sexta-feira, 30 de julho de 2010

domingo, 25 de julho de 2010

4° FESTIVAL DE INVERNO DE ENTRE RIOS DE MINAS I

Abaixo o depoimento do Maurício sobre o 4° Festival de Inverno de Entre Rios de Minas:

"Acabo de retornar de Entre Rios depois do 4º. Festival de inverno e parabenizo a equipe do IMHA pela realização do evento, especialmente Ivana, Luciano, Simone e Ana Carolina.
Houve uma linha de ligação entre as varias atividades, que foi a busca de resgate de raízes culturais e históricas: isso esteve presente desde a abertura, com a pesquisa sobre como vieram povoar o sertão antigas tradições da Andaluzia, por sua vez originadas na Índia.
Essa dimensão histórica também inspira o grupo de Cantigas do Estradar que resgata a tradição musical regional. E aqui vale notar que o festival já dá fruto, pois vários de seus jovens integrantes iniciaram seus estudos nos festivais anteriores.
A oficina e a mesa redonda coordenada por Niniza sobre a história de Entre Rios também buscam conhecer melhor sobre a origem e evolução da cidade, algo muito importante nesse momento em que a região toda passa por grandes transformações industriais e econômicas. Um projeto de livro e futuro centro de memória de Entre Rios seriam muito bem vindos.
Por ultimo, o encerramento com a dança do velame - manguara da mazurca também mostra o encontro da antiga cultura indígena regional com os migrantes alemães que se fixaram na região e a integração com oficina que produziu as indumentárias para o grupo.
Destaques pela sua qualidade para a música do grupo Diapasão; o espetáculo de teatro de rua do Galpão Cine Horto; a sempre simpática e bem humorada participação de Julio Margarida, dessa vez com um espetáculo de mímica.
A premiação de petiscos da terra também valoriza a cultura culinária local e estimula a melhoria de sua qualidade.
Está na hora do Festival de inverno expandir-se e levar seus benefícios para outras cidades na região dos Campos das Vertentes."

* Fotos: Maurício Andrés e Antônio Eugênio Salles Coelho




sexta-feira, 16 de julho de 2010

ALEXANDRE ANDRÉS E O GRUPO QUEBRA PEDRA

Uma experiência de integração de dois grupos musicais de BH trouxe para a platéia da sala Juvenal Dias no Palácio das Artes um espetáculo inédito.
Dois grupos jovens, Alexandre Andrés e o grupo Quebra Pedra de Leonora Weissmann já com características próprias, buscaram alcançar o que tem de comum neste encontro de vozes e criar uma nova composição musical.
A música é, de todas as artes, a que mais se integra com o outro em busca de complementação e é justamente desta busca e deste encontro que surge a beleza de um concerto, de uma orquestra, de uma banda. Conjugar energias para o crescimento do grupo pressupõe amadurecimento e humildade.
Neste diálogo criativo é necessário que haja entre os músicos a consciência da unidade na multiplicidade que é o objetivo final de tudo que existe no planeta.
O resultado desta experiência em torno da música e da canção brasileira, onde várias linguagens se agregam, é de uma riqueza extraordinária.
Alexandre Andrés vem desenvolvendo um trabalho criativo intenso, tanto na música instrumental quanto nas canções, feitas em parceria com o letrista Bernardo Maranhão e registradas no seu primeiro CD “Agualuz”. Nesse trabalho autoral ele conta com a participação do baixista Gustavo Amaral, e do percussionista Adriano Goyatá. O CD já percorre o Brasil num caminho de sucesso, e Alexandre apesar de jovem já é considerado como um compositor de alta qualidade.
Alexandre tem seu estúdio numa fazenda no campo das Vertentes, município de Entre Rios de Minas.
Os pais de Alexandre são músicos famosos, apresentam-se nos palcos brasileiros e internacionais levando um pouco da vibração das paisagens mineiras para outras terras. Artur e Regina encontraram na “Fazenda das Macieiras” o lugar adequado para suas criações musicais e agora o jovem Alexandre também se inspira na poesia do Campo das Vertentes. Assisti a um ensaio dos jovens músicos no galpão onde Artur e Regina também fazem seus ensaios e percebi nos bastidores da arte a força e a serenidade necessárias a um trabalho de qualidade.
A música deste grupo de jovens vai surgindo neste recanto de Minas, lugar onde à noite pode se ouvir o zumbido dos insetos e o coaxar dos sapos. A música faz parte da história dessa região e até hoje se manifesta em novas vocações que vão surgindo. Ali podemos ver as veredas e os “corguinhos vários” de Guimarães Rosa homenageado por Alexandre e Bernardo Maranhão com o titulo Rosa do CD Água Luz. As terras e os costumes dessa região de Minas têm muita coisa em comum com o sertão de Guimarães Rosa as terras se assemelham e se continuam
“E há o riacho ávido, corguinhos vários, grégio o gado pastando. Após o escurecer, vão-se assim vaga-lumes ou o assombravel luar ou o céu se impõe de estrelas. Às duas margens da noite, totais grilos e a simultaneidade dos sapos, depois e antes do em-si-estremecer das cigarras”. Alexandre é leitor de Guimarães Rosa, e compõe sua musica no Campo das Vertentes que é um começo do sertão.
A contemplação de tudo isso é gratuita, não existe necessariamente a posse da natureza. Tudo que existe de mais belo no mundo é de graça, não precisamos comprar um pedaço de céu para ver as estrelas, nem ser proprietário do por-do-sol para admirá-lo
O grupo Quebra Pedra apresentou seu primeiro CD com a participação de Leonora Weissmann (voz) juntamente com Rafael Martini (piano e voz), os dois percussionistas: Mateus, Edson e o baixista Pedro.
O primeiro CD do grupo está começando um caminho de sucesso. Ali várias linguagens musicais brasileiras e mundiais se encontram sintonizando influencias ainda não ouvidas na canção brasileira. Alexandre lançou o CD Agualuz em 2008 e por sua vez Leonora também lançou em 2008 seu primeiro CD no mesmo ano. Os dois grupos de jovens começaram a se encontrar e perceber afinidades.
Assim como Alexandre, Leonora também pertence a uma família de artistas. Sobrinha de Frans Weissmann, filha de Selma Weissmann e Manuel Serpa, ela cresceu no meio das artes.
Como artista plástica sua carreira já está delineada com exposições em S.Paulo ,Belo Horizonte,e uma participação num encontro de jovens artistas na África . Hoje, ela toma direções mais abrangentes em sua relação Arte e Vida,realizando a síntese das artes em seu dia a dia: pratica ioga, faz meditação e sabe conjugar duas linguagens diferentes a música, arte do tempo, e a pintura arte do espaço.
O desenvolvimento de vários aspectos da personalidade auxilia na abertura de consciência e Leonora intuitivamente percebe esta ligação da arte com a vida.
A comunicação feita com o grupo de Alexandre mostra uma possibilidade nova para esses jovens, surgindo como o canto dos pássaros na arte brasileira, numa verdadeira floresta de sons que mostram a interdependência de todas as coisas. Entre violões, guitarras piano, vozes, baixos, tambores, percussão, os dois grupos se apresentam debaixo de aplausos.

Neste momento a música e a vida são integradas numa só voz.

*Fotos: Silvio Coutinho e outros




sábado, 10 de julho de 2010

A VOLTA AO MUNDO COM BETTINE CLEMEN

Conheci Bettine Clemen, quando ela passou uma temporada em Minas Gerais atendendo a um convite do Palácio das Artes, para ali participar como flautista da Orquestra Sinfônica. Bettine nasceu na Baviera, hoje mora em Salsburg, terra de Mozart. As montanhas de Minas se assemelham aos Alpes e talvez seja por isso que a jovem flautista escolheu Minas Gerais pra residir por algum tempo. Lá em Salsburg a neve desenha o limite entre a terra e o céu, mas o azul de lá é tão intenso quanto o de cá.
Terra de músicos, Salsburg acolheu Bettine como um ponto de parada para suas múltiplas viagens pelo mundo, carregando em sua bagagem uma variedade de flautas. Bettine é uma artista que busca a união do planeta através da música, apresentando-se nos palcos iluminados dos navios internacionais. Muito loira, vestida de traje a rigor, ela brilha como uma estrela no meio do mar.Quando morou no Retiro das Pedras, tornou-se minha amiga, e esta amizade ainda perdura até hoje.De vez em quando, recebo um email de um navio e sei que Battine está por perto, na costa brasileira.
“Vou deixar minhas malas no Rio, dentro do navio, tenho dois dias, quero rever os amigos de Minas”.
Quando chega, distribui alegria e entusiasmo, trazendo CDs e vídeos de suas viagens. Um de seus vídeos merece ser visto porque conta a história de Bettine, defensora e amiga dos animais. Ali podemos ouvi-la tocar e também apreciá-la junto aos animais ferozes, completamente harmonizados pela magia de sua flauta. Bettine foi percorrendo o mundo e tocando flauta para tigres, elefantes, cobras, girafas. Percorreu lugares onde o turista comum nunca teve entrada, levando a mensagem não verbal de que o mundo é uma única família e os animais são nossos amigos.
Bettine Clemen tem um currículo internacional como solista ativa, gravando para orquestras de vários paises . Sua carreira começou cedo, participando de orquestras de prestígio, tais como “Munich Bach Orquestra”, “Praga Radio Orquestra” e a “Orquestra de Mozart de Salsburg”. Em 1978, residindo em Minas Gerais como flautista da Orquestra Sinfônica, ela se encantou com as florestas tropicais que exerceram grande influência sobre suas composições. “Canção de Amor para um Planeta” foi inspirada na floresta Amazônica. Publicou vários álbuns tais como: “Abra seus ouvidos ao Amor”, “Forever’, “Echoes of Life” Levou sua música transcendental a vários recantos do planeta, desde lugares de prestígio como o’ Royal Albert Hall” em Londres e o “Lincoln Center” em New York, até o Extremo Oriente como Xangai e Pequim.
Em 2000 obteve permissão para tocar sua flauta na antiga cidade de Petra, na Jordânia, onde foi protagonista do vídeo entitulado “Bettine e a magia de Petra”.
Ela acredita no poder de cura e transcendência da música como um canal para se alcançar o estado de plenitude tão necessária ao nosso mundo de violência e guerras.
Aqui apresentamos Bettine como grande artista e grande figura humana.

*Fotos enviadas por Bettine Clemen




quinta-feira, 1 de julho de 2010

VISITANDO ESCOLAS DE KRISHNAMURTI

Nas escolas de Krishnamurti,onde fui convidada a proferir palestras sobre cultura brasileira, encontramos um programa educacional que visa a preparar o jovem para atuar no seu meio de forma consciente. O aprendizado envolve tarefas do dia-a-dia, feitas com plena atenção e responsabilidade, aliadas ao esporte, caminhadas e toda a sorte de artesanato.

“O propósito, o objetivo e o direcionamento destas escolas é o de preparar a criança, com a maior competência tecnológica, para que ela possa atuar com clareza e eficiência no mundo moderno, e, o mais importante, criar um ambiente adequado para ela se desenvolver como um ser humano total” (Krishnamurti)

As principais características da filosofia educacional das escolas de Krishnamurti podem se resumir nos seguintes princípios.

1) Educar o ser humano como um todo;
2) Despertar o amor pela natureza e respeito por todas as formas de vida;
3) Criar uma atmosfera de amor e ordem sem medo ou falta de limite;
4) Não condicionar a criança a nenhuma crença particular, seja ela religiosa política ou social. Sua mente deverá estar livre para indagar sobre as questões fundamentais da vida, aprendendo por si mesma;
5) Ensinar sem o objetivo de recompensa, punição ou comparação.

Krishnamurti enfatizava em suas palestras a importância de manter a mente em constante estado de aprendizado, sempre receptiva, para perceber o novo que surge a cada instante, e não cristalizada no passado. O incentivo dado a essa atenção ao momento presente conduz o aluno a uma curiosidade de aprender de forma direta e se interessar por tudo o que vem acontecendo no planeta.
Krishnamurti sempre ressaltou a importância do auto-conhecimento em todas as situações do dia-a-dia, tanto do aluno como do professor. É de dentro de si mesmo que a criança vai buscar o seu caminho para atuar no mundo com plena consciência. O professor deixa de ser aquela figura autoritária, para compartilhar com o aluno suas descobertas, estimulando-o a chegar às suas próprias conclusões.

Durante minhas viagens, sempre permanecia algum tempo no KFI (Krishnamurti Foundation Índia), em diferentes cidades como Madras (atualmente Chennai), Benares e Uttar Kashi. Nesses centros de divulgação de livros e vídeos de Krishnamurti, qualquer pessoa encontra receptividade, desde que esteja seriamente interessada no aprendizado de suas idéias. Existem vários centros de divulgação da obra de Krishnamurti espalhados pelo mundo, na Índia, EUA, Inglaterra, Suíça e em Tiradentes, no Brasil.

Jiddu Krishnamurti nasceu na Índia, mas foi educado na Inglaterra. Seus ensinamentos destinam-se ao mundo e podem ser apreendidos por qualquer pessoa que já esteja preparada para ser seu próprio mestre.

Falando ao ar livre para um grupo de jovens, Krishnmaurti se assemelhava ao filósofo grego Sócrates, nascido 470 anos antes de Cristo. Ambos tiveram a mesma atitude corajosa para apontar os erros do apego às tradições religiosas e aos costumes da sociedade.

De Sócrates recolhemos algumas citações:
Sábio é aquele que conhece os limites de sua própria ignorância.
Todo o meu saber consiste em saber que nada sei.
Conhece-te a ti mesmo e conhecereis o universo de Deus.

Sócrates estudava a essência da alma humana, seu método de transmitir sabedoria era o diálogo. Os ensinamentos de Sócrates, dirigidos sempre para o auto-conhecimento se aproximam de forma direta dos ensinamentos de Krishnmaurti. Tanto Sócrates como Krisnhmaurti amavam a natureza e suas aulas eram administradas debaixo de árvores.

* Fotos baixadas da internet



sábado, 26 de junho de 2010

HOMENAGEM A JOSÉ SARAMAGO

Num auditório lotado por cerca de 400 pessoas, o escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura de 1998, recebeu, no dia 29 de abril, das mãos do reitor Sá Barreto, o título de Doutor Honoris Causa da UFMG, a mais importante honraria concedida pela instituição..

Quando Saramago esteve em Belo Horizonte e se apresentou no Palácio das Artes, eu me encontrava em viagem pela Índia. Soube do seu sucesso estrondoso, das pessoas querendo vê-lo, obter autógrafos. Ele realmente foi uma pessoa carismática, de grande coragem e resolução, lutando contra os conceitos tradicionais para deixar que novas idéias apareçam.
Desconstruir idéias enraizadas, quebrar condicionamentos são também a tônica de Krishnamurti um grande pensador indiano que eu sempre admirei. “Liberte-se do passado, seja o seu próprio mestre...”assim dizia ele: “É preciso tomar consciência de como somos condicionados pela sociedade, tradição, política, religião e família”.Rompendo com os condicionamentos podemos agir de forma independente, livre da mecanicidade que a sociedade nos impõe. “É preciso pensar de maneira própria, abrir-se para o potencial de energia que existe dentro de cada um” Essas palavras de Krishnamurti foram ouvidas em varias regiões do planeta.
Saramago sempre teve este potencial de energia, que propõe mudanças para a sociedade. Em seu último blog foi colocado o trecho abaixo, extraído de uma entrevista na Revista do Expresso, Portugal, em 11 de outubro de 2008: “Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma.” Esta mensagem, postada no blog Cadernos de Saramago poucos dias antes de sua morte, será um ponto de mutação e reflexão.
Acompanhei Saramago na sua trajetória de sucessos com a obtenção do Prêmio Nobel de Literatura, a incompreensão do povo de sua terra e a sua reclusão numa ilha perto da Espanha. Procurei na internet fotos desse lugar maravilhoso e vejo que até nisto Saramago se parece com Krisnamurti, grande pensador contemporâneo, que também gostava da natureza e fazia suas caminhadas diárias pelas praias de Adyar, em Chennai, na Índia.
De sua ilha, Saramago se comunicava com o mundo inteiro, usando como recurso a facilidade dos meios de comunicação atuais destinados ao mundo contemporâneo.
Segui seus passos pela internet, coloquei-o como referência nas páginas do meu blog . Os Cadernos de Saramago me ensinaram muito sobre a cultura e a política de além mar. Admirei sua adaptação às mídias do momento e, quando inaugurei o meu blog há um ano e meio atrás, tomei-o como exemplo. Foi um estímulo para continuar neste caminho: divulgar meus artigos sem depender de editoras ou jornais, escrever o que eu quero, escolher minhas imagens. Tudo isto é muito importante para uma pessoa que já não pode viajar tanto, mas continua viajando através dos sites, blogs e facebooks. Ainda não cheguei a conversar com as pessoas pelo “Skype”, mas algum dia chegarei lá.


Às suas idéias acrescento aqui o exemplo de Guignard, considerado um dos maiores professores de arte do Brasil que sempre valorizou o despertar de uma nova idéia. Ele não propunha regras acadêmicas para o aluno, mas ao ver uma possibilidade diferente no desenho exclamava com alegria “Coisa nova”! Assim podíamos caminhar do formalismo condicionado para o novo, o inesperado que surgia a cada instante. E acrescento também uma frase de Van Gog ao seu irmão Theo. “A diferença entre os artistas acadêmicos e os modernos é que os modernos são mais pensadores”. Este foi o caminho para a arte contemporânea que incentiva a arte como idéia criadora.

*Fotos baixadas da internet

sexta-feira, 25 de junho de 2010

segunda-feira, 21 de junho de 2010

MINAS, TERRA DE MUITAS CORES

Os cortes nas montanhas vão desvendando uma grande tapeçaria de cores variadas, do vermelho ao laranja, do amarelo ao roxo, ao branco, ao cinza, ao preto. Paramos o carro para tirar fotos. O verde da vegetação rasteira encobre como um manto protetor as riquezas de Minas.
Os antigos pintavam com cores naturais. Vários artistas se entusiasmaram com nossos pigmentos naturais e aqui estiveram deslumbrados com o colorido das terras. Krajberg e Scliar usaram diretamente a terra para realizarem os seus quadros. Devemos a eles a divulgação desse caminho esquecido, por causa da facilidade que os artistas têm de comprar tintas prontas no mercado.
A técnica é simples: apanhar a terra, colocar em baldes, passar um rolo para amaciar os torrões e peneirar, para obter um pó mais fino, livre de impurezas. Depois, separar em recipientes diversos, cobrir com água e deixar decantando por 24 horas. As impurezas sobem para a superfície e o pigmento colorido fica depositado no fundo. No dia seguinte o pigmento já estará pronto para ser usado com qualquer aglutinante. Scliar usava a cola "cascorez" com resultados de grande transparência e beleza. As cores de terra são indeléveis, não queimam ao sol. Podem até serem usadas em fachadas de casa.
Neste momento estou participando das celebrações de um casamento na roça. A família da noiva é italiana, da região de Toscana, o noivo é mineiro. Agora estou sentada em frente à casa da fazenda, contemplando a paisagem verde em contraste com a fachada da casa pintada com tinta de terra vermelha colhida nos barrancos. Verde e vermelho são cores complementares, um ajuda a dar vida ao outro. Casamentos na roça estão se tornando uma tradição da família, pois os pais do noivo também casaram na roça há 30 anos atrás.
Escuto a voz do pai da noiva: “Esta região de Minas se assemelha à região de Toscana, na Itália”. Ali também as festas de casamento são muitas vezes realizadas ao ar livre. Fico pensando: “Minas, terra de muitas cores, desde o subsolo até os céus...” Guignard gostava dos céus de Minas, Scliar e Krajberg valorizaram a terra...
Guignard viveu em Florença, região de Toscana, na Itália, e também se encantou com Ouro Preto, cidade parecida com Florença.”
Florença me faz lembrar Miguel Ângelo, que passou sua juventude naquela cidade considerada terra das artes. Meu pensamento volta para Minas onde Aleijadinho considerado também como um dos grandes gênios da humanidade possuía a mesma força energética de Miguel Ângelo. O Aleijadinho viveu em Minas, deixando obras monumentais em várias cidades mineiras. Deve existir uma relação energética entre os paises com terras que se assemelham. Miguel Ângelo, pai do barroco, Aleijadinho, expoente máximo do nosso barroco têm características formais semelhantes.
Agora, enquanto contemplo a paisagem e escuto os músicos tocando, “As time goes by” vou associando memórias e fatos.




sexta-feira, 11 de junho de 2010

ARTE, EMOÇÃO E MEIO AMBIENTE II

“Curiosamente, é comum encontrar-se na tecnoburocracia do serviço público crítica à abordagem emocional do problema ambiental, como se apelar às emoções fosse algo condenável em princípio. Também em meios acadêmicos ortodoxos rejeita-se o tratamento dito emocional das questões ambientais. A emoção é vista, nesses meios, como impedimento a uma visão objetiva, racional, da questão ambiental. Pode-se, por outra parte, inquirir se essa pretensa aversão aos aspectos emocionais em favor dos racionais não serve, de fato, para legitimar o avanço e o aprofundamento de um estilo de vida e de desenvolvimento que faz pouco caso de tudo o que não leva imediatamente ao lucro e ao consumismo social e ambientalmente irresponsáveis.” (Maurício Andrés Ribeiro)

No meu livro “Os Caminhos da Arte” cito o conhecido artista holandês Hundertwasser, grande defensor da natureza. Ele nos alerta para o problema mundial de devastação do meio ambiente: “Só quando o divino respeito ao poder verde e o amor à vegetação se tornarem parte de nós mesmos, só então poderemos restaurar, passo a passo, nosso agonizante meio ambiente” (Hundertwasser).

A natureza está agonizando nas mãos do homem. No entanto, o homem é natureza. Sem perda da consciência individual, muitas vezes ele consegue entrar em comunhão com os mares, rios, florestas, montanhas, e sentir em seu corpo a mesma energia fluir.O homem é, ele próprio, uma parte desse eterno fluir; mas, desconhecendo suas raízes, ele se coloca como um ser à parte, com direito de domínio sobre tudo o que existe.

A percepção do relacionamento homem-natureza, sendo originária de uma sensibilidade apurada ou de um contato direto com o fluxo natural da vida, não é percebida de imediato por todas as pessoas. Torna-se ainda mais distante nas cidades, onde o elemento verde está sendo estrangulado pelas construções e pela superpopulação. O homem da cidade, por sua própria condição de vida, desligou-se de suas origens naturais, afastando-se cada vez mais do contato com a natureza. No entanto, a natureza está a nos oferecer a todo instante uma lição de vida. Silenciosamente, ela nos ensina mais do que os livros. Se observarmos com atenção, poderemos sentir nas transformações da natureza uma analogia com nossas próprias mutações.

* Imagens de quadros de Hundertwasser (fonte: internet)
*Fotos:Luciano Luppi




sexta-feira, 4 de junho de 2010

ARTE, EMOÇÃO E MEIO AMBIENTE I

“Há quase trinta anos, o poema Triste horizonte de Carlos Drummond de Andrade, publicado na imprensa em 1976, emocionou e sensibilizou os cidadãos para a degradação ambiental em Belo Horizonte. Ele dizia:

Sossega minha saudade. Não me
Cicies outra vez
O impróprio convite.
Não quero mais, não quero ver-te
Meu triste horizonte e destroçado amor.

Naquela ocasião, esse único poema fez mais pela expansão da consciência ecológica do que muitos estudos técnicos aprofundados que apontavam os problemas, porém eram dotados de menor poder de comunicação. Esse foi um exemplo do poder da poesia para aguçar a percepção sobre o meio ambiente por meio do sentimento estético e da beleza, indissociáveis da ética ecológica.
No âmbito global, são inúmeros os casos em que os artistas compromissados e responsáveis puseram sua voz, criatividade e poder de comunicação a serviço da ecologia, da paz, de causas generosas e voltadas para o bem-estar social.
A arte é um caminho poderoso por tocar direto as emoções e os sentimentos. Vai além da razão e do intelecto e seu poder é aplicável de múltiplas e criativas maneiras. Muitas vezes, a emoção, difusa e intuitiva, nebulosa e indefinida, é o motor que deflagra processos mais racionais e sistematizados das questões relacionadas à ecologia. A emoção move, a razão organiza.

Grupos de teatro que abordam em suas peças e encenações a temática ambiental; a produção de textos de teatro e de literatura para serem adotados nas escolas; o envolvimento de escultores e artistas plásticos no projeto de novos espaços urbanos, ao lado de arquitetos e paisagistas; a música e a poesia que refletem a realidade ambiental; a produção de VT’s ecológicos e de manifestações artísticas modernas: essas são algumas modalidades de trabalho nas quais o potencial criativo da arte pode estar a serviço da melhoria ambiental. Veiculadas nas escolas públicas e privadas, tais atividades podem mudar mentalidades e valores, num processo de ecologização da educação formal e informal. A criação de jogos informatizados, nos quais se usem elementos do ecossistema local, constitui forma de mobilizar a criatividade artística no âmbito da informática.
A mobilização dos artistas que trabalham profissionalmente na publicidade, na concepção e produção de peças voltadas para a educação nas escolas, promove a integração entre arte e meio ambiente. Até mesmo a publicidade, freqüentemente a serviço de consumismo e de valores materiais elementares, tem grande potencial de comunicação para prestar serviços que facilitem o exercício da cidadania ecologicamente responsável.
Para a aprendizagem do viver sustentável, a arte adquire realce especial. Ao extrapolar a abordagem racional e intelectual sobre o meio ambiente, ressaltada no ensino de ciência e técnicas, e cuja comunicação com o grande público é mais difícil, as artes têm o dom de possibilitar comunicação imediata.” (Maurício Andrés Ribeiro)

Dando continuidade às idéias do Maurício, intercalo um pequeno texto do meu livro “Os caminhos da Arte”, no capítulo “Volta à Natureza”.

O artista plástico Frans Krajcberg, nascido na Polônia mas naturalizado brasileiro, é o exemplo de um artista consciente dos problemas ecológicos. Quando visitou a Amazônia pela primeira vez, Krajberg decidiu se dedicar à defesa da natureza, documentando a devastação das florestas brasileiras. Sua arte passou então a ser uma arte de denúncia: árvores destruídas e troncos retorcidos, transformados em escultura. Percorrendo aquela região, Krajberg fotografou o drama das queimadas e, com a sensibilidade do fotógrafo, documentou a morte do verde que se torna deserto.

*Fotos: Maurício Andrés e Ivana Andrés