sobre o grande artista, autor daquela obra. Guignard se identificou e lhe disse que estava admirando a moldura que haviam colocado no quadro. No final da conversa ela lhe perguntou a quem havia vendido aquele quadro. Ele então lhe contou que havia dado o quadro de presente para uma estudante de Ouro Preto.

Foram alunos de Guignard, em Minas Gerais, entre outros, os seguintes artistas plásticos: Aparecida Carvalho Barbosa, Bax, Chanina Sznbejn, Heitor Coutinho, Amilcar de Castro, Holmes Neves, Laetitia Renault, Álvaro Apocalypse, Jarbas Juarez, Wilde Lacerda, Aneto, Vilma Rabelo, Ione Fonseca, Santa, Sara Ávila, Leda Gontijo, Haroldo Matos, Wilma Martins, Maria Helena Andrés, Lizete Meinberg, Eduardo de Paula, Ruth Michel Perrela, Yara Tupinambá, Solange Botelho, Jeferson Lodi, Amarylles Coelho Teixeira, Marília Giannetti Torres, Mário Silésio, Estevão José de Souza, Mary Vieira, Gavino Mudado Filho, Nina Xavier, Melo Alvarenga, Augusto Degois, Washington Filho e Célia Laborne Tavares.

Postagens antigas sobre Guignard:
“Inauguração do acervo de Guignard” – 28/04/2009
“Nossa Senhora e o Anjo, tema de Guignard” – 02/11/2009
“Escola Guignard, alunos professores” – 02/12/2010

*Fotos da internet
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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

GUIGNARD, O MESTRE III


 No mercado de arte, os intermediários disputam entre si o privilégio de vendas, daqueles que muitas vezes sofreram privações para realizar suas obras.
Guignard foi um deles. Viveu de forma simples, morreu pobre. Dava os quadros de graça para os amigos, era generoso também em seus ensinamentos. Não guardava segredo de nada. Pintava na frente de seus alunos, para que eles aprendessem a sua maneira de pintar, mas não exigia seguidores. Respeitava as tendências individuais dos jovens. Era admirado por intelectuais.  Viveu numa época em que os artistas plásticos tinham a liberdade de criar dos poetas e por isso mesmo Guignard foi um poeta das cores. Pintava livremente como cantam os pássaros celebrando a beleza dos céus de Minas, das ruas e montanhas de Ouro Preto.
Cecília Meireles em seu artigo “Estrela Breve” registra de forma sensível a trajetória de Guignard e sua morte repentina, no momento em que poderia desfrutar de uma vida mais confortável. Num domingo, ela recebeu a notícia de que Guignard seria finalmente amparado por uma Fundação, teria casa própria, automóvel, motorista e segurança para trabalhar. “Com a Fundação Guignard tinham acabado aquelas incertezas que afligiram o artista ao longo de sua existência”.
Em seu livro, continua Cecília: “No domingo, refletíamos sobre o mistério da vida: um homem passa a maior parte da existência em sofrimento, abandono, miséria. De repente, brilha sobre ele uma nova estrela e tudo muda. No domingo, despedimo-nos contentes porque uma estrela bondosa viera iluminar o destino por tanto tempo melancólico do pintor Guignard. Na segunda feira, veio a noticia de que o grande pintor morrera.”
 Isso nos faz refletir sobre a condição da arte e dos artistas. A mesma história se repete ao longo dos tempos.
Na sociedade capitalista em que vivemos tudo vira mercadoria.
Esta visão imediatista e consumista muitas vezes constitui um embaraço para pesquisas históricas que poderiam ser feitas em torno daquele artista.
Esquece-se que uma obra de arte autêntica nascida de um contato direto com o ser interno do artista merece ser divulgada, conhecida e estudada.
O valor de um trabalho artístico, suas qualidades expressivas, não se limita a números e cifrões, mas atinge um espaço que lhe assegura realmente a permanência no tempo e sua equiparação com as demais artes.
Este espaço, fora do circuito mercadológico, os artistas conseguiram alcançar em vida e é justo que eles possam servir de exemplo para outros.

*Fotos da internet

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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

GUIGNARD, O MESTRE II

A personalidade de Guignard como mestre delineia-se com maior nitidez mediante o confronto de seu método revolucionário de ensino, baseado no apoio à iniciativa pessoal, com o ensino nas escolas de arte de orientação acadêmica. As escolas acadêmicas prevaleciam nos grandes centros brasileiros quando Guignard chegou a Minas. Aos conhecimentos adquiridos na Europa, ele aliava seu grande poder intuitivo para desvendar o caminho ainda obscuro do ensino moderno, no qual técnica e capacidade criadora se desenvolvem de maneira conjugada, o lápis não reproduz a fria documentação de um objeto, mas transmite toda a força emocional de um momento de criação.
Nessa orientação artística, o aluno não visa apenas o recebimento de um simples diploma ao final de um currículo, mas a vivência de uma formação estética que não termina no período de aprendizagem, mas prolonga-se por toda a vida. De acordo com essa visão, a arte constitui uma riqueza insubstituível, porque se apóia numa estrutura viva e espiritual e não apenas no interesse imediato. Procura a integração do homem ao universo, através do desenvolvimento de suas aptidões individuais.
Mais do que ninguém, Guignard conseguia vislumbrar a coisa nova, a individualidade que se revela na variedade de temperamentos humanos, agora estudados com grande interesse à luz da psicologia moderna. Observações feitas à margem de um catálogo, referindo-se às tendências de cada aluno em particular, revelam esse senso profundo para descobrir vocações e conhecer temperamentos. Uma concepção ampla da realidade humana o levava a valorizar tanto o aluno que desenhava realisticamente um retrato a lápis duro, quanto aquele que se afastava por completo do modelo, para imprimir na tela imagens subjetivas. Ao se dirigir ao aluno, seus olhos enxergavam através da insegurança, conseguiam vislumbrar o traço feliz, a mancha de cor e todas as possibilidades que se escondem atrás de um tímido desenho.
Guignard era simples e possuía humildade daqueles que são realmente grandes. Não via no aluno um futuro concorrente, mas um companheiro de arte que despertava diante de seus olhos. Muitas vezes, ao criticar um trabalho, seu entusiasmo chegava a ser comovente: "Você desenha melhor do que eu”, escutei-o dizer a um colega, "mas deixa estar que ainda chegarei lá". Ao corrigir o trabalho de um aluno ele muitas vezes se entusiasmava e o assinava.
Em 1947, Guignard me presenteou com um quadro, representando um caminho no Parque Municipal de Belo Horizonte. Esse quadro sugeriu o título para o meu livro Os caminhos da arte. Mais tarde, depois de sua morte, descobri debaixo de um de meus desenhos uma pequena aquarela de Guignard representando os céus de Minas. Foi exatamente na época em que iniciei a minha fase de naves espaciais.
Trabalhando junto com seus alunos, Guignard reviveu de maneira quase única o antigo mestre, figura desaparecida nos tempos modernos. Atualmente, o ensino se distribui em diversas cátedras, com horários marcados e contato reduzido do professor com os alunos. Anteriormente às academias de Belas Artes, o mestre - fosse ele filósofo ou artesão - trabalhava lado a lado com seus aprendizes e a eles se misturava, sem preocupação de superioridade, desejando apenas transmitir experiências. Assim foi Guignard, o mestre moderno, que ensinava uma arte de vanguarda, não ditava leis, mas fazia o aluno descobrir o equilíbrio e a proporção no próprio trabalho, sem demonstrações dogmáticas.
Mestre autêntico, não julgava segundo suas inclinações e preferências, mas desinteressadamente, compreendia o aluno e o conduzia. Ele não trazia valores fixos a decretar - despertava valores novos no contato de sua presença, de seu estímulo.

Fotos de arquivo e da internet

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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

domingo, 5 de fevereiro de 2012

GUIGNARD, O MESTRE I

Quando Alberto da Veiga Guignard chegou a Minas Gerais, em fins de 1943, a convite do então prefeito Juscelino Kubitschek, trouxe consigo uma bagagem artística já consolidada pela crítica. Desde essa época, era respeitado como grande artista e reconhecido internacionalmente. Na década de 40 passou três anos em Itatiaia, estado do Rio, e foi ali que recebeu a notícia de que sua Noite de São João acabara de ser adquirida pelo Museu de Arte Moderna de New York.
Guignard sempre se deu bem nas montanhas. Em carta a Portinari, dizia: "Sabes que sou montanhês e por isso, forte de saúde". Deslocando-se para Belo Horizonte, descobriu a luminosidade dos céus de Minas. As montanhas lhe ofereciam cenário para paisagens líricas, transparentes, igrejas surgindo da bruma, balões coloridos subindo aos céus.
Naquela época, a arte em Minas Gerais ainda estava ligada a um academismo formal. A presença de Guignard em Belo Horizonte trouxe uma completa renovação para o meio artístico. Juscelino Kubitschek abria novas direções para a arquitetura, criando o conjunto da Pampulha, convidando o maestro Bosmans para dirigir a orquestra sinfônica e Guignard para tomar sob sua direção a Escola de Belas Artes.
Um grupo de jovens se reuniu em torno desse artista vindo do Rio de Janeiro, amigo de Portinari, Di Cavalcanti e Santa Rosa. O Parque Municipal servia de inspiração para o mestre e seus discípulos. Exuberante, cheio de entusiasmo, conduzia seus alunos a longas caminhadas pelas alamedas do parque. Antes de começar o desenho, eles teriam de aprender a ver, a sentir a natureza em seu silêncio. A atenção consciente no agora, a observação da realidade exterior com a interioridade de cada um, possibilitava o despertar da liberdade criadora.
A carreira de Guignard como mestre teve início na Fundação Osório, no Rio de Janeiro. Desde essa época, ele estimulava o crescimento interno do aluno.
Guignard não perdeu a inocência das crianças. Durante toda sua vida manteve a espontaneidade criadora e pintou naturalmente, como cantam os pássaros. A espontaneidade, a alegria, o entusiasmo pela vida, o prazer de descobrir cores novas nos céus e nas montanhas, nos reflexos das águas, nos cortes das árvores, nas manchas dos muros velhos, eram qualidades inerentes à sua personalidade.
Guignard estendia esse entusiasmo aos seus alunos. A natureza era seu ponto de referência. "Olhe, o colorido dos céus de Minas Gerais tem um brilho diferente, repare as árvores, as folhagens, as raízes...".
Sua disciplina não se fundamentava em conceitos teóricos, mas na experiência: era observação, concentração e integração total da pessoa com a paisagem. O aluno, desprovido de recursos fáceis, submetido ao lápis duro, sem borracha, acabava afinando-se com a beleza de um olho humano e tinha uma semana para terminar o desenho de um rosto. O prazer não estava em terminar rápido, mas na própria concentração exigida pelo trabalho, no próprio ato de fazer, paciente e silencioso, no uso das mãos, no artesanato metódico e limpo. O desenvolvimento da percepção era também um dos caminhos para o auto-conhecimento e a auto-expressão. Criatividade e disciplina, liberdade e concentração, espontaneidade e reflexão fundiam-se dentro do mesmo estímulo.

*Fotos da internet

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