terça-feira, 3 de novembro de 2009





PINCELADAS

Aconteceu em Ouro Preto, o fórum das letras, considerado um dos mais importantes acontecimentos literários do Brasil, coordenado por Guiomar da Grammond, professora da UFOP. Ali compareceram, entre outros, Frei beto, Arnaldo Antunes, Paulinho Moska e Guilherme Mansur.

Lembramos com saudade do nosso companheiro de arte Fernando Fiúza, sempre atuante no meio cultural.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

VISITA A INHOTIM

Um carrinho aberto conduzia as pessoas para uma visita ao parque de Inhotim. Os jardins planejados inicialmente por Roberto Burle Marx iam mostrando a beleza e exuberância da flora brasileira. Sentada no banco de frente do carro observava os patos nadando no lago e formando círculos nas águas.
A arte contemporânea de Inhotim não está fechada no ambiente frio de um museu tradicional. Ela pertence a todo o espaço ajardinado, surpreendendo o visitante com o inesperado.
Cheguei sozinha e me deram como guia uma mocinha que me acompanhou a pé até a instalação de Rivane Neuenschwander. Pelo caminho me ofereceu algumas jabuticabas apanhadas na hora. Esta recepção descontraída logo me pôs à vontade para percorrer as alamedas do parque.
Rivane instalou sua proposta numa pequena casa de fazenda de 1874, a mais antiga construção remanescente da propriedade rural que deu origem a Inhotim. A casa foi restaurada para ser palco de uma instalação bastante original: pequenas bolas de isopor moviam-se aleatoriamente sobre um forro transparente, ativadas por circuladores de ar, formando nuvens no céu.
Lembrei-me de Guignard que nos mandava observar os movimentos das nuvens no céu.
Na instalação de Valeska Soares a música e a dança criavam um espaço de sonho. As figuras apareciam e desapareciam em um ritmo poético. Nessa dança virtual o visitante fazia parte do evento, ele se via nos espelhos e percorria a pista do cassino ali projetada como palco. Sentia-se jovem e dançarino, recuando no tempo em que as moças dançavam nas boates com as saias rodadas e os rapazes de terno branco. Ouvia-se uma música dos anos dourados, que ali foram relembrados, revividos e perpetuados. Valeska nos conduzia ao passado e nos fazia retornar ao presente num ciclo de grande beleza e poesia. A instalação de Valeska foi projetada para o Museu de Arte da Pampulha, mas ganhou em Inhotim um espaço maior, participante e envolvente.
O carro já nos esperava para uma nova viagem. Penetramos em uma trilha dentro da Mata Atlântica, podendo respirar o cheio da vegetação, o zumbido dos insetos e observar o entrelaçado do cipó abraçando as árvores. O percurso dentro da mata já nos permitia entrar em comunhão com a natureza.
Ali, foi construído um galpão onde ouvimos a música instrumental conjugada com vozes femininas e masculinas. Sentamos para apreciar a estranha música intitulada “Revoada de corvos”, e por alguns momentos ali ficamos, dentro daquela atmosfera mágica onde os sons da natureza formavam uma orquestra. Os dois artistas Janet Cardiff e George Bures Miller tem uma presença muito forte em Inhotim e sensibilizam o visitante para um vôo espacial com esta revoada de pássaros. O despertar sensorial nos fez sentir melhor a Mata na viagem de volta.
Finalmente, Chris Burden com suas esculturas de barras de ferro, construídas no sistema de improvisação, proporcionavam um impacto para o visitante. Ali, ele podia penetrar na instalação, tocar com as mãos o ferro, sentir sua aspereza. As barras foram jogadas ao acaso, através de guindastes, sem projetos premeditados, e foram fixadas no chão de cimento fresco, formando uma floresta de ferro. O processo de criação dessas esculturas nos fazia lembrar os pintores da Action Painting.
Inhotim é uma jóia da arte contemporânea. Parabéns a Bernardo Paz por essa iniciativa de abrir ao público seus jardins e seu acervo. A arte contemporânea precisa de espaço, e ali, no meio de plantas e árvores frondosas, ela está recebendo generosamente o aconchego necessário para sua realização.

*Fotos de Maria Helena Andrés e Marília Andrés Ribeiro

sexta-feira, 23 de outubro de 2009





PINCELADA

Manifestamos o nosso pesar pelo incêndio que destruiu o acervo de Helio Oiticica, pioneiro da Arte Contemporânea

terça-feira, 13 de outubro de 2009

SERRA DA CALÇADA, UMA MONTANHA SAGRADA

Reunimos no alto de uma das montanhas que cercam o Condomínio Retiro das Pedras, perto de Belo Horizonte, para uma celebração vespertina em homenagem aos chefes indígenas que ali viveram, antes da chegada dos portugueses.

Dizem que esta terra é sagrada.
Nesta região acham-se enterrados muitos chefes indígenas que homenageavam a mãe terra. Cada pedra desta montanha manifesta a energia espiritual dos seus antigos habitantes.
Os chefes da tribo eram mágicos, faziam curas milagrosas e tinham contatos com outras esferas. Sentimos a sua presença no momento em que participávamos da celebração. Os “Shamans” ali estavam para proteger a nossa montanha sagrada. Ao som de tambores, chocalhos e flautas, nossa homenagem ecoava pelo vale. Naquele momento éramos mensageiros do passado e arautos do futuro.
Em torno do fogo colocamos pedras da região. No terreno escorregadio as pedras pareciam desenhadas por mãos de artistas.
Fiquei em frente a uma delas, cor de rosa, onde se esboçava nitidamente a figura de uma mulher grávida. A mulher grávida representando a grande mãe terra, ali estava presente numa pedra encontrada por acaso, doando sua energia para a preservação das montanhas. Lugares sagrados são importantes e existem em várias regiões da terra. Uma montanha é considerada sagrada quando aconteceu no passado uma revelação divina ou a transmissão de um conhecimento.
Cantávamos mantras. Uma paz foi descendo sobre nós e a certeza de que o sagrado de nossas montanhas seria respeitado.
No momento, as civilizações indígenas continuam a nos proporcionar lições de vida.
Elas sofreram invasões e uma aparente destruição, mas a força de sua ligação profunda com a natureza e com o universo persiste até hoje, abrindo a consciência de quantos se aproximam de seus ensinamentos.

*Fotos: Euler Andrés

PINCELADAS

“A educação condiciona a consciência ecológica. É preciso ecoalfabetizar crianças e universitários, profissionais para atuar em empresas, nos governos, no terceiro setor” Maurício Andrés

Começa, na Sala Humberto Mauro, a mostra de filmes sul-americanos que abordam os diversos ângulos do desrespeito aos direitos humanos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

CARTAS POÉTICAS

Cartas Poéticas é um espetáculo que se realiza como o I Ching dos chineses, captando a resposta a uma indagação. A resposta já está guardada no coração de quem faz a consulta, só que a mente do espectador que faz a consulta não tem consciência dela. O espectador sobe ao palco, coloca as mãos na mesa, concentra-se na pergunta. As cartas têm a resposta que é traduzida em forma de música e poesia. Essa captação de energias semelhantes é o encontro do desconhecido que existe dentro de nós, nos subterrâneos luminosos de nosso inconsciente. Luciano, como ator, dá o toque inicial e conduz os cantores com o olhar. Quando fala, seu discurso convence, tem o calor do momento, da improvisação. O espectador está atento à pergunta aguardando a resposta exata. Quando ela é revelada de forma poética, ele se sente tocado e muitas vezes chora.

Luciano, Ivana e Evaldo conduzem esse evento de arte para uma participação real do público. Ali a arte está no canto, na poesia e na própria escolha das cartas. Luciano é diretor de teatro e sabe conduzir o evento a um estado energético onde a emoção se revela e se transforma.

Os sábios chineses descobriram esse momento e criaram os hexagramas do I Ching.

Stanislavski fazia do momento de criatividade uma forma de auto-conhecimento e Grotowski dinamizava a participação do público.

Cartas poéticas promove o encontro do público com a poesia e o canto de forma direta, sem análises ou explicações. É ali, naquele momento mágico que as coisas acontecem e se clareiam. O trio das cartas vai levando sua mensagem aos empresários, aos asilos, às escolas.

No dia 17 de setembro, na semi-obscuridade do Teatro da PUC em Belo Horizonte, aconteceu um evento de cartas para um público jovem, alunos daquela universidade. Sentada no banco da frente, eu podia assistir de perto àquele espetáculo teatral onde as artes se encontravam para promover uma síntese emocionante. Na semi-obscuridade da sala toda pintada de preto, os holofotes projetavam formas e sombras nas paredes, focalizando os artistas e a platéia. Todos nós fazíamos parte do mesmo evento criativo. A arte do século XXI é uma arte que se estende a vida de forma abrangente, não está guardada em museus. Cartas Poéticas é um exemplo disso.

*Fotos Leandro Luppi


PINCELADA

A exposição da vanguarda russa, que inspirou todo o movimento construtivista no mundo ocidental, depois de um sucesso extraordinário no Rio, está agora em São Paulo. Esperamos que a mostra possa chegar a Belo Horizonte.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

HORTA ORGÂNICA

A fazenda Luiziânia, localizada no Campo das Vertentes em Entre Rios de Minas, convidou um grupo interessado em alimentação orgânica, para uma visita à sua horta.
Familiares de Belo Horizonte levaram suas crianças para aprender o processo de cultivo orgânico, sem agrotóxicos.
Educar as crianças a adotarem uma alimentação saudável é o primeiro passo para a grande transformação prevista para o século XXI.
O cultivo da terra é uma forma de arte, uma extensão da arte à vida. Naquele momento os visitantes também participavam do processo de plantar e colher.
As crianças observavam os detalhes do nascimento e crescimento de uma planta e indagavam curiosamente: “Vem ver os nenéns da estufa,são lindos!”
Teresa e Pedro iam conduzindo os visitantes: “Olha como a natureza é sábia, às vezes as folhagens mais velhas protegem as que estão nascendo, para que a luz do sol não prejudique as recém nascidas.”
Os visitantes iam recebendo lições de vida, nascimento, crescimento, morte e renascimento.
As folhas velhas são colocadas num composto, que servirá de adubo natural para novas plantações. O composto é feito de esterco, capim e água e, naquele dia estava sendo revirado para esfriar. O processo de fermentação eleva a temperatura do composto. De perto podíamos sentir o calor daquelas pirâmides de adubo natural. Dois homens mexiam e cavavam cavernas naquelas pirâmides que se destinavam ao ciclo do eterno retorno. “Nada se perde, tudo se transforma.”
Observar o cultivo da terra é receber lições que nos chegam diretamente da natureza.
Um grupo de crianças se interessou pelas bananeiras e Teresa explicou: “Vocês já ouviram falar de bananeira que já deu cacho? As bananeiras crescem juntas, como uma família, e a mais velha, depois de dar cacho é retirada para dar chance às outras”. Outras explicações se seguiram e no final, um almoço vegetariano, servido na varanda foi uma experiência gastronômica de alto nível. Comemos os frutos da terra sem nenhum agrotóxico, enquanto víamos da varanda, a horta se estendendo como uma grande tapeçaria viva.


*Fotos de Cristina Cortez



PINCELADAS

Hortas,gramados, jardins e até árvores estão ganhando os céus de Tóquio. O governo da capital japonesa decidiu obrigar que todas as novas construções da cidade tenham espaços verdes - até no teto. Não tem alvará se não tem a compensação verde.

O Grupo “Voz e Poesia” irá apresentar o espetáculo “Cartas Poéticas” no dia 18 de setembro, sexta-feira, às 20:30 no Espaço Cultural Puc Minas (Praça da Liberdade). Rua Sergipe 790, Funcionários. Será beneficiente, em prol da aluna Josiane Ilda de Paiva Campos Viana, acidentada em abril, e ainda hospitalizada, requerendo cuidados especiais.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

CASAMENTOS NA ÍNDIA

Nas ruas de Varanasi, cidade santa, as festas se sucedem. Ali as coisas acontecem simultaneamente e a vida se movimenta em mil cenas, desfilando como um filme diante dos nossos olhos.

Chegamos no dia 19 de abril, dia dos casamentos. Nas ruas, elefantes enfeitados desfilavam, seguidos de carruagens deslumbrantes, iluminadas, o noivo sentado no alto do andor com flores cobrindo o rosto. A cena acontecia entre fogos de artifício, ao som de tambores e banda de música. Parecia um conto de mil e uma noites.

Passamos por um pórtico enfeitado de pinturas. Dentro de uma casa humilde celebrava-se o casamento de uma família pobre. Convidaram-nos a entrar e fizeram-nos sentar no chão. A noiva, uma adolescente de 14 anos, recebia os convidados com chá e salgadinhos apimentados.

Bandas de música enchiam os becos de Varanasi com sons variados, fogos de artifício explodiam no espaço e andores passavam pelas ruas, como nas festividades religiosas das cidades históricas de Minas Gerais. Grandes figuras modeladas em papier-maché ou fundidas em metal prateado representavam os nobres de antigamente ou os deuses hindus. As deusas Saraswati e Parvati também acompanhavam outro cortejo, levando um jovem à casa de sua futura esposa. Tudo respirava alegria e festa.

Em Varanasi, que representa a antiga Índia, a tradição é conservada com todos os detalhes de antigamente e a força do passado é mantida pelas diversas religiões. Na Índia, os cristãos representam o Ocidente e o casamento cristão é como o nosso: a noiva entra com o pai e o noivo a espera no altar. Pelo traje de cada pessoa pode-se saber a qual religião pertence. Os cristãos usam sapatos e vestem-se de terno e gravata, os hindus usam sandálias, vestem-se de dhotis e blusões brancos. Os mulçumanos, quase sempre, estão de preto e as mulheres cobrem-se também com longos véus pretos, como irmãs de caridade.

Nas ruas estreitas de Varanasi, com pouco mais de um metro de largura, a passagem era feita somente por pedestres. As construções antigas protegiam a cidade contra o calor do verão, e, à sombra dos becos, o sol não penetrava. Por detrás das grades, moças curiosas espiavam os transeuntes passando. Vacas, bezerros e cabritos andavam sem pedir licença, empurrando quem estava na frente.

Enquanto andávamos a arquitetura das casas criava nos muros diversos cenários do passado com reis e rainhas, surgindo à soleira das portas, pintadas em cores vivas sobre o fundo branco. Moças com os pés pintados de vermelho seguiam as encruzilhadas, subindo os degraus e enveredando por becos. Surgiram numa réstea de sol, elefantes pintados, homens de turbante, colunas, pórticos, escadarias, vidros com os deuses hindus iluminados por lamparinas, roupas dependuradas nas janelas e saris coloridos jogados nas varandas.


PINCELADA

A praça da Savassi estava lotada quando o Grupo Diapasão se apresentou no dia 7 de setembro no palco Copasa. Quatro palcos se apresentavam ao mesmo tempo, sem que uma música interviesse na outra. No meio havia um ambiente interativo e muita música que trazia alegria a Belo Horizonte.

sábado, 5 de setembro de 2009

GOA

Quando pela primeira vez estive em Goa, senti-me como se estivesse no Brasil, em pleno coração da Índia. Ali estiveram os portugueses, deixando sua presença nas construções barrocas, na língua e nos costumes do povo. Nas aldeias goesas, existe a tradição de se cantar serenatas como em Diamantina.
Em Goa, eu me sentia em casa. As pessoas são amáveis, acompanham os visitantes, convidam-nos para jantar, levam-nos aos concertos e recepções.
Fiquei conhecendo de perto a vida de uma aldeia goesa. O governo de Goa, naquela época, era socialista e a divisão de terras propiciava muitas desavenças. O sistema de castas, de origem hindu, prevalecia até nas famílias católicas.
O Dr. Antonio de Menezes, um renomado historiador indiano, me contava a história de Goa e da Índia. Aprendi muito sobre a música indiana e a sua relação com o canto gregoriano dos cristãos, que se originaram de uma fonte comum. Ambos se expressam de forma circular, repetitiva, elevando as vibrações para um plano mais sutil. Todas as tardes, ele me ensinava um pouco da historia de Goa e eu fazia a ponte com a historia do Brasil. Através desse dialogo soube que um dos maiores arquivos da historia colonial do Brasil encontra-se em Panjim, a capital de Goa. Segundo o historiador, quando Afonso de Albuquerque chegou a Goa, encontrou o ensino elementar ministrado à sombra de árvores. Para efeito de maior expansão do Cristianismo e da cultura portuguesa, o conquistador português incentivou a criação de escolas para crianças e adultos. As cartilhas escolares vinham da metrópole e o ensino foi confiado aos religiosos.
A influência de Portugal na cultura goesa durou quatro séculos e meio, de 1510 a 1961. Ali foi criada a primeira imprensa do Oriente com o objetivo de expandir o Cristianismo. Por outro lado a imprensa divulgou a espiritualidade da Índia na Europa. Depois da retomada de Goa pelo governo da Índia, em 1961, os portugueses regressaram a Portugal e a ex-colônia perdeu o intercâmbio com o continente europeu.
As pessoas acima de 60 anos ainda falam o português, mas os jovens já perderam o contato com essa língua, desde que o governo da Índia decretou a sua substituição pela língua local.

terça-feira, 1 de setembro de 2009


PINCELADAS

A exposição de Vik Muniz no Museu Inimá de Paula, nos faz perceber o cotidiano de forma criativa. Usando calda de chocolate, pigmentos, areia, lixo, ele vai conduzindo o espectador a descondicionamentos mentais.
“Você só é jovem uma vez, mas isso pode durar a vida inteira”, nos diz ele em seu depoimento. Parabéns, Vick, por esta lição de vida.

A maratona de Jazz da Savassi inaugura a sua programação no dia 3 de setembro, dando continuidade ao excelente resultado dos anos anteriores. Serão 34 shows focalizando 130 artistas

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

KALAKSHETRA, UMA ESCOLA DE DANÇA

Em Madras, sul da Índia, entramos em contato com a famosa escola de dança, Kalakshetra.

A dança na Índia expressa simbolicamente o desejo da alma individual de alcançar a Unidade com o infinito, ou a Alma do Universo. Através da música e da dança esse objetivo é alcançado e o estado de Ananda, ou Bem-aventurança, vivenciado pelo dançarino ou o músico, é transmitido à platéia. Os yogues se tornam Um com o universo através da meditação. Os músicos e dançarinos também realizam essa união, conjugando o movimento do corpo com a vibração do som.

Antigamente os espetáculos de dança não se realizavam em teatro, mas nos templos, porque a dança era a mais bela forma de reverência aos deuses.

Rukmini Devi, criando a Kalakhetra, buscou reviver o espírito dos antigos rituais onde as cenas do Mahabharata eram interpretadas em forma de dança e música no interior dos templos.

O Kalakhetra foi criado para expandir essa energia e todo ambiente dessa famosa escola de dança convidava o visitante a penetrar no universo mágico da arte. O impacto dos cânticos matinais debaixo da Bannyam tree, com a presença iluminada de Shankar Menon, já nos dava o primeiro toque. Shankar Menon, por muitos anos, acompanhou Rukmini Devi, dando ao Kalakhetra a orientação espiritual necessária à compreensão da síntese Arte-Yoga.

Moças com sáris coloridos, tranças nos cabelos e rapazes vestidos de dhotis brancos cantavam juntos em homenagem a todos os mestres e todas as religiões.

Kalakhetra significa lugar sagrado de arte, e a reverência pelo sagrado é sempre lembrada pelos professores.

Nas diversas cabanas cobertas de sapé com chão de cimento, os jovens iniciavam-se nas artes da dança e da música.

“Deixem do lado de fora os sapatos e com eles todas as suas tensões”, advertia o professor aos alunos.

Enquanto percorríamos as alamedas do Kalakhetra escutávamos batidas de percussão dentro de uma cabana de palha. Dez alunos buscavam interpretar os personagens mitológicos. O corpo teria de se afinar como um instrumento de música e responder aos sons com precisão e disciplina. Noutra cabana, um velho professor ensinava flauta para um pequeno grupo de jovens. Assentados à moda indiana, em cima de esteiras, eles escutavam atentamente os ensinamentos do músico.
A pessoa idosa na Índia é reverenciada como alguém que já encontrou a sabedoria.

O Kalakhetra foi criado para atender pessoas, desde o jardim de infância até a mais avançada idade. Crianças, adolescentes, jovens e velhos convivem no mesmo espaço e são instruídos, ou dão instruções, de acordo com a idade.

Há o momento de estudar, de seguir a rígida disciplina do músico e do dançarino; há o momento de interpretar, participar das coreografias, viajar, correr o mundo e se tornar um profissional da dança. De acordo com a idade, aquele que foi dançarino torna-se professor ou acompanha os grupos para o exterior. Mais tarde, de acordo com suas tendências naturais, ele ainda continua atuante e prestando serviços como relações públicas, recebendo os visitantes, dando entrevistas e informações sobre a história da escola. Rukmini Devi não descuidou de nada na criação de sua escola de arte e hoje, após sua morte ocorrida em 1986, sua obra continua viva na memória daqueles que tiveram a possibilidade de conhecê-la pessoalmente. O teatro criado por ela tem forma de templo e lá dentro o espectador participa dos eventos e penetra na verdadeira essência da arte, que é a de libertar a mente das tensões e conflitos e penetrar no recinto do sagrado.



PINCELADA

Buscando um local mais poético para a construção de ateliers de artes, vários artistas deixaram a cidade e se transferiram para esta região das montanhas onde o céu e a terra se encontram. Refletindo sobre isto, vejo com alegria a inauguração de um circuito de arte na região sul de Belo Horizonte denominado “Caminho das Artes”.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

MEU CAMINHO DA ÍNDIA

Minha experiência com a arte teria de expandir-se para um campo maior. Incentivada por meu marido, que sempre me deu apoio nas minha iniciativas, embarquei em 1970 rumo ao Oriente. Visitei o Japão, a China, a Tailândia e a Índia, integrando um grupo turístico que se dirigia à Expo 70.
Chegando à Índia, fui convidada pelo então embaixador do Brasil, Wladimir Murtinho, para permanecer em Nova Delhi. A Índia deixou de ser um ponto a mais no meu roteiro turístico. Alguma coisa me atraía àquele país como se fosse um reencontro com um passado longínquo. Visitei um templo em Delhi e um monge percebeu o meu interesse, presenteando-me com uma pilha de livros de Ramakrisna e Vivekananda, que me desvendaram pela primeira vez o mistério dos Yogues. Entre eles estava um pequeno exemplar do Bhagavad Gita, livro sagrado da Índia.
Voltando ao Brasil, ingressei no curso de Yoga do Professor George Kritikos e freqüentei seu grupo de meditação. Mergulhei na leitura dos mais variados livros de filosofia oriental, do Zen Budismo aos mestres de Vedanta, da Teosofia a Krishnamurti. Tomei consciência de que realmente pertencemos a um Todo, que viemos de uma Essência e a Ela vamos retornar.
A partir de 1977, comecei a visitar a Índia, procurando desenvolver pesquisas no campo da arte, da educação e da história, com base na filosofia oriental. “Deixa o senhor cuidar de ti”. Essa frase, escutada no silêncio de uma madrugada, foi de certo modo a minha bússola durante as diversas viagens. Procurei seguir a intuição sem traçar planos. Visitei escolas, comunidades, anotando, em forma de diário, as minhas impressões e experiências. Meu caminho da Índia é uma reconquista da sabedoria que perdemos pelo excesso de materialismo. Aprendi escutando a voz do povo, participando de congressos, pronunciando palestras, realizando estudos comparativos entre o Brasil e a Índia e observando os diferentes costumes das diversas regiões por onde passei.
Os ensinamentos orientais não me acenavam como uma nova religião, mas significavam a redescoberta de conhecimentos que já existiam dentro de mim. Esses ensinamentos não são privilégio de um só país ou de uma só raça. Eles existem dentro de todo ser humano e estão guardados no silêncio de nossa consciência. O meu objetivo era redescobri-los através da minha própria experiência de vida.
O encontro das diversas mensagens nos campos da arte, da filosofia, da religião e da ciência, soava nos meus ouvidos como uma única voz. O oriental busca, antes de tudo, através da meditação, experimentar dentro de si mesmo sua Realidade Interna, que ultrapassa os conceitos da mente. Ao percorrer várias comunidades espiritualistas, desde os monges budistas no alto dos Himalaias até os mais variados ashrams da Índia, sentia a mesma verdade fluindo de diversas formas. Existem inúmeros mestres e caminhos, mas a minha abordagem focaliza apenas os que tive a oportunidade de conhecer de perto ou que me tocaram através de seus ensinamentos.




PINCELADAS

A arte cada vez mais desce dos museus e galerias para ajudar o ser humano a se harmonizar. As empresas convocam artistas para trabalhar com a criatividade de seus componentes, com funcionários e gerentes participando do mesmo evento. Um exemplo disso é a empresa Amana-key, em São Paulo, dirigida por Oscar Motomura.

Frei Beto participará do Festival de Literatura de São João Del Rey, fazendo parte da mesa “Panorama de uma década”

A produção cinematográfica de Minas está em destaque na programação do Cine Sesi Cultural de 2009. O público vai assistir, além de curtas metragens, à exibição do filme “Pequenas Histórias”, dirigido pelo mineiro Helvécio Ratton.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

MINHA TRAJETÓRIA ARTÍSTICA: TERRA, ÁGUA, FOGO, AR E ÉTER

Em todos esses anos de arte pude constatar várias fases, partindo da realidade exterior para uma realidade interior do imaginário, do desconhecido. Vivenciei, ao longo de minha trajetória artística os 5 elementos da matéria: terra, água, fogo, ar e éter. A fase da terra começou com temas do cotidiano, meu mundo de família, crianças, cenas da fazenda, paisagens de Belo Horizonte, quase tudo dentro de um certo lirismo herdado de Guignard. Saía para o campo munida de pranchetas e aquarelas, afim de captar diretamente da natureza sugestões para a minha pintura. Os filhos estavam em volta, também desenhando, meu marido ajudava-me no preparo das telas. Considero pertencente a esta fase, também os quadros concretistas, que são “cidades iluminadas” e aqueles que têm uma referência a temas bíblicos, inclusive o símbolo da cruz.
O elemento terra cedeu lugar ao elemento água, mas o símbolo da cruz ainda continuou nos mastros dos veleiros. A forma já não era estática e geométrica, sugeria o movimento e transparências. Os veleiros anunciaram-me as primeiras viagens internacionais, numa necessidade de conhecer o mundo, de conscientizar-me de novos caminhos, novas experiências. Conheci nos EUA um grupo da Action Painting. Experimentei a espontaneidade da pintura gestual, ligada ao Zen budismo, a forma direta de se perceber o “aqui e agora”.
O terceiro elemento da matéria, o fogo, explodiu em 1965, na Fase de Guerra, representando a destruição e a purificação pelo fogo, para atingir novos planos mais elevados. Os mastros dos navios tornaram-se agressivos, ponteagudos, e a fase de guerra, em preto e branco, motivada pela tensão política da época, durou um ano. Foi uma denúncia à violência, opressão e ao medo. Daí veio a necessidade de paz, a própria agressividade da fase de guerra, influenciando as primeiras madonas barrocas, num retorno ao nosso barroco de Minas Gerais. As primeiras madonas eram agressivas, guerreiras, para depois tomarem a direção dos céus, anunciando a fase dos astronautas. As madonas barrocas, ligadas à nossa tradição, foram uma porta entre a Terra e o Céu, entre a Guerra e a Paz. Elas me conduziram para novos caminhos.
O quarto elemento da matéria, o ar, manifestou-se em 1966 com a série de naves interplanetárias. Veio a conquista do espaço, a tecnologia humana vencendo as barreiras e desvendando o cosmos. Os quadros desta fase chegaram ao Rio, numa exposição no Copacabana Palace, ao mesmo tempo que o homem pisava na Lua pela primeira vez.
O quinto elemento, o éter, é representado na minha trajetória com a forma circular da Mandala, que em termos orientais, corresponde a uma necessidade de integração, de criar uma gestalt, uma forma inteira, onde todos os lados são iguais. A partir de então comecei a me interessar pelas filosofias orientais e por estudos comparativos entre as culturas do Oriente e do Ocidente.




PINCELADAS

A casa Fiat de Cultura está possibilitando ao público de Belo Horizonte o acesso a grandes exposições internacionais. Parabéns pela exposição de Marc Chagall, um dos maiores pintores do século XX!

Foi um sucesso o fórum sobre aquecimento global realizado em Belo Horizonte, preparando para 2020. O Brasil está tendo uma participação fundamental nas questões ambientais.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

PRIMEIRAS VIAGENS PARA ENTRE RIOS: MEU ATELIER RURAL

Na década de 50, para chegarmos a Entre Rios de Minas, tínhamos de tomar um trem. Com as crianças ainda pequenas, eu me ajeitava no vagão carregando malas e mamadeiras. A contemplação da paisagem, o barulho das rodas nos trilhos, o apito nas curvas e o cheiro de fumaça embalavam os passageiros. Alguns chegavam até a dormir.
Lá fora as cenas se sucediam com rapidez, verdes e mais verdes, gado pastando na relva, casinhas, igrejinhas, um verdadeiro presépio em movimento. Depois de uma hora de viagem descíamos em Jeceaba. Ali o Chico Marzano nos esperava de jardineira e, durante a viagem até Entre Rios, já estávamos sabendo das novidades.
Na cidade, em frente ao casarão, os cavalos já nos esperavam para uma nova viagem. Tínhamos de trocar de roupas, tirá-las das malas e ajeitar nos pecuás. Alguns pertences poderiam ser colocados a tiracolo, nos embornais.
Lembro-me da primeira vez que viajei a cavalo para a fazenda. Levei um tombo e virei notícia na cidade.
Mais tarde, inaugurada a estrada de rodagem, viajávamos de carro de Belo Horizonte para Entre Rios dentro de uma perua: seguia a família com latas de leite, sacos de laranjas, as crianças cantavam o tempo todo.
Eu levava um bloquinho e ia desenhando os postes de luz cortando a paisagem com suas estruturas metálicas. Uma nova série de desenhos e pinturas nasceu daquelas viagens pelas estradas de Minas. As “cidades iluminadas” que hoje figuram nos museus e colecionadores, tiveram suas origens naqueles desenhos rabiscados em blocos de rascunho, onde a estrutura dos postes era uma constante.
Na fazenda da Barrinha organizamos um atelier de pintura. Quadros enormes ali foram feitos.
Durante essas temporadas, longe da agitação da cidade, eu tinha tempo para estudar. Aproveitava o silêncio para ler e escrever. Dali saíram as primeiros textos de “Vivência e Arte” incentivados por minha cunhada Lourdes Andrés Resende. Naquela época eu já me interessava pelo lado interno da arte, aliando o conhecimento teórico à experiência de vida. Buscava analisar o fenômeno artístico apoiando-me em críticos, filósofos e pensadores. Líamos juntas e discutíamos o pensamento de Jacques Maritain, Tristão de Athayde, Maurice Dennis, Mário Pedrosa, D. Marcos Barboza, Rainer Maria Rilke e muitos outros. Os primeiros estudos do livro “Vivência e Arte”, prefaciado por Alceu Amoroso Lima e editado pela Agir Editora no Rio de Janeiro, foram feitos ali, na região do Campo das Vertentes.
O quadro “Casamento na Roça” criado nessa época, testemunha os costumes regionais.
Mais tarde, em 2004, surgiu em Entre Rios de Minas o IMHA (Instituto Maria Helena Andrés), com a finalidade de proporcionar à população o despertar de novos valores e o resgate das antigas tradições.
Através dele, foram realizados três Festivais de Inverno, que divulgaram a arte contemporânea e estimularam novas vocações no campo das artes.
O Campo das Vertentes cresceu culturalmente. Novas ONGS foram criadas e as manifestações folclóricas da região tiveram maior visibilidade.
Em 2009, devido à crise econômica global, o festival não aconteceu. No entanto, a população se organizou espontaneamente, criando um “Mutirão de Arte”: “O movimento cultural de Minas veio para ficar”, disse Paulo Brant, atual Secretário Estadual de Cultura.

PINCELADAS

Belo Horizonte foi a cidade escolhida para um importante fórum internacional de Meio Ambiente, cuja abertura aconteceu no Grande Teatro do Palácio das Artes no dia 4 de agosto. O público assistiu e participou das apresentações de várias personalidades, preocupadas com as mudanças climáticas do Planeta e com a destruição acelerada da natureza.
Todas as energias terão de estar juntas neste objetivo comum que é a sobrevivência do Globo. Ninguém escapará aos desastres ecológicos. Agradecemos à Emília Queiroga a iniciativa de coordenar este evento.